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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O “País das Maravilhas” de Eli Heil


“Vomitar sentimentos”. É assim que a artista plástica catarinense Eli Heil chama os ingressos criativos de sua arte. Arte essa que se mostra incrivelmente psicodélica, multicolorida e fantasiosa. Algo contraditório, levando em conta que a sua motivação para pintar e fazer esculturas surgiu do estado de profunda depressão, depois de ter ficado oito anos sofrendo por causa de bronquite asmática e de uma gravidez mental, problemas que a deixaram de cama durante cinco, desses oito anos. Suas obras retratam o seu renascimento e o nascimento, como ela costuma chamar, de filhos, que têm lugar em sua própria casa que ela transformou no museu “O mundo ovo de Eli Heil”, em Santo Antônio de Lisboa, próximo a Florianópolis.

Saltos de sapato e fitas adesivas são matérias-primas para esculturas nas mãos de Eli Heil que, aos 73 anos, preserva a poesia dos primeiros anos de trabalho, ou seja, meados da década de sessenta. E, por falar em poesia, a artista usa desse recurso literário para explicar o significado das suas produções que, apesar de às vezes abordarem temas comuns como o cristianismo, são concretizados de formas inusitadas.

Sem a ajuda do pincel (que para ela é um atrapalho), usando muita tinta e diversas cores e perfurador de couro, por exemplo, seus incontáveis acessos artísticos são – sem pudores ou censuras – imediatamente aceitos pela criadora que defende a idéia de que a arte flui de maneira natural de sua mente para as telas ou demais materiais utilizados.

Como diria João Evangelista de Andrade Filho no folheto “Os símbolos na arte de Eli Heil”, a obra dela pode até causar resistência, mas jamais desinteresse. Eli vê a tela como campo de batalha onde a honestidade do impulso não é só uma “regra”, mas uma marca registrada da artista que tem verdadeiro horror ao vazio, pois preenche todos os espaços da tela em um tipo de hipérbole anárquica. Mais uma contradição, um paradoxo, já que o exagero no caso dela diz respeito à busca de equilíbrio, ou melhor, quer encontrar a cura através do veneno.

Características que descortinam a personalidade febril e ansiosa da artista que percebe a arte de um modo bem peculiar: “A arte para mim é a expulsão dos seres contidos, doloridos, em grandes quantidades, num parto colorido. Por meio de momentos, pensamentos e depoimentos poéticos, coloco-me diante do espelho que reflete em cada pensamento, a história reduzida de minha vida pessoal e a história mais completa de minha vida artística”.

É, e esses “seres contidos” que são expulsos precisam conhecer o mundo. A histórica obra de Eli é um exemplo vivo de produção surrealista e é importante ressaltar que Eli também está viva, é catarinense e precisa de espaço em nosso estado, não somente em outros como vem acontecendo bastante. Iniciativas como a do SESC que trouxe reproduções dos seus quadros até a Unochapecó (a exposição aconteceu no ex-Laboratório de Anatomia no Bloco F) devem ser repetidas em outros locais e com outros artistas. Quem sabe, assim, ameniza-se o estigma de somente cultuar artistas que vivem em lugares longínquos – como se não houvessem bons representantes por aqui – ou que já estão mortos.


(Publicado há milhares de anos no Passe a Folha)

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