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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

quantas semanas já se passaram? eu não sei. parei naquele dia e os dias seguintes foram apenas de esperas e lembranças. tenho me censurado por isso, por tudo. tenho pensado em cada frase, separando sílaba por sílaba dos teus sinais. tenho pensado em mim e no que me bloqueia, em todo esse medo do porvir. tenho pensado no que seria melhor, você voltar ou nunca mais. e nessa linha do tempo que estico e disseco, sou vítima e carrasco de mim. e tu, amor cruel, homem infiel, mecanismo propulsor de toda a minha infelicidade, és ainda o que me mantém viva. como o previsto, me encheu de esperança e eu te enchi de vida e agora, longe, sinto que me tatuei em ti sem querer e aguardo teus retornos do lado de fora.


sábado, 26 de dezembro de 2009

Clarice Lispector - Infelicidade Inspiradora


Clarice Lispector amou o romancista Lúcio Cardoso, homossexual, e o cronista Paulo Mendes Campos, que era casado. As paixões impossíveis alimentaram sua literatura - e ela não foi a única escritora a se nutrir do fracasso amoroso

Por José Castello


A paixão alimenta a literatura ou a enfraquece? Amar leva a escrever ou a calar? Clarice - A Vida de Clarice Lispector, biografia do jornalista norte-americano Benjamin Moser - que chega neste mês ao Brasil com o status de ser a mais completa sobre a autora de Laços de Família e Felicidade Clandestina —, sugere que, mesmo quando o amor é impossível, ele estimula a escrita. Mesmo fracassado, um amor pode ajudar a escrever.
Casada entre 1943 e 1959 com o diplomata Maury Gurgel Valente, Clarice nunca escondeu que se sentia sufocada pela vida conjugal. "Nada tenho feito, nem lido, nem nada. Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente", escreveu em uma carta datada de 1944. Se o casamento com Maury "deu certo" - gerou dois filhos e perdurou por 16 anos - a paixão pelo romancista mineiro Lúcio Cardoso foi muito mais importante para sua escrita, mesmo "dando errado".
Quando se conheceram, em 1940, Clarice tinha 20 anos, e Lúcio - brilhante e sedutor -, 28. Mas era um amor impossível: Lúcio era um homossexual assumido. Havia, porém, lembra Moser, um segundo impedimento: os dois eram "parecidos demais". Mesmo assim, especula Moser, foi esse amor não correspondido que levou Clarice a cultivar a solidão - condição essencial para a escrita. Mais que isso: foi o fracasso no amor que a empurrou para a literatura. Por meio de Lúcio, ela passou a frequentar as rodas literárias do "grupo introspectivo", que se reunia no Bar Recreio, no Rio de Janeiro. Chegou, assim, à poesia metafísica de Augusto Frederico Schmidt e encontrou sua ascendência "mística" em Cornélio Penna e Octavio de Faria, essenciais para a sua obra. Foi Lúcio Cardoso quem sugeriu o título de seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem (1943). Foi ele, ainda, quem lhe mostrou que as anotações dispersas, que ela tomava às tontas e pareciam incoerentes, eram, na verdade, o seu método.
Nos anos 60, Clarice Lispector se aproximou de outro escritor: o cronista e poeta mineiro Paulo Mendes Campos. Desde 1959 estava separada de Maury, com quem tinha morado na Itália, Suíça e Estados Unidos. Em junho daquele ano, regressou com os dois filhos ao Brasil, apostando novamente na solidão. Em 1962, porém, envolveu-se com Paulo.
Diz Moser, com astúcia, que ele foi uma "versão heterossexual" de Lúcio Cardoso. Ambos eram mineiros, católicos, talentosos e sedutores. Eram também perdulários, boêmios e alcoólatras. Como Lúcio, Paulo exerceu uma forte influência intelectual sobre Clarice. Mas era outro amor impossível: ele era casado. Mesmo assim os dois viveram uma paixão secreta. Vínculos invisíveis os ligavam. O jornalista Ivan Lessa assim resumiu: "Em matéria de neurose, nasceram um para o outro". Clarice tentava ser discreta, mas não continha a ansiedade. Intimado pela mulher, Paulo partiu com a família para Londres. Moser avalia que o fim do romance isolou Clarice do meio literário e, de um modo mais geral, do "mundo adulto", com o qual ela teve sempre laços muito frágeis. Ela o amou até o fim de seus dias.

TENSÃO E LOUCURA

É sempre ambígua e tensa a relação amorosa entre escritores. Influenciada pela filosofia de Jean-Paul Sartre, com quem viveu uma relação heterodoxa, Simone de Beauvoir acreditava que todo amor é impossível, mas que era possível fazer muito de seus destroços. Só porque via o amor como uma experiência desastrosa, Simone conseguiu amar Sartre: não moravam juntos, não tiveram filhos e namoravam outras pessoas. Ele mais que ela. "Não somos a mesma pessoa, mas temos as mesmas recordações", Simone argumentava. Tinha certeza de que, escrevendo, ajudava Sartre a entender quem ele era.
Às vezes, como mostra a relação dos poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, a mistura de literatura e paixão resvala na loucura. Quando se aproximaram, Verlaine, um homem casado, tinha 26 anos, e Rimbaud era um rapazote de 17. Correspondiam-se. Apaixonaram-se. Verlaine se embriagou com as ideias de Rimbaud, que combatia os parnasianos, a família e a pátria. Na busca do "desregramento dos sentidos", abusaram do absinto e do haxixe. Mas brigavam sempre. Verlaine se arrependia sempre. "Volte, volte, amigo. Juro que serei bom", escreveu em carta de 1873. Numa dessas brigas, Verlaine feriu Rimbaud com um tiro no punho. Passou dois anos na prisão. A paixão os destruiu, mas ampliou os limites de sua poesia.
A mistura de amor e literatura tomou uma forma quase perfeita na figura da escritora Lou Andreas-Salomé. Brilhante e sensual, ela "devorou" o espírito de três grandes homens: o poeta Rainer Maria Rilke, o filósofo Friedrich Nietzsche e o fundador da psicanálise, Sigmund Freud. Foram amores distintos - que ela, friamente, chamava de "experiências". Com Rilke, ela viveu uma paixão intensa que esbarrou na fraqueza do poeta. Aos poucos, Lou entendeu que a poesia era, para ele, o avesso do desespero. Ficou com o melhor - o poeta - e se afastou do homem. Pragmática, escreveu: "Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la".
Mesmo quando bordeja o desespero, a paixão sustenta a literatura. Casada em 1912 com o escritor Leopold Woolf, nem o amor salvou Virginia Woolf. Na base da paixão de Leopold por Virginia estava não só o fascínio por sua escrita, mas o desejo de salvá-la da loucura - que enfim, no ano de 1941, levou-a a afogar-se no rio Ouse. A admiração literária e o amor não garantiram a felicidade. Mas a fizeram escrever.
Também é impossível não pensar no poeta britânico Ted Hughes, cujo amor foi insuficiente para salvar a mulher, a norte-americana Sylvia Plath, do suicídio - que ela enfim cometeu em 1963. Um ano antes, cansado, Hughes a deixou. Tantas e tantas vezes a paixão não basta. Mas a importância de Hughes na poesia de Sylvia é indiscutível.
Mesmo quando se torna asfixiante, a paixão não anula a escrita. O caso entre os americanos F. Scott Fitzgerald e Zelda Sayre é uma prova disso. Em carta de 1920, Zelda escreve ao amado: "Eu jamais poderia passar sem você - ainda que me deixasse morrer de fome e me espancasse". A presença esmagadora de Scott não a impediu de escrever um belo romance como Esta Valsa É Minha, de fundo autobiográfico. Já em sua vida pessoal, o amor não lhe bastou. Em 1930, demonstrando a insuficiência da paixão para sustentar uma vida, Zelda foi internada como louca.
Nem todos, como o argentino Adolfo Bioy Casares, tiveram a sorte de transformar a parceria amorosa - no caso, o casamento com a escritora Silvina Ocampo - em fecunda parceira literária. Juntos, escreveram Quem Ama, Odeia, novela simples, mas inspirada, que resume um pouco não só os paradoxos da paixão, mas as relações tensas, porém produtivas, entre amor e literatura.
Adolfo e Silvina são, provavelmente, uma exceção. Mesmo quando fracassa, porém, um amor pode salvar um escritor.

José Castello é escritor e jornalista, autor de A Literatura na Poltrona, entre outros.

(Revista Bravo - Novembro/2009)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ócios do ofício









Quero estender esse lastro
o máximo que puder.
Lastro estendido
que tu ganha espaço
a caba bocada.


não sei se são os insetos de verão, o calor ou o asco que sinto de ti, mas não consigo dormir. parece que adivinha, parece estar em sintonia. asco sim, raiva. por que não desiste? eu já desisti. já corri atrás de ti, pena ao vento; já te flagrei, vadias aladas nas noites da cidade. não ligue, não vou atender. não vou te ver, não te direi como chegar. meu templo é sagrado, nele não entram criaturas como tu. se achas que podes invadir minha janela com esse cheiro de rua, estás bem enganado. teu hálito etílico, tuas indecisões e promessas, tuas renúncias e arrependimentos, teus delitos, testemunhos vagos, doloridos...

esqueça. eu esqueci.
contradição & mentira.

sábado, 12 de dezembro de 2009

la negra, 4/5 de outubro de 2009

deixe que venha o quiser escorrer dessa rosa negra, la negra rosa da fronteira. já estou do outro lado, mercedes sosa, morta, canta pra mim. rapazes fronteiriços, hospedaje 24h, sir phillip morris no cinzeiro improvisado. compro meu ópio em pesos. cortinas floridas que dão para o asfalto feito de lunas falsas. todos os países têm seus ídolos pré-fabricados. todo o amor é feito solitário. aventuras perpétuas em castelhano falado em altas velocidades. lembro de meu pai. nossa última viagem foi para bernardo de irigoyen. gasosas, framboesas, garapas & tomates. longas esperas no chevette marrom metálico. meu pai, selvagem do asfalto, cachimbos, mavericks & noviças. ouvia perla e pegava a estrada, ao lado da loura fatal que era mi madre. fronteiriços como eu. amantes, como nós. ironia. destino. porra nenhuma. cachorros sem dono, cão e cadela. lençóis surrados, poeira, suor e cerveja. eles se encontravam sem pronunciar palavra alguma em orelhões movediços. se achavam pelo cheiro, pela exuberância das formas disformes, das couraças de aura escandalosa. (cante mais, sosa, cante). o cio inevitável, a morte prematura, um novo caminho, praia ou paraguay, abortos humanos, nós. experiências que não deram certo. por que eu nasci? por que de ti? as velhas banheiras passam velozes & capengas. interrompem meu sono tardio. quero morrer como tu, sosa. em guerra com os pulmões, nas malvinas argentinas.

pelo menos até às 5h45.
adios, “la negra” sosa.

(tirado do diário poético "stereo")

espaços

como guardar um espaço para mim
nos teus dias claros, meu amor?
como livrar-me de todos esses dramas
de todos esses traumas, sem que hajam
mortos & feridos dentro desse ser?
o inverno chegou tão de repente
quase não pude notar seus passos lentos
veio & invadiu meus sonhos mais tranqüilos
enquanto eu dormia o sonho dos puros
“será que você ainda pensa em mim?”
já tentei te odiar, mas eu sempre volto atrás
fico só, whisky sem gelo, no meu leito, o gato
que ronrona pacientemente enquanto lhe nego carinho
um lugar, uma vaga intransferível, é tudo o que peço
nos teus olhos, entre as tuas mãos, dentro de ti
no teu peito, um canto do teu abraço, um sorriso simples
ao final do dia, quando a noite cai levando minhas defesas
quando tudo parece perdido, diluído num infinito infernal
uma esquina do teu beijo, a um passo da tua boca
tua respiração quente & lenta, tua voz calma
a falar coisas sem sentido que me fazem rir
teu corpo, teu vinho, tua alma, teu ninho
você inteiro a fundir-se a cada parte de mim.

O abandono

O abandono está nas ruas
Cheias de boas idéias
O que foi meu e o que foi teu
O que foi útil, retrátil, volátil
Frágil, stereo, imperecível

Pois a mesma mão que acolhe
É a mão que abandona
O abandono é o avesso da vida
Mas o que seria a vida
Senão abandono e aconchego?

As cidades, o concreto
São corpo-vivo do abandono
A idéia lançada e não aceita
Consentida por mera educação
Toda ali, abortada, morta-viva
A espera de um impulso
Da mesma mão que acolhe
E rejeita, apega e desapega

O abandono está nas ruas
Mas o que é o abandono
Senão apenas aquilo ou aquele
Que é deixado ao sabor da sorte
Sem mais explicações
Delongas ou milongas?

vai ser melhor te ver partir do que te ver chegar. a chuva que agora me molha e estremece amanhã me acalmará. da próxima vez não sairei correndo na tempestade, da próxima vez não será teu rosto que estarei procurando entre as lágrimas de sal. decido te tirar do jogo, carta marcada. sou a dona do jogo, sou outra e outra e outra. minha história escrevo sem tua sombra, meu conto terá outro personagem. (a tela fria, luminosa, me ofende. lousa em branco ansiosa pela tinta negra do meu insight, meu mar de acordes tempestuosos.) vai, se você precisa ir. vai e não volte. me envolvo nessa malha impermeável, o sol bate e eu aspiro o calor que queima. odeio verão. odeio esses dias e as chuvas passageiras. e agora te odeio. vou ler poemas ao luar e esperar pelo inverno. ah, as luas e estações que me interferem, maga branca dos infernos. vou ler as cartas de novo, vou tentar não te ver entre os reis. louco, ancião, eremita, morra na torre fulminada.


com mágoas que usam bóias,
uma certa garota.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

para quem eu amo

um dia ainda quero ter um lugar
um refúgio meu e teu
um porto seguro
um canto pra te levar
me basta um colchão
música, velas, incenso
você & eu
vinhos & ervas
e conversando no escuro
da madrugada toda
te dar beijos de noite inteira
um lugar pra você ir nos fins de tarde
uma porta pra você bater e eu abrir
com sorrisos & abraços

um lugar pra eu te esperar e doer...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

não pega bem

ela segurava as pontas da grande lona ao vento. segurava a magia debaixo da lona, todo o circo estava armado. até que a tempestade foi mais forte que suas mãos e a lona voou, o circo fechou e a magia virou loucura...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O homem do taxi - Darcy Kastner Pontes: “O taxista mais velho do Brasil”



Campo Erê – De carona em uma Chevy de apelido carinhoso – Piriguete – de um vereador conhecido pelo chapelão estilo faroeste, Álvaro Luiz Viganó, resolvi seguir um boato até a rodoviária da cidade onde supostamente estaria “o taxista mais velho do Brasil”, Darcy Kastner Pontes.
Com olhar desconfiado, próprio dos nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro, Darcy me recebe não somente como se ele pertencesse ao lugar, mas como se o lugar também pertencesse a ele. Longe de ser por presunção, mas por familiaridade e experiência. Entre um gole e outro de café preto e uma e outra mordida do melhor pastel da cidade, na bancada da lanchonete da rodoviária, “o taxista mais velho do Brasil” me contou a sua história.
Nossa platéia era composta pelo dono do estabelecimento, a clientela, alguns taxistas e outros curiosos, o que não inibiu o senhor que me lembrou, sem explicação óbvia, o jornalista e escritor colombiano de “Cem Anos de Solidão”, Gabriel García Márquez (ele ou um de seus personagens). A inibida era mesmo eu. Porém, o esforço valeu a pena, pois, antes de Darcy se aposentar definitivamente, pôde deixar registrada nessas linhas um pouco de sua longa vida no volante.

Bandeira 1

O trono do homem do taxi, o banco do Astra cinza metálico, guarda uma arma. Precaução de quem conhece a estrada e as pessoas. A conversa com a repórter também iniciou precavida, mas, de pergunta a pergunta, foi aliviando...
E os olhos, que se enchem de vida, e a voz, com a rica entonação, própria dos descendentes de alemães, contam histórias. Oitenta e sete anos – 88 em 9 de novembro –, mais de quarenta anos de profissão, o taxista já conhecia a região aos 14 anos, quando viajava de cargueiro para comprar couro de caça, lã e cera. Material vendido depois para uma firma de Ponta Grossa (PR). O trajeto que fazia, de Clevelândia (PR) à Dionísio Cerqueira (SC), levava quatro dias para ir e quatro dias para voltar. Café pequeno para quem teve um pai, de origem portuguesa, que saiu de São Paulo aos nove anos de idade e foi morar em Clevelândia, numa viagem que durou mais de trinta dias.
Nascido então em Clevelândia, Darcy é casado há 60 anos com uma mulher que ele diz ser caprichosa, no bom sentido. Uma prima de terceiro grau cujo nome de solteira era Neli Pontes da Rocha Lores e de casada ficou Neli da Rocha Lores Pontes. “Ela trocou as pontas”, brinca o taxista. Os dois tiveram quatro filhos, treze netos e dez bisnetos.
Darcy trabalha até hoje como taxista porque se vê em perfeitas condições de desempenhar a sua função. “Achei que fosse um serviço mais leviano, que me permitiria ficar mais em casa”, conta o homem do taxi, que faz desde a leitura do jornal até as longas viagens sem a necessidade de óculos.
Antes disso, trabalhou puxando trigo, com um Chevrolet 1937, de Vila Nova (PR) à Joaçaba (SC), ao lado de seu companheiro de viagem, Paulino Esteves, que tinha um Ford 1940 – falecido em um desastre de avião em Coronel Vivida (PR) quando tentava pilotar o aeroplano. Também trabalhou com engorda solta de porcos e foi proprietário de gado. Em Campo Erê, lugar em que mora há 58 anos, foi chefe de departamento da prefeitura e delegado de policia, por duas vezes: Nos anos de 1959 e 1960. “Ainda tenho minha carteira de delegado. Fui nomeado pelo pai do Jorge Bornhausen, Irineu Bornhausen, e pelo Heriberto Hilsen. Eu não ganhava nada, não ganhei nenhum centavo, era só amor à camisa. Perder eu perdi: 49 Cruzeiros na época. Da segunda vez, eu não quis assumir, mas uns soldados foram na minha casa e me fizeram assumir a delegacia meio na marra, porque ia assumir um outro cara e eles não queriam que esse cara assumisse. Me levaram na marra na delegacia, aí eu assumi”. Mesmo na marra, procurou fazer o seu trabalho honestamente. “Se eu peguei um Cruzeiro mal havido na delegacia, não quero mais enxergar daqui até o meu carro; e se eu vendi um revólver, ou fiz alguma trapaça, quero morrer hoje ou amanhã”.
Como taxista, esteve em muitos lugares e conheceu muitas pessoas. Em mais de quarenta anos de profissão, foi multado apenas uma vez, em Maravilha (SC). “Eu levava três enfermos no carro. Estava a 49 km por hora quando me multaram. Muito devagar. Disse, em texto escrito de próprio punho, que ia dar um prêmio para eles, porque aquela era a primeira vez que eu era multado em quarenta e poucos anos de profissão. E ainda eu falei que tinha que voltar nos tempos do Ford 29 que só andava até no máximo 60 km por hora”.
De todos os carros que teve, nunca bateu nenhum. Aos 16 anos, teve uma Limousine Crider, que custou ao seu pai 1.400 mil Réis. Na época, ele já se aventurou na atividade que desempenharia no futuro. “Um casal do Rio Grande chegou em Clevelândia, estavam em lua de mel. Eles me deram uma lata de gasolina pra levar eles por aí e chegando perto de Vila Nova, Mariópolis (PR), queriam voltar e eu não sabia fazer a ré. (Era o tempo da Ditadura Militar do Getúlio Vargas, a Carteira de Habilitação era conseguida através da prefeitura. Até foi feita a minha carteira tempos mais tarde...) Sei que naquela hora eles começaram a empurrar o carro pra lá e pra cá, até que viraram pro lado de Clevelândia e eu fui embora”.
Fora a Limousine, entre os carros de Darcy estiveram três Del Reys, quatro Gols, duas Toyotas, um Ford Brasil, quatro Fuscas e outros. Das viagens que mais ficaram na lembrança foi uma até a capital gaúcha. Ele tinha uma Rural e foi levar três membros da família Furtado até o Hospital Psiquiátrico São Pedro, de Porto Alegre. “Parei em um dos hotéis dos irmãos de Conto na Farrapos. Fui sozinho à Porto Alegre, nunca tinha ido até lá. Fui bem. Mas as pessoas ficavam admiradas de ver uma Rural de taxi, vinham, olhavam, porque lá já tinha carros bem mais modernos”.

Bandeira 2

Outra viagem que marcou o taxista foi uma que fez à Marmeleiro (PR). Era noite, Darcy dirigia um Chevrolet 1974. Enquanto tentava fazer uma curva numa estrada de chão, voltando de Marmeleiro, viu ao longe um carro parado, com uma pessoa em cada lado.

“Quando eu estava passando, eles puxaram dois revólveres. Mas eu também tinha o meu revólver debaixo do banco, tenho ele até hoje. Meu revólver tem 160 anos. Um revólver ‘doblevê’, não tem dinheiro que pague – nem por um carro novo eu troco meu revólver. E eu pensei: ‘Vão me matar’. Quis meter a mão no revólver e atirar. Tudo aconteceu tão rápido na minha cabeça. A gente, quando se vê meio apertado, pensa muito rápido. Mas aí um deles disse: ‘Não se assuste que não é assalto. Nós queremos socorro. Estamos com as mulheres aí, com as crianças... Estamos indo pro Mato Grosso, batemos em umas quatro ou cinco casas aí e ninguém abriu a porta pra nós, nenhuma janela sequer’. Eles queriam arrumar o pneu que estava furado e eu disse que o lugar mais perto pra arrumar era Marmeleiro. Aí levei um deles até Marmeleiro. Ele arrumou o pneu, fez um lanche e me perguntou quanto era a corrida, eu disse que era 15 cruzeiros. ‘Não, vou lhe pagar 30 cruzeiros’ e me deu o endereço deles em Mato Grosso, para eu visitar o dia que fosse pra lá.”

Mas a estrada é imprevisível e nem sempre há pessoas com boas intenções. Certa vez, há mais de vinte anos, Darcy fez uma corrida para uma pessoa desconhecida. “Peguei ele no Pinho Hotel e fui levando até uma comunidade perto de Marmeleiro. Quando chegamos numa certa altura, ele estava meio tragueado e pediu: ‘O senhor não tem medo de sair com gente desconhecida à noite? E pegou o revólver dele e trouxe pra frente. Eu disse: ‘Não, não tenho medo porque eu também tô com o meu revólver aqui! Eu sou muito católico, tenho fé em Nossa Senhora Aparecida e tenho coragem, não tenho muito medo de morrer, não!’ Ele falou: ‘Ah, então o senhor não tem mesmo medo?’ Digo: ‘Não, não tenho mesmo. Tu tá com o teu revólver enfiado aí e eu to com o meu preto aqui!”
Ainda assim, das muitas passagens de Darcy, nenhuma delas acabou em algo grave. O que incomoda um pouco são as pessoas que não pagam as corridas ou que se prevalecem pela idade do taxista, que vê a classe como uma classe desunida em Campo Erê.
Segundo o vereador Viganó, o boato de que Darcy seria o taxista mais velho do Brasil surgiu após a veiculação de uma reportagem de televisão feita com um taxista carioca, de 83 anos, que seria o taxista mais velho em atividade encontrado até então no país. Se seu Darcy é realmente o taxista mais velho do Brasil, ele é um taxista que se sente muito bem, por ter saúde e por poder viajar para onde quiser.
Conhecido por gostar de paletó e gravata, o taxista já esteve muito mal de saúde. “Sai de casa para ir pro médico e pedi pra mulher arrumar terno, gravata e camisa. Sempre gostei de andar caprichado. E ela começou a chorar, achando que era para o meu velório. Eu disse ‘Não, mulher. Eu quero a roupa porque eu vou parar na casa de um médico e tenho que estar bem vestido”.
A função já não rende muito dinheiro e Darcy, autônomo, pretende se aposentar definitivamente do taxi no ano que vem. “Já fiz a minha parte. Ajudei muita gente. E é preferível poder ajudar os outros do que ser ajudado. Eu agradeço à todas as pessoas que fizeram corrida comigo, que me deram valor. Acho que fiz o que pude na minha profissão. Quero que Deus ajude todas as pessoas que andaram comigo. Agora quero viver o resto da minha vida. Se der pra fazer um século, vamos, né? Se não, Deus é que sabe. Pode ser que eu vá viver como aquela Dercy Gonçalves, que morreu aos 101 anos. Já vivi a vida. Agora vou pra onde Deus quiser.”

(Publicado, em partes, no Sentinela do Oeste outubro de 2009)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

capitalismo popular


E até meu rádio de pilha teima em calar. As vozes, meu bem, as vozes já nao querem mais vozear…

No trem para a Estacion de Flores

A viagem foi silenciosa. Rostos desconhecidos & vozes. Tum, tá, tum, tá, tum, tá, fazia o trem. A cada solavanco, uma imagem em grafite no muro. E quando o trem finalmente encontrou a luz, partículas de sonho coloriram o caminho. A serra, ao longe, guardava monges. Era a minha Índia particular, era a minha morte & a morte do sonho.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

entre eu & gardelito

Porra, gardelito! Ñ há motivo, missao, rota ou camiño. Nada. Há só essa coisa maravillosa & infernal chamada vida, bicos improvisados e um destino incerto.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

.

Ñ quero mais escrever. Vendi minhas ferramentas, perdi minha caderneta, me perdi no camiño. Estou indo, sempre indo. E agora sem a escrita, até quando eu ñ sei. Essa ferida já foi escarafunchada, muito já foi dito, muito foi perdido, muito me podaram. Quase perdi meus braços de tanto escrever e agora eles só farao o rude trabalho, como diria carlos drummond de andrade. Já quase ñ lembro de meus escritores favoritos, vendi também meus livros. Já ñ respondo recados e mensagens, já perdi minhas referencias, princípios e identidade. Estou começando outra vez, muito ficou para trás e que fique por lá. Ñ quero voltar, ñ mais. Ñ quero mais falar, ler ou escrever na minha língua, quero ir. Estou feliz, ainda perdida, mas no meu camiño.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Quinze minutos


A história de Ica, um alcoólatra em recuperação que procurou
ajuda e conseguiu, de quinze em quinze minutos, seguir sem o álcool

O envolvimento com o alcoolismo de Valdir Cavalli, o Ica, começou cedo, com apenas oito anos de idade. Ica morava com os pais e o avô – um professor aposentado que bebia uma garrafinha de Pepsi Cola de cachaça por dia. Incumbido da tarefa de comprar a bebida, o menino experimentava a cachaça na estrada de volta da bodega. Chegando próximo de casa, completava com água do rio o que havia tomado, para que o avô não percebesse a diferença.
“Cada vez que eu fazia isso, meu avô reclamava com a minha mãe que o bodegueiro o estava enganando. Eles não sabiam que eu mesmo a tomava”, conta Valdir que, através de entrevistas, constatou que a história se repete ainda hoje com crianças de oito a dez anos. “Noventa por cento das crianças confirmam já ter experimentado bebida alcoólica. Ou tomaram uma caipirinha que o pai ofereceu, ou um gole de cerveja, ou um vinho adoçado. Isso é um perigo”.
Na concepção de Ica, o avô foi um exemplo. Apesar disso, ele não vê no avô ou em seus pais, a justificativa para o seu problema com a bebida. A curiosidade infantil o fez experimentar a cachaça, vontade que foi aumentando com o passar do tempo. “O alcoolismo é uma doença e ela é progressiva. Ninguém começa bebendo dois litros de cachaça por dia”, quantidade ingerida por ele antes de parar de beber.
Adepto da máxima: “Evite a ressaca. Mantenha-se bêbado”, Ica bebia um dia porque estava alegre, outro porque estava triste; um dia porque estava sem dinheiro, outro porque tinha dinheiro. “Quando há um alcoólatra em uma família, todas as pessoas são prejudicadas. A pessoa que bebe pode não perceber isso, mas além de prejudicar a si mesmo, ela pode atrapalhar a vida de vinte, trinta ou quarenta pessoas diretamente envolvidas com ela”. Em um dia o alcoólatra pode agir de maneira agressiva e no dia seguinte fingir que nada aconteceu. “O alcoólatra lembra sim do que faz e as pessoas lembram muito mais”, salienta.
“Você apronta em um bar hoje, ou maltrata uma pessoa, diz um palavrão, e amanhã passa e faz de conta que não fez nada, só que a pessoa está sentindo ainda. Um exemplo disso é o marido alcoólatra que chega em casa e xinga a mulher. No outro dia ele lembra, mas fica na dele. A mulher vai guardando rancores e mais rancores, assim como todas as pessoas que são ofendidas pelo alcoólatra. Dificilmente alguém vai cobrar a atitude, até porque tem medo, já que o alcoólatra se torna alguém muito explosivo”.
Potencializado pelo álcool, o lado negativo do ser humano aflora ao menor sinal de contradição. Entretanto, o doente alcoólatra não associa o álcool aos problemas sociais que enfrenta. Ica largou os estudos e teve dois casamentos malsucedidos. Na época de seu primeiro casamento, quando morava em Porto Alegre, Valdir vira sua esposa partir com apenas dois anos de vida conjugal. No inverno, Ica ia trabalhar e levava a cachaça dentro de uma garrafa térmica. Passava pelo portão da guarita e tomava a pinga – que dizia ser café –, durante o trabalho. “Eu trabalhava à noite em um frigorífico e depois das 2h da madrugada eu fazia hora extra, o chamado serão. Das 2h às 6h eu tomava cachaça. Ia para casa, bêbado, a mulher já tinha ido trabalhar, e eu ia dormir. Dormia o dia inteiro. À noite levava mais uma garrafa e assim foi indo, até que descobriram e me deram a conta”. Mesmo encontrando outros empregos, ele continuava a beber. Não passava de seis meses em um lugar. A mulher então o abandonara após uma briga entre eles e o pai da moça. O motivo, é claro, o alcoolismo.
Dois anos depois, no Paraná, Valdir se casaria novamente. Por quatro anos, a outra esposa o aguentara. “Quando ela me abandonou, eu achei que estava com a razão. Dizia que ela não prestava, que era uma vagabunda, que tinha outro homem. Ciúme. Na realidade, depois que eu parei de beber, eu fui ver que essa razão só existia na minha cabeça, na minha imaginação, e que não havia motivos, pois os motivos eram causados por mim. Eu via coisas que não via quando estava sóbrio”, conta Ica. Posteriormente, ele reconheceu que a mulher era uma boa pessoa. Ela até mesmo o procurou cinco anos após ele ter parado de beber, mas o relacionamento não foi reatado pelo medo que ele tinha de magoá-la novamente.
Enquanto bebia, Ica era muito discriminado. Isolou-se e foi isolado da sociedade, sofrendo bastante com a distância da família. “Entrei em períodos depressivos, tinha vontade de me matar. Dormi na rua, em portas de igreja, emprego eu não conseguia, quando conseguia era um trabalho pequeno, como de carpir um lote. Era aquele servicinho feito em um dia ou meio dia. Porque a sociedade é capaz de dar mais valor a um ladrão, a um bandido ou assassino do que a um doente alcoólatra. O alcoólatra é visto como um indivíduo inútil na sociedade. É aquela pessoa que só serve para causar confusão e não como um doente que pode, por meio de tratamento, mudar de vida”.
E para aqueles que não acreditam que exista vida pós-alcoolismo, Valdir é um exemplo de que isso é sim possível. Depois de várias tentativas frustradas, tentando se convencer de que conseguiria se livrar sozinho da doença, o A.A. (Alcoólicos Anônimos) e a sua fé em Deus foram definitivos para sua recuperação. Aos 51 anos, ele está longe do álcool há 18. “É uma nova vida. Eu nasci de novo. Mesmo assim, eu nunca vou deixar de ser um doente alcoólatra. Não existem ex-alcóolatras, existem alcoólatras em recuperação”. Através do A.A., Ica conseguiu atingir objetivos que lhe pareciam impossíveis. Ele voltou aos estudos e há doze anos, finalmente, conseguiu formar uma nova família, ao lado da terceira esposa e dos filhos.
Até então, lhe faltava a coragem de admitir que era um alcoólatra. “Eu dizia: ‘Não, eu não sou bêbado. Eu bebo quando eu quero. Se eu não quiser beber eu não bebo.’ Mas as coisas não eram bem assim. Eu não tinha controle. Depois do primeiro copo, eu queria beber todos. Cheguei até mesmo a mendigar um copo de cachaça, porque não tinha mais dinheiro para comprar, via as pessoas bebendo e pedia pelo amor de Deus que me dessem um gole. Eu não tinha coragem de dizer: ‘Eu preciso de tratamento; eu preciso dessa sala.’ E a partir do momento que eu conheci os Alcoólicos Anônimos, tive uma visão totalmente diferente do que é ser um doente alcoólatra”.
O alcoolismo, não escolhe idade, sexo, cor, religião ou classe social. É constatado pela medicina como uma doença incurável, que pode ser amenizada com o apoio das pessoas, através de muita conversa e troca de experiências, algo que acontece no A.A. “Decidi que a partir daquele dia eu ia fazer o programa do A.A. que é de 24h sem álcool, mas tive que fazer de quinze em quinze minutos. A cada quinze minutos eu pedia ao meu poder superior, que é Deus, que me desse esse tempo para ficar sem o álcool. Logo que eu parei, uns quinze ou vinte dias depois, me deu uma crise muito forte. Tive queda de pressão, cólica renal e problemas com o fígado. Achei que ia morrer. Não vi mais nada e quando percebi estava internado num hospital de Francisco Beltrão. Não sei como me levaram. Dizem que me deram por morto. Minha pressão estava 3 por 5. Todo amarrado, soro por todo o lado. Consequência da reação que meu corpo teve pela falta do álcool”.
Após ter largado a bebida, ser aceito na sociedade foi outro processo doloroso para Valdir. A comunidade lembrava dele pelo que fazia nos tempos de bar. “As pessoas me enxergavam como aquele alcoólatra de antes”, lamenta Ica. Comportamento que só foi mudando com o passar dos anos, diante das mudanças apresentadas por ele. “Você pode fazer dez coisas positivas e uma negativa, as pessoas vão lembrar daquela coisa negativa. Mesmo assim, hoje eu ando de cabeça erguida”. Porém, ele não nega que no passado causou mal a muitas pessoas. Intrigas e desavenças na própria família o marcaram para sempre.
Ica ainda foi dono de bar por nove anos, seu ganha-pão. Sem poder beber, lá ele via as pessoas se transformarem após algumas doses, o sofrimento pelo qual elas passavam, falando coisas sem sentido, esquecendo o caminho de casa. Hoje, ele lidera um grupo de A.A. em Flor da Serra do Sul, ao lado de apoiadores e outros alcoólatras em recuperação. “Sem Deus, a pessoa não é nada. Aquele que não acredita em Deus dificilmente vai alcançar um objetivo na vida. Porque hoje, se eu sou o que sou, é porque Deus me deu esse poder”, finaliza.

Valdir Cavalli (Ica) é professor de Língua Inglesa em uma extensão da Escola Nossa Senhora da Glória, onde dá aulas para o 1º ano do ensino fundamental. É também tutor de Pedagogia e aluno do Curso de Letras (Língua Portuguesa e Espanhola) no Pólo da Universidade Aberta do Brasil de Flor da Serra do Sul.

(Publicado no Sentinela do Oeste em 1º de outubro de 2009)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Retalhos de dramas humanos


CPA Identidade provoca reações ao trazer o público para o Vale da Sombra da Morte
Na penumbra do Vale da Sombra da Morte, iluminado por algumas poucas velas no hall de entrada, uma voz ousa furar o silêncio com poesia. Mas a ousadia não parou por aí, pois era só o início da pré-estréia da peça “Retalhos”, do CPA (Centro de Produções Artísticas) Identidade, na noite de terça-feira, 6 de outubro.
O pavilhão da Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças foi invadido por seletos habitantes de um leprosário – Bimbo, Augusta e Zeca, a espera de um Corvo, símbolo de esperança e sobrevivência, mesmo que vaga e precária –, lugar inalcançado por qualquer resquício de benevolência humana ou divina. Assistidos pela comunidade escolar do Colégio Estadual Claudino Crestani, os atores trouxeram um drama que trata de fé, preconceito e milhares de outros signos subjetivos que compõem o enredo, escrito originalmente por Vilmar Mazetto, de Francisco Beltrão.
“Retalhos”, sob a ótica do Centro de Produções Artísticas Identidade, acabou ganhando uma nova roupagem, elaborada por um dos atores, Rodrigo (Guigo) Mingori, que, além de também dirigir a peça, ao lado do ator e diretor do grupo Mateus Dal Ponte, deu à trama pinceladas autorais, porém preservando o enredo-base da peça original e seus personagens.
Uma peça histórica, anacrônica e herética, que se passa por volta de 1900, no leprosário – lugar em que a sociedade jogava os leprosos para morrer. “Apesar de ser uma peça de época, o público pode chegar a conclusão de que não se passa em 1900, mas sim em 2009”, explica Mateus, que é também acadêmico de Artes Cênicas da Unoesc (Universidade do Oeste de Santa Catarina) Campus São Miguel e professor de teatro em Guarujá do Sul (SC). A peça, assim como a arte, na visão de Dal Ponte, faz com que o público pense a respeito de questões despercebidas do cotidiano. “O teatro serve para instigar algum pensamento, algum questionamento sobre a vida e sobre as convenções sociais”, complementa.
Ora com Black Sabbath ao fundo, numa das mais clássicas músicas da banda (Black Sabbath), ora com “Canto Para Minha Morte”, de Raul Seixas, sendo cantada a plenos pulmões (“Vou te encontrar vestida de cetim/Pois em qualquer lugar esperas só por mim”...) o grupo mostrou a que veio, sincronizando música e sentido, entre dicotomias que envolvem fé e religião, sofrimento e ateísmo.
A peça, vista pelos alunos durante todo o dia 6 e pelo público geral no dia 7, fará parte do I Festejo (Festival de Teatro de Joaçaba), organizado pela Unoesc de Joaçaba, que acontecerá no dia 17 desse mês. Entre mais de 70 inscritos, apenas dez foram selecionados e o grupo de Palma Sola foi um deles, junto de grupos com vinte e trinta anos de estrada. Os critérios de avaliação foram o currículo do diretor, a sinopse da peça e o histórico do grupo.
Essa será a primeira vez que o CPA Identidade se apresentará em um festival catarinense de teatro. No Paraná, o grupo participou de quatro edições do festival de teatro de Planalto, tendo ficado em primeiro lugar em duas edições, e de diversas mostras de teatro em Pato Branco, Chopinzinho, Francisco Beltrão, Capanema e Planalto.
O Centro de Produções Artísticas Identidade existe há sete anos e nasceu nos tempos de escola, quando ainda se chamava Grupo de Teatro Claudino Crestani. Do grupo inicial, quatro pessoas permaneceram. O novo nome serviu para desvincular o grupo da escola, procurando seguir uma linha mais profissional, com ensaios e trabalhos contínuos, sempre com a intenção de fazer alguma diferença social, na região e principalmente em Palma Sola.


(Publicado no Sentinela do Oeste em 8 de outubro de 2009)

Luiz Hermete Arisi: “Laçado” pela política



Escolhido no barbante, Arisi foi o primeiro vice-prefeito de Salgado Filho. O aposentado conta a história dos seus 79 anos

Conhecer a vida de Luiz Hermete Arisi é conhecer um pouco da história de Salgado Filho (PR). Com alguma dificuldade, entrevistamos o primeiro vice-prefeito do município, que teve perda significativa da audição – um problema hereditário, potencializado por conta dos derrames que sofreu. Apoiado em sua bengala, o homem atrás dos olhos azuis e do cabelo grisalho é um interessante personagem da região, exemplo de amizade e de luta.

Vindo do Rio Grande do Sul, Luiz Hermete Arisi chegou em Salgado Filho – pertencente ainda ao município de Barracão (PR) – em 28 de dezembro de 1958, já com a intenção de ser comerciante. Ex-motorista de ônibus, Arisi enfrentou dificuldades financeiras no Rio Grande do Sul. Aceitando o convite de um cunhado que morava na região e tinha um pequeno comércio. Abriu então em Salgado Filho a firma Comércio e Exportação de Cereais Fronteira LTDA, com o cunhado e um sócio que morava em Marmeleiro (PR). Do Rio Grande, trouxe um caminhão novo, que serviu como ferramenta de trabalho nas terras paranaenses.
Em 1958, o gaúcho nascido em Marau (RS) a 5 de maio de 1930, aos 28 anos, já era casado e tinha um filho. A esposa conheceu ainda no tempo de escola. Teve seis filhos, três homens e três mulheres, onze netos e dois bisnetos. Mas foi mesmo o trabalho que ocupou boa parte da vida de Luiz. “Naquele tempo, tudo era difícil. As estradas eram conservadas a braço. Então faça ideia: um caminhão no meio de tocos e paus”.
Depois de muito esforço, os lucros começaram a aumentar. “Quase dobramos o capital”, conta Arisi. A abrangência da companhia era grande, principalmente nas bodegas do interior. Mais caminhões foram comprados e os destinos das viagens se tornaram mais distantes. “Eu tinha um cunhado, José Santin, já falecido, que viajava nessas estradas. Ia para o Rio de Janeiro com aquele Mercedão carregado de feijão”.
Com muito trabalho e muita luta, Arisi começou a ficar conhecido. “Agora estou careca e andando de bengala, mas trabalhei muito. Não só no comércio, mas na política também”. Depois de sofrer ataque epilético, ele acabou vendendo o caminhão.

E a política o pegou...

“A vida não é a gente que escolhe, parece que é o destino que escolhe. Em 1964, a política me pegou. Aquela foi a maior besteira que eu fiz”, lança Arisi, o primeiro vice-prefeito de Salgado Filho. Tudo começou em uma reunião para a qual foi convidado sem saber o motivo. “Eu fui pra conhecer o tal de deputado Arnaldo Busatto*, mas eu não sabia que a finalidade maior da reunião era para escolher um candidato a vice-prefeito e apresentar o candidato a prefeito que ele tinha escolhido [Adolfo Rosewicz]”.

“Fui lá na reunião, fiquei meio para trás, o pessoal começou a conversar e a conversar. Fiquei gostando da conversa. Depois de apresentar o candidato a prefeito, ele disse que queria escolher o candidato a vice. Conversa com um, conversa com outro, conversa aqui e conversa ali. Ninguém se ofereceu. ‘Mas então me apontem um. Um desses aqui está bom’, Busatto disse. Ninguém falava. Quieto. Eu estava ali meio sem saber de nada, não entendia de política naquele tempo. O deputado tinha um barbante e fazia um trançado no dedo. E trançava e trançava e trançava. De repente, ele disse mais uma vez: ‘Vamos, vamos. Escolham o candidato a vice. O Dr. Adolfo está esperando para conhecer o candidato a vice de vocês. Essa é a nossa terra, é a terra de vocês...’, dizia ele, com aquele barbante. Olhou pra um, olhou pra outro. ‘Mas vocês não vão escolher mesmo o candidato? Então escolho eu’. Ele pegou aquele barbante, abriu e me lançou. ‘É esse aqui.’ Foi mais do que me jogarem um balde de água quente no rosto. Fiquei vermelho que nem um peru. Falei: ‘Ih, eu não. Eu não entendo nada de política’. E o deputado: ‘Não precisa entender, nós te ensinamos’”, relata Luiz Arisi, aplaudido por todos na ocasião.

Em 1960, as primeiras eleições municipais tiveram no total 786 votos, incluindo as comunidades de Flor da Serra e Manfrinópolis, que mais tarde emanciparam-se. Uma só área, com um total de 468 quilômetros quadrados, pertencentes à comarca de Santo Antônio. Um tempo em que prefeito e vice eram escolhidos separadamente. “O prefeito tinha uma cédula e o vice tinha outra cédula. Tinha que se eleger mesmo, não é que nem hoje que um vai na garupa do outro”.
Adolfo Rosewicz havia vindo de Curitiba. Um médico que não votava em Salgado Filho. Pela sorte de Arisi, o primeiro prefeito havia sido vereador em Curitiba e conhecia um pouco de política. Já o candidato a prefeito do outro partido, amigo de Arisi, era farmacêutico. “Ele era farmacêutico, mas o outro era médico”, justificando a escolha do povo. “Ganhamos as eleições. Não muito folgado, mas ganhamos. Dr. Adolfo ganhou com 69 fotos e eu com 71”.
Só que depois da campanha e da vitória, vieram as responsabilidades. Os novos governantes tomaram posse na Comarca de Santo Antônio. Chegando em Salgado Filho, prefeito, vice e vereador não tinham onde ir. Não havia prefeitura. Era uma terra sem lei. “Não tinha um lápis, um papel ou uma caneta que se podia dizer que era da prefeitura. Nada, nada, nada”, se empolga Arisi, batendo a bengala contra o chão.
Era hora de trabalhar. Alugaram uma sala de dois cômodos para instalar a prefeitura. Ali funcionava tudo. O tempo foi passando e “o médico de Curitiba” não agüentou o fardo. “Ele consultava muitas pessoas, mas ninguém perguntava: ‘Quanto é que custa?’ E o salário do prefeito estava atrasado”.
No início da década de 60, não havia ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços). “Era um tal de Artigo 20. Tinha que ir no estado, conversar com o deputado para conseguir as verbas de retorno. Até quando entrou a nova constituição, com o presidente Castelo Branco, os prefeitos não recebiam um centavo sequer de ICMS e nem do fundo de participação dos municípios (FPM) chamado de Artigo 15. A arrecadação da prefeitura vinha um pouco de alvarás e depois da aprovação de uma lei, conseguimos cobrar uma taxa rodoviária anual, para a construção de estradas. A ‘sorte’ é que na época vereador não recebia salário.”
Após Dr. Adolfo ter abandonado o cargo de prefeito, em 1966, com algumas dívidas no caixa, Arisi assumiria em seu lugar. Com a revolução de 1964, tudo mudou, inclusive as questões econômicas da prefeitura. A partir daí, Arisi veria dinheiro. Com o fundo de participação dos municípios, já não era preciso ir até Curitiba pedir a verba. Vinha tudo direto para o banco. “Com dinheiro, a gente vira bom prefeito”.
Terminando esse mandato, Luiz pôde se candidatar novamente, vindo a se eleger em 1968. Comprou patrolas e tratores de esteira para construção de estradas. Ser prefeito em pleno período militar, segundo Arisi, não foi tarefa difícil. “Pra mim, o Regime Militar fez o Brasil crescer. Não havia interesse próprio e sim o interesse da nação”.
Nesse período, Luiz conseguiu apertar a mão de três presidentes da República. “Um deles não foi bom: O tal de Arthur da Costa e Silva. E era gaúcho ainda o danado. Um dia, ele reuniu toda a prefeitaiada do Paraná, lá em Curitiba, e passou a conversa em nós. Naquele tempo, as prefeituras recebiam 20% da arrecadação da nação (FPM – Fundo de Participação dos Municípios), que era distribuído para os municípios. Ele disse que era preciso dar um corte na arrecadação porque queria pagar as dívidas do Brasil. Cortar ele cortou, mas dívida do Brasil acho que ele não pagou foi nada”.
A porcentagem do FPM nunca mais voltou a ser a mesma. De 20%, ficou em 10%, ou seja, foi cortada pela metade. “Aí ficou difícil, porque o pessoal estava acostumado a ser bem atendido e tocou de encurtar a corda. Não era fácil. Área grande, bastante gente para atender, mas com jeito ia. Já tinha experiência, sabia onde ir, os deputados me conheciam... mas tudo termina”, diz Arisi, depois de uma longa pausa.
Depois do fim da carreira política, Arisi foi passar um tempo em suas terras. “Eu fui me esconder, porque eu não agüentava mais conversar com o povo. Troquei as conversas com o povo, pelas conversas com os bois. O tal de ser prefeito tem horas que é bom, mas tem horas que não presta”. Atualmente, um dos filhos de Arisi, Alberto (Beto), é prefeito de Salgado Filho. “Agora, tem os computadores que ajudam, a internet... No meu tempo não tinha isso, tinha só aquela maquininha de bater, nem mimeografo tinha para fazer uma cópia”.
E o que Arisi deixa depois de uma vida de experiências inusitadas, viagens e contato com tantas pessoas? “Para conhecer bem a pessoa, é preciso fazer negócio. Quando se faz o negócio certo, a pessoa fica amiga. Quando a gente consegue mais um amigo, é mais uma alegria no coração. Quando não se tem amigo, não se tem vida. E quando a maioria é amigo, a gente se sente bem e gosta de viver. O que eu sei é isso, a experiência da vida. Eu gosto de Salgado Filho porque gosto das pessoas que vivem comigo. Eu não vou sair daqui, não. Vou ficar em Salgado Filho até o fim da vida. Já pensei até na minha morada do fim da vida. Tenho minha capelinha pronta no cemitério, vou ficar junto daqueles amigos que eu conheci e que já estão lá...”.

* Arnaldo Busatto fundou o município, era médico, representava Salgado Filho e a região, ficando a frente do comando político.

(Publicado no Sentinela do Oeste em 8 de outubro de 2009)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

a crônica dos nossos dias (poema em prosa)

Ah, não queres me ver partir. teu desejo é tão óbvio, tão pleno. e perigoso. perigoso porque faço planos, sabes? planos pra mim, pra ti, pra nós. cantarei teu desejo, com beethoven insistente ao fundo, repetindo e repetindo seu viés de sons. cantarei como cantaria hilda hilst, em sua casa do sol. cantarei como cantam as fogueiras nas noites da montanha, cantarei como cantavam as magas, os profetas, os deuses e você. que minha água transforme-se em vinho, que a ausência se torne presença, que meu corpo seja consumido por esse desejo velado, que tu sejas, que eu seja. e o desejo fez-se boca e a solidão fez-se vida e tu tornou-se eu e eu tornei-me o que tu és, na crônica dos nossos dias. te vi. rosa era a minha estada. te vi, enquanto ensinava os teus. te vi, simplesmente por te ver. te ouvir. no vão das horas que não são minhas, nas horas que são de outras, nas horas em que tu estavas lá, junto dos teus. te vi. o que dizem os olhos castanhos enquanto se espremem entre os cílios das portas da tua alma? me inspira. escrevo pra ti. te observo. parto e te levo, te vejo nascer de minhas entranhas, de novo. te crio e recrio. e falo, falo, falo. te ponho entre minhas paredes. agora és meu. o corpo frio já se aquece, a respiração é ofegante, os poros expelem o orvalho doce em gotas de calor. deixe-me te ter nos meus planos. deixe nascer as velhasmudas. o colchão será nossa casa, teu abraço minha morada, tu, meu café e jantar. vejo cores e sons e odores. vejo os dias que se foram. acordo de madrugada. te chamo. ouves? é claro que não. procuro a tua voz nos bares, te tateio nas dobras das portas, nos buracos das fechaduras, como nelson rodrigues, espião das moças e dos homicídios, nas páginas policiais dos jornais diários. e tu és o fulano que não se abala. és altivo, em tua casa bem montada. tens o que precisa, dentro e fora. sequer me ouve. sequer me lê. sequer me vê. e por que deverias? teus livros e teorias, as pernas e as donas, o cachorro que te lambe, o amigo que te visita, o ordenado que te mantém. ah, por que deverias? mas já te vi enrubecer. sim, abrasado em rumores de um desejo que tornou-se vontade, ato e destino. da minha semiótica, fez-se o convés. mas disso não te lembras enquanto passa. mas disso faz questão de esquecer quando lhe convém. espero pelo beijo, ele não vem. espero por ti, menos ainda. ai de quem expor tua vida de aparências, tua fama de bom moço, de genro dedicado. transeunte de uma vida de bocejos, desperte. se teus paradigmas produzem sentido, produza sentido em mim. vês, teu discurso não convence. tuas frases fei(t)as, tuas propostas indecentes. vês, experimento as paixões e o ódio, a raiva de me ver mune aos teus delírios. vês, teu silêncio me perturba, me subestima. vês... minha boca tenta me convencer do contrário daquilo que minha alma já tem como sabido, que eu te amo e que já é tarde demais para procurar verbos e predicados avessos ao deleite que tu és, sujeito da crônica dos meus, dos nossos dias. e o que diriam as cartomantes? és meu cavaleiro de paus, espadas ou de ouros? ah, mas tua figura não é pano para boleros, não é tema para prosas tristes. tu não és carne de divã, como eu. teu palco é outro e lá é aplaudido em tempos reais, tua platéia até comparece. e não é só porque te vi que tenho o direito de tê-lo. disparate! esqueçamos os planos, nos detemos aos fatos: meu teatro vivo faliu e o palhaço desiludido volta para a alcova, sem cavaleiro, palco, platéia ou amor. e a maquiagem barata escorre, pela desconjugação dos nossos mundos, dos nossos tempos desencontrados. estou no reduto dos falidos. pra onde foi o meu juízo? foi beber com os rapazes lá no bar. quem sabe o conhaque disfarce o teu cheiro que ficou em mim. aquele, com um quê louco de esperança, que meus códigos identificaram logo de cara:


meu eu lírico quer envelhecer contigo.

sábado, 12 de setembro de 2009

"eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa...".

allen ginsberg

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O GONZO DO BRASIL


O repórter como personagem da trama, uso de subjetivação e adjetivação na escrita. Características do Jornalismo Gonzo – estilo, formato, gênero ou técnica que ainda não possui muitos estudos em português, conceitos ou base teórica palpável, mas que mesmo assim, é o pano de fundo para a monografia “Jornalismo Gonzo nas décadas de 1970 e 2000: Uma análise do Gonzo brasileiro de Tim Lopes e Arthur Veríssimo”. Produzida por Aline Thaís Dessbesell e Fabiane De Carli Tedesco, orientada por Rafael Hoff, a pesquisa cumpre parte dos requisitos para obtenção do grau de bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da Universidade Comunitária Regional de Chapecó – Unochapecó.
A nomenclatura “Jornalismo Gonzo” faz alusão a essa que é tida como a escola de um só autor – Hunter Thompson. O Gonzo é cria do Movimento Beat e do Novo Jornalismo, aderindo aspectos literários aliados ao jornalismo. Como personagem principal da história, o repórter gonzo diz o que sente sob o efeito de toda a sua experiência imersiva, grande diferencial em relação ao jornalismo tradicional.
Surgida na década de 1960, nos Estados Unidos, a prática do Jornalismo Gonzo apareceu em meio ao Movimento Hippie, que segundo Eric Hobsbawm (2006) foi um genuíno reflexo do Movimento Contracultural também dos anos 60. Os hippies surgiram inicialmente com uma proposta comunitária, ignorando, contrariando e combatendo o sistema de acumulo desenfreado de capital, baseado nos preceitos de um “socialismo-anarquista” – utópico –, vida nômade e ligada à natureza. Conhecido pelo jargão “Faça amor, não faça Guerra”, o Movimento Hippie estava em desacordo com os tradicionais valores pregados pela sociedade norte-americana, onde sexo, drogas e Rock’n’Roll faziam parte do cenário.
Além do Movimento Hippie, outra forte influência para o Jornalismo Gonzo foram os escritores Beatniks, que compunham a famosa “Geração Beat”. Entre o final da década de 1950 e início dos anos 60 surgiram os primeiros escritores do Movimento Beat nos Estados Unidos da América. Beat, provindo do inglês, conota ao significado do adjetivo “cansado”. A “Geração Beat” incluía escritores com ideologias e estilos literários em comum, que se engajavam de maneira visceral em suas experiências literárias, além de primar por um entendimento espiritual dos fatos. Entre eles estão Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac. Este último influenciou pesadamente outras subculturas[1], como o Movimento Hippie, através de sua obra-prima “On the Road”, de 1957.
Precedente a este contexto alternativo, tanto da ideologia Hippie como a “Geração Beat”, surgiu também outro gênero jornalístico, o Novo Jornalismo. Esta nova forma de se fazer e pensar o jornalismo serviu como base estrutural para o Jornalismo Gonzo Norte Americano de Hunter Thompson. Conhecido por meio de autores como Gay Talese, Norman Mailer, Tom Wolfe e Truman Capote, o New Journalism ou Novo Jornalismo surge na década de 1950, nos EUA.
Na visão do jornalista André Czarnobai (2003), jornalista gaúcho que se dedicou a pesquisa do Jornalismo Gonzo no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em 2003, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “o New Journalism nasce para, de certa forma, satisfazer uma necessidade que muitos jornalistas possuem: o sonho de escrever um grande romance”. O “Novo Jornalismo”, “Jornalismo Literário” ou “Romance de Não-Ficção”, são nomenclaturas distintas que tratam de um mesmo preceito: a narrativa baseada em elementos ficcionais aliados à objetividade jornalística. Objetividade aliada à subjetividade[2].
Outro exemplo na literatura do Novo Jornalismo e até mesmo do Gonzo é o clássico livro “Cabeça de Turco”, de Günter Wallraff, onde o jornalista-autor camufla-se de turco e infiltra-se nos porões da sociedade alemã com o nome de Ali Sinirlioglu. O livro é um relato da discriminação contra as minorias étnicas na Alemanha. O repórter se submete à vários processos para conseguir desempenhar seu trabalho sem que seja notado. Günter Wallraff passou por um intenso treinamento para aprender a falar alemão como um turco, usou lentes de contato, passou todo o tempo com peruca, bigode e utilizou documentos falsos. O objetivo do jornalista, que utilizou as técnicas gonzas, era denunciar a situação que milhares de estrangeiro enfrentavam na Alemanha.
No cinema, um exemplo mais recente das técnicas gonzas é o documentário “Super Size Me – A Dieta do Palhaço” (2004), de Morgan Spurlock, pois nele o diretor analisa a cultura do fast food nos Estados Unidos, infiltrando-se na experiência de comer três vezes ao dia, durante um mês, apenas no McDonald’s. Morgan documenta os efeitos que tem este estilo de vida na saúde física e psicológica, além de explorar a influência das indústrias da comida rápida na vida dos americanos.
O Jornalismo Gonzo, assim como o Novo Jornalismo, surge para quebrar os paradigmas rígidos impostos pelo jornalismo tradicional, dando vazão à intenção de jornalistas-escritores, que sonhavam em fundir o jornalismo a literatura. A técnica gonza é uma mistura de ficção e realidade, mal vista nas academias, tida como mero modismo, porém entendida como promissora por seus adeptos. Um deles é André Czarnobai, pois afirma que o “Gonzo é o jornalismo mais verdadeiro que há”.
Apesar das raízes históricas como o Movimento Hippie, Beat e o Novo Jornalismo, as origens do Jornalismo Gonzo ou Gonzo Journalism são um tanto imprecisas e controversas. Há quem acredite que o Gonzo e o jornalismo tratem do mesmo e único conceito. Entretanto, a nomenclatura “Gonzo” surgiu oficialmente, isto é, primeira vez publicada, na década de 1960, nos Estados Unidos da América, através do jornalista Hunter Thompson, então repórter da revista Rolling Stone[3].
Na edição número 20 e 21 da revista carioca Piauí[4], está estampado em dez páginas um diário escrito por Ralph Steadman, onde descreve suas aventuras vividas ao lado de Hunter Thompson. Steadman é considerado pelo jornal americano, New York Times, como um bravo, pois, resistiu trinta anos trabalhando como ilustrador das produções de Hunter. Steadman acompanhou o processo de surgimento, por assim dizer, do termo “Gonzo”.

Foi Bill Cardoso, um jornalista do Boston Globe, que cunhou a expressão que ficaria famosa. Numa carta a Hunter, ele escreveu: “Cara! Aquela sua reportagem sobre o Derby* estava fantástica! Puro GONZO!” Era a primeira vez que Hunter, ou eu, ouvimos a palavra “gonzo”. Hunter a adotou imediatamente e a transformou em coisa sua. Mas ao mesmo tempo, racionalizou o conceito, definindo-o como um “estilo” de “reportagem”, baseado na idéia de William Faulkner de que a melhor ficção é, de longe, mais verdadeira do que o jornalismo.

“O Derby de Kentucky é decadente e depravado”, publicado na Scanlan’s Monthly. Cardoso dizia que “gonzo” era uma gíria de irlandês da zona sul de Boston para designar o último homem que conseguia ficar de pé, ao final de uma maratona de bebedeira (STEADMAN, 2008, p. 34).

Sendo assim, o Gonzo possui duas hipóteses de interpretação: a primeira, provinda de uma gíria de origem indefinida, significa o último sobrevivente de uma bebedeira; a segunda é de que a palavra é originada da gíria franco-canadense “gonzeaux”, que significaria “caminho iluminado”.
Apesar das discussões da origem do termo “Gonzo”, André Czarnobai (2009), em entrevista, conceitua o Jornalismo Gonzo como uma redação em primeira pessoa de cunho informativo onde mistura jornalismo e ficção de uma forma divertida, irônica ou absurda. As reportagens gonzas são “elaboradas a partir de uma pesquisa ou captação prévia realizada de forma imersiva pelo autor que é, ao mesmo tempo, personagem e narrador” (CZARNOBAI, 2009).
Gonzo, que em uma das gírias significa o último sobrevivente de uma bebedeira, representa bem o estilo de Hunter Thompson, conhecido por suas “proezas jornalísticas”. Conta-se, que certa vez, ao ser pautado para cobrir um evento esportivo em Las Vegas, Thompson acabou gastando o dinheiro das despesas em drogas, bebidas e jogatina, quebrou quartos de hotel e fugiu sem pagar a conta, tendo escrito um texto sob o ponto de vista de alguém que estava fora de seu juízo normal, porém, retratando aspectos mais amplos do que os simples resultados do evento, falando do contexto com mais profundidade.
Um exemplo disso está em seu livro “Medo e Delírio em Las Vegas – Uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano”, que ganhou uma versão no cinema em 1998, sob a direção de Terry Gilliam. No filme, o personagem Raoul Duke, inspirado em Hunter Thompson, relata o momento histórico-social vivenciado em um período – pós-movimento hippie –, em que imperava a desilusão sobre os dias de paz e amor.
Ralph Steadman, que acompanhou muitas das experiências do repórter gonzo, defende que Hunter,

[...] queria transmitir a sensação de que a sua mente e olhos operavam simultaneamente, como uma foto de Cartier-Bresson – nada de cortes –, o negativo por inteiro, sem a costumeira manipulação na câmera escura. Hunter almejava conseguir o que ocorria em sua mente. Para tanto, fundiu os talentos de um jornalista afiado, o olho de um fotógrafo e arte e os colhões de um ator. (STEADMAN, 2008, p. 34).

E foi no auge do Novo Jornalismo, que surgiu essa interpretação extremada de Hunter Thompson, que propôs a ultrapassagem da barreira que separa o jornalismo da ficção, ou seja, o compromisso com a verdade. Para o jornalista Rodrigo Àlvares (2004), autor da pesquisa “Jornalismo Gonzo no Brasil” afirma que “Gonzo Journalism é um formato extremamente peculiar de se fazer uma reportagem, desde a captação dos dados até a sua redação. Assim como o New Journalism, o Gonzo Journalism é um movimento que carece de manifestos ou regras.” Desta forma, Àlvares (2004) acredita que existem várias definições para o estilo de reportagem criado e desenvolvido por Hunter S. Thompson.
O próprio Hunter Thompson define o Jornalismo Gonzo como: “um estilo de reportagem baseada na idéia do escritor William Faulkner segundo a qual a melhor ficção é muito infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo – e os melhores jornalistas sempre souberam disso” (BURNS apud ÁLVARES, 2004). Assim como Ralph Steadman (2008), Álvares (2004) também afirma em sua pesquisa que o próprio Thompson costumava dizer que o bom Gonzo Jornalista deveria ter o talento de um grande jornalista, ser um ótimo fotógrafo, além de saber interpretar, isto é, viver e reportar a ação no mesmo momento que está se desenrolando.
Czarnobai (2009) ainda acredita que o Gonzo será o futuro do entretenimento e da informação.

Enquanto no jornalismo tradicional se trabalha com a idéia da neutralidade – algo que inexiste na prática – no gonzo se admite a parcialidade e se deixa isso muito claro desde o início. Não é apenas uma apresentação dos fatos, mas sim um posicionamento destes fatos dentro de um contexto definido, algo que me parece muito mais honesto e honroso do que qualquer formato jornalístico que se possa conceber. (CZARNOBAI, 2009).

Podem ser citadas como características do Jornalismo Gonzo de Hunter Thompson, o abandono à objetividade, a tendência a elementos ficcionais na narrativa, a escrita em primeira pessoa, a valorização de aspectos amplos, respondendo mais perguntas do que aquelas propostas pela técnica do lead (quem, que, quando, onde, como e por que), dando um enfoque mais humano ao texto.
Fundamentalmente ácido e cômico, tanto na visão que o jornalista tem de si como do episódio, a produção do repórter gonzo derruba qualquer conceito de jornalistas sérios e respeitáveis, ou seja, o Jornalismo Gonzo desconstrói a idéia de verdade absoluta e inquestionável de um fato noticioso. O companheiro de trabalho e ilustrador Ralph Steadman (2008) afirma que Hunter Thompson demonstrava através da linguagem ácida a desilusão do Sonho Americano tão esperado.

O seu jeito hesitante de exprimir a angústia e a raiva, a sua certeza e a sua desconfiança de que aquilo que ele estava dizendo era e é o certo, cravava uma estaca nos corações de todos os americanos com sangue nas veias, que queriam acreditar em algum Sonho Americano autêntico. O que Hunter estava experimentando era nada menos que o orgulho nacional, a sensação de ser um americano, capaz de transmitir algo para qualquer um de seus compatriotas – se eles tivessem coragem e vontade própria para vencer e para levar adiante a ideia. Esse espírito virou a essência de um desejo, da parte de Hunter, de se expor de verdade e pôr a nu a mentira da vida americana. Cada verme, cada trambiqueiro monstruoso, todos os canalhas sórdidos, todos os pulhas pustulentos vinham enfiar as unhas no crânio vulnerável de Hunter e faziam um piquenique com aquela parte dele que era a sua força. Mas ele ainda era jovem o bastante para aguentar toda a pressão. (STEADMAN, 2008, p. 18).

Para Cecília Barboza Giannetti (2002), autora da monografia “Técnicas Literárias em Jornalismo Cultural”, o ato de escrever a reportagem em primeira pessoa faz com que o leitor se torna cúmplice das experiências relatadas pelo repórter. Nesta perspectiva, o jornalista gonzo traz ao leitor os detalhes mais ínfimos até o apogeu dos fatos, e assim, ele sai da temporalidade e do local onde o fato aconteceu para então refletir. Assim, o leitor pode perceber quais são as verdadeiras impressões do repórter, logo pode estar ciente das influências e intervenções do reportes na apuração das informações.
As técnicas de captação usadas na reportagem influenciam na determinação do estilo Gonzo. Enquanto as reportagens caracterizadas pelo Novo Jornalismo valorizam a coleta de dados ampla e metódica, o Gonzo prima pela espontaneidade e urgência, já que, de acordo com Hunter Thompson, uma reportagem gonza deve ser escrita à medida que a ação acontece, sem revisão ou edição, o que remete às técnicas de redação utilizadas por escritores beatniks como Jack Kerouac. No Jornalismo Gonzo, a entrevista não é vista como mecanismo de pesquisa, pois, o repórter gonzo foca a sua atenção em um personagem-narrador, que é ele mesmo, ou seja, o repórter é o protagonista da ação.
No entanto, antes e depois de Hunter Thompson, outros autores e jornalistas praticaram e praticam jornalismo com técnicas e características gonzas. Um exemplo foi o jornalista Tim Lopes, do qual foi analisada uma reportagem, publicada no extinto jornal Repórter, intitulada como “Repórter faz de conta que é operário”. Além dele, atualmente o repórter mais famoso que segue as técnicas gonzas é Arthur Veríssimo, repórter da Revista Trip. Para analisar o Gonzo de Veríssimo foi escolhida a reportagem “Fui eu que fiz”, publicada em 2007 na Trip. Ambas as reportagens nos serviram como objeto de estudo para o desenvolvimento da pesquisa.
No jornal Repórter, em uma matéria publicada originalmente em junho de 1978, Tim Lopes se “transvestiu” de operário para relatar o cotidiano da classe em plena obra de um metrô carioca. O jornal anuncia que aquela foi a primeira vez que um repórter enfrenta o sufoco do metrô, pois, além de entrar na fila dos desempregados que queriam trabalhar nas obras do metrô, Tim também trabalhou no canteiro de obras e dormiu no alojamento junto com os demais operários.
Para se inserir no contexto e poder descrevê-lo com mais propriedade, Tim Lopes “sentiu na pele” o cotidiano de um trabalhador do metrô. Para a produção desta reportagem e também admissão do repórter foi preciso preencher todos os pré-requisitos como carteira de saúde e fotos. Em poucos dias, Tim iniciou o trabalho como operário em um canteiro de obras, enfrentando todas as adversidades vivenciadas pelos trabalhadores.
É impossível falar do Jornalismo Gonzo brasileiro dos anos 2000 sem falar de Arthur Veríssimo, repórter da Revista Trip. Veríssimo se confunde com o próprio conceito do Jornalismo Gonzo dessa época, pois, de acordo com o artigo “Arthur Veríssimo: Um filho único do Jornalismo Gonzo Brasileiro”, defendido em maio de 2006 na pós-graduação em Comunicação Criativa – especialização em Narrativa da Vida Real, pela Academia Brasileira de Jornalismo, Arthur é tido como o único repórter brasileiro que segue as linhas do Jornalismo Gonzo.
Para Àlvares (2004), Veríssimo é o expoente do Jornalismo Gonzo no Brasil, por ser responsável por pautas que atravessam o Brasil, de Fortaleza a Porto Alegre de ônibus, que, em sua opinião, comprovam que, para Arthur Veríssimo vale tudo para garantir ao leitor momentos inusitados de jornalismo investigativo. Opinião partilhada por Czarnobai (2003), que vê Arthur Veríssimo como “um dos principais representantes brasileiros do Gonzo Journalism e, portanto, segue este princípio fundamental” (CZARNOBAI, 2003).
No entanto, Arthur Veríssimo é tido como ícone do Jornalismo Gonzo brasileiro devido à forma como a própria Revista Trip anuncia o repórter. Por exemplo, na edição de março de 2007, onde está publicada a reportagem analisada no estudo, a editoria da revista chama Arthur de “o nosso repórter gonzo”. Esta denominação faz com que, ao se pensar em Jornalismo Gonzo no Brasil, inconscientemente, se referencie ao nome do repórter “Gonzo da Trip”. Nesta perspectiva, Arthur Veríssimo surge como um sinônimo da prática jornalística gonza.
Com a proposta de divulgar a terapia de colon cleansing – limpeza do collon - Arthur foi até Bali, uma das pequenas ilhas localizada na Indonésia. Em busca de purificação e também de sua única fonte para a reportagem, Arthur ficou uma semana em Bali procurando o Médico italiano chamado Ugo. Nesta reportagem intitulada “Fui eu que fiz” Arthur utiliza a técnica gonza para relatar a experiência da lavagem de seu intestino grosso.
Com o texto bem humorado e inteligente, Arthur narra os seis dias em que se submeteu ao tratamento. Numa de suas experiências totalmente gonzas, Arthur em prol do leitor, e também a procura da “purificação”, não se contentou em apenas conversar com o médico para saber como é feito esta limpeza do cólon, mas, ficou seis dias alimentando-se apenas de água. Neste período Arthur não podia comer e nem fazer exercícios.
Além disto, o repórter teve em uma só vez 40 litros de água injetados em seu intestino grosso. Através do texto Arthur consegue passar todas as emoções e angústias que ele vivenciou nestes dias. Feliz em se livrar dos “monstros das tripas”, ele conta que chegou ao êxtase, “[...] a harmonia volta ao meu corpo e ao meu espírito”. Narrando esta experiência, Arthur recomenda a técnica, pois, embora seja muito rigorosa, segundo o repórter vale a pena todo o esforço.
Tendo como objetivo analisar as diferenças e semelhanças entre as duas reportagens que nos serviram como objeto de estudo, foram utilizados dois método de análise: a comparação e o conteúdo. Neste último, foram observadas a linguagem adotada, o enfoque, as fotos e a inserção do repórter – uma das características mais marcantes do Jornalismo Gonzo. Basicamente, por se tratar de uma monografia de caráter qualitativo, a metodologia adotada consistiu na pesquisa bibliográfica, pesquisa descritiva e entrevistas.
Uma das diferenças entre as duas produções é que a Revista Trip utiliza os textos de Arthur Veríssimo como reportagens gonzas, pois, é visível que a editoria da revista faz uso do gonzo como uma estratégia de mercado para conquistar um publico distinto. Já o jornal Repórter, que era considerado um veículo alternativo da época, não utiliza o termo gonzo na reportagem de Tim Lopes, pois, o repórter apenas emprega as técnicas entendidas como gonzas para a construção da reportagem.
Neste contexto, é possível afirmar que as reportagens gonzas da Revista Trip escritas por Arthur Veríssimo foram inseridas como um meio de comercializar e popularizar o veículo de comunicação. Já no caso do jornal Repórter, a técnica gonza desempenhada por Tim Lopes parece ser usada inconscientemente, ou seja, sem a intenção de vender o Gonzo, mas, sim, a intenção era bem mais apresentar a proeza do repórter em conseguir as informações desejadas.
Comparando as duas reportagens, pode-se dizer que o Jornalismo Gonzo de Arthur Veríssimo se assemelha mais ao estilo “inventado” por Hunter Thompson, pelo grande envolvimento com a pauta e/ou inserção do repórter, o uso da primeira pessoa e a liberdade de escrita, um tanto divertida. Já Tim Lopes apresenta um direcionamento mais voltado ao jornalismo do que ao entretenimento, como faz Veríssimo e fez Thompson. Veríssimo, assim como Thompson, insere aspectos humanísticos e até fantasiosos na escrita, algo que não é tão experimentado por Tim Lopes em sua reportagem, que não deixa de ser gonza. Tim Lopes escreve de forma opinativa, utilizando adjetivos para descrever os entrevistados, mas, não utiliza a primeira pessoa, detalhe característico do Novo Jornalismo.
Observa-se em ambas as reportagens, que o grande trunfo do Jornalismo Gonzo brasileiro é o desapego à ficção – o maior agravante aos olhos do jornalismo tradicional. Enquanto Hunter Thompson simplesmente inventava trechos de suas reportagens no Jornalismo Gonzo norte-americano, Tim Lopes e Arthur Veríssimo, apesar de trabalharem a subjetividade, não apelam à ficção, o que torna seus textos não somente atrativos como também verídicos.
As duas reportagens são exemplos do abandono ao que Nelson Traquina (2004) chama de tirania do tempo, de formatos e hierarquias superiores. Sendo assim, tanto Tim Lopes, como Arthur Veríssimo, são mais do que apenas funcionários contratados por empresas de comunicação, mas, jornalistas-sujeitos que pertencem a uma comunidade que luta para conquistar maior independência e status social.
Em ambos os momentos históricos, os jornalistas em questão desafiaram o que “as ditaduras” impunham como limite. Tim Lopes, em meio a Ditadura Militar, encarou uma pauta sob um enfoque totalmente diferente do que se viu na época e se vê atualmente: escreveu baseado em um ponto de vista não explicitamente político ou econômico, mas, humanista, incrementando a reportagem com acentuada despreocupação em agradar as autoridades midiáticas, políticas e sociais.
Arthur Veríssimo faz o mesmo. Estando inserido na “ditadura do tempo”, na “ditadura do mercado sob a informação”, Veríssimo extrapola, fazendo uso de elementos literários e místicos, auto afirmando-se em uma trama mercadológica bastante restrita, que visa o lucro acima de tudo e que raramente dá espaço para produções que diferem do jornalismo tradicional.
O Jornalismo Gonzo é o extremo do jornalismo, e trazê-lo para a universidade evoca um extremo que precisava ser reconhecido. Extremo porque uma das características neste estilo jornalístico é a inserção intensa do repórter na pauta e porque tende a elementos ficcionais, inconcebíveis no jornalismo tradicional. A ficção é visível principalmente nas produções de Hunter Thompson e, se comparadas ao Jornalismo Gonzo de Tim Lopes e de Arthur Veríssimo, esta característica vem deixando de ser utilizada.
Apesar de ser chamado de “Jornalismo” Gonzo, em algumas circunstâncias este estilo pode não ser considerado jornalismo por alguns pesquisadores, pois, uma das características, a inserção da ficção vai contra o conceito de “veracidade jornalística”, tão cobrada nas escolas. No entanto, observamos que o Jornalismo Gonzo é sim, jornalismo, uma vez que, os aspectos subjetivos inseridos no texto não comprometam a compreensão da mensagem, algo desenvolvido com rigor tanto por Arthur Veríssimo como por Tim Lopes.
A análise apontou que nas duas reportagens a subjetividade é nitidamente utilizada, mas, em nada compromete o entendimento do leitor quanto às informações objetivas contidas no texto. Trechos como “Arroz, feijão, macarrão, galinha e olhar faminto”, encontrado no texto de Tim e “Recebo um aviso do além: uma formação de passarinhos em redemoinho fica brincando e circundando por cima da minha cabeça e corro durante mais de 20 minutos. Não fariam isso se não tivesse tão puro” de Veríssimo, não oferecem perigo de tender ao desserviço da reportagem, pois ilustra um momento observado pelos repórteres de maneira humanista.
Ambos os textos e ambos os autores, contribuem para uma nova visão do repórter: mais comprometidos, ousados e criativos, sem medo de mostrar seu lado humano e intuitivo. E o mais importante: não fazem uso da ficção, como fazia o precursor do Jornalismo Gonzo, Hunter Thompson. Sendo assim, uma pesquisa com esta proposta, com direcionamento a este jornalismo pouco defendido e difundido, mas, que não deixa de existir e prosperar nos meios de comunicação se torna interessante no sentido de mostrar que a profissão de jornalista evolui e sofre transformações de acordo com as mudanças que acontecem na própria sociedade, a qual exige mais flexibilidade e humanismo em todas as áreas.

[1] A subcultura é um grupo de pessoas que possuem comportamentos, características e culturas peculiares se comparados ä cultura popular – as minorias culturais.[2] “A subjetividade, segundo Guattari e Deleuze encontra-se articulada, por assim dizer, em todos os processos de produção social material e imaterial. Deste modo, a subjetividade aqui é entendida como uma “pulsão” do inconsciente humano, essencialmente social, assumida e vivida pelos sujeitos em suas existências particulares – conectadas no campo social –, oscilantes, por sua vez, tanto entre uma relação de ‘alienação’ e opressão, onde se estabelece uma relação de total castração e submissão das subjetividades, como numa relação de expressão e criação, onde prevalecem as “reapropriações” dos componentes subjetivos singularizados. Os desejos mais autênticos. As subjetivações mais subversivas”. (LORENZONI, 2008 – Monografia, p. 53).[3] A Revista Rolling Stone surgiu nos Estados Unidos em 1967. Mensalmente ela que trata de assuntos como música, política e cultura popular.[4] A Revista Piauí surgiu em outubro de 2006 com uma tiragem cerca de 50 mil exemplares. Idealizada pelo documentarista João Moreira Salles, a Piauí possui circulação nacional e pertence ao Grupo Abril.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ÀLVARES, Rodrigo. O Jornalismo Gonzo no Brasil. 2004. Monografia (Graduado em Comunicação Social – Jornalismo) – Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS) Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (FAMECOS), Porto Alegre, 2004.


CZARNOBAI, André Felipe. Entrevista concedida a Fabiane De Carli. Chapecó, 4 mai. 2009.


CZARNOBAI, André Felipe. Gonzo: o filho bastardo do newjounalism. 2003. 98 f. Monografia (Graduado em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003.


DMITRUK, Hilda Beatriz. Cadernos metodológicos: diretrizes do trabalho científico. Chapecó: Argos, 2008.


GIANNETTI, Cecília Barboza. Técnicas Literárias em Jornalismo Cultural. 2002. 77 f. Monografia (Graduada em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.


HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914 – 1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


KEROUAC, Jack. On The Road – Pé na Estrada. Porto Alegre, L&PM, 2007.


LOPES, Tim. Repórter faz de conta que é operário. Repórter, Rio de Janeiro, v.1, especial n. 1, p. 3 – 7, nov. 1979.


LORENZONI, André. Uma história das subjetividades homossexuais masculinas em Chapecó na década de 1980. Monografia/Unochapecó, 2008 – 53 pg.


MEDO e Delírio em Las Vegas. Direção: Terry Gilliam. Produção: Patrick Cassavetti, Laila Nabulsi e Stephen Nemeth. Intérpretes: Johnny Depp; Benicio del Toro; Tobey Maguire; Michael Lee Gogin; Larry Cedar; Brian Le Baron; Ellen Barkin; Gary Busey; Cameron Diaz; Craig Bierko; Christinna Ricci; Harry Dean Stanton. Roteiro: Terry Gilliam, Tony Grisoni, Tod Davies e Alex Cox, baseado no livro de Hunter S. Thompson. Música: Ray Cooper e Michael Kamen. Estados Unidos: Rhino Films; Universal Pictures, 1998. 1 bobina cinematorgráfica (118 min), son., color., 35mm.


STEADMAN, Ralph. Delírio da era Gonzo. Piauí, Rio de Janeiro, v. 1, n. 20, p. 30 – 40, mai. 2008.


STEADMAN, Ralph. A Brincadeira acabou. Piauí, Rio de Janeiro, v. 1, n. 21, p. 16 – 24, jun. 2008.


SUPER Size Me: A Dieta do Palhaço. Direção: Morgan Spurlock. Produção: Morgan Spurlock. Intérpretes: Morgan Spurlock; Daryl Isaacs. Roteiro: Morgan Spurlock. Música: Steve Horowitz e Michael Parrish. Estados Unidos: The Con; Samuel Goldwyn Films/Imagem Filmes, 2004. 1 bobina cinematográfica (98 min), son., color., 35mm.


THOMPSON, Hunter S. Medo e Delírio em Las Vegas: Uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano. São Paulo, Conrad Editora do Brasil, 2007.


TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2004.


VERÍSSIMO, Arthur. Fui eu que fiz. Revista Trip, São Paulo, v. 1, n. 153, p. ? - ?, mar. 2007.


WALLRAFF, Günter, Cabeça de Turco. São Paulo: Globo, 1994.


Sites consultados:


http://www.qualquer.org/gonzo/monogonzo
acessado em 10 de aagosto de 2009


http://www.timlopes.com.br/timlopes.shtml
acessado em 10 de agosto de 2009


http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=398dac006
acessado em 10 de agosto de 2009

fragmento ao som de gonçalves

nascera para ser amante. tinha todo o jeito, as formas e o perfume. ah, o perfume... amadeirado, doce & vermelho. rosa densa da noite. o nome, o formato do rosto forte e definido, a indecência casta de quem ama e sabe amar. ele, barba macia roçando tola no pescoço da amada, da amante ou seria namorada? de odor boêmio, vivo e sem cerimônias, entrava no sobrado alternativo, na parte antiga da velha porto alegre. presente na mão, olhos vivos do amor pagão, invadia o sobrado pela janela e a invadia toda. vinho no sangue, no gosto da boca de rua. atraído pelo cheiro da vida dupla, inundado pelo incenso barato, os tons rubros dos lençóis, tapetes e paredes, era mais um arabesco louco no ar, querendo entrar pelos vãos dos lábios dela. sensitiva, mística e sábia moça, tinha dele o que queria, extraia do amante o doce dos dias. ou não tão doces. o sobrado já abrigara as mais épicas das brigas, cravo & a rosa, despedaçando-se sem cuidado, o que obrigava o homem a passar algumas de suas noites no boteco, reclamando amargo com os garçons da baixada, para depois embalar ébrias serenatas debaixo da escada do paraíso, enquanto mademoiselle marchand preferia os braços calmos de morfeu aos do nocivo noivo, que delirava ao menor toque da boca dela, que quase se perdia em gozo com um único e despretensioso beijo. ameaçava se matar caso ela não abrisse as persianas e as pernas e a boca e a vida toda para ele. insistente, passional, poético. tangos, tragédias, fulgurantes noites no relento. os amigos chamava, escarcéu na madrugada gaúcha, amor em tempos de bolero. e mademoiselle consultava as cartomantes, se rendia a mandingas e simpatias, hora para ele voltar, hora para esquecê-lo. amor kármico dos deuses, manjar dos noivos de um hades profano. e eu, vouyer dos pecados humanos, me delicio de canto através do vidro enorme da sala da frente. lembro-me de nelson rodrigues e ouço gonçalves, pano de fundo para a noite mais cálida dos trópicos. verão nos ares sulinos, tão latinos. meus olhos são espectadores do festival obsceno das paixões mal-resolvidas, palco de ilusões e teatros sanguinários da vida privada, fotografo os melhores momentos na retina.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste

http://www.revista.agulha.nom.br/fpessoa301.html

“Não precisa ter coragem quando não se não se tem medo”



A história da primeira mulher de Quilombo, que viveu entre os homens, conheceu os dramas e as alegrias de um tempo que não volta mais...


“Não sei por onde começar”, suspira dona Rosa Alvina Hanauer. Nada mais compreensível, já que ela foi a primeira mulher a morar na cidade de Quilombo.
A alva rosa, hoje com 83 anos, chegou aqui em 1947, quando tinha apenas 21 anos. Ao lado do esposo e de dois filhos, Alvina encarou uma grande aventura, ao se lançar de Sede Dourado, pertencente ao município de Erechim (RS), até Coronel Freitas, partindo de cavalo até Quilombo. Ela e os demais familiares atravessaram o Rio Chapecó de canoa, “de mala e cuia”, e os cavalos passaram a nado, pois não havia barca. “Na época, era uma onda. Todo mundo queria vir para o oeste”, lembra Alvina.
Jovens e sem terra própria, moraram em um rancho de chão batido, feito por um cunhado que havia chegado primeiro. “Era noite quando chegamos aqui. Meu marido, Agostinho, pegou eu e nossos filhos de cima do cavalo e nos levou para o rancho. Não tinha porta, mas nós dormimos lá dentro mesmo assim.”
Mais tarde, a mesa e a cama foram fincadas na terra, “porque não tinha assoalho, a mãe terra era o chão. E mesmo assim dava para viver”. O colchão era de palha. “A gente rasgava a palha de milho e enchia o colchão, que estava mais para um saco, do tamanho da cama, com uma abertura para por a palha. Todos os dias tínhamos que mexer na palha para arrumar o colchão”, conta a senhora, dizendo que à noite, só se ouvia o barulho das antas que iam até o banhado para tomar água. “Para quem não viu, é difícil entender. Era mato e mais mato. Às vezes os homens iam no mato para caçar, mas nem isso conseguiam, porque não tinha caça.”
As compras eram feitas em Coronel, e aquele que se encorajava a efetuar a empreitada, sabia que somente em três dias estaria de volta. Porém trabalho Alvina tinha de sobra para ocupar o tempo. Lavava roupa para os homens, costurava, fazia pão de fubá no forno de pedra, emoldurado com barro, cinzas e terra. Companhia feminina só teve tempos depois, quando apareceu uma cozinheira que fazia comida para os peões que trabalhavam na medição das terras.
Dona Alvina fez parte de uma verdadeira aventura, encarada com certa naturalidade por ela, ao passo que Rosa, como outros de sua época, seguiu o exemplo dos próprios pais. “Fazer uma mudança dessas, é mesmo uma espécie de aventura. Mas já ouvíamos essas histórias serem contadas em casa.” Ao longo dos anos, ela teve treze filhos (três já falecidos), mais de trinta netos e nove bisnetos. Viúva há três décadas, atualmente a pioneira Alvina, acostumada com a numerosa família, vive apenas com uma filha, no interior do município. “Como a gente muda. Trabalhava tanto, corria tanto, de manhã até de noite, e hoje em dia é tudo tão tranquilo”.
O passado e o presente para Alvina não conjugam. São dois paradoxos, difíceis de serem comparados. O número de filhos nas famílias, as modernas máquinas de lavar e de costura, as estradas e automóveis. “E todo mundo se queixa. As pessoas acham que é difícil criar um ou dois filhos, acham que as estradas estão ruins”, sorri.
Pessoas de seu tempo trabalharam intensamente para que as atuais gerações pudessem viver com menos esforço, usando mais a mente do que os braços. “Sem saber fizemos isso. Era uma tristeza, uma luta para viver, para sobreviver. Enfrentávamos pestes, como a Febre do Tifo. Famílias inteiras morriam disso, como a família do meu marido. São histórias que nem dá para relembrar de tão difíceis que são. Não tinha outro jeito, tínhamos que trabalhar. E o segredo de tudo isso? “Nós não tínhamos muita coragem, mas também não tínhamos tanto medo. E não precisa ter coragem quando não se não se tem medo”, finaliza Alvina.

Para os corajosos que chegaram até esse ponto da leitura, acostumados com os tempos modernos de informações rápidas e resumidas, fica um breve recorte de uma das muitas histórias extraordinárias de dona Alvina:


“Uma vez, meu pai precisou fazer um empréstimo e teve que andar de a pé pelo mato para pegar o trem. Em quinze dias ele deveria estar de volta. Passaram esses quinze dias e nada. Passou mais um dia, e mais outro, passaram vários dias até que minha mãe, sentada num banco, de cabeça baixa, chamou as crianças e disse: 'O pai não vem mais.' Mas de repente, naquela manhã, ela ouviu dois tiros de revólver. Ela sabia que aquele era o revólver do meu pai. Ela deu um salto, arrancou a espingarda da parede, foi para fora, deu dois tiros no ar, jogou a espingarda no chão e foi correndo encontrá-lo.”

(Publicado no Tribuna do Oeste em agosto de 2009)

Vaneza Wons: Uma trajetória em alto e bom som



Desde a infância, Vaneza Wons é artista do salto, da bola e principalmente da vida. Atleta de qualquer modalidade do esporte que se insira, a menina, de apenas 16 anos, coleciona dezenas de medalhas e troféus – pequenas lembranças de suas admiráveis conquistas que, com ajuda digna de gente grande, tendem a crescer, salto após salto, gol após gol...

Em meio a um cenário bucólico e inspirador, que parece mais pertencer a um mundo paralelo e perdido, dos tempos imemoriais, talhado cuidadosamente por mãos divinas, mora uma outra obra-prima: Vaneza Wonz. Filha de família humilde e trabalhadora, que vive da agricultura na pequena Linha Marafon, no caminho de Santiago do Sul, a menina se destaca em qualquer modalidade esportiva que se insira, seja no atletismo, no futebol de campo, futebol suíço, de salão, handebol e até rodeio.
Com apenas 16 anos, sofrendo de uma considerável deficiência auditiva, Vaneza coleciona dezenas de medalhas e troféus, dependurados com zelo na parede da cozinha, com a qual ela não tem muita intimidade, não, já que seu talento se direciona não somente para atividades esportivas, como também para o trabalho braçal da roça, temido até mesmo pelos mais bravos peões de plantão.
Sua carreira esportiva começou ainda na infância, em Salto Saudades, numa época em que Vaneza era obrigada a treinar o salto a distância em montes de sabugo, pela falta de uma pista de areia. “Ela deixou o lado menina para se dedicar ao esporte”, diz o pai Deonir. “Certa vez o professor Eider Lanzarin disse pra ela: ‘vamos, Vaneza, pula.’ Mas ela nunca tinha pulado, mas já na primeira pulou”, completa a mãe Salete. Ali, em Salto Saudades, a atleta começou a mostrar os primeiros sinais do lugar que ocuparia no futuro: o 6° lugar no ranking brasileiro de salto a distância, disputado entre 23 estados, em Poços de Caldas (MG), além do 1° lugar no estadual e tantos outros títulos conquistados em cidades da região, como Quilombo, Pinhalzinho e Chapecó.
A deficiência auditiva nunca atrapalhou os planos de Vaneza, tendo competido normalmente com pessoas sem deficiência. A única coisa que atrapalha os sonhos da menina é mesmo a falta de incentivo para que ela siga em frente. Recentemente, a esportista deixou de participar de um campeonato estadual por falta de comunicação entre alguns responsáveis. Sem poder competir no estadual, Vaneza fica ainda impossibilitada de tentar o brasileiro. Caso competisse no campeonato estadual, certamente a atleta venceria, pois já alcança a marca de 5,12 metros no salto a distância, e o máximo que outras competidoras conseguiram chegar foi 4,55 metros.

(Publicado no Tribuna do Oeste em agosto de 2009)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

diálogo bobo II

- o que você quer?
- você.
- em que sentido?
- todos.
- quanto?
- muito.
- quando?
- agora e até quando eu não sei.

sábado, 22 de agosto de 2009

esperando o ônibus das 7

eu sou mais uma das mulheres que fumam seus cigarros na noite de sexta. sentadas ou pendidas em bancos ou paredes da suja rodoviária, estamos nós: o brilho suado na cara, a roupa encardida da semana inteira, a poeira no corpo, o esmalte que descasca e o velho vazio no peito. o mesmo vazio que se alastra sábado à dentro e quando chega a noite se intensifica corrosivo, vertendo em febre ausente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Um Olho Só


Há de ser uma raça solitária a dos jornalistas. Pelo menos aqueles que realmente vivem a profissão. É assim, e creio que sempre tem sido, a solitária saga dos jornalistas-escritores. Não que eu me considere um deles. Não me entenda mal. Na verdade, me sinto é mesmo solitário. Solitário com “o”, gênero masculino mesmo. Me sinto tão homem entre os homens...
Depois de um dia de trabalho duro, fumo o meu cigarro, tomo o meu vinho tinto, fino e seco “Oremus”, escolhido bem mais pelo preço do que pela qualidade ou pela estampa de mandala que ele carrega ou por ser ele um Cabernet Sauvignon, ter 12% de álcool ou por ser da safra recente de 2007. Escolho meus vinhos pelo preço: O mais barato me ganha. O mesmo nem sempre acontece com os cigarros, apesar de me deixar levar por marcas baratas na falta de. Quanto aos amores e amizades, prefiro não comentar.
E olho simples a chuva cair. O que vejo da minha janela é uma das obras mais medíocres que a arquitetura urbana já criou. Minha grande janela, antiga e verde, dá para uma garagem. Sim, uma garagem que ocupa tanto espaço para guardar automóveis que pouco deixa para o céu. O céu é obstruído por uma antena mal criada que libera fios e mais fios de modernidade.
Debaixo de minha janela, pousam fáceis vasos de flores não menos medíocres, embalados em papéis de presente cafonas. O som que se ouve é de motor, constante e chato e denso. Deixo o incenso se consumir no ar da janela e penso, penso e penso. As gotas de chuva me são como bálsamos filosóficos; a solidão me é escape para analisar os pormenores da vida.
A cada dia que passa, me torno mais insuportável. Tenho o estranho costume de gostar daqueles que todos odeiam. Sempre preferi ser odiada. Mas hoje é um dia “feliz”, me sinto aliviada com o dever cumprido, mesmo que o dever de um jornalista nunca acabe, só continue, eternamente. Assim acontece com os amantes da vida, como eu e como tantos. A paixão nunca acaba, só adormece para que consigamos fazer o que precisa ser feito. E depois retorna.
No momento, fujo, e como fujo. Meu olhar de repente se perde no brilho fosco das luzes da noite que vem. “Não se pode ter tudo”, penso. E não se pode mesmo. Longe das páginas dos jornais, sou a menina debaixo do guarda-chuva que tem medo de temporais. Amo tão ferozmente que prefiro não amar. Prefiro o ódio. Prefiro a indiferença. Prefiro a solidão. Com o passar do tempo, aprendi a frear os meus impulsos. Quando vejo que estou no ápice da minha agonia, eu retrocedo.
E como poderia não retroceder? Não me jogo na fogueira de Torquemada como antes. Sei bem o que posso querer e o que não posso querer. Não sou digna dos quereres altivos, não sou digna do que não posso ter. O que tenho me basta. E o que mais posso querer? Há de ser a idade. Há de ser o mal da raça solitária ou talvez o vinho ou a chuva leve lá fora, o inverno aqui dentro, o sonho desfeito, o amor mal feito, o juízo adquirido ou a infância interrompida. Há de ser problema meu e agora teu, que me queres, ou que apenas diz me querer.
Não confio em humanos e Deus já não existe nessas horas. Paro, penso de novo, retomo a razão e adormeço insone, crente de que tudo será diferente e ainda mais mágico na próxima estação.