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sábado, 25 de dezembro de 2010

Bienvenidos al tren

Estou partindo. On the road, de novo, baby. Volto quando não houver mais nenhum dia de ócio. Relaxe, te levo comigo. Levo a tua imagem ao lado dos nossos futuros filhos, sentado em frente ao piano ou com o violão em punho, ensinando o que mais sabe fazer. Estou me preparando para te encontrar. Será logo, não se preocupe. Meu bem, quero te ver estudando a nossa filosofia. Te ajudo, você sabe que sim. Não gosto de definir destinos, mas, ainda quero te ver de cabelinho branco junto de mim, de nós, da família que vamos criar. Meu bem, eu te amo. Amo você por ser exatamente como é. Você, com todos esses ideais nobres e maravilhosos na cabeça. Adoro esse teu ar sonhador. Tentei assistir ao filme que me indicou, Into the Wild, mas ainda não consegui. Indico Easy Rider – Sem Destino para esses dias em que eu estiver fora. Não sei se curte Los Hermanos, mas gostei tanto daquela música que diz: “E até quem me vê lendo o jornal. Na fila do pão, sabe que eu te encontrei.” Amor, onde quer que eu vá, vou te levar comigo. Por enquanto em pensamento, depois em corpo. Quero a tua mão na minha, nossos olhos na mesma direção. Confie em mim, fizemos um pacto de amor e fidelidade. Se cumprir o que prometeu, vou cumprir o que prometi, mesmo debaixo de uma saraivada de balas. Não haverá no mundo ninguém mais fiel do que eu. Mas, assim como te divido com a música, a filosofia e a solidão, precisa entender que terá que me dividir com a estrada e com a minha solidão. As outras paixões até podem esperar. Parto com Sui Generis, em Bienvenidos al tren, das “Confesiones de invierno”. Parto com Charly García y Nito Mestre. Até a volta, minha vida. E não se esqueça de mim.

Com amor,
Uma certa garota.

TESE DE MESTRADO NA USP - "O Homem torna-se tudo ou nada, conforme a educação que recebe."

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.

{Encontrei esse texto na internet e fiquei abismada. Não sei se é real, mas se for, segue a linha do gonzo.}

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Viro leão, abandono a carapaça e armo a cabeleira

Pouca gente me entende quando digo que não nascemos em um determinado lugar por acaso. E menos gente me entende ainda quando digo que podemos andar o mundo todo, mas que temos uma espécie de dívida com o lugar de onde viemos e que devemos deixar um pouco do que aprendemos nas andanças pelo mundo nesse lugar. Pouca gente me entende quando digo que todas as áreas desenvolvidas pelos seres humanos são valiosas. Imagino o universo inteiro como uma corrente de conhecimento e de ação, baseada em conhecimentos específicos ricos, que se encaixam dependendo da propensão de cada ser. Pouca gente me entende quando prefiro a calma, a paciência, a tranqüilidade e o silêncio. Eu observo o ritmo da natureza e tendo me respeitar, respeitar o meu ritmo. Pouca gente me entende quando falo em humildade. Pessoas confundem isso com morbidez, falsidade. Eu vejo a humildade como ponto de partida. Já fui do alarde, hoje eu sei que quanto maior o alarde, maior o afastamento, o medo, a repulsa. Pouca gente me entende quando digo que se pode dizer qualquer coisa para uma pessoa, desde que se use as palavras certas e o tom certo. O tom da ofensa pode até mudar os mais teimosos, mas causa revolta, causa nojo, causa guerra. A guerra é útil, mas, através da paz, nos mostramos mais humanos. Pouca gente me entende quando digo que o bem é o que une e o mal é o que desune, apesar de eu detestar maniqueísmos e generalismos. A solidão, o choro, o grito, tudo isso está cheio de mal, de desunião. Pouca gente me entende como penso isso e sou tão reclusa. Meu exílio é medido e sempre que acho necessário me uno aos que amo, deixo minhas sementes e guardo as deles. Sou reclusa porque preciso da solidão para escrever, mas preciso da companhia, do outro, para me inspirar. Alterno exílio e multidão, numa medida que considero perfeita para ser quem eu sou. Infelizmente, pouca gente me entende quando me mostro complexa, quando peço, questiono, interrogo, sabatino. É minha paixão amadora por filosofia e minha tendência ao profundo. Invejo as pessoas simples, pois jamais fui simples. Sondo a simplicidade, sondo a ingenuidade, mas tenho em mim a desconfiança própria de um animal de dura carapaça. Apesar de tudo, sou muito sensível. Posso não mostrar sensibilidade falando, ou talvez nem escrevendo, embora tente, já que a linguagem é limitada, mas sou sensível. Pouca gente me entende, mas tenho arroubos de amor. Tenho vontade de pegar na mão, de abraçar, beijar, dizer que amo. E faço, na maioria das vezes. Não quero morrer, partir dessa existência, sem que cada um que amo saiba exatamente que eu amo. E sinto saudades. Sou do tipo que sente saudades. Saudades imensas. Sou meio saudosista, nostálgica, e tento fazer com que uma estada ao meu lado seja doce. Não quero deixar gosto amargo em boca alheia. Pouca gente me entende, mas aprendi respeito em casa. Não falo nada em tom de berro se puder falar em tom de sinfonia. E quando, normalmente, ouço uma ofensa ou injustiça, pouca gente me entende, mas lanço um sorrisão, um gracejo, uma risada, e desarmo o vingador. Costumo entender opiniões contrárias, costumo entender posicionamentos motivados por conhecimento de massa, que mudam de tempos em tempos, que seguem fases, tendências. Pouca gente me entende, quando não me abalo com ofensas. Mas há coisas que me fervem o sangue, pois sim, não sou barata! Não aceito relacionamentos pelos prazeres da carne, sexo sem amor não existe no meu dicionário, não me deixo enganar por conquistadores profissionais. Não suporto gente que só vê corpo em uma mulher e, acima de tudo, não suporto ver gente xingando amigo meu. Compro briga, não ligo, faço o que gostaria que fizessem comigo. Eu agüento o tranco, mas não agüento ver quem eu amo, de alguma forma, sofrer. Viro leão, abandono a carapaça e armo a cabeleira. Minhas garras ficam afiadas, meus dentes, presas vivas de marfim. Sou fera, sou bicho, meu amor. Pouca gente me entende, mas sou mais macho que muito homem.

WikiLeaks & os pontos remotos do oeste selvagem

O WikiLeaks botou os jornalistas do mundo todo no chinelo. Jornalistas, com todo o método, senso de ética e medinho de ofenderem as fontes (oficiais ou não) e de se foderem bonito, não cumprem o papel que deveriam cumprir: o de informar a população sobre o que está acontecendo. Não sei se posso dizer que sou jornalista. Depois disso, tenho até vergonha de me dizer jornalista. Acabei de me formar e tenho tudo para aprender. Tampouco sou filósofa, não sei quem sou. Mas, de certa forma, me incluo nessa panela da imprensa, meio sem querer. Afinal, trabalho em jornais diários há mais de três anos, como repórter, e jornalismo é minha vida. Observando os respingos do WikiLeaks, percebi que falta muito para eu me considerar alguma coisa. Senti que podemos, em cada canto do mundo, cutucar a ferida. No mais remoto ponto (seja em Chapecó, Xanxerê ou Xaxim), é possível cutucar a ferida, investigar e publicar, desde que se tenha senso de estratégia. Revelando fontes ou não, mostrando as caras ou não, revelando autores verdadeiros ou não, é possível fazer. O WikiLeaks mostra a informação nos nossos tempos e como ela pode ser forte, maior até mesmo que grandes organizações. A informação é uma adaga das mais cortantes, dificílima de se deter. Informação é um direito e o dever da imprensa é levar a “verdade”, mesmo debaixo de ameaças de processo, prisão e de morte. Isso, pelo menos na teoria, na minha teoria. No meu exercício de informar, sinto que sou perceptiva. Não me detenho nas referências, mas muito mais nos sentimentos. O engraçado é que nunca me disseram na faculdade que jornalismo dava abertura para sentimentos. O meu procura dar. Esse pode ser um ponto bom do trabalho que decidi desenvolver. Mas me falta a ousadia desses “meros” ativistas. Enxergar o problema e/ou buscar o problema e depois escancará-lo. Em cidades pequenas, diz minha editora, que isso é tarefa difícil. Todos sabem quem você é, onde mora, onde trabalha. Ser anônimo e ser o meio de fontes anônimas, aqui, pode ser mais complicado, mesmo que seja algo feito em pequena escala. Aqui, há muito para se dizer também. Mas isso pode ser desculpa para não admitirmos que, pelo menos por enquanto, não somos capazes. Que seja. Ainda temos esse pequeno espaço de tempo chamado presente para aprendermos e, se tudo der certo, temos um futuro longo para desenvolvermos o aprendizado, conseguido em cada uma das correntes que compõem a sociedade. Com um pouco de humildade, se pode chegar mais alto. Ou, como diz Paulo Leminski, esse poeta paranaense dos nossos tempos, “isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.”

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

solstício de verão

minha intuição está cada vez mais forte. não o preconceito e sim a intuição. noto o que eles escondem, o que eles querem, assim, no ato. para não pesar a consciência, me boto a conhecê-los, deixa-los falar. só comprovo o que eu sentia. quando eu acordo, sinto que o sono me desvendou. deve ser o meu plano astral unindo-se com o meu plano físico. nessa chama que ascendo de energia, minha aura translúcida e colorida, se inverte durante o dia, tornando-se escura e opaca. ofereci incensos aos deuses, aos pés do caldeirão de fogo. ofereci bondade, humanidade, inteligência e sensibilidade. tudo o que colhi nas outras estações. estou no ano 2, o ano da diplomacia. tempo de plantar. o 2, o resignado, o solícito, o passivo e o secundário. me identifico. ao fogo, ofereci incenso, mirra, vinho e algodão e suas flamas longas, como dedos de pianista. sinto vontade de pintar. grandes telas de aquarela para te esperar. a mesa farta de amoras & café, o tato de bruxa branca no tarot e o i ching na ponta dos lábios. ver a luz dos objetos e plantas e animais e seres humanos. ver-me pedra em outros mundos. o sol, monstro de energia, derreteu minhas veias impuras. me purifico no fogo, me escondo nas águas da noite, ponho os pés na terra para colher as raízes do teu chá, sou fada no ar dos teus amores. te encontrei. a sintonia se fez. foi durante o verão. a barca do sol virá nos buscar. esteja pronto. colha teus símbolos e sementes, as faça brotar no mar dos deuses. nossas moléculas se compreendem, nossos átomos se conectam. irei te ver assim que puder. quando o céu estiver alinhado e eu alinhavada de corpo e alma, irei te buscar. me espere coberto de clavas de fá. sua dama te espera e traz no peito aquilo que não e nunca acaba.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

eu chamo amor


durmo cedo para ter a madrugada toda para mim. tanta coisa nessa cabeça de arabescos vermelhos: a morte do amigo, a doença da casa, a indigestão do outro, o trabalho intenso dos últimos dias, os novos parâmetros das visões de mundo e você. você é meu refúgio mais bonito. é contigo que construo a casa no campo, é do teu lado que me vejo. como se com você eu pudesse entrar em uma outra atmosfera, sabe? eu, no meio dessa multidão de caos, de repente pego na tua mão e já estou do outro lado. sinto uma paz tão grande quando te penso. como se eu pudesse ser o que sou e que tudo pudesse ficar bem, assim, de repente. penso que no meio dessa loucura toda dos diários, posso encontrar teu peito para descansar esses novelos de ideias bagunçadas. enrolar meu cabelo no teu abraço, casar minha mão com a tua. preciso passear com você. faz tanto tempo que não vivo. preciso te encontrar. esquecer das histórias tristes que ouço pelos becos do mundo. preciso de você. você chegou e me tirou daquele mar de palavras alheias que não me tocavam. você soube me puxar de volta. tocou no fundo, soube o que dizer. quem te ensinou as palavras mágicas? quero viajar com você e no largo dos dias te ver ensinando as tuas artes & ciências. quero uma vida simples. você pode vir e ficar, se quiser. ou me deixe fazer casa no teu espaço, construiremos tudo juntos. diz que podemos ser eternos, na rede, ao fim da tarde, com uma penca de sonhos para embalar. já vigiei demais a rouquidão dos versos. quero limpar o canal dessa dor. onde te encontro? como te encontro? já tracei o mapa nessa mente de desejos, agora falta te encontrar no fim do arco-íris. alguns chamam alienação; eu chamo amor.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Curta metragem tecnicolor

O escritor dessa semana é a prova de que atraímos o que emitimos. Eu queria conhecê-lo e ele veio até mim, sem que precisasse fazer qualquer esforço extra, somente desejar. Soube de sua existência através de amigos em comum e ele apareceu na minha porta, anos mais tarde, atraído pela minha escrita. Um amigo, um anarquista, uma figura incomum. Marciano Jr. Maraschin, autor de dois livros independentes de poesia, “Estranhas Cores Fantásticas” e “Poesia Trangênica”, é uma pessoa difícil de definir e muito mais difícil de agradar.

Escrevi sobre ele há muitos anos, no tempo de faculdade, no Jornal Passe a Folha. Uma conversa por telefone apenas, já que ele ainda morava na cidade de Lindóia do Sul (agora o andarilho mora em Xaxim), que resultou em uma espécie de reportagem da qual me orgulho, ainda que ele não tenha gostado e não tenha feito nenhum esforço para dizer isso.

Nos livros, as viagens de cores e dores desse poeta catarinense que pode ser visto facilmente nos bares do Velho Oeste com uma humildade e um anonimato no mínimo interessantes. O senti como meu Dean Moriarty particular – personagem principal do “On The Road”, do beat Jack Kerouac, já comentado aqui. Pois, talvez seja impossível conhecê-lo sem que sua vida seja transformada de alguma forma.

Aos 29 anos, nascido em 22 de agosto de 1981, Maraschin, por muito tempo, representou um personagem que fazia parte de um universo inacessível para mim. Como se ele fosse um remanescente de um tempo perdido, um guerreiro de terras mágicas e ancestrais, um sobrevivente dos tempos de rebeldia, de subúrbios que eu jamais ousei pisar com os mesmos pés que ele pisava.

Hoje já o vejo mais próximo. Talvez ele tenha se aproximado do meu mundo, talvez eu do dele, ou ambos. O dediquei cartas e poemas e agora dedico a ele uma crítica literária, com a vontade de fazer com que mais pessoas tenham acesso a esse poeta através desse registro, que guarda um pouco dessa estranha existência, de explosões de amor difuso.

“Certas ou não, as explosões continuam polindo os sonhos cadentes. Certo ou não, um curta metragem tecnicolor, exuberante e viçoso, se aproveita da cachuleta débil e destrói a sucata e os remendos deste longa metragem branco e preto.”

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A POBREZA DO RIQUÍSSIMO

(Dos Ditirambos de Dionisio, 1888: "Estas são as canções
de Zaratustra, que ele cantava para si mesmo,
para suportar sua última solidão".)

Dez anos já –
e nenhuma gota me alcançou,
nem úmido vento nem orvalho do amor
- uma terra sem chuva...
Agora peço à minha sabedoria

que não se torne avara nessa aridez:
corra ela própria, goteje orvalho;
seja ela a chuva do ermo amarelado!

Um dia mandei as nuvens
embora de minhas montanhas -
um dia eu disse, "mais luz, obscuras!"
Agora as chamo, que venham:
Fazei escuro o meu redor com vossos ubres!
- quero ordenhar-vos,
vacas das alturas!
Leite quente, sabedoria, doce orvalho do amor
derramo por sobre a terra.

Fora, fora, ó verdades
de olhar sombrio!
Não quero ver em minhas montanhas
Acres verdades impacientes.
Dourada de sorrisos,
de mim se acerca hoje a verdade,
adoçada de sol, bronzeada de amor –
só uma verdade madura eu tiro da árvore.
Hoje estendo as mãos
às seduções do acaso,
bastante esperto para guiar, tapear o acaso,
como a uma criança.
Hoje quero ser hospitaleiro
com o mal-vindo,
contra o destino mesmo não quero ter
- Zaratustra não é um ouriço.

Minha alma, insaciável com sua língua,
já lambeu em todas as coisas boas e ruins,
em cada profundeza já mergulhou.
Mas sempre igual à cortiça
Sempre bóia outra vez à tona
Bruxuleia como óleo sobre os mares morenos:
por ter essa alma me chamam o Afortunado.

Quem são meu pai e mãe?
Não é meu pai o príncipe Supérfluo,
e mãe o Riso silencioso?
Não me gerou esse duplo conúbio,
eu animal de enigma,
eu monstro luminoso,
eu esbanjador de toda a sabedoria de Zaratustra?

Hoje doente de delicadeza,
Um vento de orvalho,
Zaratustra está sentado, esperando, esperando, em suas montanhas –
eu seu próprio suco
tornado doce e cozinhado,
embaixo de seu cume,
embaixo de seu gelo,
cansado e venturoso,
um criador em seu sétimo dia.

- Quietos!
Uma verdade passa por sobre mim
Igual a uma nuvem –
com relâmpagos invisíveis ela me atinge.
Por largas lentas escadas
Sobe até mim sua felicidade:
vem, vem, querida verdade!
Quietos!
É minha verdade! –
De olhos esquivos,
De arrepios aveludados
me atinge seu olhar,
amável, mau, um olhar de moça...
Ela adivinha o fundo de minha felicidade,
ela me adivinha – ah! o que ela inventa? –
Purpúreo espreita um dragão
no sem-fundo de um olhar de moça.

Quietos! Minha verdade fala!
Ai de ti, Zaratustra!

Pareces alguém
que engoliu ouro:
ainda hão de te abrir a barriga!...

És rico demais,
Corruptor de muitos!
São muitos os que tornas invejosos,
são muitos os que tornas pobres...
A mim própria tua luz faz sombra –
ela me enregela: vai embora, tu, que és rico,
vai, Zaratustra, sai de teu sol!

Queres presentear, distribuir teu supérfluo,
mas tu próprio és o mais supérfluo!
Sê esperto, tu, que és rico!
Presenteia antes a ti próprio, ó Zaratustra!

Dez anos já –
e nenhuma gota te alcançou?
Nem úmido vento? nem orvalho do amor?
Mas quem haveria de te amar,
ó mais que rico?
Tua felicidade faz secar em torno,
Torna pobre de amor
- uma terra sem chuva...

Ninguém mais te agradece,
mas tu agradeces a todo aquele
que toma de ti:
nisso te reconheço,
ó mais que rico,
ó mais pobre de todos os ricos!
Tu te sacrificas, tua riqueza te atormenta –
Tu dás,
não te poupas, não te amas:
o grande tormento te força o tempo todo,
o tormento dos celeiros saturados, do coração saturado –
mas ninguém mais te agradece...

Tens de tornar-te mais pobre,
Sábio insensato!
Queres ser amado.
Ama-se somente aos sofredores,
só se dá amor aos que têm fome:
presenteia antes a ti próprio, ó Zaratustra!

- Eu sou tua verdade...

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)

{Nunca esqueci desse poema}

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Uninverso em Dallas

Dou-me a honra, nessa semana, de não somente falar de uma obra, como de várias obras e de um autor que conheço e admiro. Uma história interessante que teve início esse ano. Nos primeiros dias como repórter no Jornal Voz do Oeste, minha colega e ex-colega de Jornalismo (não estudamos no mesmo período, mas na mesma universidade), Mariane Kerbes, pediu com naturalidade: “Você conhece Fábio Dallas?” Eu disse: “Não, não conheço”, sentindo-me uma espécie de criatura ignorante e reclusa. Assim, ela passou três livros: “Uninverso” (volume 1 e volume 2) e “A saga de Robalino Severino Cruz das Almas” (Parte I: Homem-Mineral). Ela comentou que ele era daqui e tinha também um blog.
Li um pouco das obras, olhei o blog <http://fabiochristianoduarte.blogspot.com> e formei uma ideia particular do que seria Fábio Dallas. Passou-se um tempo, comecei a estudar filosofia à maneira clássica e também a fazer um ateliê de poesia dado por Edes Noel do Amaral Júnior. Sempre via nesse ambiente todo um ser estranho, desconhecido por mim, até o dia em que estávamos discutindo os heterônimos de Fernando Pessoa e a voz com sotaque carioca disse que Fábio Dallas era um heterônimo, nascido em 1985, criado por ele, Fábio Christiano da Costa Duarte. Minha surpresa transformou-se em fala e da fala, um orgulho de dividir as cadeiras de plástico das aulas de filosofia e poesia com aquele grande poeta.
Tive a chance de conhecer, não somente o poeta, como o ator Fábio Dallas ou Fábio Christiano da Costa Duarte, encarnando um oráculo e também encenando um belo poema seu, “lilith”, em um sarau de contos, mitos e outras histórias. Apagou a luz, ascendeu a vela, segurou nas mãos, ligou o som e pôs-se a interpretar. “após o verbo, vinhas tu, bela, tu e a luz, almas-gêmeas. no princípio... vai lança no abismo este iconoclasta de uma vez por todas! não temo tempo de me encontrar morto ou vivo! tudo está revelado fotografia cósmica! perdoa lilith, te amava! eu não sabia!!!” Apagou o fogo com um sopro em minha frente. Escuridão. Aplausos.
Tornei-me fã, definitivamente.

(Texto escrito na madrugada do dia 10 de dezembro, aniversário do centauro-poeta)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Salada Moderna

Desabafo livre

Seja magro, fique bronzeado, gaste muito no salão de beleza, vire um enfeite para homens grotescos e ignorantes. Compre um carro, uma casa, roupas de marca... viva por dinheiro, afinal, você precisa de uma TV não sei quantas polegadas, coleções de perfumes e afins.
Vá ao carnaval, vá até a avenida, fique por lá sem fazer nada. Seja normal, morra de vergonha de não ser igual às milhares de pessoas que você pensa que conhece, coma pipoca no cinema, ouça axé, funk, tecno, emo ou qualquer coisa que te empurrarem. Ouça muito uma música e não faça ideia de quem é. Ouça Atlântida. Assista novela, mas só as da Rede Globo, imite e venere os atores, assista todos os anos às mesmas matérias na TV sem reclamar (carros alegóricos das escolas de samba feitos de material reciclável, comidas natalinas ou rituais de ano novo)... mostre que você tem “conteúdo”, assim é mais fácil conseguir empregos que rendam dinheiro.
Jogue na Mega Sena, vá ao McDonalds, em shoppings caríssimos. Diga que ama, mesmo que não perca nenhuma oportunidade de ferrar a tal pessoa, beije, abrace, arrume apelidos carinhosos para quem você odeia, faça de conta que não há nada de errado. Fale expressões que “todo mundo está falando”, beije meninas porque está na moda e, falando em moda, vire hippie, punk ou gótico de butique (adote a mais cara de todas), não faça idéia do que foram esses movimentos, mude com o vento.
Faça medicina, direito, administração, qualquer coisa que tenha “mercado”, tenha milhares de amigos de fachada e não se esqueça de cumprimentá-los quando passarem por você dizendo um “oi, tudo bem”, sem estarem com a mínima vontade de saber se você realmente está bem... o que importa é o status, a “simpatia”... e o dinheiro.
Faça do celular um instrumento indispensável, repugne pessoas pobres ou diferentes, humilhe-as, ridicularize-as, minimize-as... mostre como sua vida “opulenta”, cheia de pequenos ou grandes objetos que você poderia viver sem, é a melhor que se pode ter.
Discrimine bem o que é aceitável e o que é inaceitável hoje em dia... e o que geralmente é aceitável, vale um bom dinheiro.
Puxe o saco do chefe, dedure os seus colegas, eles são seus concorrentes. Finja-se de bonzinho. Garanta o seu, os outros que se fodam. Nunca trabalhe com o que você gosta, prenda-se ao relógio, estranhe as pessoas livres. Case “bem”, orgulhe-se disso, mesmo que “apanhe” todos os dias da sua vida e seja tratado como lixo. Tome Coca-Cola. Fofoque com o vizinho, faça a caveira dos seus familiares, fale do que você não sabe, ponha as pessoas umas contra as outras só para ver no que vai dar, aumente ou invente os fatos. Quem sabe você ganhe aliados que te ofereçam “alguma coisa”.
Queira sempre mais e mais e jamais tenha algum papel de relevância no mundo. Morra sem culpa de ter desperdiçado sua vida com futilidades. Faça tudo isso e mais um pouco e se torne um individualista bovino moderno. E não se esqueça de se orgulhar... e de ganhar dinheiro!

(Essa era eu escrevendo há alguns anos. Estou assustada.)

Carta de Plutão

Já faz algum tempo que pousei neste estranho mundo, mas até hoje não consigo entendê-lo. Não sei como explicar para vocês, mas hei de tentar através de alguns exemplos. Acreditem que por aqui há seres nada instruídos que comandam os espaços e são eles muitas vezes que possuem empresas. Nesses lugares, os seres que eu comentei acima, são chamados de chefes e eles deveras desconhecem as particularidades das empresas, porém recebem uma alta quantia de papeizinhos por isso. Eles não freqüentam muito esses lugares, pois existem outros seres que cuidam de tudo para eles, mas que fazem sem receber os tais papeizinhos, chamado de dinheiro, ou recebem bem pouco.
Por incrível que pareça, são justamente os chefes que ganham reconhecimento dos demais e eles andam em engenhocas que custaram muitos papeizinhos, viajam para outros ambientes, entopem suas casas de objetos dos quais não consigo identificar utilidade, enquanto aqueles que cuidam das empresas, costumam caminhar mesmo na chuva e no sol forte ou ainda em grandes engenhocas que não são deles e que os apanham no horário que lhe apraz. Eles se locomovem muitas vezes de pé, bastante apertados e ainda ofertam uma boa quantia de dinheiro para poderem andar naquilo. Ah, sim... Muitos deles não podem ao menos fugir da rota empresa – casa, casa – empresa. Já ia me esquecendo, casas são os lugares que eles se aninham, mais nem todos possuem uma, assim como nem todos podem ir até a empresa, pois vários não são convidados.
Uma coisa que acho muito engraçada, é o fato deles todos se esconderem para fazer coisas que são bem naturais, pois não podem mostrar o que fazem para ninguém, mesmo sabendo que todos fazem. Há uma tênue separação entre um lugar e outro e colocam uma espécie de portal para separar os dois. Ninguém pode fazer nada digno de vergonha do lado de fora daquele portal, pois isso poderá acarretar revoltas, náuseas e constrangimentos. Vergonha é uma palavra que não sei o que é, mas que eu ouço falar por aí quando interajo com os seres. Eles dizem: “Pare com isso! Não me faça passar vergonha!”.
Outra coisa que me deixa no mínimo intrigada é como eles se assemelham a animais que dizem se chamar macacos, porque assim como os tais macacos, eles reproduzem tudo o que enxergam. Eles seguem fielmente o que mostram as criaturinhas que cabem dentro de uma espécie de caixola e também de uns papéis aglomerados multicolores. Não entendo como aquelas criaturinhas tão pequenas podem intervir na vida de seres tão grandes. Elas dizem para usarem vestimentas iguais, terem os mesmos corpos, ouvirem os mesmos sons, falarem as mesmas coisas e do mesmo jeito... É tão esquisito vê-los andando por aí. Cada dia que passa, menos consigo diferenciá-los.
Esqueci de dizer, todos os dias vários deles chegam até mim falando sobre como está o tempo. Se estiver frio, querem que esteja calor. Se estiver calor, querem que esteja frio. Se estiver chovendo, querem sol. Se tiver sol, querem chuva. Humanos... Eu particularmente não os suporto mais!
Bem, por enquanto é só. Não vejo a hora de voltar para junto de vocês. Espero que seja em breve. Enquanto isso, vou me divertindo e me indignando com as particularidades desse mundo que é cheio de tabus, injustiças e um desejo de poder descomunal. Mas acho que vocês nem vão reconhecer essas palavras, já que elas foram abolidas no nosso mundo há muitas eras. Ainda bem!

Claves de luz violeta para todos,
Andarilha de Plutão.

Era para ter pena

Era para ter pena. Sim, era para ter pena, mas a indignação não cessa, a revolta parece que vai ser eterna. Me limito a rir sozinha e escrever textos que serão lidos por uns poucos indivíduos, provavelmente os menos alienados. Desculpem, meus caros, mas esse texto não é para vocês. Sinto muito por serem justamente vocês que estão lendo estas dolorosas linhas, mas eu realmente precisava vomitar estas palavras.
É, estou cansada. Muito cansada. Vocês deverão reconhecer o mundo que pretendo lançar em pequenas porções aos seus já abatidos olhos. Vocês talvez me entenderão. E se não entenderem... paciência.
Sabe quando a sua capacidade de compreensão e adaptação simplesmente parece ter desaparecido? Sabe quando você está cansada de conviver e tentar aceitar as pessoas como elas são, independente de como sejam? Quando não há mais “saco” para você tentar viver ao lado de pessoas tão diferentes de você que até o teu estômago se embrulha? Pois é, é assim que eu estou me sentindo.
Eu estou enojada desse mundinho inútil, materialista e individualista em que eu me obrigo a viver. Sim, já não dava para agüentar, tinha que vomitar. Estou estupefata dessa gente egoísta, que vende até a mãe em nome dos seus interesses ridículos, que faz “cagadas” faraônicas e jamais demonstra humildade para pedir ao menos desculpas. Que tem a “cara-de-pau” de distorcer tudo para facilitar seu lado, que não tem argumentos para se defender já que é ignorante, burro mesmo.
Cansada de ver essa gente fazer o que quer com todos, esperando ainda que o aplaudam e jamais se defendam ou se opunham. E o pior, dessa gente que nunca se coloca no lugar de ninguém e que quando alguém faz com ela o que esta pessoa já está acostumada a fazer, se revolta, bate o pé, acha tudo uma injustiça descabida.
Bando de coitados, de gados desse rebanho imundo que chamam de sociedade! Que lugar é esse em que é admirável ser fútil, exageradamente ambicioso, alienado? Estou cansada dessas criaturas que vivem pensando em dinheiro, que tudo o que fazem é pensando nisso e que mudam de idéia o tempo todo desde que a referida merda garanta-lhe lucro.
Que bosta de lugar é esse, meu Deus?! Alguém, por favor, me diga por que precisamos aturar esses coitados dançando funk, axé, pagode (ou qualquer outra porcaria que aderirem) a todo volume na avenida? Por que cargas d’água temos que ficar agüentando aquele carnaval em todo lugar? Na TV, nas ruas, nas bocas dessa gente que não tem nada melhor para fazer além de ficar se esfregando por aí? A vida inteira, o tempo todo. Por favor, alguém me diga, por que?! E ainda querem respeito, querem que admitamos a sua falta de bom senso.
O que são essas meninas estúpidas que só sabem se agarrar com qualquer outro idiota que aparece, que a única coisa que pensam em fazer é festa, em dar pra qualquer um e se orgulhar da sua lista quilométrica de gados que já pegaram e exibi-la como troféu para suas amiguinhas não menos bovinas. Essas marias-gasolinas repugnantes, vivem pensando em roupas de marca caríssimas, mesmo que passem fome em casa. Querem respeito? Ah, mas de mim não vão ter.
Mas é claro, não tem porque se preocupar. Muitas dessas coitadas acabam arranjando um trouxa que vem de fora e não conhece a sua fama de puta. Conseguem segurar o babaca e se fazem de santas. Mandam nele, pisam, humilham, e esse que teoricamente era um cara legal (não sei, já que dizem que normalmente as pessoas se merecem), acaba fazendo tudo o que a mulher quer, se submete a uma pessoa burra, fútil, que ninguém mais queria. E ela fica feliz, já que arrumou um babaca para lhe sustentar.
Faz com que ele brigue com todos os amigos, já que eles perceberam ou conhecem seu caráter (ou a falta dele), arruma confusão com a família do indivíduo, pois todos são maus, menos a dita cuja. Era pra ter pena, mas não dá.
Estou farta dessa gente que se deixa levar por qualquer tipo de moda grotesca que surge, que vive assistindo novela, que não se incomoda em ser mais um serzinho comum perdido no mundo, que não se importa em morrer sem ter feito nada de bom ao mundo.
Eu sei, talvez já fosse para eu estar acostumada, mas não consigo. Conviver num mesmo mundo com pessoas tão inescrupulosas é difícil para qualquer um que presa por si próprio. Chamem-me de preconceituosa, mas aposto que existem muitas pessoas que pensam como eu e não têm coragem de admitir, já que hoje em dia é moda ser compreensivo, fazer de conta que não há discriminação em suas almas. Não que eu apóie este sentimento, apenas não o nego.
Fico imaginando a quantidade de pessoas que batem cartão todos os dias e resumem os seus sonhos em ter um carro, uma casa ou qualquer outra coisa que vier depois de conseguirem o que queriam. Nunca tem fim, querem sempre mais. Uma TV não sei quantas polegadas, a roupa escrota mais cara da vitrine, um celular cheio de apetrechos... nunca se chega ao fim.

(Texto não datado, mas que deve ser muito antigo pelo tanto de revolta e pelo fim inesperado.)

Nessas horas tóxicas...

(Poema livre e sem nexo)

Gélidos lábios de lagarto
Se encostam e contam segredos
Toda manhã parece um parto
A dor conta-me os seus medos

Todo o amor, entreguei em suas pálpebras
Dentro dos seus olhos, atrás do sonho nocivo
Suas peles se esvaíram intrínsecas
Calado, esqueceu-se que estava vivo

Eu, sagrada tortura daqueles que pela terra vagam
Descobri suas vísceras na noite dos índios
Penetrei nas tendas mágicas e vi os dogmas que os escravizam
Como espiã mordaz da loucura dos ímpios.

Viagem ao Centro de Mim

Escrita livre e sem nexo (ou não?)

Quando vi as pin-ups cintilantes & luminescentes que desciam uma a uma pelo meu teto verde gritante, pensei ter caído em uma banheira de ácido lisérgico e me afogado tal qual um pássaro louco que não sabe voar e que se lança no ar. Mas logo percebi que era minha desmedida percepção, livre e suando frio nas noites caladas. Era ela e só ela, pura e natural percepção dos seres das cores.
Senti que eu era um ponto luminoso em meio a treva rasa e senti que somente eu poderia me soltar por mim. Olhei em volta daquele banheiro fétido e já bege pela sujeira e vi que meu choro era tão desesperado quanto a minha dor solitária. Olhei para aquele sanitário que exalava fluídos carnais dos mais diversos e me senti tão pequena e tão volúvel e foi então que eu decidi, como junkie que sou, me jogar para dentro da privada e ver no que ia dar.
Meus poros captavam as fibras estimulantes dos fluídos. Eu deslizava como uma fada dos campos esquecidos. Calma e constante fui chegando ao outro lado, cheguei ao outro lado do mundo daquele banheiro dos suicidas.
Não mais vi o sangue e as lâminas jogadas pelo chão; não mais vi minha cara deslavada estampada no espelho. Espelho cruel, tão cruel. Tu me fazes me trancar dentro de mim mesma, com vergonha de me expor aos outros humanos.
Mas naquele mundo nada disso mais existia. Naquele mundo eu era “Alice no País das Maravilhas”. Grande, pequena... Entrava pelas portas minúsculas da minha mente corroída. Ó mente infernal! Tantas celas eu visualizei nela, tantos monstros carnívoros, tantas poesias inacabadas...
Viajei pela minha estrondosa mente a noite toda. Pude salvar as donzelas que tentavam se jogar dos precipícios, salvei as lolitas que se prendiam nos espelhos, desvendei as pistas dos demônios em couro preto que cantavam para as rainhas das estradas, paradas nos acostamentos dos meus sonhos mais antigos.
Eu voei, meus caros, eu voei. Assim como nos velhos tempos, nos tempos de criança. Senti aquela sensação única de ser infantil outra vez, de poder dizer a verdade ao invés das mentiras maldosas.
Flutuei nos devaneios de verão, me aconcheguei nos cantos gélidos do inverno, conheci novas paragens em cima de uma folha seca de outono e dormi aconchegada em margaridas, cravos e jasmins.
Sim, eu pude. Sim e como pude...

James D.

James D., discípulo de Charles B., O Ébrio, sempre desembarcava na estação e sentia que algo lhe faltava. Mas o que lhe faltava? Diriam os psicanalistas que sua compulsão desenfreada pelos cigarros conotaria claramente a falta do seio materno, substituído pelos seios de uma qualquer, sem amor, sem calor de mãe. Sempre embriagado, as máscaras lhe ficavam tão bem que parecia possuído. Inventava amores & histórias com cada uma das meretrizes da taberna que freqüentava para maquiar a sua dor carnívora & incansável. Por vezes, raras vezes, colocava-se a vomitar seus mais verdadeiros & rochosos sentimentos sob os seus colos já suados, desde que a quantidade de álcool fosse tão severamente alta que pudesse desmanchar suas muralhas tão bem feitas.
Suas antigas esposas assombravam-lhe a mente. Todas haviam o deixado pois não podiam amar um pobre coitado, alcoólatra, fracassado que não era capaz de satisfazer os menores de seus anseios materiais, nem a mais suave das pressões sociais que declinavam-se sob seus ombros cansados. Mas havia uma em especial, sua primeira esposa, seu primeiro e único amor: Gertrude, A Perversa. Gertrude o deixara depois de tê-lo atormentado por cinco longos anos com suas críticas mordazes & ferrenhas. James D. era um fantoche em suas mãos cheirosas. Fazia tudo o que ela queria. Cortara seus longos cabelos, aparava a barba minunciosamente a cada manhã, deixara a literatura, sua amante mais irresistível, e foi ter com um emprego penoso & massante.
Mesmo assim Gertrude não estava satisfeita. Dizem as más línguas que ela tinha um romance com o Luis, o Açougueiro. Como devem saber os açougueiros são os melhores amantes, assim como as enfermeiras & seus bustos fartos.

(Texto provavelmente sem fim)

revival

a partir desse post, vou postar alguns textos antigos que achei. interessante para confrontá-los com o estilo atual.

um beijo a todos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

John Lennon: a paixão que sobrevive

















Após 30 anos da morte de John Lennon, o líder dos Beatles continua fazendo parte da vida de Paulo e do filho Paulinho, integrante das bandas Mister Magoo e Power Trio


Filho do vendedor de bananas Osvaldo – dono da primeira fruteira da cidade, onde fica hoje a Nostra Casa – Paulo Dorvalino Franzmann odiava ser chamado de “bananeiro”. Chegava a fingir que não era com ele quando ouvia o apelido por aí. Até que depois de um grande sucesso de Jorge Ben, regravado pelos Incríveis, “Vendedor de Bananas” (Olha a banana / Olha o bananeiro / Eu trago bananas prá vender / Bananas de todas qualidades / Quem vai querer), Paulo e seus amigos da banda The Jokers resolveram adotar o nome Os Bananas.
“Bananeiro”, hoje com 59 anos, nascido em 26 de julho de 1951 em Chapecó, era guitarrista e vocalista da banda “rebelde” chapecoense de rock Os Bananas, surgida em 1967. “Aquilo que a gente não gostava quando éramos bem jovens, virou a nossa marca”, conta o roqueiro. A banda durou aproximadamente cinco anos. Costumavam fazer covers de bandas que gostavam, inclusive dos Beatles. Faziam show-bailes, tocando por cinco horas a fio. “Era para curtir e para dançar. Uma banda de baile, com repertório grande”, comenta o ex-integrante de Os Bananas, que chegou a gravar algumas fitas K7 na época.
“Um ser totalmente estranho”, influenciado pela Jovem Guarda, Paulo, um garoto de cabelos compridos e roupas extravagantes, alvo de discriminação, preconceito e até violência na Chapecó dos anos 60 e 70, foi uma das maiores inspirações do filho Paulo Ricardo, o Paulinho, integrante das bandas Mister Magoo e Power Trio, nascido dias antes da morte de John Lennon (Liverpool, 9 de outubro de 1940 — Nova Iorque, 8 de dezembro de 1980) em 18 de novembro de 1980. “A nossa banda acabou bem antes dele nascer. Por um tempo, houve um silêncio. O violão, até ele ter uns 14, 15 anos, ficou guardado. De repente, ele descobriu o violão. Foi até um motivo para eu buscar o instrumento de novo.”
Fãs inveterados dos Beatles, principalmente de John Lennon e Paul MCcArtney, Paulo e a esposa Beatriz, casados há 40 anos – na época, ela com 15, ele com 19 –, embalavam Paulinho e a filha Lilian Paula ao som dos meninos de Liverpool. Os dois não entendem o silêncio com que os filhos são criados pelos pais de hoje. “O vinil ficava rodando o dia inteiro, com eles pequenininhos”, diz Paulo. “O ninar era ao som do Rock and Roll”, complementa Beatriz, recordando do tempo em que estava grávida de Paulinho, quando costumava ouvir Paul MCcArtney. “Paulo até fazia serenata para mim com as músicas do John Lennon!”, prossegue a esposa. Se conheceram na boate do Chapecoense: ele tocando, ela admirando. “Ele tinha uma outra namorada, mas eu olhei, olhei e olhei e ele ficou comigo.”
Beatles, banda formada em 1960, foi uma verdadeira explosão, na definição de Paulo. “Imagine, a gente, longe, aqui no interior, a dificuldade que havia para conseguir um disco. Sorte que tínhamos amigos que traziam de fora. Não havia a facilidade da internet. Essa facilidade que tem agora, de chegar em frente ao computador e de baixar tudo o que quiser. Para tocarmos as músicas na banda, tínhamos muita dificuldade, porque precisávamos ouvi-las várias e várias vezes para tirarmos a letra. Não tinha letra impressa. Mas, como a gente era fã e gostava muito, valia o esforço. Passávamos o vinil para a fita K7. Repetíamos cem vezes para entender a letra direitinho.”
Quando o casal soube da morte de John Lennon, foi um impacto muito grande. “A maneira como ocorreu foi chocante. Ele era novo ainda (40 anos), e saber da forma como ele morreu, justamente por um fã, alguém que dizia adora-lo, foi muito forte.”
Após 30 anos da morte de John Lennon, que teria hoje 70 anos, o líder dos Beatles continua fazendo parte da vida de Paulo. “Lennon era o mais rebelde. As letras dele eram mais fortes, mais políticas. A própria presença dele era forte, com o cabelo longo mantido durante muitos anos. O Paul tinha e tem uma linha mais comportada.”
Para “Bananeiro”, “um garoto do interior”, os Beatles e John Lennon representaram uma espécie de descoberta. “Ninguém me falou deles. O meio de comunicação que tínhamos era o rádio AM. Aquilo bateu no ouvido e marcou. Havia muita dificuldade para conseguir as músicas, que chegavam depois de muito tempo em Chapecó. Hoje, toda essa moçada tem influência, nós não tínhamos essa raiz do rock.”
Os discos de Paulo e Beatriz agora estão com Paulinho – que foi representar a família roqueira no show do Beatle Paul recentemente. Mas nem por isso o pai deixa de ouvir os ídolos (e ídolos dos ídolos: Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard). Ouve no carro e baixa no computador suas músicas favoritas.
Quando morrer, Paulo quer como trilha sonora a música composta por Ben E. King, Jerry Leiber, Mike Stoller, “Stand By Me”, regravada pelo ídolo John Lennon. “É um som que vai ser preservado para sempre. Com 40, 50 anos da morte de Lennon, o som vai permanecer. Daqui 50 anos, ainda vão cantar e tocar Beatles e John Lennon.”

“When the night has come

And the land is dark

And the moon is the only light we'll see

No I won't be afraid, No I won't be afraid

Just as long as you stand, stand by me”


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mais longe do que a vista possa alcançar

Palhaça Barrica irá participar do II Encontro de Palhaças de Brasília entre os dias 9 e 19 de dezembro, na mesma semana em que é comemorado o Dia do Palhaço: 10 de dezembro

Reconhecida e feliz. É assim que a nossa querida Palhaça Barrica se sente por participar do II Encontro de Palhaças de Brasília, entre os dias 9 e 19 de dezembro. Será na UnB (Universidade de Brasília) e na sala Matins Pena, do Teatro Nacional Claudio Santoro, na mesma semana em que é comemorado o Dia do Palhaço: 10 de dezembro.
“Para mim, é uma grande alegria saber que a Barrica pode me levar para mais longe do que a minha vista possa alcançar”, comenta a palhaça. “Ir para Brasília apresentar a Barrica para outros públicos, conhecer outras palhaças, trocar estas ideias, é muito enriquecedor”.
Barrica conheceu as organizadoras do encontro no Rio de Janeiro, quando participou do “Esse monte de mulher palhaça” – o terceiro do mundo com foco nas mulheres palhaças. Ela é a única palhaça chapecoense a fazer parte do evento, realizado a cada dois anos, que tem ênfase na palhaçaria feminina. Entretanto, nos chamados Cabarés, espetáculos em que há vários números diferentes, haverá espaço para homens.
O intuito do encontro é descobrir, conhecer, reunir e divulgar a palhaçaria feminina. Nele, irão participar palhaças de todo o Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Santa Catarina) e também uma palhaça da França. Barrica se apresentará em um Cabaré, com um número de Sidney Magal; e no Restaurante da UnB, com o solo “Poráguabaixo”, criado e atuado por ela e co-dirigido pela atriz e diretora chapecoense Inajá Neckel. Haverá oficinas de palhaças, lançamento de livro, saídas de rua e fóruns de discussão sobre a arte da palhaçaria feminina.
“No Rio, no ano passado, se criou A GRUPA – Rede de Palhaçaria Feminina. Essa rede visa levantar questionamentos sobre a atuação da mulher palhaça, já que durante muitos anos, quem dominou a cena, o picadeiro, foi o homem palhaço. Agora, de uns anos para cá, este movimento tem crescido e ganhado espaço. Discutiremos sobre esses assuntos. Não será só palhaçadas”, brinca Michelle Silveira da Silva, quem está por trás da Missiê Barrica.
Recentemente, Michelle criou o blog “Palhaçaria Feminina” <http://mulherespalhacas.blogspot.com>. “Ele está sendo bem procurado. Já tem palhaças chegando de vários lugares do país. É uma forma de garimpar as palhaças que ficam atuando perdidas pelo país a fora, longe de nós. Eu adoraria poder um dia fazer em Chapecó um encontro desses”, sonha Michelle, que, com seu humor, quebra qualquer preconceito e discriminação.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Divagações sobre o fracasso ou a “vida real” dos reality shows

Somos todos fracassados, em maior ou menor grau. É desse princípio que parto. Numa dessas conversas de bar, ouvi dizer que fulana era fracassada. Pobre fulana, pensei. Poderiam estar falando de mim no mesmo tom. O conceito de fracasso expressado pelos caras do bar, consistia em alguns pontos principais: fracassado é quem vive com a própria mãe depois dos 20; fracassado é quem não “pega” ninguém; fracassado é quem não consegue emprego e fracassado é quem não se encaixa em um padrão de beleza. O esboço do dito monstro está em partes aí.
Mas vamos olhar para além das paredes sujas. Todos temos intentos que não alcançamos. Não conheço nenhuma criatura que tenha conseguido tudo e acho que nem vou conhecer. Quando temos uma coisa, não temos outra; quando estamos em um lugar, pensamos em estar em outro; quando estamos com alguém, pensamos em como seria se estivéssemos com outra pessoa ou gozando de total liberdade de escolha. E isso segue.
Só para constar minha indignação, viver com a mãe é muito melhor do que viver com um bando de vampiros que se dizem amigos; “pegar” alguém limita as possibilidades do ser humano, tão apto ao amor e aos sentimentos mais complexos, que vão além do mero instinto e dos processos de seleção natural, das aparências; emprego vai e vem e nem todos tem a sorte ou a necessidade de se encontrar com a rapidez de outros e também há quem ache e possa achar a vagabundagem mais atraente, o que também é compreensível; e padrão de beleza é horrendo, justamente por limitar, excluir a maioria.
Para aumentar a minha ira, que já estava em níveis extremos, ouço dizer que os reality shows são bons porque tratam da verdade. É o lance da vida como ela é, o lance da vida real. Pelo amor de Deus. Que vida real? Comer e beber do bom e do melhor por três meses em um casarão, ter direito a festas homéricas e suporte para quedas o tempo todo em desafios forjados, isso é a vida real? Artistas de merda cuidadosamente selecionados dentro de um padrão ridículo, são a vida real? Acordem, por favor. Não preciso dizer que na vida real pessoas passam fome, não têm casa e se quebra a cara valendo, sem almofada anti-impacto. Pessoas reais são imperfeitas. Se isso é vida real, não é a minha vida. Nem a da maioria dos brasileiros. Pensei que nunca precisaria dizer o que estou dizendo hoje, mas pelo visto a alienação impera e me obriga a falar o óbvio.
Perdi as estribeiras com essa história toda. Não tenho mais paciência para as pressões sociais, para o capitalismo, para o ocidente, para o século 21. Seres humanos desse espaço e desse tempo me assustam. Aqui, igualdade só existe na Coca-Cola. Vou explicar através de Andy Warhol, ícone da Pop Art. “O que este país tem de bom, é que a América estabeleceu uma tradição, segundo a qual os consumidores mais afortunados compram essencialmente as mesmas coisas que os pobres. Quando se está vendo televisão, bebe-se Coca-Cola; sabe-se que o presidente bebe Coke, Liz Taylor bebe Coke e, então, a pessoa pensa consigo mesma que também pode beber Coke. Nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar uma Coca-Cola melhor do que a que o mendigo está bebendo na esquina.”
Não há cansaço em tentar copiar o que vemos, feito cães em frente à padaria, de olho no frango? Achei que houvesse. Há em mim esse cansaço, essa confrontação enjoativa do ideal com o real, há em mim essa vontade de ser eu mesma e de mandar à merda quem não é capaz de admitir suas topadas com o fracasso. E vou: vão à merda.

dança do universo

abri a porta da rua. me deparei com a chuva molhando o jardim tão verde na luz da manhãquasetarde. na grama, novos habitantes me saudavam. tenros cogumelos brancos & lilases nasceram na madrugada chuvosa. na caixa do correio, a minha surpresa: o jornal úmido me esperava, contando as minhas & as nossas histórias. na noite anterior, eu era só cansaço. pensava na morte como solução para o marasmo e para a maldade, transvestida de boa moça. então pensei que se eu tirasse a minha vida naquela madrugada, mataria todas as outras madrugadas que poderiam chegar, tão melhores do que aquela. preferi o sono, essa quasemorte de todos os dias. eu, que não olho para as paredes do mundo; eu, que penetro sempre e toda na essência; eu, que me despedi das aparências há tantos anos, continuo viva. tola, me contento com o alvoroçar de pelos do meu cachorro no jardim de manhã cinzenta. sempre fui assim, amada. e sempre amei. a natureza é meu refúgio, é a obra mais perfeita que meus olhos captaram nas galerias do mundo. ontem conheci a dança do universo. eu era apenas uma noite vazia, mas a conheci. e ela pegou na minha mão e me rodopiou em um tango de piazzola. ontem eu beijei fundo o universo e sequer saí de casa.

“Mamãe não voltou do supermercado”

O livro desconfortante de Mário Bortolotto, “Mamãe não voltou do supermercado”, é meu escolhido dessa semana. Publicada pela Editora Alaúde, em 2006, a obra marca a estréia do autor de Londrina, Paraná. Bortolotto, através de seu livro, virou as costas para os clichês acadêmicos e deu um soco no estômago dos leitores. Olhou direto para a alucinação da rua, descrevendo a selvageria que habita nesse ambiente. Personagens que vivem em um meio em pleno contraste com o mundo do consumo vivenciado por outros.
A mãe de Caio sai para comprar açúcar e café no mercado da esquina e não volta mais, levando dois tiros na testa. Disso, surge o estopim do “passeio pelos infernos” de “Mamãe não voltou do supermercado”. Caio então se mune de um 38 e parte para a sua vingança, em uma verdadeira odisséia pelo submundo.
“Eu não gosto de rodoviárias. Não gosto de ônibus. Preferia um opala quatro portas, o banco de trás abarrotado de latinhas de cerveja, uma fitinha de Chuck Berry rolando e tava limpo. Sou um cara sem muitas aspirações, mas não gosto de ônibus. Os passageiros subiram. Percebi que também ia ter que fazer o mesmo. O meu banco era o último, perto do banheiro. Fui andando pelo corredor arrastando minha carcaça renitente e sacando as figuras. Todo mundo com cara de entediado.”
Diferente dos heróis antigos, Caio tem métodos nada louváveis, caracterizando o personagem mais como um anti-herói do que qualquer outra coisa, que deixa seu rastro de sangue por Londrina, Foz do Iguaçu, Ourinhos, Cuiabá e São Paulo. Apesar da semelhança com a realidade, se trata de uma obra ficcional.
O autor nasceu em 1962, em Londrina, mas mora atualmente em São Paulo. Seu estilo se assemelha ao de Charles Bukowski e Jack Kerouac, assim como os ambientes escolhidos, com a diferença de que são lugares familiares aos leitores brasileiros.
Mário Bortolotto é conhecido como ator e dramaturgo, tendo encenado e escrito quase 50 peças, entre elas “Homens, Santos e Desertores” e “Nossa Vida não Vale um Chevrolet”. Escreveu ainda o romance “Bagana na Chuva”, o livro de poemas “Para os Inocentes que Ficam em Casa” e o livro de textos jornalísticos “Gutemberg Blues”. É também vocalista e compositor da banda de jazz-blues “Tempo Instável”.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amar um jornalista é...

Não se importar em passar o Natal sem ele, o carnaval sem ele, o aniversário sem ele.

Ficar acordada até as cinco esperando ele chegar do pescoção.

Empurrar o carro velho dele que sempre quebra de madrugada.

Suportar os amigos dele que não param de falar de jornalismo na mesa do bar.

Tolerar as reclamações de salário ruim, pauta ruim, editor ruim.

Acompanhá-lo em trabalhos free lance no sábado à noite ou domingo bem cedo.

Ler as matérias horríveis dele e dizer que ficaram ótimas.

Passar o feriadão em Paranapiacaba, uma charmosa “vila inglesa”, enquanto suas amigas casadas com homens do mercado financeiro vão passar o feriadão em Londres.

Achar graça quando ele interrompe a transa para atender o pauteiro no celular.

Ouvir as histórias fantásticas da carreira dele quando vocês dois ficarem velhinhos sem dizer “querido, você já contou isso um milhão de vezes”.


{E aí, candidatos? Hahaha!}


(Do blog "Desilusões Perdidas" http://desilusoesperdidas.blogspot.com/)

Cine Sesc apresenta: “Edifício Master"
















A equipe bate na porta, pede licença e entra nos apartamentos, já com a câmera ligada

O Cine Sesc apresenta hoje (30), o filme “Edifício Master – Um filme sobre pessoas como você e eu”. Será no Sesc (Serviço Social do Comércio) Chapecó a partir das 20h. Produzido em 2002 pelo cineasta Eduardo Coutinho, o filme é um documentário, do gênero drama. É um filme livre para todos os públicos, que chega até o Sesc Chapecó através da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.
A Programadora Brasil, segundo o site do órgão, é um programa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, desenvolvido por meio da Cinemateca Brasileira e do CTAv (Centro Técnico do Audiovisual). Disponibiliza filmes e vídeos para pontos de exibição audiovisual de circuitos não-comerciais para promover o encontro do público com o cinema brasileiro. Ação para formar platéias, o pensamento crítico em torno da produção nacional, a Programadora Brasil representa a contribuição com a formação intelectual, social e cultural dos brasileiros.
No Sesc Chapecó, há dezenas de filmes provindos da Programadora Brasil, que traz filmes históricos, contemporâneos, muitos deles submetidos a um processo de tratamento. Filmes do melhor do cinema brasileiro, que são recuperados, passados para o DVD e exibidos gratuitamente ao público de todo o Brasil.
Cleber Bicigo, auxiliar da biblioteca do Sesc assistiu ao filme. “O edifício é antigo. Faz parte da mitologia urbana do Rio de Janeiro. Um edifício popular em um centro cultural e econômico. Um lugar historicamente privilegiado. Mas, ao mesmo tempo, o Edifício Master é um lugar à parte.”
Ele conta que o Edifício Master era conhecido pelas casas de massagem. “A promiscuidade, a prostituição eram muito grandes. Com o passar do tempo, com o trabalho dos síndicos, esse pessoal foi expulso. Depois disso, o Edifício Master se tornou um edifico residencial. O interessante é a abordagem atual do lugar, com a participação de pessoas de todas as procedências possíveis e imagináveis.”
A equipe bate na porta, pede licença e entra nos apartamentos, já com a câmera ligada. Conforme a recepção das pessoas, se dá ou não a entrevista. “Apartamentos pequenos que têm muito de clausura. São pessoas (homens, mulheres, de todas as idades) que vivem em uma megalópole, muitas delas sozinhas, numa espécie de confinamento, como se não conseguissem se inserir naquele meio.”

SINOPSE

Durante sete dias, uma equipe de cinema filmou o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana, a um quarteirão da praia. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. O diretor Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas.

Don´t Smoke In Bed


Por Guido Brasil

Manhã cinzenta num domingo de maio. Entre quatro paredes de um quarto onde tudo deveria ser perfeito, chorei. Com cuidado para não acordar você, sem conseguir entender os motivos daquela solidão, tentei me mexer na sua cama. Despedi-me de sonhos antigos. Suspirei e sufoquei qualquer som vermelho e, pela última vez, senti o sabor de um desejo. Então encolhi meu corpo. Abracei minhas pernas. Estava frio.
O mundo em desalinho e alguém tentando, de alguma forma possível, acertar os passos, sem conhecer os passos. Uma batalha interna. Um abismo. Eternamente na contramão.
Levantei da cama, vesti o seu casaco, sentei na cadeira. Olhei para você e vi o seu sono tranquilo. Pensei em gritar seu nome. Não gritei. Cruzei as pernas, acendi um cigarro, olhei pela janela e encontrei a cidade despertando. Os vultos nas outras janelas. Os carros na rua lá embaixo. Lembrei uma canção antiga, uma canção que eu amava, uma canção antes de você. Procurei pelos versos já esquecidos. Novamente senti dor. Não consegui levantar, catar as minhas coisas e sumir. Pela milésima vez, eu não consegui.
O show, eu sei, pode se transformar no circo dos horrores. Mas, enquanto alguma coisa aqui dentro durar ou eu não encontrar a minha sentença, você sempre terá um café da manhã aos domingos. Bom dia.

(Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26)

tente


tentar não é conseguir, baby. mas sempre se tenta.

admita a sua ignorância enquanto há tempo
















quanto maior a ênfase e o escárnio que se fala algo, mais se faz temer. quem fala com inflamação quer meter medo e mostrar que sabe e persuadir o outro com o que acha que sabe. mas quer saber? ninguém sabe porra nenhuma desse mundo. admita a sua ignorância enquanto há tempo.

não tenho mais idade para bancar deus

existe uma diferença básica entre eu e outros do meu tempo: o egocentrismo. me disseram semana passada, que o que me sobra em percepção, me falta em egocentrismo. me falta estima por mim. não saio por aí vomitando minhas verdades, esfregando elas nas caras que encontro. não as escancaro como se elas fossem as únicas. me falta a propensão para o embate. me falta a arrogância e a prepotência de outros do meu tempo. não olho para o outro, antes de olhar para mim, em uma espécie de egocentrismo invertido. minha seta está apontada para dentro. me falta a predisposição ao discurso. claro, nem sempre fui assim. costumava encher a boca de verdades e proliferá-las aos sete ventos. mas, sabe, nessas noites quentes e embebidas de chuva, no meu quarto com adoniran barbosa, cigarros e o ventilador agitando ideias, só o que vem de mim me interessa, no sentido de me conhecer, me descobrir, me desvendar. se precisar machucar, machuco a mim. coisa de escorpiana, quem sabe. sei que vejo meus feitos tortos contrapondo os retos e noto que quem deve ser alvo das setas, sou eu. percebo que é tão fácil apontar a seta sangrenta no alvo vizinho, tão fácil. rir com escárnio da cara alheia. por isso, faço o caminho contrário. me chamem de tola, mas vejo que todos nós, que nos colocamos nessa grande obra de arte da vida, tentamos fazer o melhor. não acho digno julgar o outro, como se eu fosse divindade encarnada. é claro que penso, falo sozinha ou desabafo os horrores que vejo, mas tento impedir que os horrores cheguem aos ouvidos de quem tenta, como eu, passar pelo mundo e deixar algo. não me digam que não há intento ao escrever, ao pintar, ao cantar. sempre há intento. estamos longe da reta ação. estamos todos incluídos em cidades doentes. até podemos tentar brincar de divindade, mas somos primitivos e buscamos, sim, algum reconhecimento. não tenho mais idade para bancar deus e quando cavalgo no vento de mim, olho para dentro o tempo todo. enquanto cavalgo e penso e escrevo sem pensar, meu destino é in. estou cravada no meu ritmo, tento acompanha-lo, faze-lo chegar ao ápice de tudo. quanto aos outros, dou a eles o que querem. se querem a minha morte, minha morte aparente eu dou. mas eu renasço, baby, renasço em mim a cada nova manhã. e só estou começando. ainda vou incomodar e muito, apenas por existir e respirar e cavalgar para dentro. não li mil livros, não sou historiadora, filósofa, psicóloga ou jornalista. sou um ser humano como qualquer outro, numa viagem louca sem roteiro. se incomodo, é uma pena. sou melhor como amante do que como combatente. dou a minha indiferença (sem) querer. tento encontrar uma compreensão que se eleva ao meio termo. não andar mais nos extremos, do amor e do ódio. o extremo é burro. ouço o chamado da vida, que é maior do que todos os métodos, do que todos os conceitos. um chamado que ouço e sigo só, para santo não entediar ou provocar ira. viajo sozinha porque a paisagem me enche os olhos e me cala. a vida é maior do que as palavras, do que a linguagem. desde pequena, duvidam que sou eu mesma quem escreve tais linhas. nunca tentei provar, apenas continuei escrevendo. mais do que as minhas palavras, é o meu silêncio. e o silêncio é sempre maior. e quanto mais escrevo e calo, mais machuco sem querer. por que? pergunte aos atiradores de seta o motivo do ódio e da desconfiança. estou vivendo a minha viagem há 27 anos, só dela eu sei. pergunte aos letrados, historiadores, filósofos, psicólogos, psicanalistas, jornalistas, escritores e poetas do meu tempo, o motivo de eu incomodar apenas por ser eu. uma criatura ignorante tateando o mundo com dedos em ferida viva, vestida de pele, tecido encarnado. pergunte a eles o motivo. aos sábios magoados, aos intelectuais, aos budas e cristos. por que alguém, que nem coragem tem para publicar um livro, pode ser tão temido e odiado? sem falar, já alvoroço as mentes. falando, então, deverei ser morta no primeiro verso. então, que seja. um brinde à minha perdição e morte. um brinde à mim, que fiz jazigo nas telas brancas da modernidade. o mundo todo pode pisotear o que sou, mas ainda assim serei eu. de mim, ninguém me tira.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dos diários de Anaïs Nin


Um encontro que a levaria para a psicanálise. Assim foi a conjunção da escritora Anaïs Nin (1903-1977) com o escritor Henry Miller e sua mulher June. Henry & June é parte dos diários não-expurgados de Anaïs Nin. Considerado o melhor livro da autora (melhor ainda do que Delta de Vênus e Uma espiã na casa do amor), foi lançado originalmente após a sua morte, no ano de 1980.
Henry Miller, que escrevia Trópico de Câncer, foi o responsável por um certo florescer sexual de Anaïs, casada com o banqueiro Hugh Guiler (Hugo). O relato apresenta um período intenso, do final do ano de 1931 ao final de 1932. Tempo em que a escritora se manteve em Paris e se apaixonou pela beleza de June, além de é claro, se encantar pela escrita e pela rudeza de Henry. Desse affair, surge a liberação não só sexual como moral da autora.
Um livro em que não se distingue realidade de ficção, carregado de um texto forte que caracterizou Nin. “Fiquei assombrada. Lembrei-lhe de como as primeiras palavras que lhe escrevi depois de nosso encontro quase foram: ‘A montanha de palavras se rachou, a literatura caiu por terra’. Quis dizer que os verdadeiros sentimentos tinham começado – e que o intenso sensualismo da escrita dele foi uma coisa, e a nossa sensualidade juntos foi outra, uma coisa verdadeira.”
Em 1990, Henry & June foi adaptado para o cinema. No filme, Maria de Medeiros interpreta Anaïs e Uma Thurman faz o papel de June.
Criadora da frase “a vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo”, Anaïs Nin mostrou que a vida pode ser bem mais do que nosso contexto cultural impõe. Nin é conhecida como a precursora das lutas pela emancipação sexual da mulher. Nascida em 21 de fevereiro de 1903, em Neuilly, próximo a Paris, Anaïs veio de uma união no mínimo interessante: seu pai, Joaquín Nin, foi pianista e compositor espanhol e sua mãe, uma dançarina franco-dinamarquesa.
Foi amiga de várias figuras célebres, entre elas D. H. Lawrence, André Breton e Antonin Artaud. Anaïs morreu em 14 de janeiro de 1977, em Los Angeles, no solo norte-americano, onde muitos anos antes iniciou o famoso diário, que ao final de sua vida atingiu dezenas de volumes.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

27

minha mão está seca. sabia que esse dia iria chegar. ela não tece mais, vê? ela rasga espelhos, ela torce imagens, mas ela não tece. quando ouço billie holiday, a diva do jazz, de dentro do carro, e vejo aqueles botecos sobreviventes noturnos, eu já não abro meus olhos com encanto. vê, meus olhos não tecem mais. e quando vejo um ser que me faria bater mais forte o peito, eu logo esqueço, pois, vê, meu peito não tece mais. desde os malditos 27 feitos, desde o maldito livro impresso, eu não teço, apenas tateio a dita nova fase. eu perdi, eu morri, vocês estão certos. vocês, montados nessa arrogância destrutiva, estão certos. cavei minha cova das letras. vê, aqui jaz a sombra pútrida do que fui. sente, o cheiro de coisa velha e morta invade o ar. não, não. não escrevo mais. não, não. não vejo mais. não, não. não me apaixono mais. centaura alada, sagitário minando o mapa, os planetas, o descendente filosófico me trouxe até aqui. mas vê, ele não quer mais imperar. sinto a necessidade de comunicar, mas comunicar o que? os gêmeos ascendem e requerem as palavras, mas eu não as tenho para dar. não sou como vocês, que falam sem saber o motivo. só falo o que a psiquê me diz, o que meu corpo tem de pérolas do espírito, só falo dos mitos manifestos, das musas que carrego e atraio. mas agora, agora tudo é passado. meu eu-divino espera o caminhante que me trará uma nova história para morar no peito, nos dedos e nos olhos. mas vê, ele tarda a chegar. e eu nunca fui tudo aquilo e nunca serei. serei apenas eu, embriagada de eus. para sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O amor é uma arte


O livro pode ser antigo, mas é atemporal. A edição que tenho em mãos é do ano de 1971, publicada pela Editora Itatiaia, mas o li como se tivesse sido lançado ontem, afinal, trata do amor – esse sentimento universal que vai além dos vincos das datas. “A Arte de Amar” traz o sentimento esmiuçado pelo raciocínio privilegiado do psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, Erich Fromm (1900-1980).
Ele acredita que dedicamos tempo demais tentando ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o amor é visto como um luxo, pois “só” traz proveito à alma. E diz mais: se um músico, médico ou carpinteiro precisa aprender a arte da música, a arte médica ou a arte da carpintaria antes de exercer sua função, porque, antes de tudo, não aprendemos a amar, já que todos nós estamos sujeitos a dar e receber amor? Acreditamos que já nascemos prontos nesse aspecto, mas Fromm mostra que nos falta muito discernimento sobre o que é o amor.
Nossa tendência é suprir necessidades: a necessidade de superar a separação, de deixar a prisão em que se está só. Chegamos a ver o outro como mercadoria. “Assim, duas pessoas se apaixonam quando sentem haver encontrado o melhor objeto disponível no mercado, considerando as limitações de seus próprios valores cambiais.”
Em uma de suas passagens, o autor descreve com precisão o que acontece quando julgamos amar alguém. “Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos somos, subitamente deixam ruir a parede que as separa e se sentem próximas, se sentem uma só, esse momento de unidade é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida. (...) Contudo, tal tipo de amor, por sua própria natureza, não é duradouro.”
Fromm aponta que após as duas pessoas se tornarem mutuamente conhecidas, a intimidade perde o caráter miraculoso, o que mata a excitação inicial. A “loucura” da primeira fase dos relacionamentos, é espelho de uma grande solidão anterior. No frenesi de ansiedade causada pela separação, do vazio que sentimos desde o nascimento, buscamos a chamada “metade”, como se pudéssemos encontrar no outro tudo o que nos faltava, o que gera ainda mais ansiedade e frustração.
Ressalta ainda que a procura pelo orgasmo reveste-se de uma função semelhante ao alcoolismo e do vício em drogas. “Torna-se uma tentativa desesperada para fugir da ansiedade engendrada pela separação”. Dessa forma, Fromm observa que “o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sobre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.”

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Os Amantes do Café Flore


Sorbonne, Paris, 1929. Simone de Beauvoir se apaixona pelo carismático jovem gênio, um rebelde contra os valores burgueses: Jean Paul-Sartre. Juntos, eles embarcam numa viagem erótica e emocional. Depois de vinte anos na profunda perversão, ela encontra forças para reivindicar sua própria identidade e fama. Em uma viagem pela América, ela conhece Nelson Algren, futuro vencedor do prêmio Pulitzer, e descobre uma nova forma de viver a sexualidade. Depois de se apaixonar, ela escreve seu famoso livro O Segundo Sexo. Ao retornar a Paris, Simone se sente dividida: sem Nelson, sua vida fica vazia, e sem Sartre, sem significado

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