
(jack kerouac em “on the road”)
A primeira vez que tentei conversar com ele, Osmar Sebenello não estava em sua caminhonete, onde mora, estacionada no mais famoso posto de gasolina da cidade, mas sim internado no hospital em coma alcoólico, devido às doses extras de sua mais fiel companheira, a maldita cachaça. Muitas tentativas vieram depois, porém, só encontrava mesmo os chapas nos arredores do posto, no boulevard, que não tinham notícias de Diabo Loiro, assim como os frentistas e demais funcionários do local, que concordavam em uma coisa: ia ser difícil o cara sair vivo dessa.
Mas eis que no dia das eleições municipais o encontro pela manhã, limpando a cagada feita pela burguesia interiorana na tarde anterior, em uma carreata homérica, regada a vales-gasolina que motivaram fiscais da Polícia Federal a fechar, por alguns dias, o tal posto – point de encontro grotesco dos filhinhos de papai e mamãe, que enchem a pança com long necks nos domingos à noite, ouvindo os seus tunti-tuntis, pancadões e as mais bizarras composições de um novo estilo chamado sertanejo universitário.
Como naquele dia eu não poderia entrevista-lo, já que me encarreguei de acompanhar um dos candidatos à majoritária, por sinal o vencedor, tive que contar com a sorte. Depois disso, tentei encontrar Sebenello novamente, mas o destino não quis assim. Até que, quando não estava procurando, dei de cara com El Diablo Rubio, a caminho da Fruteira Vida Nova, vulgo Bar do Alemão, uma bodega localizada na Rua Independência. Ele disse que não poderia dar entrevista naquela hora, pois não estava com os trajes adequados, então marcamos de nos encontrar “em sua casa” dali há dois dias. Ganho um belo bolo. Como não encontro Osmar no posto de gasolina, resolvo então procura-lo no bar.
Na Fruteira Vida Nova
Minha chegada foi como uma cena de filme pobre. Com mambos & merengues ao fundo, vindos da antiga televisão a cores, botei o pé na bendita bodega. Fazia um calor dos infernos, eu não conhecia ninguém e, sem demoras, lancei o meu olhar suado em direção à fonte arredia que, de pernas cruzadas, bebia um cálice da branquinha. A essas alturas, os donos do bar e os fregueses, antes falantes, estavam mudos, tentando entender o que aquela moça fazia por lá. Além da dona, eu era o único exemplar da classe feminina no bar, e como a ela, também estava a trabalho.
Diabo Loiro tremia. Não queria falar nada depois da frase fatídica: “agora não posso, tô aqui conversando com o meu amigo”. Depois de poucos segundos, percebo que dali o homem não sairia, então me pus a sentar ao lado dele e a pedir uma cerveja. Só assim Diabo Loiro começou a parar de tremer e cortar o ar com a fala semi-embargada. Observo que ele amassa uma embalagem do cigarro que acabou e então ofereço um dos meus mentolados de dentro da caixa metálica. “Frescura”, ele deve ter pensado, “mas que seja”.
Não é de hoje que Sebenello é assediado a dar entrevistas e isso ele já deixou claro desde o início. Citou até alguns nomes de jornalistas que tentaram a façanha, sem sucesso. Mas o que eles não sabiam é que o cara não fala sem a cachaça por perto, coisa que fui saber pela boca de um amigo. Compreendi que com o gravador o homem travaria, então contei com a minha memória, não tão boa como antes da universidade. Tinha milhares de perguntas, mas não poderia metralhá-lo sem antes apresentar-lhe nuances da minha árvore genealógica, costume entre os viventes desses recantos, e sem falar de minhas tragédias pessoais. Assim, ele retribuiu:
O Diabo Loiro
Nascido em Encantado (RS), Osmar Sebenello, aos 62 anos, veio para Xanxerê na década de 1950, indo morar no interior do município, na localidade de Barro Preto. Aqui, ele viu de tudo, e sua cabeça é um grisalho baú de histórias, cheio de personagens inusitados que habitavam essas paragens em décadas anteriores. Entre eles o lendário jagunço, Raul Teixeira, “o Robin Hood do Velho Oeste”, seu ex-vizinho.
"ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. o que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja."
(clarice lispector)
dia desses me dei conta de que sou a única repórter mulher de jornal impresso da cidade, a única zineira e também a única fazedora de curta-metragens que conheço. estranho. para onde será que foram todas aquelas aspirantes? será que sou a única pessoa que seguiu os princípios dos tempos de ginásio? tive notícias de algumas dessas senhoritas. muitas delas se tornaram mulheres parideiras, estão tratando de bacurizinhos ranhentos e do marido tomador de cerveja nos sofás de domingo à tarde.
se lamento? a minha vida ou a delas? não. porém, fico surpresa como não podia imaginar, no auge dos meus 13 anos, que me tornaria uma pessoa tão solitária com o passar do tempo. quanto mais me apaixonava pelas artes, a literatura principalmente – sim, porque todo jornalista que se preze sonha em ser romancista –, mais longe dos prazeres mundanos me punha.
se a literatura rasga mundos internos, rumando novas paragens, ela também nos aparta do lado externo da vida. não que eu saiba escrever ou que conheça tudo o que acho que deveria. não. só a amo simplesmente. tenho nojo das pessoas. que pena. gostaria de poder amá-las e de viver ao lado delas na paz divina prometida do amor. tenho asco, fúria, ódio e rancor em doces doses hipocondríacas. sou, finalmente, incapaz de conviver com outro ser, pois já me tomo paciência demais.
Ela chega de passo e voz firme, não chorava e não se arrependeria. Na TV, um comercial sobre a dengue, epidemia nacional. Do lado de fora da tela, outra epidemia que não escolhe idade, classe social, etnia, muito menos hora ou local. Começou a contar a sua história à senhora que estava do outro lado da mesa, que ouvia a moça em meio às batidas velozes e pesadas no teclado do computador, vício provavelmente adquirido da máquina de escrever.
Dona Lurdes Ramos* registrava algo do tipo: Valquíria dos Santos, 22 anos, solteira, vítima de violência doméstica na tarde do dia 16 de agosto de 2008, pelo namorado, Cleiton Oliveira, 23 anos... Não que o rapaz houvesse se atrevido a machucar fisicamente a namorada, com a qual morava junto há dois anos, no porão da casa dos pais dela. A acusação era de violência psicológica o que, nas palavras de Valquíria, “dói mais do que um tapa na cara”.
Ainda assim possuía sangue nas unhas dos dedos das mãos, observei, fato que logo foi levantado por Dona Lurdes. “Ah, isso eu acho que foi na hora em que ele me empurrou contra o sofá e eu me defendi, qualquer animal se defenderia”, argumenta Valquíria, com uma naturalidade impressionante, complementando que arranhou o rosto do amado com as unhas longas e bem feitas.
Com as mesmas unhas, Valquíria apontava para o calendário: “Eu fiquei trancafiada dentro de casa das 13h30min do dia 12 de janeiro até às 18 horas do dia 12 de março, quando ele voltou da viagem que fez para o Mato Grosso. Não saí para nada e a minha sogra teve a coragem de dizer que eu estava batendo perna por aí. Ah, se eu saí foi para ver do tratamento da fimose dele, coisa que a mãezinha não resolveu quando ele era pequeno”, explicava enfática, ignorando o seu direito básico de ir e vir por alguma crença obscura imposta por familiares ou sabe-se lá quem.
Óbvio que ela deveria provocar ciúmes. Uma menina linda, cabelos pintados de vermelho, corpo bem delineado, assim como seus olhos verdes, pintados com o rímel pago pelos pais ou pelo quase esposo, como as roupas e tênis de marca e piercings, já que estava desempregada, uma vez que deixara o antigo emprego de secretária em uma frota de caminhões devido ao falatório que este poderia provocar. “Só de imaginar o que minha sogra falaria se soubesse do meu emprego, eu já me apavoro”, contava a moça, temerosa porque o serviço obrigava a manter contato direto com vários homens.
Independente do que a aparência dela poderia provocar, seus direitos são bem claros em leis como a da Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto do ano de 2006, mencionada por Dona Lurdes, que tentava explicar para a garota que existe vida fora de um relacionamento doentio, assim como existiu para a própria Maria da Penha Maia. Ela foi agredida pelo esposo durante seis anos que, por fim, conseguiu fim encerrá-la numa cadeira de rodas, mas que não pôde impedi-la de lutar pela instituição da Lei e ainda colocá-lo na prisão, em regime fechado.
Valquíria, mesmo sem saber ao certo da Lei, se apoiava nela, a mesma Lei que homenageia Maria (dando suporte a tantas outras Marias), e a utilizava para dar o chamado “sustinho” no namorado, intenção, segundo Dona Lurdes, corriqueira na delegacia de Xanxerê (SC). Se quisesse, Valquíria poderia mandar Cleiton para a cadeia, fazer com que ao menos pagasse cestas básicas ou oferecesse serviço comunitário. Mas não, um “sustinho” já lhe era suficiente, pelo menos por enquanto.
Quando penso que estava tudo encerrado (agressões psicológicas, calendários e seus confinamentos, Marias da Penha e sustinhos) vejo de relance um rapaz, mas não dou muita atenção. Me despeço e saio da delegacia. Lá fora, ninguém mais, ninguém menos que o pai de Cleiton, que desandou a falar sobre o caso de amor e ódio entre Valquíria e o seu filho.
Sua versão era a mais oposta possível. Dizia que a moça era “barra pesada”, que o seu filho não podia ir até a esquina que ela “armava o barraco”, que já tinha até ameaçado Cleiton com uma faca. “Puro ciúmes”, dispara o pai. “Ela tem ciúmes da sogra”, completa. Como se não bastasse, após cinco minutos de um monólogo desesperado do pai, aparece Cleiton para se juntar a nós. Rosto cortado, tom resignado, dizia que o melhor era deixar da moça porque, do jeito que ela reagia, logo ele não iria agüentar e seria capaz de bater nela, como ela costumava fazer com ele. Coisa, que se ele o fizesse, traçaria um destino mais do que certo: a cadeia, lugar em que homem que bate em mulher não é bem-vindo, diria Dona Lurdes.
* Foram usados pseudônimos pois as fontes não quiseram divulgar os nomes verdadeiros.
(Publicado no Folha Regional em 13, 14 e 15 de setembro de 2008)