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domingo, 14 de setembro de 2008

Torto & Direito



Tal como Alice, sinto-me grande demais em uma casa pequena, a demolir estruturas e a apavorar vizinhos. Não vejo o mundo, pelo menos o meu, dividido em dois pólos tão distintos (esquerda e direita) a ponto de posicionar-me inteira. Em mim, há de haver um girondino e um jacobino, além de milhares de outros personagens opostos a brigar. Sou girondina de família e jacobina de estrada, pois, cansada de carregar a árvore genealógica droite nas costas, decidi livrar-me dela, mudar de cidade e adotar pseudônimos.
Ainda que temporariamente, fui gauche na vida e aliei-me sem contratos a outros supostos gauches como eu. Mas mesmo sentados na mesma mesa, tomando do mesmo cálice e discutindo a mesma literatura, vi que haviam diferenças cruéis entre nós e por vezes preferia o silêncio a disputar um canto no falatório intermitente de arroubos intelectuais, movidos por mera vaidade.
Depois de algum tempo, voltei à casa abandonada onde estou até hoje, dormindo burguesa, confortada em meio a lençóis girondinos e bebendo do vinho inimigo, a observar as bandeiras enumeradas a balançarem no ar e a gravar com os olhos placas de 1,99, tentando compreender os comentários dos moços e moças do tempo de cada esquina.
Meu olhar é distorcido, vejo através de óculos de grau comprados na melhor ótica da cidade, porque me disseram que eu precisava deles; assisto O Pica-Pau na TV de plasma, tela LCD; trabalho no jornal de direita, da cidade de direita, de ruas de mão direita; estudo na mais cara universidade do Velho Oeste e entro todos os dias na pequena nave espacial mais jeitosinha do sul do mundo, onde costumo ouvir conversas inteligentíssimas e empolgantes a respeito de calças jeans de R$ 500, número 36 ou 38.
Porém, tento manter-me em minha bolha, apesar da levé en masse endoidecida, tentando caçar-me desde os meus 13 anos. Como poderiam eles compreender o porquê daquela menina trilhar teimosa as paragens mais impossíveis, jamais trilhadas, ou vistas por eles de longe, do alto de sua pressa atrás de dinheiro? Não sou mais a mesma, eu bem sei, hoje ouço Replicantes no meu computador de grandes memórias e faço fanzines de CorelDRAW, mas ainda assim sou um alienígena verde que vive no porão de casa e é mantido pelos pais. Liberté, Egalité, Fraternité! Aos 6 anos conheci Beatles; aos 7, Elvis Presley; aos 13 lia Nietzsche, sentindo o cheiro das canetas sabor morango das coleguinhas a assinalar a opção correta dos testes da Capricho. Não quero parecer arrogante, mas queria realmente alguém para conversar. Hoje, aos 24, hoje tudo o que sou é até moda, mas continuo sem ter com quer conversar. Desisti das pessoas e denominações, já sei o que é “certo” e “errado”, “torto” e “direito”, “branco” e “negro” e “bom” ou “ruim”. Com o peso de décadas não-lineares nos ombros, carregados de Jazz, Blues e Rock n’Roll, Beats Generations e Flowers Powers, Brigittes Bardots e Godards, Tropicálias, Secos & Molhados e Pornôs Chanchadas, Punk, Glam Rock e Pós Punk, Baladinhas dos Scopions e Giseles Bündchens, sinto-me com 60 anos e pronta para morrer.

Um comentário:

Herman G. Silvani disse...

muito profundo e ácido este texto teu.. digno de ser lido outras vezes.. me vejo em vários momentos nele, em outros, simplesmente vejo outros e vejo você.. grande!!
saudações e saudades!