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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quando a palavra é “adeus!”

Quem dera fosse apenas mais uma menina no sol laranja intenso

Patrícia, para mim, era só uma menina que lia um livro no sol laranja intenso da manhã daquela quarta-feira no Esplanada. Roupas coloridas, sofá axadrezado de um vermelho desbotado, fazendo companhia para a priminha menor. Quem dera fosse apenas mais uma menina no sol laranja intenso.

Ela é neta de Iracema Cardoso, 63 anos, que criou 14 filhos e ficou viúva com 7 pequenos. “Eu trabalhava o dia inteiro, grávida, menina do céu, quando era de madrugada os filhos choravam no canto. Mas nenhum morreu, graças a Deus. E nem eu morri. Trabalhei na roça. Ganhava R$ 12 por dia para sustentar os meus filhos. Eu venci.” Trabalha até hoje, por dia, em empreitadas que encontra pelo caminho.

A vó da menina de poucas palavras, conta que ela tem oito anos agora. Quando tinha apenas oito dias, foi abandonada pela mãe, que tinha 12. “Ela disse que não gostaria de ter filhos, porque era muito nova. Disse que ganhava mais fazendo programa do que cuidando dos filhos.” Saiu pelo mundo, sem oferecer nem mesmo o peito para a criança.

Iracema ia no Posto de Saúde levar Patrícia e era conhecida como “Mamãe Coruja” pelas enfermeiras. A menina agora é a única companhia da vó, ajuda no que pode e considera Iracema a sua mãe verdadeira. “Ela fala: ‘eu nasci da atua barriga, mãe, não da barriga dela, porque ela não me deu de mamar.’”

Patrícia é uma benção para a vó, que não se arrepende de ter cuidado dela. “Se a gente vai desacorçoar, o bicho pega”, conta Iracema, hoje, praticante do ofício de reciclar papel. Ganha apenas R$ 200 por mês, não conseguiu se aposentar, pois ainda espera a resposta da chamada Justiça.

2 comentários:

Esconderijo do Observador disse...

Quando a palavra é adeus devemos retribuir com um "aodiabo"! Mas no fundo todo abandonado sabe que era melhor não ter nascido. Nao sei como me vingar.
Um beijo do observador.

Vinícius M. Caldart disse...

Bonita a relação da neta com a vó, mas seria ainda mais bonita ainda se fosse por outro motivo que não o abandono...