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domingo, 15 de agosto de 2010

um pouco mais de mim










tenho trabalhado tanto, que esqueci de falar de mim. para quem não me conhece ainda lá vai: eu troquei um namorado por um cachorro, uma mãe, alguns amigos e um punhado de livros. claro, omito os dados sórdidos. se fiz bem? fiz. sou uma pessoa ocupada, felizmente ocupada, deixei mil histórias no caminho e passo cada noite dos últimos quatro anos da minha vida dormindo só. na maioria das vezes é bom. noutras, nem pensar. me apaixono todo dia e sim, é sempre a pessoa errada. sou exigente, assexuada e só me encanto pela ideia das coisas. o fato mesmo não me move. não me interesso por seres humanos reais, nem homens, nem mulheres. me interesso pela poesia que crio deles, bem na frente de seus rostos e corpos e cotidianos. talvez eu morra só, talvez eu morra logo. meus sonhos são todos sonhos que, se viessem para o campo do real, não durariam uma semana. tenho conquistado alguns leitores, um a um. quem sabe um dia escrevo um livro. tenho andado cansada. meu corpo está cansado, minhas veias estão cansadas de carregar tanta poesia, minha alma está cansada, avessa, envergada. digo que sou tímida, mas sou mesmo antipática, arrogante. muita gente me odeia, me ama ou me ignora. prefere rejeitar o que não conhece ou não consegue entender. eu não me faço entender. quando ando pelas ruas, não olho nos olhos de horizonte nenhum. olho para o chão; olho para o céu. meus extremos, meus limites, meu radicalismo burro. me atraio pelos perfumes, pelos contornos macios, pelas palavras profundas. não faço parte da massa. não tenho time de futebol, passo horas no silêncio e no escuro e minha maior diversão é poder dormir. se sou chata? sem dúvidas. monossilábica, assimétrica, rancorosa e idosa. já me chamam de senhora. nada no mundo me faz acordar cedo. nada. mas tenho feito um sacrifício. às vezes, minha vontade é pegar as malas e ir pra rua, fugir de casa, como na infância. saia com minha mochila e minha fita k7 dos beatles e ia até a esquina. voltava, patética. assim como hoje. minha charleville que o diga. em cada minuto dessa vida, se tu pudesse entrar na minha cabeça, viria uma compreensão louca do universo. me penso o tempo todo, por isso não sou deusa. trocaria toda a consciência por alguns minutos de paz. não posso. meu passado é vasto, meus dias são vastos. não faço o tipo comum. se pudesse me ver, assim, simplesmente de fora, não imaginaria o mundo que carrego aqui dentro. às vezes pareço tão simples, tão descuidada, tão invisível. não se engane: é de propósito. me faço camaleão e adoro isso. me transformo sempre que assim eu quiser. do bege, faço vermelho paixão e assim me faço vista. tenho me sentido feliz. impossível? nem tanto. um dia desses a gente colhe o que planta. sábio preceito. um dia desses a gente se encontra e faz do corcel um cadillac, um descampado em lua terna, uma estrada de chão em deserto do méxico.

2 comentários:

On The Rocks disse...

eu sou seu leitor e admirador.

bj

Naiana Cescon Lemes disse...

Que puta descrição. Me identifiquei em vários pontos.