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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sob o comando de uma mulher, dez funcionários e uma ‘bodega’

“Porque, mulher nova, há mais de 30 anos, nos anos 70, cuidar de bodega... Imagine! Eu sofri, menina”

Logo ao entrar, sinto o cheiro de incenso no ambiente acolhedor. Fotos da infância, “de quando era moça”, atrás do balcão em diferentes épocas, espalhadas pelas paredes do bar, que tem desde que nasceu. Dorcelina Carolina Pignat, 55 anos, é a dona do Bar Snooker Dulce. Ela me recebe calorosa, como uma velha amiga.
A bodega era do pai, Ivalino, falecido há mais de 30 anos, por conta de um câncer fulminante. Na época, após ter se separado, com a filha Tatiana ainda pequena, Dulce, como é conhecida desde menina, tomou conta do negócio. “Fiz um acordo com a minha mãe: Eu cuidaria da bodega e ela da Tati.”
Tinha largado a faculdade de Pedagogia e o emprego em uma farmácia. Tentou se transformar na dona do lar, mas o plano não deu certo. “Não cruza ficar em casa. Fiquei pouco tempo, uns três meses no máximo. Não deu. Não tinha dinheiro nem para comer, como é que eu iria ficar?”
Dulce, do latim “doce, tenra, meiga”, nasceu em seis de julho de 1955, em Caibi (SC). Veio para Chapecó quando era novinha. O bar era simples e ocupava o mesmo terreno. “Uma casinha verde, com uma mesa de sinuca e venda de cachaça. Se vendia cem garrafões de cachaça por mês!”
Sacrifícios não faltaram no caminho, nem sempre tão doce. Quinze a dezoito horas de trabalho a esperavam todos os dias. Quando pequena, Tati, muitas vezes dormia debaixo do balcão do bar. Era o jeito de mãe e filha ficarem mais próximas. “Trabalhei, abaixei a cabeça e fui à luta.” Luta, que no caso de Dulce, não é mera figura de linguagem. “Porque, mulher nova, há mais de 30 anos, nos anos 70, cuidar de bodega... Imagine! Eu sofri, menina.”
Nisso, Dulce sai de passos curtos e apressados para desligar o fogão. Volta, com os mesmos passos e prossegue. “Havia muito preconceito contra as mulheres. Achavam que aqui era bordel, era zona. Mas não era! O pau pegaordéuva. Fui muito ruim no sentido de manter a ordem. Como sou até hoje! E as mulheres ciumentas? Eu chorava. E minha mãe dizia: ‘Vamos trabalhar.’ E eu só pensava: ‘Eu vou trabalhar, vou mostrar para o povo.’ Era a única coisa que eu pensava. E eu fui.”
No meio da entrevista, a senhora com cabelo de um louro-quase-ruivo, combinando levemente com a blusa, lembra que quando estava aprendendo a dirigir, depois de ter comprado o seu primeiro carro, a filha ia junto. “A Tati sentava do lado e eu pedia: ‘Vem carro daí? Ela: ‘Não.’ Aí eu ia”, sorri.
Os tempos agora são outros, o que se torna incontestável já ao chegar no Bar da Dulce. “A bodeguinha não é boa, não é linda. O que é lindo – eu estava pensando outra noite – são os clientes. Se os clientes não fossem clientes lindos no contexto, eu não teria uma bodega bonita.” Mais do que clientes, são amigos. “Meus amigos, sabe quem são? Vocês.”
Não se sente uma empresária, embora o bar tenha crescido tanto nos últimos anos. “Eu não acho nada. Acho que é tudo muito simples. Isso tudo aqui veio, porque veio, porque Deus ajudou. E toda essa modernização aconteceu por causa da ajuda da Tati e do Elton (o genro). Mas a bodega de antes, continua a mesma”, conta Dulce, casada há mais de dez anos com o tenente da polícia, Sadi Piazza.
Para fazer a reforma recente, houve pesquisa. Foi inspirada em bares que o genro, curitibano, conheceu pelo mundo, em países como a Alemanha. “Tem muitas coisas que não dá para adaptar, mas se pode melhorar o que se tem.” Com cinco ambientes, o Bar da Dulce, de certa forma, se transformou no negócio da família. Tem agora dez funcionários. “Para quem não tinha nada, já é muito”, enfatiza.
O Snooker Dulce está agora no nome da filha. Passa de geração para geração. De Ivalino para Dulce; e de Dulce para Tatiana e, quem sabe, de Tatiana para o filho José Geraldo. Está informatizado, legalizado e tem controle de estoque, “como uma grande empresa”, completa a eterna dona do bar, que hoje recebe clientes da terceira e quarta geração.
Um negócio rentável, porém, a longo prazo. “Por isso várias casas começam a trabalhar na cidade e fecham, você pode notar. O rendimento não é a curto prazo. Uma mesa de sinuca, Bronzic, custa R$ 10 mil. É o preço de um carro. Quantas milhões de horas você não tem que trabalhar para pagar uma mesa como essa? É a longo prazo que você paga. Não é montar um bar em um dia e dizer que vai ganhar dinheiro. Não, não vai.”
Ela acredita que para qualquer atividade, é preciso esperar no mínimo cinco anos para ter algum retorno. “Não se pode desistir antes disso. É claro que é importante ter o apoio da família. Em qualquer coisa que você for fazer, tem que ter apoio. Porque chega uma hora em que você desanima. Que não está rendendo, que não está indo, que vem os problemas. Aluguel, IPTU, tudo. Um monte de encargos. Chega o fim do mês, você não consegue pagar, desanima e pensa em fechar.”
A mãe de Dulce é peça fundamental para o funcionamento do bar. “Não vai dormir enquanto eu não vou. Cuida do movimento e atende telefone.” Dorcelina, Dulcelina ou simplesmente Dulce, pretende se ver de cabelo branco e ainda tomando conta do bar, assim como faz a mãe, aos 85 anos.
Acabada a entrevista e a sessão de fotos, Dulce, sempre atenciosa, me oferece um cappuccino e volta ao trabalho, com o mesmo sorriso doce entre as maçãs rosadas do rosto e olhar familiar, emoldurado pelos óculos de grau.

“CONHECE O MARIO?”

Dulce deu uma de atriz de cinema em um curta-metragem no ano de 2007. No filme, “Conhece o Mario?”, de alunos do Curso Básico de Cinema Digital da Câmera Olho Filmes e Produções, ela interpretou a “Velha Dulce”. Com roupas de improviso, diz que se transformou numa “simpática velhinha”.

(Publicado no Gazeta da Manhã em 6 de agosto de 2010)

2 comentários:

Noctis Lupus disse...

Gostei do visual novo. Ficou mais limpo. Agora consigo ler sem forçar muito minhas vistas. É que tenho meu problema de daltonismo. Beijos e bom fim de semana.

Ariel Fernando disse...

Ótima entrevista, sou amigo da Dulce, porém conhecia pouco da sua história. Parabéns, o blog todo está ótimo!