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terça-feira, 13 de julho de 2010

O nosso pai do rock


Tyto Livi é o pai do rock chapecoense. Seu compacto duplo, “Memórias de Um Certo Louco,” lançado em 1977, foi o primeiro disco (LP) de rock independente da cidade, de Santa Catarina e um dos primeiros do sul do país. Trabalho que ainda faz sucesso, admirado pelas novas gerações de amantes do Rock’n’Roll. Como hoje, 13 de julho, é comemorado o Dia Internacional do Rock, fomos até a casa de Tyto reviver as memórias desse certo louco, que mantém a postura de artista e rockeiro, mesmo sendo um respeitado advogado.

Tyto é polivalente. Faz discursos, como advogado, mas também como ator. “Às vezes eu resolvo fazer um discurso como ator na tribuna. Eu posso fazer isso. Na sociedade, há dificuldade de avaliar o lado artístico das pessoas. Aquele cidadão que faz novelas, ele está interpretando, ele é um artista naquele momento. Quando ele vai assinar um contrato ou um negócio, se torna uma pessoa como as outras. Existem as mesmas leis para todo mundo.”
No Conselho Estadual da OAB, ele continua sendo rockeiro. A barba mantida, em sinal de inconformidade, aliada ao espírito rockeiro de Tyto Livi, dizem ao mundo que não é preciso acatar todo e qualquer parâmetro. “Uma das características do rockeiro, é não dizer ‘sim’ para tudo que está aí. Dizer ‘sim’ só para o que é bom e quebrar alguns parâmetros.”
Seu rock, que o fez conhecido, trata de crítica social. Apesar dele perceber o amadorismo do álbum, “um corpo estranho”, como o chama, foi esse mesmo amadorismo que lhe rende fãs até hoje. As letras, cantadas com um sotaque interiorano carregado, mostram a cultura, o regionalismo do oeste catarinense.


“MEMÓRIAS DE UM CERTO LOUCO”

Gravado em 1977 (ano da morte do Rei do Rock, Elvis Presley), o compacto duplo, “Memórias de Um Certo Louco”, feito de maneira independente, foi o primeiro disco (LP) de rock independente da cidade, de Santa Catarina e um dos primeiros do sul do país. “Para 99% das pessoas, não só na região, como no geral, era uma coisa fora do normal. Uma pessoa que saiu do interior, que está no meio de toda aquela influência da música do sul, música gauchesca, gravar um disco de rock?!”
Lançar um álbum independente naquela época, “era um salto no escuro: não se sabia onde iria dar.” Era um momento de mudanças. “Você acabava embarcando num trem, que nesse caso específico era o trem do rock.”
O músico contextualiza o período, explicando que nos anos 70, houve a inserção da TV nas casas das famílias da região. Foram vendidos muitos televisores na Copa de 1970. Foi através dessa caixa mágica que é a televisão, que Tyto Livi pode ver, de fato, Elvis Presley e The Beatles, que só conhecia pelo rádio. Pelo rádio (Rádio Globo) também conheceu as músicas de Raul Seixas e de Ney Matogrosso, no programa Paulo Giovani Show – onde tocavam os lançamentos nacionais e internacionais. A TV era um chacoalhar de estruturas, uma revolução, em que se passou de ouvir, para ver a arte.
Na Copa de 1974, a caixa mágica surgiu com um grande diferencial: as cores. “Eu trabalhava como garçom no restaurante Barriga Verde e, das duas televisões coloridas que tinha em Chapecó, uma era do restaurante. Me lembro que em dias de jogo, a cidade parava. O restaurante enchia.”

DE ORTENILO AZZOLINI PARA TYTO LIVI

O nome artístico foi dado pelo comunicador Plínio Ritter que trabalhava em uma emissora de televisão de Erechim (RS). “Tito é meu apelido de criança. Pensei em Tito isso, Tito aquilo, até em Tito John. Aí o Plínio Ritter falou de um grande historiador romano, chamado Tito Lívio, e do Roberto Livi, famoso no Brasil por fazer versões nacionais de músicas estrangeiras. Então ficou Tyto Livi.” O “Y” veio mesmo para incrementar o apelido.
Aos 54 anos, Ortenilo Azzolini nasceu em Vargeão – a cidade do meteorito, em 28 de maio de 1956. Veio para Chapecó com 17 anos e em 1977, foi para Florianópolis estudar Direito, aos 20 anos. Foi em São José que gravou o álbum com tiragem de mil cópias, na gravadora Stereo Som. No início desse ano, o dono da gravadora ligou para Tyto, dizendo que havia encontrado uma fita original com as gravações de “Memórias de Um Certo Louco”. A partir da fita, foram reproduzidos vinte CDs.

Ele fez uma música há poucos dias em homenagem à cidade natal:

De lá das estrelas
Deus lançou um meteorito
Fez um vale tão bonito
Cuidou com a própria mão
Com sete letras desenhou no infinito
Embaixo deixou escrito:
“O teu nome é Vargeão”
Lá da colina contemplo a tua beleza
Deslumbrante natureza
Palpita meu coração
Na certa é um cantinho do paraíso
Na poesia perenizo
O gesto de gratidão
Quanta saudade meu Vargeão
Estou aqui mas bate ali meu coração

DIA MUNDIAL DO ROCK

Para ele, o rock – comemorado no mundo todo nesse dia 13 de julho, é a tribuna do jovem. “É através do rock que o jovem fala sobre aquilo que o deixa contente, sobre o que o deixa descontente. Um espaço para a crítica social e para o debate. Sendo uma tribuna, ele é democrático. Porque você fala o que sente a beleza do mundo está em falar o que se sente.”

CURIOSIDADES

“Tito” Ortenilo Azzolini ou simplesmente Tyto Livi, influenciou grandes bandas, como a banda de rock gaúcho Graforréia Xilarmônica, que fez um álbum inspirado em Tyto, “Coisa de Louco II”, em 1995. Marcelo Birck, cantor, compositor, guitarrista e fundador da Graforréia, fez um fã-clube em homenagem ao ídolo. A maior banda de Chapecó, a Banda Repolho, gravou a música “Roque 701”, com influência da “O Rock 700”, de Tyto Livi. O músico tem até comunidade no site de relacionamentos, Orkut, com mais de 200 membros e vários vídeos no YouTube, incluindo tributos a Tyto – precursor do rock oestino.

(Publicado no Voz do Oeste em 13 de julho de 2010)

Um comentário:

Adriano Piekas disse...

o precursos!
ótima reportagem, Fabi!