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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pensionato para meninas

O pensionato, para ela, foi uma maneira de fugir da depressão. “O meu sonho, desde menina, era ter uma filha. Mas eu nunca tive. Agora, tenho várias”, diz dona Emília Ribeiro

Pelo sobradinho rosa e antigo, muitas meninas já passaram. Eu era mais uma. Na porta, uma senhora sorridente, me convida para entrar no ambiente colorido, como ela. Era dona Emília Ribeiro, quase 59 anos, a serem completados no dia 7 de fevereiro, que cuida do “Pensionato Familiar Feminino” há cinco anos. “Foram teus pais que ligaram, né?”, me pergunta. “Não, não foram”, respondo. Minha intenção: fazer uma reportagem com ela, conhecer a sua história que se confunde com as muitas histórias que fazem parte do pensionato.
Antigamente, o prédio antigo era um pensionato para rapazes, depois, um local que atendia meninas, que sofriam violência sexual e outros casos, onde faziam cursos e eram tratadas por profissionais. Emília morava ao lado da loja “Mulher Rendeira”, que dividia espaço no prédio. “Eu morava embaixo. Acordava com os ‘tropeques’ dos saltinhos das psicólogas que vinham atender aqui.”
Emília trabalhou na Distribuidora de Leites Tirol, mas teve um problema de coluna. “O médico disse que eu teria que ficar de atestado por três meses, só deitada. Mas como eu sou uma pessoa muito religiosa, me apeguei a Deus e me apareceu essa oportunidade.” O sobradinho estava para alugar, mas só para empresa. Mesmo assim, o local foi liberado para dona Emília.
“A dona Elaine Tessari me chamou e disse: ‘Abre um pensionato para estudantes.’ Eu disse: ‘Ih, meu Deus, será?’” Três meses depois, estava aberto o pensionato. Começou com apenas quatro meninas, hoje são 27, havendo apenas um lugar, já procurado por uma nova menina. Das tantas garotas que já passaram pelo sobradinho, uma permanece: Eveline, vinda de Concórdia, a menina mais antiga no lugar, que acompanha, ao lado de Emília, as incontáveis histórias do pensionato. “Elas vêm, com carinha de anjo, dizendo que vão respeitar as normas... daqui a pouco, não é nada do que elas queriam.”
Dona Emília é enfática: “Não pode trazer namorado, não pode trazer amigo, nem amiga, só visita da família. Deu 22h, no máximo 23h, todo mundo tem que estar nos seus devidos quartos.” Ela só aceita meninas vindas de outras cidades, desde que venham acompanhadas dos pais. “As meninas daqui, se saem da casa do pai e da mãe, é para não obedecer as normas. Aqui tem normas muito mais rigorosas do que as de pai e mãe.”
Avó de Pedro, faz, muitas vezes, o papel de segunda mãe para as meninas. Uma mãe enérgica, porém boa. “Tem que está sempre ali”, gesticula, simbolizando o cuidado. Viúva desde 1982, mora junto das meninas. “Tenho ainda um filho, casado. Tinha dois filhos, os dois se acidentaram e o mais novo morreu.” Emília é interrompida por uma das meninas, que pede um guarda-chuva para a mãe de aluguel, para que possa encarar a chuva, ao lado da colega de pensionato. As duas estavam indo a uma entrevista. Ela interrompe então a nossa e, depois de resolver o problema e trocar alguns comentários com as meninas, orgulhosa de saber que sua história será publicada, volta para contar das alegrias e tristezas de sua rotina. “Depois vocês vão ter que comprar o jornal”, avisa as meninas sobre a reportagem. “Ela vai falar das meninas que obedecem e das que não obedecem”, brinca.
“Tem umas que deixam saudades quando vão embora e outras que não gosto nem de lembrar que passaram por aqui. Não respeitam. Ali está a plaquinha: ‘Pensionato Familiar Feminino’. Se elas desrespeitam as regras, não é mais familiar.” O pensionato, para ela, foi uma maneira de fugir da depressão. Depois da morte da mãe e do filho, o pensionato surgiu como um bálsamo. “O meu sonho, desde menina, era ter uma filha. Mas eu nunca tive. Só tive os dois filhos. Agora, tenho várias.”

Contando histórias

Inúmeras histórias já se passaram no pensionato para meninas, que chegam de diferentes lugares do país. Algumas dessas histórias marcaram a memória de Emília. Outras, nem autoriza contar. “Uma que também me marcou muito, aconteceu bem no comecinho. Veio uma mulher desesperada para arrumar lugar para a empregada. Dizia que era uma pessoa maravilhosa, querida. Resolvi aceitar. A patroa trouxe cobertor, travesseiro, pagou adiantado com cheque, tudo certo. Com o passar dos dias, notei que a moça trazia muita coisa cara para comer, se chaveava no quarto. Até que um dia, a patroa veio atrás da fulana. Ela disse no telefone: ‘Dona Emília, não saía! Tranque a porta do quarto dela, não deixe ela sair, me espere chegar.’ A menina tinha roubado. Eram mais de 16 sacolas cheias. Deu um cerro ali na frente, só de coisa roubada. Resultado: três camburões da polícia vieram atender a ocorrência.” Depois disso, Emília passou a ter todas as chaves dos quartos e se tornou ainda uma espécie de investigadora amadora dos quartos da pensão, para que passagens como essa não voltem a acontecer.
Mas nem só de passagens tristes é composta a história do pensionato. Emília, às vezes, tem o poder de mudar a vida de algumas meninas. “Teve uma menina que entrou aqui de mal com a mãe e eu abri uma exceção. A menina se queixava da mãe e eu dizia que aqui estava cheio de meninas que choram de saudades de suas mães.” Falava de amor e perdão para a garota e a convenceu a voltar a falar com a mãe. “Ela falava que não tinha coragem, mas eu me propus a levar ela até lá. Pegamos um taxi e fomos até à casa, para ela abraçar a mãe.” O que era para ser apenas um abraço, se transformou em estadia permanente. “Está até hoje. Foi uma benção. Uma lição.”
Atrás do pensionato, Emília também transformou um lugar onde só havia mato, em estacionamento. “Os ladrões vinham e se escondiam ali. A polícia vivia ali atrás catando ladrão. Peguei, carpi, limpei, botei dois caminhões de brita e hoje está aí, um estacionamento, com 12 carros.” Hoje, informatizada, dona Emília conta que divulga o pensionato em um site da cidade, tem MSN e Orkut, onde posta fotos suas ao lado das meninas do pensionato, sua nova família.

3 comentários:

LENOIR MADDALOZZO disse...

buonasera,quem esta vivo sempre aparece,ate que enfim te encontrei.

LENOIR MADDALOZZO disse...

ESTAVA LENDO QUE SO HOSPEDAM MENINAS,NAO E POSSIVEL FAZER UMA ECESSAO.

Unknown disse...

Meu nome é Daniela Jilmara de Oliveira!!
Estou procurando lugar para morar e tive ótimas informações da sua pousada..
..
Sua história é muito bonita e gostaria de participar desta família...
Dona Emília poderia me passar seu número de Whatsapp para conversarmos!!
Obrigada!!o meu Whatsapp é 989226335 por favor entre em contato comigo!! Obrigada!!
Fico muito grata!!
Aguardo retorno!!