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terça-feira, 7 de julho de 2009

Seu Município

Esta não é a história de um desbravador do Velho Oeste, que veio das terras gaúchas, de vinhos tintos saborosos e de serras verdejantes, para enriquecer às custas de índios, caboclos, sangue, suor ou lágrimas. Esta é a história de um homem (in)comum, nascido em um domingo, a 15 de novembro de 1914, em Nova Prata (RS). Fotógrafo frustrado, dono de um armazém que só vendia a fiado, metido a carpinteiro, agricultor nervoso, cara de poucos amigos, bêbado, zoneiro, pai de família nada exemplar e marido menos ainda: Seu Domingos De Carli, mais conhecido pelas Campinas das Cascavéis do Barro Preto como “Seu Município”, apelido adquirido após uma de suas centenas de peripécias, urbanas e rurais.
Ouve-se dizer que o velho maldito havia ido “para a cidade”, comemorar o dia município, Xanxerê (SC), a bordo de uma carroça, não lá muito confiável, que acabou o levando para o mau caminho. O que se sabe é que seu Domingos, criatura sortuda, voltara para casa carregado uma semana depois, graças a uma alma benigna que o havia visto deitado em uma valeta à beira da estrada, depois de ter enchido a cara de cachaça e deleitado-se, por conta do município, é claro, entre os cangotes rançosos de perfume barato e as garras semi-ocupadas de um resto de esmalte rebú das messalinas da luz vermelha.

Na década de 1950, Domingos, empolgado com a emancipação de Xanxerê, que se deu em 1954, apelidou o seu cavalo de Município, e sua égua de Prefeitura. Juntos, comandavam a famosa carroça do velho De Carli. Posteriormente, Domingos acabou ganhando o apelido do próprio cavalo.

Seu Município podia ser facilmente visto correndo atrás dos filhos munido de um facão que lançava impreciso no ar, atingindo nada mais do que pés de bergamota, parreirais de uva ou peças de salame. Alimento que para ele valia mais do que ouro, que não era dado à família como deveria e sim vendido, para transformar-se magicamente em noitadas memoráveis. E ele não negava ou mentia, só omitia, mas nem precisava dizer nada, pois as carolas encarregavam-se de propagar falatórios aos quatro ventos empoeirados das estradas de chão daquelas bandas oestinas.
Era a sua revelia. Ainda menino, aos nove anos de idade, perdera a mãe, e seu pai, Pedro, ficou um tanto esclerosado. Tinha o estranho costume de procurar o cachimbo em toda parte quando este não estava em outro lugar senão em sua boca, dizendo em um dialeto ítalo-português: “Sacra petola, donde estará mio cachimbo?”. Após a morte prematura da esposa, seu Pedro – um dos donos da empresa colonizadora Ângelo De Carli e Irmãos & Cia. LTDA, fundada em 1924, em Ponte Serrada (SC) – saía à procura de dinheiro e mulheres durante meses a fio, deixando os filhos, todos pequenos, aos cuidados de Deus. Um Deus que, felizmente manifestava-se nas vizinhas, que tratavam de alimentar as crianças com restos de comida e vesti-las no inverno com sacos de estopa e, nos meses de verão, deixavam que as crianças andassem como vieram ao mundo.
De qualquer maneira, Domingos vingou e vingou até demais. Dizem que, ainda jovem, tivera as artérias do coração entupidas por gordura, tamanha a “estrutura óssea” do indivíduo. Tempos depois encompridou e emagreceu e, ao longo de seu 1.85 de altura, pernas longas, cabelo castanho-claro, rosto chupado, olhos verdes caídos e bigodinho charmoso, conquistava a atenção das mocinhas nos chamados matinês de domingo à tarde.
Uma delas inclusive era filha de pai rico, o que para muitos rapazes era visto como privilégio. Ela estava noiva do jovem e pseudo-promissor Domingos, que ainda morava pelas entranhas do Rio Grande do Sul. No entanto, depois de anos de namorico de portão, nosso anti-herói rejeitara a moça, uma vez que ouvira falar que ela havia ficado com “problema na cabeça” depois de ter levado um belo coice de um cavalo xucro.
Além disso, Domingos se apaixonara por uma senhorita em um desses matinês, assim que a vira delicadamente montada em um cavalo branco, com um vestido pomposo de alta costura, protegendo as mãos macias com luvas de cetim. Olhos verde-mar profundos, cabelos cacheados e levemente claros, Amábile, que até então no máximo havia correspondido cautelosamente às cartas de um rapaz que a cortejava, rendeu-se aos seus encantos.
Paixão fulminante que levou Domingos a casar-se com a moça quase que imediatamente, partindo em breve para o oeste catarinense, com o coração então laçado e a cabeça pesada de sonhos de uma vida melhor, pois aqui era quase a terra prometida dos imigrantes italianos e alemães. Felicidade? Durou pouco. Há boatos de que a moça era meio arisca, pouco luxuriosa, não muito chegada nas artes do amor. Fogo de palha, Domingos logo cairia na rua da amargura, falido e mulherengo.
Enquanto isso, teve sete filhos com Amábile: quatro meninas e três meninos, Cleci, Nieda, Loemí, Humberto, Inês, Antoninho e Antônio Carlos (Chico), sendo que um deles, Antoninho, era gêmeo de Inês e morreu logo ao nascer, enterrado dentro de uma caixa de sapatos em uma pequena cova no cemitério do Barro Preto, interior de Xanxerê, protegida por uma cruz de madeira, feita por Domingos. Humberto, outro filho, foi negado pelo pai, pois era pardo, tinha problemas de fala e era meio “bobinho”. Alvo fácil de chacotas na escola ou em qualquer lugar, Humberto seria um futuro suicida, já que não agüentaria a rejeição do pai, da amada e as pressões do Exército, onde tinha que matar famílias inteiras de índios no Distrito Federal e virar presa viva de madames perniciosas. Tirou a vida em setembro de 1972, com estriquinina em doses cavalares.

Um comentário:

tchefe disse...

adorei, fabita! justa homenagem! ando sumido, desligado meus pés são plumas... então nado na espuma das tuas palavras! muito bem escrito