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quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Então, que seja doce"


O cenário é um casarão: o Asilo São Vicente de Paulo, com quase 60 anos de existência. Quarenta e sete mulheres dividem os corredores de vastos espaços, os quartos de camas gratuitas e odores variados, o jardim de balanços e sóis poentes. Há aquelas que falam, há as que simplesmente não falam mais – balbuciam. Mulheres que desaprenderam a linguagem dos homens, mas que ainda guardam alguns pequenos elementos da linguagem universal: o sorriso e o olhar doce. E doce é tudo o que elas esperam dessa Páscoa, essa data que traz tantas lembranças de um passado distante, cheio de vida, de pessoas e de dias bem mais gloriosos...

Escolhidas ao acaso ou pelo destino, guiadas pelas mãos acolhedoras de pessoas como Irmã Alzira Zardo, as mulheres que serão apresentadas na sequência são parte de uma realidade muito menos otimista do que se gostaria de encontrar. Aqui, onde o tempo custa a passar, as conversas são arrastadas e lentas, o futuro é o café-da-manhã, almoço e o jantar, e o sonho mais ambicioso é uma visita sem previsão de fim.
A primeira regra que todas aprendem é a da perda da privacidade. Coisa que não foi bem assimilada pela nossa primeira entrevistada. Eva, como na Bíblia. Eva Nunes. Cento e um anos, boa parte deles passados em uma cadeira, no corredor do São Vicente de Paulo. O dia em que nasceu já não lembra. Trazida por uma filha ao asilo, não gosta do aglomero das mulheres na sala principal. Prefere mesmo a solitude. No jardim, não passeia. “Faz mal para as vistas”, diz ela. Ouve pouco, fala menos ainda. As suas palavras não são compreensíveis aos meros mortais, mas ela tenta. Até que é indagada sobre a Páscoa. Longa pausa. Gestos fechados, a boca de poucos dentes se cerra de vez, silêncio total.

Eva Nunes,
101 anos

“Maria Lorena Müller, mas meu pai era Guerreiro”, falando sobre o nome de solteira.
- A senhora está aqui desde quando?
- Doze de junho...
- Doze de junho...?
- De 95.
Aos 81 anos (“só 81”, diz, provocando risadas nas colegas), Maria Lorena conta que passa o tempo dormindo e comendo. “Mais nada”, lança, apertando os olhos afetados pela miopia.
- O que significa a Páscoa para a senhora?
- Olha, nem sei explicar nada pra ti hoje. Porque, eu não sei, fiquei tão atrasada depois que eu tive uma crise de nervos... Eu fiquei “esquecida das coisas”, eu estou por estar. Mas eu rezo muito, principalmente de noite, de dia não. Mas eu não acredito em certas coisas. Só acredito em Deus.
- E na Páscoa?
- Tanto faz. Quando a gente é nova, as páscoas são bem diferentes. Depois dos 60, aí terminou. Quando os anos pesam nas costas, na cabeça, a gente muda, se sente diferente.
Há quase dois anos sem receber visitas, Maria Lorena não tem filhos. Perdeu dois no nascimento. O marido faleceu, a casa e a família não existem mais.
- Só estou eu aqui na Terra.

Maria Lorena Müller,
“Só 81”

Dona Cecília Peres vagava pelo longo corredor do asilo. Por que? Não soube dizer, tampouco sabia a sua idade. Há muitos anos lá, Cecília diz receber visitas de uma filha, a única ainda viva. “Tinha duas, mas uma faleceu. O que se pode fazer?” Da Páscoa, espera um “ninhozinho”. “Um ninho com doces, trazido pelo coelhinho”.
- Tinha ninho antigamente na Páscoa?
- Tinha, tinha ninho.
O marido ainda vive, mas não ela acha que ele não sabe que ela está no asilo. Não vai visitá-la. “Eu estou escondida”, afirma.

Cecília Peres,
Não sabe quantos anos tem

Sebastiana Marcondes, na cadeira de rodas, enquanto tomava a sopa dada pela Irmã Alzira, servida pouco antes do chá com bolachas, nada quis falar da Páscoa. O assunto preferido dela é Paulinho Vargas, que criou desde os dois anos. Agora um homenzarrão, granjeiro, que sempre leva medicamentos à ela quando precisa. A sua idade? Noventa e dois, ditos com orgulho na entonação.
- Está chegando a Páscoa...
- Ah, é...
- O que a senhora acha da Páscoa?
- Bonito!

Sebastiana Marcondes
92 anos

Uma das mais novas entrevistadas, há dois anos no asilo, Nair dos Santos, 62, chama atenção pelo tom do cabelo, ainda castanho, diferente do céu grisalho e branco que há em quase toda a parte. No movimento tranqüilo do balanço no final da tarde, Nair conta que tem um filho, que a visitou uma vez somente desde que entrou no São Vicente. Não sabe o motivo de sua nova morada, mas sabe que, da Páscoa, quer apenas uma coisa: doce.

Nair dos Santos,
62 anos

São mulheres que, no fim da vida, dependem da ajuda de pessoas como Irmã Alzira para as atividades mais simples, como para comer e tomar o banho diário. “Elas não envelheceram sadiamente, já envelheceram doentes”, explica a irmã. Tomadas pela depressão, pelo abandono da família, elas tem nas datas comemorativas momentos dolorosos, que necessitam de muito zelo por parte das cuidadoras. Optaram pela vida ou não tiveram escolha. Passam os dias, meses e anos em um ritmo incompatível com o ritmo do mundo dos familiares que lhe restaram ou não. Mundo que raramente se encontra com o mundo delas, machucado pelas recusas, partidas, ausências, silêncios intermináveis e feriados nem sempre tão doces como o desejo de tê-los.

(Publicado no Diário da Manhã em 2, 3 e 4 de abril de 2010)

Um comentário:

Suzana Faccio Pezzini disse...

adoro ler seu blog...
sempre q posso passeio por aqui..
se nao te importar fiz de suas palavras as minhas em meu blog, ja que o sentimento e o desejo sao os mesmos.
garota linda, saiba que te admiro e torco por ti sempre
um super beijo da suzi