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quinta-feira, 26 de março de 2009

Das roupas que não servem mais


E voltarei pra casa pelo mesmo caminho
E escutarei o meu disco sozinho
Dentro do meu quarto na escuridão

(Graforréia Xilarmônica – Nunca Diga)

Despir-se das ilusões me é, nesse momento, no mínimo sensato. Admita, no auge de sua frustração e fracasso, tu ainda podes ser você mesmo e rir da tua cara de babaca grudada no espelho do banheiro. Admita, baby, os anjos já não lhe chamam para sair, tu já não és mais um brotinho, garota propaganda de absorvente feminino. Estás tensa, cabisbaixa, tens olheiras que descem até as bochechas e, se fosses um homem, estaria com a barba batendo na barriga, revestida por uma camisa xadrez de botão. “Decadência” piscando em luzes de néon na tua testa franzida. Vivestes dentro de ti tempo demais, baby, tempo demais! Escarafunche a ferida, faça-a sangrar e romper esses monótonos dias. Ah, mas tu tens vergonha. Tens listas negras de palavras que não podes pronunciar, sequer em pensamento. Ah, mas tu tens outras prioridades. A verdade é que já não sonhas, sequer dorme, apenas cochila, com um olho aberto e o outro não. A verdade é que despediu-se das ilusões e a vida lhe parece crua demais, tanto que chega a pingar. Sempre fostes caseira, artística, quieta. E talvez nunca deixes de ser. Mas que porra é essa que está vestindo? Esse tecido 100% sedentário, pois o nômade lhe causa alergia demais. Medo, medo, medo. E tu vês as horas passarem, ouvindo Tim Maia. Até quando irás permanecer nessa fase soul? Até quando poderás agüentar? (Cativeiro de luxo escondido atrás dos óculos de grau). Até tua altura diminuiu, tamanho é o peso do mundo nos ombros. “Não liguem, não. Isto aqui é apenas um acerto de contas comigo mesma”, diz o teu corpo para os clandestinos do lado de fora. “Onde é que tu moras, garotinha? Ainda existe? Se trata da mesma pessoa?” Com o nariz no meio de um livro de antologia poética, levantaria timidamente a cabeça – se levantaria –, lançaria um olhar vazio – se lançaria –, disfarçando a fornalha interior que és, e voltaria a ler, como uma autista opcional. Escolhestes o limite, mas borboletas loucas como tu, uma vez que tenham voado pelo céu tingido de anil, jamais voltam a ser o que eram. Isso, dê de ombros, esconda-se no quarto e vá ouvir teus discos de vinil, ver teus filmes cults, tua vida passar. Isso, desacredite da humanidade, engula mais uma dose de cafeína e de todas essas drogas lícitas vendidas no armazém da esquina. Mas não te esqueças de morrer, e de feder, bem longe de mim.

3 comentários:

bruna disse...

bah! traduz tanta coisa.

fabita . disse...

sim, minha querida, coisas demais, ainda que com reservas.

1º dentição disse...

seu ritmo, me deixa querendo mais e mais!

soy loco por ti