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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Atrás dos números, há vidas

Pessoas matam, pessoas morrem, todos os dias. Dados, números, estatísticas. Além disso, há o medo, a revolta, o desespero. Pessoas que tentam encontrar alguma esperança, algum resto de otimismo para seguir a vida. Mais uma tentativa de homicídio? Não, mais do que isso.

As notícias nos jornais não me deixam mentir: homicídios e tentativas de homicídios são fatos cotidianos. Poderíamos tranquilamente trazer dados específicos de quantas pessoas morrem ou quase morrem em Chapecó, quem sabe na região oeste, em Santa Catarina, no Brasil, no mundo. Dados, números, estatísticas.
Semana passada, mais alguém entrou para as estatísticas: Denise Marchesini Aigner, 44 anos. Um grande jornal do estado noticiou que ela mantinha relacionamento com o suspeito do crime, do atentado contra a vida. Uma mulher de 44 anos, que sobreviveu depois de ter tido sua vida quase arrancada por uma bala de revólver, em plena Attílio Fontana, Bairro Colatto. Quarta-feira da semana passada (9). Manhã de fevereiro. Denise saía do consultório dentário do filho, único, Rafael.
Com a arma em mãos, dirigindo um Renault Scenic com placas de Ponte Serrada, Antonio Barbosa parou o carro e atirou contra a cabeça de Denise, parada em um estacionamento. No HRO (Hospital Regional do Oeste) ainda está internada em estado grave, na UTI.
Antonio e Denise moravam desde 2010 em Passos Maia. Ele, agora preso; ela, inconsciente em uma cama de hospital. Antonio tem diversas passagens pela polícia, por ameaças e agressões, mas só foi pego depois de quase acabar com a vida de Denise, embora ela tenha avisado sobre as ameaças que estava sofrendo, inclusive, dias antes da tentativa de homicídio. “Que lei é essa? Não fizeram nada. Nada. Não tinham ordem de prisão.”
É o que conta a mãe Antonia e é a partir daqui que a história começa a fazer sentido. Meu destino: Hospital Regional do Oeste. Quarta-feira, uma semana depois do crime. Pouco antes do meio-dia, chego ao lugar decidida a compreender a tênue linha que separa a vida da morte – que havia sentido tão perto há poucos minutos.
Ao lado de Antonia e de Márcia, próxima de Denise desde a infância, lavei as mãos com sabão líquido, enxuguei no papel-toalha, desinfetei em álcool, coloquei o jaleco e estava pronta para fazer a visita, assim como Antonia e Márcia. Esperei Antonia sair e ali pude sentir os reflexos do que é ter uma filha entre a vida e a morte. Denise em coma; a mãe, em desespero, tentando buscar esperanças para garantir um pouco de otimismo nas mãos geladas, que desaprenderam a rezar de repente, tão grande era o impacto da dor.
Uma dor que não compreende matemática, que fere individualmente aqueles que compõem as estatísticas, aqueles, tão individuais. “Palavras chegam de todos os lugares, telefonemas, novenas. Quero ter esperanças, mas eu nunca vi ela nesse estado”, revela a mãe Antonia. Ela e a família receberam constantes ameaças. No dia seguinte do atentado, quando Antonio Barbosa ainda não estava preso, dois de seus irmãos ameaçaram a família de Denise de morte. “Se alguém fosse dar depoimento contra ele, iam matar” continua a mãe.
Antonia, se sente como a “próxima vítima”, como ela mesma diz. Medo, revolta, desespero. Maior do que qualquer dado, número, estatística, é o sentimento de Antonia, que mal consegue se expressar. “Está todo mundo abalado”, resume. Antonia perdeu um filho de uma maneira estúpida, como ela chama, em um acidente. Tentava levar a vida, ainda que com as crises de depressão. Agora, já não sabe mais o que pensar, nem o que dizer ao ver a filha num estado impronunciável. Antonia foi a voz de Denise naquela manhã. A voz da filha Denise, que se mantém muda e inerte pela banalização da morte, pela banalização da vida. E eu, a voz de Antonia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ar de melodias

Entre a harmonia e o ar, procurei encontrar os nomes das músicas que invadiram o café de melodias, vindas de dois homens ou de uma multidão que compõe a Sociedade Sonora. Depois, foi a vez do Trevo de Quatro Folhas trazer o ritual místico da música aos ouvidos dos visitantes noturnos da Quinta Autoral

Sociedade Sonora e Trevo de Quatro Folhas invadiram o ar de melodias na Quinta Autoral de Música do Café Brasiliano, dia 10 de fevereiro.

Dois homens ou uma multidão

Primeiro, a sociedade de apenas dois homens, Antonio Marcos (Tonho) e Winston Gambatto, trouxe uma multidão de sensações através dos acordes dos violões, com músicas instrumentais de nomes interessantes, que procurei encontrar entre a harmonia e o ar.
Os dois faziam parte da extinta banda chapecoense Plug and Play. Tinham algumas ideias de composições e resolveram uni-las. “Eu pegava uma música minha e ele colocava algo nessa música. E vice e versa. Começamos a compor juntos. Novas músicas surgiram”, conta Winston. Algumas das músicas tocadas no café, na primeira apresentação da Sociedade Sonora, são ideias unidas de Tonho e Winston.
A Sociedade Sonora surgiu para dar vazão à grande vontade de tocar que os dois tinham. Uma brincadeira de violão, instrumento estudado por Winston, conhecedor de violão clássico. “Nunca fui regrado nessa questão de estudo, mas sempre tive vontade de criar algo meu. E o violão é um instrumento que permite isso.”
Brincadeira recente: são apenas seis meses de criação da Sociedade Sonora. “Pensei: ‘O que a gente pode fazer, entre eu e você, já que a gente gosta de tomar cerveja juntos, se reúne bastante nos sábados, domingos, fazendo experiências musicais? Tocar violão’”, fala Tonho.
Foi uma surpresa para Winston o que eles conseguiram fazer com dois violões e os rumos que a música tomou através desse trabalho. Conseguiram fazer na Sociedade o que não estavam conseguindo em outros projetos musicais paralelos. “Curtir o som pelo som. Fazer uma apresentação, não era a questão”, completa Tonho.
Músicas com nomes peculiares, como Labut e Bolinho de Chuva. A primeira, por exemplo, é um tratado sobre o trabalho, a invariabilidade do ciclo da busca pelo dinheiro, que traz frustração, na visão do letrista Antonio. “Tu entra no cansaço, na rotina. E a rotina é uma coisa que mata. Mas, às vezes, no meio dessa rotina você consegue despertar.” Bolinho de Chuva é uma música que remete a uma sensação de tranqüilidade de um dia de chuva e de ócio, que carrega em si toda a mística própria da música instrumental.
Como diz Tonho, a música instrumental beira à mística pelo fato de não usar a narrativa (letra) e possuir um título que transporta uma imagem. “A partir dessa imagem, associada ao movimento do som, cada um cria a sua história. O grande desafio da música instrumental é passar aquilo que está escondido no título, no movimento do som.”

A mística da música também mora na narrativa

Já o Trevo de Quatro Folhas, composto por Aldriano Junior Milani, Antonio Marcos (Tonho), Jakson Kreuz, Priscila Maboni e Rodrigo Brivio, traz a mística da música instrumental, em longas passagens, remetendo ao progressivo, com a narrativa poética do letrista Antonio Marcos que, feito pássaro alado, saiu de um projeto pousando quase que imediatamente em outro naquela noite.
Me sinto feito pássaro novo, viajante, longe do ninho, não quero mais não ser gente grande, bom mesmo é ser passarinho!” O refrão de Pássaro Alado, colado na parede em cartolina e escrito à mão, vinha suave de Priscila Maboni, ex-integrante da banda Dorothy, que vestida de personagem de música, entra nas canções e lá se instala, até o show acabar. “Sou o personagem que está na música. Não tem como ficar imune à letra que você está cantando. Tu sente a música e canta.”
A história desse projeto é antiga. A primeira gravação com esse nome aconteceu em 2004. Tocavam/cantavam, em períodos de latência. O Trevo de Quatro Folhas é mais uma das vontades de Tonho, que não cabia nos projetos musicais que ele fazia parte. Um “plano b” particular, feito em casa, varando a madrugada. Músicas introspectivas, com o olhar de alguém parado observando o mundo. “Se eu te dissesse que tal música, foi feita de tal forma, com tal intenção e em tal dia, seria mentira. São histórias, minhas histórias. Coisas que eu vivi, por muitos anos, coisas tristes, divertidas...”
Algumas letras têm seis, sete anos de existência. Porém, mais da metade do show da Quinta Autoral, foi de músicas inéditas, que nunca foram tocadas ao vivo. “Nunca tocamos desse jeito. Desse jeito, nunca tinha acontecido.” Antonio conheceu Jakson, irmão de música, ainda no tempo dos Bauretes Quizofônicos – o primeiro que aderiu à idéia do Trevo de Quatro Folhas. Depois, veio Priscila. Aldriano e Rodrigo, Tonho conheceu recentemente, através de uma outra banda.
História de oito, nove anos, impossível de ser sintetizada em minutos desconfortáveis e gravados de conversa. Mas Tonho tenta. Diz que a banda une folk, elementos de rock, incluindo progressivo, e elementos aleatórios. Desses, alguns surgiram de Beirut, que se aproxima da música folclórica, pela composição dos instrumentos.
Com essa formação, a banda ainda não havia tocado, pois a formação atual data de três semanas, sendo que houve apenas dois ensaios com essa formação antes do show. Uma das apresentações memoráveis do Trevo de Quatro Folhas aconteceu no FEMIC (Festival da Música e da Integração Catarinense), porém com outra formação. “Essa é a melhor formação que a banda já teve”, lança Tonho, dizendo que o Trevo teve tentativas mais elétricas.
“Se eu tivesse que te resumir, o Trevo de Quatro Folhas é feito de coisas que eu deixei em segundo plano, não por culpa dos outros, mas por minha culpa. Eu sou o maior culpado”, afirma ele, que começou a fazer música no dia em que soube de um curso de violão no colégio. “O dia em que eu escolhi o violão, comecei a fazer música. Eu era criança. O dia em que eu escrevi a minha primeira poesia triste sobre o mundo, comecei a fazer música. E eu gosto do rock porque ele me dá a possibilidade de eu fazer o que quiser com a música. Isso que a gente fez, pode-se dizer que é rock. Mas pode-se dizer que não é”, revela Antonio. “Tudo o que somos, isso tudo, é o Trevo”, resume, por fim, Priscila.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cara a cara com a “temida famigerada”!

“Esticando as Canelas” foi escolhido pelo projeto “Baú de Histórias” do Sesc. Pela primeira vez, um espetáculo chapecoense é selecionado para fazer parte do projeto. O espetáculo passará por 28 cidades de Santa Catarina, num total de 48 apresentações, duas em cada cidade

Céu e inferno; Deus e o diabo. O anti-herói Zé Malandro, apreciador de baralho e cachaça, procurado pela própria Morte. Fugiu tanto, que ganhou a imortalidade. Mas encarar a “temida famigerada”, não é para qualquer um. Que o diga o público do espetáculo “Esticando as Canelas”, contação de histórias representada pela atriz chapecoense Josiane Geroldi, ontem. A apresentação aconteceu no Cine Teatro do Sesc Chapecó, através do Projeto Enter, que reúne todas as linguagens da arte, iniciado no dia 5, com “O vendedor de palavras”, seguindo até o próximo sábado.
A peça é baseada no livro “Contos de enganar a morte”, do folclorista Ricardo Azevedo. Ele faz um resgate dos contos populares da tradição oral brasileira, a exemplo de Luis da Câmara Cascudo, que também fez registros escritos de história oral. “Gosto muito das versões do Ricardo Azevedo, porque ele tem um quê de humor, uma linguagem que toca, que dá vontade de contar”, fala Josiane.
A Morte é apenas um dos personagens interpretados por Josiane, que também encarna diversos outros, como um velhinho bondoso (seria Deus?), um casal de diabos, Zé Malandro e faz ainda a narrativa da peça. “Eu tento caracterizar o personagem pela voz, para que quem estiver ouvindo, consiga imaginar aquele personagem. Mesmo que eu dê pistas de como esse personagem é para mim, a pessoa, pela voz, consegue criar o seu”.
O espetáculo foi escolhido pelo projeto “Baú de Histórias” do Sesc. Pela primeira vez, um espetáculo chapecoense é selecionado para fazer parte do projeto. “Esticando as Canelas” passará por 28 cidades de Santa Catarina, num total de 48 apresentações, duas em cada cidade. A data de estréia ainda não foi definida, mas a expectativa é de que o cronograma saia em abril. “No final do ano passado, resolvemos fazer uma filmagem do espetáculo, preparar um material e mandar para a seleção”, lembra a atriz. Eram 14 grupos que concorriam. Desses, apenas cinco foram escolhidos. “É um reconhecimento legal, mas também dá medo, porque é uma grande responsabilidade. Estou bem ansiosa para que saia. Às vezes eu penso: ‘será que é verdade?’”
Josiane começou a fazer “Esticando as Canelas” em 2007. Na manhã de quarta-feira, foi a primeira apresentação em anos. Apresentou o espetáculo no ano de 2007 em algumas escolas e participou com ele de alguns circuitos do Sesc. Recentemente, a convite da técnica de cultura do Sesc, Camila Miotto, Josiane retomou o espetáculo, que veio incrementado em 2011.
A atriz fez parte de um grupo de contação de histórias chamado “Contarolar”. “Misturamos teatro com contação de histórias. Quando a gente dava voz para um personagem, queria que essa voz mudasse e que o corpo também mudasse, para o personagem ficar mais nítido para quem assistisse”, diz Camila Miotto, que também fez parte do grupo. “A partir da narrativa, imaginamos que voz o personagem tem, como ele é”, complementa Josiane.
Um espetáculo próprio para qualquer público, por se tratar de um conto popular, “Esticando as Canelas”, como revela Josiane, “está na boca de todo mundo”. Camila conta que pessoas de mais idade identificam as histórias. “Toda a história tem um quê de valores”, lança Josiane. Para Camila, o papel do contador de histórias é contar a história, sem pregar a moral, o que faz com que o público crie a sua própria leitura.
Embora seja a morte tão temida, a história deixa a ideia de que para existir vida, é preciso existir morte. “É isso que o Ricardo diz: não precisamos nos preocupar com a morte, porque ela é garantida; temos que nos preocupar com a vida e em como vivemos ela”, conclui a atriz.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Olhar demorado para um cenário de abandono



O relógio marcava pouco mais de 11h. Uma manhã de fevereiro, uma nebulosa manhã de terça-feira. Foram 52 minutos de imersão solitária na abordagem de um fenômeno social: o celibato no campo

Pouco a pouco, as luzes ganharam a escuridão e logo as imagens familiares invadiram a tela. O silêncio do Cine Teatro do Sesc Chapecó (Serviço Social do Comércio) foi quebrado pelo violão de Márcio Pazin e pela voz de Carol Pereyr. O relógio marcava pouco mais de 11h. Uma manhã de fevereiro, uma nebulosa manhã de terça-feira, dia 8. Dia escolhido para a exibição do documentário “Celibato no Campo”, projeto premiado pelo edital de cinema da Fundação Catarinense de Cultura em 2008, finalizado em agosto de 2010.
Na tela, nomes conhecidos. Direção de Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, através da Margot Produções; Imagens, Dayan Schütz; Som, Rafaela Menin. Os cenários interioranos, ainda mais conhecidos: Formosa do Sul, Saudades e Seara. Foram 52 minutos de imersão solitária na abordagem de um fenômeno social: o celibato masculino no campo. Moças que trocam o trabalho duro e o aconchego do campo para encarar a competição acirrada na cidade, onde um derruba o outro sem cerimônias, como expressa uma das filhas pródigas do campo, Rafaela Ternus. Lugares que ameaçam se tornar cenários-fantasmas, que ameaçam desaparecer, assim como os casamentos, cada vez mais raros nesse meio.
Foram mais de 25 horas de gravações em formato FULL HD. “Celibato no Campo”, segundo os diretores, não tem a proposta de ser sensacionalista e sim de ocupar um papel social importante, despertando o interesse da sociedade para o novo cenário rural, de abandono, ocupado em sua maioria por casais de idosos e homens solteiros. Ao final, sem querer estragar a surpresa de quem ainda não viu, a sensação de que o campo que conhecemos, filhos e/ou netos de homens e mulheres do campo, está com os dias contados, num ritmo de transição que causa grande desconsolo.
De um lado, pessoas que viveram a vida toda em uma mesma rotina de trabalho, sol a sol, e que agora estão sós, sem o apoio dos filhos; de outro, jovens que anseiam pelo novo, que muitas vezes têm vergonha de se dizerem colonos, que querem garantir o próprio dinheiro, já que os lucros das propriedades rurais não raro ficam centralizados nas mãos dos mais velhos. Situações que demandam um olhar mais demorado da população, do Poder Público, que precisará se empenhar ao máximo se quiser garantir a permanência do jovem no campo, a continuidade de toda uma cultura e até mesmo o futuro das cidades, já que se não há quem produz, também não há alimento para fazer a roda urbana girar.
“Celibato no Campo” ganhou espaço no Jornal Folha de São Paulo em 25 de dezembro do ano passado. O filme foi lançado oficialmente em 11 de novembro de 2010, no Sesc, sendo também exibido nas comunidades rurais em que o documentário foi rodado.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Tropeiro velho de guerra

“De gaúcho, eu não tenho nada. Só o coração”, diz o fundador do Museu Tropeiro Velho que há 25 anos preserva culturas antigas em forma de peças repletas de valor histórico

Quando eu não queria mais encontra-lo, foi aí que o encontrei. Assim aconteceu entre eu e um antigo personagem do oeste catarinense: Luiz da Fonseca Rosa, conhecido como Luiz Mineiro. Fui guiada por uma menina, um entre 28 frutos gerados por quatro filhas mulheres e cinco filhos homens, tidos ao longo de uma união que dura há 61 anos, entre Luiz e Enedina, que já casaram três vezes, ou melhor, casaram uma e celebraram mais duas vezes pelos longos anos de convivência. Porém, isso não é tanto para Luiz, pois tem um tio, o Pedruca, com 100 anos e 75 de casado.
Luiz e Enedina são responsáveis por um legado histórico: o Museu Tropeiro Velho, localizado na Linha Boa Vista há nada mais, nada menos, do que 25 anos. O apelido de “Mineiro” não surgiu por acaso. “Mineiro porque os meus troncos vieram de Minas Gerais. Fiquei com o apelido de ‘Mineiro’ até agora. Meu avô veio de Minas em 1858”, conta Luiz, 84 anos. Ao perguntar para um e para outro em que dia nasceram, a resposta é só uma: 1º de abril.
Mineiro juntou objetos de família para por no museu e alguns são provindos de doações. “Vem do Mato Grosso, vem do Rio Grande... Presentes que me trazem. Tenho bastante.” Todo pilchado, o senhor não estava muito para conversa naquela manhã, já que estava pronto para ir a uma festa de interior, a qual não queria perder nem por decreto. “De gaúcho, eu não tenho nada. Só o coração.” “E é verdade que o senhor é bravo, seu Luiz?” Ele responde: “Me tirando do sério, sou um tigre.”
A casa em que moram, a terceira durante a vida toda que passaram no mesmo lugar, foi feita pelos cinco filhos. Lá, a história de vida dele e da esposa, filhos, netos e outros familiares, lotam as estantes e paredes, que ainda abrigam imagens e badulaques religiosos. Uma casa colorida, com jeito e cheiro de passado, assim como é o Museu Tropeiro Velho, o lugar feito de madeira escura forrado de memórias que logo, logo, eu iria conhecer pelo guia Mineiro.
Feliz pela fama do esposo, Enedina, 76, fez um álbum de recortes de jornais com reportagens que saíram sobre ele, ela, a família e o museu ao longo dos anos. “Aqui está eu e meu véio”, mostra os recortes. “Olha aqui o meu véio de novo”, continua orgulhosa. “Então vocês fizeram história por aqui”, digo. “E rapadura, açúcar e melado”, surpreende Enedina, que depois de ter quebrado a perna, parou de freqüentar o museu que ajudou a criar. Mas, nesse dia, ela faria uma exceção.
Antes de partirmos, Luiz Mineiro, como não podia deixar de ser, serve uma cachacinha, guardada em um enorme cifre pendurado na área de casa, em meio a lembranças de grandes vidas que se uniram.

Com os dois pés no passado

Finalmente, as portas do museu se abrem e ponho os dois pés no passado, ao lado de minhas ilustres companhias de domingo. Em uma das mesinhas, uma máquina de somar que foi de Teixeirinha, ídolo dos antigos. Nas proximidades, máquinas de escrever, rádios, lampiões, panelas, ferros de passar e até a cama com colchão de palha em que Luiz nasceu.
Tem também unha de tigre, chifre de servo, pele de onça, tamanduá bandeira, anta, couro de cobras quilométricas, em altura e largura, animais empalhados – inclusive a cabeça de um cavalo que viveu 38 anos –, instrumentos usados para a plantação, para lidar com os bichos ou eliminar pestes. “Esse aqui é o monjolo, primeira máquina dos caboclos para fazer farinha, socar canjica, socar arroz”, lembra Mineiro, mostrando ainda um boneco-cangaceiro, com toda a indumentária típica, representando o lampião do norte.
Ele acha que seu canto de memórias é útil para que as próximas gerações conheçam um pouco do passado. “Cada peça conta uma história”, diz. Nomes desconhecidos por uma geração tecnológica, como bruaca, cangaia e arreio. “Com esse arreio fui de Dionísio Cerqueira a Florianópolis a cavalo, em 1985. Atravessei o estado inteiro.”
O homem que já fez muito pela história do oeste, vai saindo de fininho, para buscar mais visitantes. Enquanto isso, me entorpeço com velhas imagens, que guardo no íntimo de uma máquina digital.
Logo, tenho companhia. “Assim que eles faziam comida, Bianca”, fala uma senhora mostrando o caldeirão suspenso em toras de lenha. “É pele de onça mesmo?”, indaga a menina olhando o entorno.
Dona Enedina vê com seriedade a herança deixada por eles através do museu. Uma herança que perdura com muito trabalho, tempo e paciência. Aproveitando que estávamos sozinhas, ela demonstra seu amor pelo esposo, sem as rusgas da proximidade. “Meu véio, meu marido, foi o único homem que conheci. E não quero outro. É ele e pronto”, expressando pausadamente o seu apreço por esse inesquecível personagem do oeste, que cedo terminou a prosa, pois era dia de festa e o passado podia esperar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

para o inferno com o amor: uma história de erich fromm (hell)

comumente, pessoas me procuram. represento uma espécie de fetiche. elas querem saber como é ultrapassar os limites do meu silêncio, do meu corpo. raramente eu cedo às investidas. desse canto do mundo em que vivo há alguns anos, vejo o pior lado do ser humano. tenho a audácia de dizer até que amor é mito; monogamia também. é claro que sou contraditória e não raro caio nas armadilhas do amor romântico. é claro que espero o sagrado, como qualquer menina que cresceu lendo contos de fadas. mas, é em horas como essa, que percebo essas faces distorcidas dos seres humanos, que ouço vozes inexistentes que só eu ouço, que constato erich fromm (hell). o psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, citado por mim em uma crítica literária intitulada “o amor é uma arte”, que viveu entre 1900 e 1980, já sabia antes de eu nascer o que eu percebo agora. ele sabia que o amor depende de sutilezas, de algumas necessidades atendidas, de alguns fatores que preservem a sobrevivência orgânica e social de um individuo. não quero generalizar, mas a maioria das pessoas ama aquilo que lhe convém, ama um conjunto de características que são assimiladas e aceitas, ama a própria imagem refletida no outro, o espelho de si mesmo, inventado, melhorado, distorcido. ouvi milhares de vezes pessoas dizendo que me amam, dizendo que são minhas amigas, que sentem saudades, pessoas que me abraçam, me beijam, me querem por perto. pois eu digo: e se eu não tivesse passado pelas experiências pelas quais tive acesso, elas me amariam? se eu não soubesse escrever, não tivesse tido a chance de estudar, se morasse na favela, se precisasse me prostituir para viver, roubar, matar, se elas soubessem o que se passa pela minha cabeça, elas me amariam? se conhecêssemos a rotina de uma pessoa, soubéssemos o que ela faz quando está só, se ela tivesse uma doença incurável e transmissível, por mais que seu espírito/alma, ou o que for, fosse o mesmo maravilhoso espírito/alma, toparíamos ter um filho ao lado dessa pessoa? é a sobrevivência orgânica que impera. se a mesma pessoa com aquele magnífico espírito/alma pesasse 30 ou 300 quilos, seria amada? é a sobrevivência social que impera. já pensei e escrevi sobre isso e muito mais do que isso, mas nunca organizei em um texto. não que agora esteja organizando, mas enfim. são questionamentos que eu me faço a respeito das condições sociais em que as pessoas estão submetidas, que favorecem ou não a dita felicidade, o acesso ao amor. ainda lembrando de fromm, acredito que não podemos ser ignorantes em termos de amor. se deixar levar pelos sentimentos sem pensar sobre eles, acreditar em algo que não conhecemos. voltando a um aspecto comentado no início, desconfio da existência do amor e da monogamia, porque são conceitos engolidos e reproduzidos por nós sem nenhum critério. da forma que conhecemos esses conceitos, o que posso dizer é que eles não são duráveis. o amor da forma que conhecemos é ilusão momentânea; a monogamia é insustentável. minhas experiências me dizem isso; os anos me disseram isso. se eu negar a tudo, estarei escarrando na cara de uma sociedade que quer me ver de vestido branco no altar sagrado; mas se eu aceitar, estarei cuspindo na minha própria cara, nas minhas experiências desse lado do mundo. nem opostos, nem semelhantes podem ser fieis ou felizes para sempre.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As flores sombrias de Baudelaire

As Flores do Mal é a obra-prima do poeta francês Charles Baudelaire. Os poemas mais antigos da obra datam de 1841. Causou celeuma judicial e hostilidade na imprensa da época. Publicado em 1857, foi julgado como imoral. O poeta foi condenado por ofensa à moral pública, tendo sido multado e obrigado a retirar alguns poemas do livro.

Em seus versos, Baudelaire enfatiza os sentimentos de uma alma atormentada, através de uma poética sepulcral, de tom triste, sombrio e também boêmio. Baudelaire deu origem aos chamados poetas malditos na França, tendo inventado uma nova estratégia de linguagem, pois incorporou a matéria da realidade grotesca à linguagem sublimada do romantismo, criando assim a poesia moderna. Baudelaire, além de poeta, foi também crítico e marcou as últimas décadas do século XIX. Influenciou a poesia internacional com As Flores do Mal, surgindo, a partir do livro, o movimento simbolista.

Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821. A casa em que nasceu, na Rua Hautefeuille, 13, foi demolida e hoje abriga a Livraria Hachette, no Boulevard St. Germain.

O livro que tenho é um texto integral, lançado pela Martin Claret, em 2003, que publicou As Flores do Mal na conhecida Coleção a Obra-Prima de Cada Autor. É dividido entre Spleen e ideal, Quadros parisienses, O vinho, Flores do mal, Revolta, A morte e Poemas acrescentados às Flores do Mal na edição póstuma.

O comprei no ano seguinte do lançamento, na faculdade. Seu estado deplorável conta histórias das noites em que foi devorado sem pudor. Ecoaram das gargantas na noite ébria “A uma mendiga ruiva”, “A alma do outro mundo” e principalmente “De profundis clamavi”, poema cujo título se remete ao Salmo 134: “Das profundezas erguerei a ti, Senhor, os meus clamores”. (De profundis clamabo ad te, Domine).

E que conexão sentia com aquele poema.

Imploro-te compaixão, ó meu único amor,

Do fundo deste abismo em que agora sucumbo.

É um universo morno, o horizonte de chumbo

Em que nadam na noite a blasfêmia e o horror.

E seis meses no céu plana um sol sempre frio,

E seis meses a noite é imensa e tumular,

É um país bem mais nu do que a terra polar,

– Sem verde, sem bosque e sem animal e nem rio.

No mundo não existe um horror comparado

Ao frio tão cruel deste sol congelado,

À noite imensa igual à do caos ancestral;

A sorte invejarei do mais vil animal,

Capaz de mergulhar no seu sono inconsciente,

Com os fios do Tempo a dobrar lentamente!

Em 31 de agosto de 1867, Baudelaire morre, sendo sepultado no Cemitério de Montparnasse, onde faz companhia a figuras como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Guy de Maupassant e Man Ray. Sua vida, como a muitos de seus vizinhos de alcova, parece ter percorrido mais tempo do que a vida de nós, meros mortais, pela força da obra deixada, que dispensa demais elogios.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Fui ser feliz


Baby, Eu Amo Você
(Ramones)

Eu já alguma vez te falei
Como é bom te abraçar?
Não é fácil explicar

Embora eu realmente continue tentando
Eu acho que posso começar a chorar
Meu coração não pode esperar outro dia
Quando você me beija eu só consigo,
Me beije eu só consigo,
Me beije eu só consigo dizer:

Baby, eu amo você (vamos baby)
Baby, eu amo você
Baby, eu amo você

Baby eu amo, eu amo só você

Eu não posso viver sem você
Eu amo tudo em você
Eu não posso evitar se me sinto desse jeito

Oh, eu estou tão feliz que te encontrei
Eu quero meus braços ao redor de você
Eu amo ouvir você chamar meu nome
Me fale baby se você sente o mesmo

Baby, eu amo você (vamos baby)
Baby, eu amo você
Baby, eu amo você

Eu amo só você

Ah, eu estou tão feliz que eu encontrei você
Eu quero meus braços em torno de você
Eu amo ouvir você chamar meu nome
Me fale baby se você sente o mesmo

Baby eu te amo
Baby eu te amo
Baby eu te amo

Eu amo somente você

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Um lugar ao sol

Antes da Apache ser criada, nos anos 80 Claudete Michailoff já cumpria a sua missão. Hoje, são 41 cãezinhos sob os cuidados dela. A maioria foi abandonada e sofria maus tratos

Ao chegar na casa da “mulher dos cachorros”, os bichinhos disputavam atenção. Pelúcia é a mais atrevida, faz casa nos meus pés e esbraveja ao menor sinal de competição. São ao todo 41 cãezinhos sob os cuidados de Claudete Michailoff. A maioria foi abandonada e sofria maus tratos.
Claudete encontra os cãezinhos em ruas desertas que ficam perto de sua casa, no Bairro Alvorada. “Todas as saídas da cidade, nos lugares mais desertos, são pontos de abandono.” Os animais que estão mais debilitados ela leva para casa. Lamenta que não são todos que ela pode recolher. Nessa semana, abrigou 10 filhotes em dias diferentes, na volta do trabalho. “Os filhotes são fáceis de doar, porque são bonitinhos. O problema são os adultos. Os aleijados, é ainda mais difícil. O ser humano tem preconceito com o próprio ser humano, imagine com os animais.”
Uma das cachorrinhas chegou com o pescoço todo machucado e com ferida viva. “Amarraram uma corrente tão apertada no pescoço dela que a degolaram. Ela tinha um machucado nas costas também que criou bicho. Abandonaram ela, enroscada no calçamento, com a corrente dentro do pescoço.” Outra cachorrinha tinha marcas de cigarro na cabeça e uma terceira foi violentada, teve a perna machucada e o rabo quebrado. “Ela era bebezinha ainda. Um cachorro não faria isso”, observa.
Claudete é voluntaria na Apache (Associação Protetora dos Animais de Chapecó e Oeste Catarinense). Quando há feirinhas de animais, leva alguns dos seus para doação. Antes da Associação ser criada, nos anos 80 Claudete já cumpria a sua missão. À tarde, trabalha no Albergue João Plitz, como auxiliar de serviços internos. “Lá, a gente faz de tudo um pouco. Nos fins de semana trabalho 12 horas. Uma semana no sábado, outra no domingo. Trabalho muito com o pessoal de rua.”
É mãe de uma moça já casada e avó de Pietra, que cuida pela manhã. Mora com sua irmã, que tem Síndrome de Down. Além dos cães, também cuida de alguns gatos. “Tem dias que eu chego em casa e dá um desânimo. Eu limpo o piso de manhã e vou trabalhar. Quando volto, está tudo sujo de novo.”
Um dos seus vizinhos foi denunciado, pois para não comprar coleira, amarrou um arame no pescoço e na cocha, apertando o arame com um alicate para impedir a fuga do cachorro. O que consegue fazer para curar os animais, Claudete faz. Porém, muitas vezes precisa recorrer ao veterinário. A comida, em parte, vem de doações. “Saio pedindo, passando o chapéu.” Outra parte compra com o próprio dinheiro. “As pessoas doam quando querem, não tem como depender só de doações. Tem só um senhor que é bem fiel. Doa ração todo mês e vem trazer. Se eu não estou em casa, ele deixa no portão.”
Percebe que antigamente não havia tanto cachorro abandonado. “Agora, em cada esquina tem um. E não é só vira-lata que abandonam. Já peguei cachorro de raça abandonado, como Boxer e Dog Alemão. Abandonaram os animais desnutridos e desidratados.” Ela tem uma cachorra há 18 anos. Picachu passou parvovirose e cinomose, duas doenças que geralmente matam. Está um pouco cega, mas se recuperou. “Quando ela melhorou, estava muito velha para doar. Acabou ficando.”
Acredita que se um terço das pessoas que abandonam os animais recolhesse para cuidar, faria muita diferença. O abandono se dá pelos motivos mais fúteis: “Porque o cachorro sujou o tapete ou porque estava com diarréia. No final do ano, as pessoas vão viajar e descartam os cachorros, como se fossem brinquedos velhos. Quando voltam, procuram outros.”
Mais de dois mil cachorros já passaram pela casa de Claudete. Houve um tempo em que ela teve 58 cachorros de uma só vez. Mesmo com todos os cachorros para proteger a casa, Claudete quase foi roubada. “Os ladrões visitaram todas as casas dessa região. Tiveram a petulância de chegar aqui, mesmo com os cachorros avançando. Porque é uma troca: eu cuido deles e eles, de mim.”
Já pensou várias vezes em não pegar mais nenhum cachorro para cuidar. Mas ao ver os cãezinhos na rua, não se contém: Claudete olha para eles e continua a sua missão. O difícil de acreditar é como tantas pessoas têm coragem de maltratar os animais, enquanto uma, sozinha, luta para que eles tenham um lugar ao sol, longe das mãos que deixam marcas, por vezes irreversíveis.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Voa, Tuba!

Foram dias incomuns, desde aquela pergunta: “Você soube do Tuba?” Da resposta que eu não sabia qual era até a resposta que ouvi, foram minutos intermináveis. Foram dias duros. O tempo se moveu diferente, mais lento e pesado, desde aquele dia. Doze de janeiro de dois mil e onze, dois meses antes de Fabrício de Oliveira Tubin completar 29 anos, o “baquetas voadoras” nos deixou. Esse é o primeiro “Identidades” póstumo e, se é, é porque se trata de uma vida que valeu a pena.
Por anos e anos ele nos cativou ao som de suas baquetas voadoras, com seu entusiasmo único, com seu quase-transe em palco, em bandas como The Hempsons, Bauretes Quizofônicos e Epopeia. Agora, bandas em luto, guardam um vazio que não poderá mais ser preenchido pela presença barulhenta em palco e silenciosa fora dele, mas não menos inquieta.
Vi chorando quem sempre via sorrindo, ouvi homenagens sonoras saírem de gargantas em pedra, pessoas que até então se espalhavam em mesas diferentes e distantes, reunidas em um grande e mesmo brinde, pisando em solo sagrado depois de sete dias. Por um instante, todos saíram de suas clausuras para compartilhar um momento de união na dor, dor pelo adeus a um amigo querido, lenda entre os chegados. Pensávamos que ele seria eterno.
A mãe, dona Neiva, diz que Fabrício, gaúcho orgulhoso nascido em Canoas, se transformou após a descoberta dos óculos. O menino tímido, passou a sentir uma espécie de poder atrás das lentes, que o acompanharam a vida toda. Foi o primeiro do Bom Pastor a por brinco na orelha. Aos treze, ganhou uma bateria. Desde então, seu ritmo foi o de vôo. Longe dos pratos, a boca permanecia escancarada e as mãos agitadas em baquetas imaginárias.
O pai, Luiz, o acompanhava em sua rotina longe das baquetas, na tentativa de trabalhar do jeito “sério”, dando força para que ele seguisse em frente. Tuba até tentou, estudou jornalismo, história e turismo, mas optou por não concluir nenhum dos cursos. Além da bateria, dos discos de vinil e dos CDs, outra de sua paixão era dirigir, também o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e a Chapecoense.
Para Marciano Maraschin, amigo, fã e músico, Tuba era “o legítimo debulhador”, o melhor baterista desde 1977. Os amigos da banda Epopeia, entendem que Tuba apenas era, não precisava se proclamar. Na bateria, nenhum show era igual ao outro. Tinha pegadas autorais, estilo, e ficou na história, como Tony Batera, do lendário Grupo Nozes. Contam que Snoopy, um cofap que morreu recentemente com 17 anos, era companheiro inseparável de Tuba. Noopy era o quinto elemento da Epopeia.
Freqüentador assíduo do Bar da Dulce, para ela, Tuba deixará somente boas lembranças. Dulce era conhecida como a segunda mãe do baterista, pois sempre estava preocupada em saber se ele tinha comido, se estava bem, o que ele tinha para dizer. Dulce diz que com ela, Tuba falava. Suas madrugadas eram compartilhadas e ela se admirava ao ouvir papos sérios noites a fio.
Depois de anos apresentando complicações nos rins, em 2011 o quadro se agravou. Fez hemodiálise, mas não adiantou. Do rim, a complicação atingiu também o fígado. Tuba teve falência múltipla dos órgãos. Alguns suspeitaram de leptospirose, mas essa não é uma hipótese aceita pela família. Nem mesmo os médicos conseguiram compreender o quadro, muito menos revertê-lo.
O último show do ano de 2010 da Epopeia, em 3 de dezembro no Morrison Rock’n Blues Bar, também foi o último de Tuba, que já apresentava cansaço. Era para ser o show de despedida da vocalista Eliz, que foi passar uma temporada no litoral catarinense, mas acabou sendo também o show de despedida de Tuba. Eliz não pôde vir para o oeste para se despedir do amigo e companheiro de palco, que teve orgulho em partilhar com ele, mas acompanhou tudo de longe através dos integrantes da banda.
Nessas horas, palavras são inúteis. Até quem sempre sabe o que dizer, se rende aos clichês em horas como essa. Mas que essas poucas palavras, esse emaranhado de signos, sirva para registrar a trajetória desse baterista que fez arte com as baquetas nas mãos, que voou longe e cedo demais.
Quem o olhava nos olhos, via um amigo. Via a alegria e a tristeza de ser o que sentia. Tuba criou asas e voou, se separou da máscara mundana e deixou uma mensagem de desapego, de negação aos estereótipos, aos moldes sociais que sufocam. Sempre gentil, porém forte, fez o que quis, viveu como escolheu viver.
Com ouvidos mais atentos, quem sabe possamos ouvir esse grande personagem do rock chapecoense ao lado de seus ídolos, como Keith Moon e Jimmy Hendrix, espalhando saudades enquanto corta o ar com suas lendárias baquetas em pleno vôo.

“Você não sabe há quanto tempo
Estou aqui
Esperando a hora certa
De partir

Partir o bolo
Queimar dinheiro
Sair do jogo
Volt(ar)ei a viver”

(Epopeia – Quando Criamos Asas e Voamos)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sobre maldade, feiúra & injustiça

Aclamado como o melhor livro de histórias curtas de Charles Bukowski, “Ao sul de lugar nenhum – histórias da vida subterrânea” foi publicado originalmente no ano de 1973. Como de costume, o autor, já comentado nesse espaço, segue sua linha maldita, mostrando que lê-lo sem sentir nenhuma reação é coisa impossível.
Um livro, como outros de Bukowski, de caráter autobiográfico, de 27 contos, de nomes impublicáveis, escritos sem pudor. A janela indiscreta que dá para os tempos de depressão, o encontro com o próprio diabo, a vida cáustica de pessoas invisíveis aos grandes olhos da sociedade, as histórias bizarras e os bastidores da rotina de escritores que encontram sucesso tanto quanto respiram ar puro nos becos dissecados por Buko, através de escrita coloquial e arrebatadora, a exemplo de “Como amam os mortos”:
“Quando não era isso, era eu ficar sentado durante dias, horas de medo incomunicável, o medo se abrindo no meio do peito como um grande botão em flor, não se podia analisar o que estava acontecendo, imaginar o porquê de tudo aquilo, o que tornava as coisas ainda piores.”
E, falando em Bukowski, recentemente soube por um leitor do “Café, Cigarros & Desordem” que um filme de 1987 chamado “Barfly – Condenados Pelo Vicio”, em português “mosca de bar”, seria o melhor baseado nas obras de Charles B., que teria escrito o roteiro e feito uma aparição silenciosa no filme. Fontes ligadas ao escritor dizem que “Barfly” seria o único filme realmente aprovado por ele em relação aos outros baseados em sua obra, estando ele presente o tempo todo durante as gravações.
Aos amantes do velho, aí está: duas dicas em uma com a melhor forma de Bukowski e suas topadas com o fracasso, que fizeram dele um dos escritores do século XX mais amados e influentes. Um anti-herói, avesso aos ideais de bondade, beleza e justiça, nutrido de algum tipo de caos que caracteriza sua obra, seja ela de arte ou não. “– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: ‘Nunca encontrei um homem de quem não gostasse’. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.”
Se sua obra tem uma estratégia de mercado malévola atrás de si (teoria da conspiração?), engolida e reproduzida por seus admiradores, não sei dizer. Mas Buko mostra uma realidade que existe, mesmo que não queiramos ver. Realidade que ele bota mesmo contra o ventilador e ganha o mundo, revelando que produções culturais podem ter esse foco: divulgar o que muitos pensam e vivem, mas não têm coragem ou condições de expor.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

“Uma ode ao bom relacionamento, ao carinho, ao amor”

“Breviário Amoroso” é uma peça interativa e cômica, repleta de piadas, contadas por dois clowns, interpretados por Clodoaldo Calai e o ator argentino Alejandro Abdala

O amor em cena. O espetáculo “Breviário Amoroso”, da Cia Muiraquitã de Arte e Espetáculos, aconteceu no Sesc (Serviço Social do Comércio) na tarde de ontem (17). Uma peça interativa e cômica, repleta de piadas, contadas por dois clowns, interpretados por Clodoaldo Calai e o ator argentino Alejandro Abdala, licenciado em Interpretação e Direção Teatral pelo Conservatório Nacional de Arte Dramática de Buenos Aires, instrutor de teatro e de circo.
“É uma mistura de teatro dramático com stand up. Uma comédia bastante ligeira, ágil”, conta Clodoaldo Calai, mestre e doutorando em teatro pela UFSC (Universidade do Estado de Santa Catarina), especialista em metodologia do ensino da arte, ator e diretor de teatro com mais de 25 anos de experiência, à frente da Cia Muiraquitã há 20 anos.
Para ele, a peça mostra que não existe regra, jeito certo ou errado de se relacionar com as pessoas. “Existe a maneira verdadeira, que fala ao coração. É uma aula de tolerância, de respeito às diferenças, à individualidade. Uma aula contra o preconceito. Uma ode ao bom relacionamento, ao carinho, ao amor.”
A Cia Muiraquitã tem três faces: teatro escola, teatro de pesquisa e teatro empresa. O “Breviário Amoroso” faz parte da face teatro escola. Está em cartaz há dois anos e percorreu várias cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. “É uma peça que fala sobre amor. Várias formas de amor. Contamos a história do amor desde a Pré-história até o século de hoje. Como o homem primitivo conquistava a sua namorada, assim como o homem medieval e o homem contemporâneo.”
Adaptar o espetáculo ao público é uma das características da Cia Muiraquitã. “É um espetáculo que funciona para adultos e para crianças. Se é um público adulto, o espetáculo é mais sexualizado; se é um público infantil, adequamos a linguagem a esse público. Não se consegue atingir uma faixa tão larga que agrade a todos.”
Na semana passada, a companhia apresentou também no Sesc o espetáculo de contação de histórias “Salada Mista”. Esse período, segundo Calai, é um período interessante para apresentações porque há pouca atividade. “Voltamos para a estrada em março. Normalmente, voltamos na segunda semana de aula. Começamos pelo Meio Oeste, viemos para o Oeste, Extremo Oeste, Norte gaúcho, Sudoeste do Paraná, litoral catarinense e Vale do Itajaí. Agora, estamos nos preparando para a peça que vai para a estrada esse ano.” O espetáculo “Para Que Serve a Escola?”, ainda não tem previsão de estréia.
O teatro escola tem a proposta de fácil degustação, caber no porta-malas no carro, para que as viagens se tornem viáveis, e contar com poucas pessoas. Não se trata de um trabalho centrado no visual, ou seja, na produção, cenários e figurinos. “É centrado no ator. Os atores seguram o espetáculo do início ao fim. Não há outro recurso que não seja a presença física do ator. Um trabalho bem bacana, já que vemos muitos espetáculos com elenco péssimo, que não segura o público, mas que têm uma luz fantástica, cenários muito bem elaborados, figurinos riquíssimos. Mas aí é artes plásticas, arte visual, não é teatro. Teatro é o ator. Essa necessidade franciscana desenvolveu a habilidade de perfeição do ator.”
Dentro do teatro de pesquisa, a companhia desenvolveu no ano passado “A Trilogia do Desespero”, com as peças: “Nós Três”, “Clausura” e “O Próximo”. Todas representam situações-limites da existência humana, em que estão envolvidos seres em desespero. No teatro empresa, a Cia Muiraquitã é líder de mercado no Sul do país, tendo como carro-chefe o espetáculo “Totonho Vai Para o Céu”. Todos os anos, as empresas fazem parte do SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho), um dos eventos que mais resultam em procura pela companhia.
A companhia nasceu em Concórdia em 1991, completando, portanto, 20 anos em 2011. Em Chapecó, a Cia Muiraquitã existe há 10 anos. Se apresenta em todo o Sul do Brasil, em escolas, prefeituras, empresas e outros. Clodoaldo, ator de teatro desde 1984, acredita que o teatro tem uma função básica, além da função social e política, que é a função do divertimento. “Trabalhamos com o riso como qualidade de vida. Quem não ri, quem não se diverte, não é feliz. Sempre tentamos fazer com que as pessoas sorriam e se divirtam.”
Em 2010, a Cia Muiraquitã foi assistida por 85 mil pessoas. Ainda assim, foi o ano de menor média de público. Em 2009, foram quase 100 mil pessoas que acompanharam o trabalho do grupo, que trabalha ainda com cursos de “Dinamização Profissional Através de Técnicas Teatrais”, “Comunicação Total” e “Despertar da Inteligência Sensível”.

“Breviário Amoroso”
O espetáculo “Breviário Amoroso”, da Cia Muiraquitã de Arte e Espetáculos, constitui em uma alta comédia, na qual, através de cenas lúdicas e cômicas tenta estabelecer com o público, que pode ser de idades variadas, parâmetros acerca do comportamento, do riso e da cordialidade. Inicia com dois clowns que entram em cena e após uma série de eventos cômicos, resolvem que precisam fazer algo para animar a platéia, para isso arquitetam a montagem de cenas teatrais em parceria com o público, possibilitando a interação entre espetáculo e platéia. O público é levado ao palco para exercitar seus talentos dramáticos, o poder de sedução e de conquista, itens básicos em qualquer tipo de relacionamento humano.

Texto e direção: Clodoaldo Calai
Atuação: Clodoaldo Calai e Alejandro Abdala
Técnica: Cia Muiraquitã

Conheça o blog da companhia: http://ciamuiraquita.blogspot.com

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

“Ela foi encontrada! Quem? A eternidade”

Querem a verdade? Estou sem nenhuma vontade de escrever hoje. Meu amigo morreu e eu, sempre cheia de palavras, não sei o que dizer. É uma pena que eu nuca tenha visto um livro que falasse dele, Fabrício Tubin, o Tuba, grande baterista da Epopeia. Se tivesse, estaria escrevendo sobre ele. Bem, mas farei um esforço. Falarei de um poeta que entendia de eternidade. “Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado ao sol.” Arthur Rimbaud, um poeta que ganhou a eternidade, assim como meu amigo.
Falarei de um livro que em sua forma não é nenhuma raridade, mas em seu conteúdo sim. “Uma Estada no Inferno, Poemas Escolhidos e A Carta ao Vidente” é um livro publicado pela Martin Claret, uma editora que, como a L&PM, populariza grandes obras primas, como fez com Arthur Rimbaud. A edição que tenho foi publicada em 2005, mesmo ano em que o comprei, admirada com a história do menino-poeta.
“Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos; O meu paletó não era bem o ideal; Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal; Ah! E sonhava mil amores insensatos”. Rimbaud é um ícone da literatura francesa e universal. Verteu o quanto pode, entre os 15 e os 20 anos, época em que escreveu toda a sua obra. Um menino, apenas um menino, que revolucionou a poesia de sua época, escandalizou uma sociedade moralista e deixou seu legado, que sobrevive aos séculos.
Alguns comparam Jim Morrison a ele, como o autor Wallace Fowlie, que escreveu “Rimbaud e Jim Morrison – os poetas rebeldes”, também de 2005. Os dois, embriagados no barco cambaleante da vida, viveram intensamente, morreram jovens, conheceram a eternidade.
Arthur Rimbaud, ao lado de outro poeta francês de sua época, Paul Verlaine, teve um romance discriminado na época, relatado no filme inglês “Eclipse de Uma Paixão”, ou “Total Eclipse”, de 1995, tendo Leonardo Di Caprio no papel de Rimbaud e David Thewlis como Verlaine. Um drama dirigido por Agnieszka Holland, que mostra as noites dos poetas regadas a absinto, que juntos escrevem alguns de seus poemas mais conhecidos.
Jean-Nicolas Arthur Rimbaud nasceu em 20 de outubro de 1854, em Charleville, França, e morreu em 10 de novembro de 1891, em Marselha, aos 37 anos. Seu corpo foi enterrado no jazigo da família em Charleville, lugar que rejeitava, porém, que sempre voltava, entre as suas andanças pelo mundo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

“Já vivi a vida. Agora vou pra onde Deus quiser”

Desde que comecei a escrever perfis, tomei consciência do que esse trabalho significava. Os perfis são registros de pessoas incríveis que estiveram por algum tempo entre nós, que poderiam morrer sem ter suas histórias contadas, se não fossem atitudes como essa, de escrever, escrever pensando em um futuro onde elas não mais estariam na Terra, nos agraciando com as suas presenças.
Hoje recebi uma matéria triste. Uma ex-colega minha, Ana Vissotto, do Jornal Sentinela do Oeste, de Palma Sola (SC) – fronteira com a Argentina –, em que trabalhei no ano de 2009, disse que leu a matéria trágica e lembrou de mim. “O homem do táxi”, morreu. Darcy Kastner Pontes, 89, foi dono de um dos perfis mais elaborados e prazerosos da minha vida de repórter. Com tom de despedida, ele falou comigo, com aquele sotaque alemão vindo dele que eu não irei mais ouvir, que ninguém mais irá ouvir, pelo menos por aqui.
Em mais de 40 anos de profissão, nenhum acidente. O único o levou à morte. O que me alenta é o fato dele ter morrido fazendo o que mais amava: dirigir o seu táxi. Conhecia as estradas da região de Campo Erê (SC) mais do que a própria palma. Já devia ter se aposentado no ano passado, mas não o fez. Sua história agora ganha a eternidade e me sinto, apesar de triste, orgulhosa por tê-la registrado.
Vá com Deus, “homem do táxi”, meu personagem de García Márquez. Sei que já viveu a vida e que Deus deve ter desejado a sua presença em um plano maior e melhor. Onde quer que esteja, deve estar fazendo suas corridas com a desenvoltura do grande homem que foi.

Ao som de Taxman, que não tem nada a ver com táxis, mas me lembra você,
Fabiane De Carli Tedesco.


Matéria do acidente publicada no Sentinela:

Morre o “O homem do taxi”

Campoerense de 88 anos era o taxista mais velho em atividade no Brasil. Fatalidade aconteceu durante uma corrida que fez até interior de Anchieta

Uma fatalidade aconteceu na tarde da última quinta-feira, dia 6 de janeiro, na linha 7 de Setembro, zona rural de Anchieta. O taxista mais velho do Brasil, campoerense Darcy Kastner Pontes, foi realizar uma corrida no interior de Anchieta, quando num trágico acidente perdeu a vida.
Darcy era casado com Neli Pontes da Rocha Loures há mais de 60 anos, deixou quatro filhos, 13 netos e 12 bisnetos. O boato de Darcy ser o taxista mais velho do Brasil se deu após uma reportagem de televisão feita com um taxista carioca, de 83 anos, que seria o taxista mais velho em atividade encontrado até então no país.
Mesmo com 88 anos Darcy tinha fôlego para o trabalho, excelente visão, não usava óculos nem para ler jornal. O aposentado trafegava normalmente pelas ruas campoerenses e constantemente estava brincando com as pessoas que passavam pela rodoviária do município, seu ponto do dia a dia.
‘O homem do taxi’ como foi intitulado numa entrevista do Sentinela foi velado na Câmara de Vereadores de Campo Erê, recebeu várias homenagens, reunindo centenas de pessoas. Um homem íntegro e correto que deixa família e amigos enlutados.

(Jornal Sentinela do Oeste)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

querido fulano,

é, magoou muito. por muito tempo, fiquei pensando em qual era o motivo da tua aproximação e distância repentina. também tenho meus grilos quanto ao sexo. entendo. eu atrai tua existência e isso não foi a toa. estávamos os dois perdidos. mas eu me importava e muito com as pessoas, contigo. através da dor, aprendi muito nesses anos. acho que cheguei a um nível de consciência maior. mas quanta dor, fulano, quanta dor. devem ser mesmo os nossos karmas. passei algum tempo, na cama, chorando muito por ti e pela minha existência. não me sentia gente, não me sentia digna. não sou do tipo de mulher que leva as relações em níveis superficiais. nunca fui de amenidades. o teu silêncio cortou fundo, mas foi melhor assim. te esqueci e hoje creio que eu tenha encontrado alguém que me aceita e me ama como eu sou. chorei, conversei com nossos amigos, senti ciúmes, revolta. mas passou. você me inspirou a escrever. escrevi muito pra ti, coisas que você nem deve conhecer. nem sabia que você se importava ou que tinha ideia do que me fez, mas se tem, melhor pra nós. não são todos que têm a tua coragem e iniciativa, fulano. desculpas aceitas. já passei por muitas situações difíceis. situações de violência, desde a infância. o mundo foi duro demais pra mim, mas é ainda mais pra outros. minha escrita é o meu refúgio, um canto seguro, longe da maldade. se puder, deixe o dvd com a sicrana. não estou mais de corcel. obrigada pelas palavras. não desejo mais o teu amor do jeito que eu desejava antes, não te preocupe. aceito o teu respeito, que já é muito.

vê se te cuida, fulano.

Gente da minha laia

uma pessoa da minha laia não merece ser lida, ouvida nem tão pouco levada a sério. uma pessoa da minha laia tem sérios problemas sócio-culturais. sou um homem mau e de faro aguçado. faço parte de um grupo seleto de pessoas que se enquadram no que bons cristãos e nazifascistas chamam de cambada. eu e minha cambada inspiramos receio aos mais esnobes e moralistas. pessoas da minha laia, riem daqueles que se auto-proclamam heróis ou libertadores de qualquer coisa, pois heróis e libertadores apenas são. minha cambada tem muita coisa pra mostrar, muita coisa pra contar, mas prefere agir. pessoas da minha laia estão preparadas para ouvir, aprender e se preciso, intervir. gente da minha laia lê Fante, Gutierrez, Medina Reyes, Kerouac, Bukowski, Terron, Thompson, Assunção, Mirisola, Nietzsche, Cioran, Hakim Bey... que são da laia que inspiram gente da minha laia. gente da minha laia reunida forma uma cambada. uma cambada de gente da mesma laia. gente da minha laia admira Lampião e seu Cangaço, Emiliano Zapata, o Subcomandante Marcos e o Zapatismo; ouve Arnaldo Baptista, Charly Garcia, Tom Zé, Rui Maurity, Beethoven, Johnny Cash... come comida apimentada, bebe vinho, cerveja, uísque, rum, tequila e café; contempla a pirotecnia e só por causa da comida e bebida, marca presença em almoços nus ou jantares onde ‘pessoas importantes’ e pomposas se reúnem - também em aberturas de exposições de arte onde há um bom coquetel regado a vinho e salgadinhos gordurosos. gente da minha laia excursiona pelos botecos esquecidos da cidade e não dá sua cara a tapa gratuitamente. gente da minha laia escreve em jornais textos improváveis, provocantes e poéticos por alguns trocados que depois são gastos em prazeres da carne e da alma. gente da minha laia não tem medo de ser nem estar - apenas se reserva em momentos. gente da minha laia é discreta e tem certo humor, certa elegância nos gestos e nas palavras, e quando necessário, tem o poder do sarcasmo e da ironia para algum eventual combate. eu sou um pouco belicoso, como toda a gente da minha laia. enfim, minha laia é circundada de cães & crianças, numa festa alegre e disposta, caótica e intensa, cheia de fragmentos de tudo quanto é coisa viva. portanto, atenção! somos poucos, mas bem distribuídos por aí!

(Herman G. Silvani)

Eu não sou surdo

Canta mal, mal fala, o sujeito
Teclado no automático
Mãos pesadas fazendo cena

Verdadeiro ou falso

Fala na cara
Dá a cara a tapa
Tapa a boca & rasga a máscara

Veneno

E eu também sou
De sensacionalismos & absurdos
Mordi a fruta errada do meu tempo

Transição poética

Ah, tempos de amenidades
Endeusamento involuntário
Amores tolos & rasgação de seda

Está nos genes...

Certo dia estava, com um amigo, ouvindo um CD de um deficiente visual, cujo nome não há porque divulgar, e isso me desencadeou uma série de inquietações. Pelo que percebemos, não havia muitas músicas compostas por ele no álbum, pois ele preferiu músicas já bem conhecidas como “Imagine”, de John Lennon, e “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso. Para acompanhar a música, ele utilizou de um teclado com aqueles recursos de acompanhamento, tipo bateria e baixo.
As músicas ficaram irreconhecíveis, tanto pela melodia quanto pelas letras, devido a fatores como a má pronúncia do inglês e as constantes desafinadas que o pequeno cantor, dotado de uma voz “não tão boa assim”, deixava escapar a toda hora. Mesmo assim, quando meu amigo começou a criticar o garoto, eu me pus a defendê-lo com sentenças do tipo: “coitadinho, ele é cego”. Nisso, a mesma pessoa que havia o criticado, disse: “você não o critica só porque ele é cego, se não fosse criticaria”. Na hora, eu não concordei nem discordei, apenas fiquei pensativa.
Casos me vieram à minha mente nos dias seguintes, para reforçar as minhas suspeitas, como, por exemplo, o de uma deficiente física que faz poemas há muito tempo (conheço o seu trabalho desde criança) e com quem eu tive a oportunidade de conversar certo dia. Ela disse que uma editora não aceitou os seus escritos porque, segundo o responsável, eles não tinham qualidade, eram repetitivos e banais. Ela contrapôs dizendo: “mas e a quantidade, não vale?”. Não sei o que o editor respondeu, se ele deixou-se levar pelo fato da sua deficiência ou não, mas o fato é que hoje eu concordo com ele e responderia negativamente à sua publicação.
Porque deveríamos aceitar o trabalho de alguém, mesmo que tenha quantidade, sem contestar ou criticar? Só porque o emissor tem alguma deficiência física? É claro que certas atividades, dependendo da deficiência, são mais complicadas de serem feitas, o que não corresponde aos casos avaliados. Não são eles e os seus defensores, como eu mesma sou, que falam(os) tanto em preconceito, em direitos iguais, em discriminação? Não seria justo os colocarmos em um mesmo nível de discussão desde que eles tenham capacidades mentais para fazer um trabalho de qualidade, não-banal e não-repetitivo?
Eu penso que muito desta relevância que se tem é porque há consciência de dar um certo incentivo, um impulso para que ele faça o que se propôs, mas não se pode deixar de fazer críticas construtivas, a fim de instigar a melhora das suas produções. Jamais afirmo que não são bons exemplos de vida ou que eles não mereçam admiração e respeito por, muitas vezes, superarem os seus limites físicos. Porém, um sujeito que teve paralisia infantil nas pernas, não pode escrever bem? Alguém que é cego, não pode cantar bem, fazer um bom trabalho?
Há muitas pessoas em associações de escritores e afins que demonstram usar (ou se aproveitar) a ou da sua deficiência para se justificar e muitas vezes usam isso para garantir a sua sobrevivência (já que não deve ter muita chance no grande mercado), como o cego que humoriza a sua própria condição, o que pode ser bom, vendo pelo lado da não-lamentação, mas pode ser ruim vendo pela ótica da auto-discriminação, seguindo os padrões da sociedade que não tolera ou ridiculariza o diferente. Ainda há um outro ponto relevante que talvez já seja um clichê: é melhor que aquele que tem deficiência faça esse tipo de coisa, ainda que se torne um freak, do que fique trancado em casa pensando em se matar e se martirizando porque nasceu cego, com problemas nas pernas e assim por diante.
Mas, para finalizar, temos um “caso-apêndice”, pois o filho – sem deficiência alguma – desta poetiza que priorizava a quantidade lançou um livro de qualidade discutível, mas ele é tratado da mesma forma que a mãe, com o mesmo zelo hipócrita, discriminador, preconceituoso e desigual. Então, meus caros, eu só posso dizer uma coisa: estamos perdidos, porque discriminação está nos genes!

(Texto antigo, mas que ainda condiz com alguns pensamentos meus que alvoroçaram nos últimos dias)

Pensionato para meninas

O pensionato, para ela, foi uma maneira de fugir da depressão. “O meu sonho, desde menina, era ter uma filha. Mas eu nunca tive. Agora, tenho várias”, diz dona Emília Ribeiro

Pelo sobradinho rosa e antigo, muitas meninas já passaram. Eu era mais uma. Na porta, uma senhora sorridente, me convida para entrar no ambiente colorido, como ela. Era dona Emília Ribeiro, quase 59 anos, a serem completados no dia 7 de fevereiro, que cuida do “Pensionato Familiar Feminino” há cinco anos. “Foram teus pais que ligaram, né?”, me pergunta. “Não, não foram”, respondo. Minha intenção: fazer uma reportagem com ela, conhecer a sua história que se confunde com as muitas histórias que fazem parte do pensionato.
Antigamente, o prédio antigo era um pensionato para rapazes, depois, um local que atendia meninas, que sofriam violência sexual e outros casos, onde faziam cursos e eram tratadas por profissionais. Emília morava ao lado da loja “Mulher Rendeira”, que dividia espaço no prédio. “Eu morava embaixo. Acordava com os ‘tropeques’ dos saltinhos das psicólogas que vinham atender aqui.”
Emília trabalhou na Distribuidora de Leites Tirol, mas teve um problema de coluna. “O médico disse que eu teria que ficar de atestado por três meses, só deitada. Mas como eu sou uma pessoa muito religiosa, me apeguei a Deus e me apareceu essa oportunidade.” O sobradinho estava para alugar, mas só para empresa. Mesmo assim, o local foi liberado para dona Emília.
“A dona Elaine Tessari me chamou e disse: ‘Abre um pensionato para estudantes.’ Eu disse: ‘Ih, meu Deus, será?’” Três meses depois, estava aberto o pensionato. Começou com apenas quatro meninas, hoje são 27, havendo apenas um lugar, já procurado por uma nova menina. Das tantas garotas que já passaram pelo sobradinho, uma permanece: Eveline, vinda de Concórdia, a menina mais antiga no lugar, que acompanha, ao lado de Emília, as incontáveis histórias do pensionato. “Elas vêm, com carinha de anjo, dizendo que vão respeitar as normas... daqui a pouco, não é nada do que elas queriam.”
Dona Emília é enfática: “Não pode trazer namorado, não pode trazer amigo, nem amiga, só visita da família. Deu 22h, no máximo 23h, todo mundo tem que estar nos seus devidos quartos.” Ela só aceita meninas vindas de outras cidades, desde que venham acompanhadas dos pais. “As meninas daqui, se saem da casa do pai e da mãe, é para não obedecer as normas. Aqui tem normas muito mais rigorosas do que as de pai e mãe.”
Avó de Pedro, faz, muitas vezes, o papel de segunda mãe para as meninas. Uma mãe enérgica, porém boa. “Tem que está sempre ali”, gesticula, simbolizando o cuidado. Viúva desde 1982, mora junto das meninas. “Tenho ainda um filho, casado. Tinha dois filhos, os dois se acidentaram e o mais novo morreu.” Emília é interrompida por uma das meninas, que pede um guarda-chuva para a mãe de aluguel, para que possa encarar a chuva, ao lado da colega de pensionato. As duas estavam indo a uma entrevista. Ela interrompe então a nossa e, depois de resolver o problema e trocar alguns comentários com as meninas, orgulhosa de saber que sua história será publicada, volta para contar das alegrias e tristezas de sua rotina. “Depois vocês vão ter que comprar o jornal”, avisa as meninas sobre a reportagem. “Ela vai falar das meninas que obedecem e das que não obedecem”, brinca.
“Tem umas que deixam saudades quando vão embora e outras que não gosto nem de lembrar que passaram por aqui. Não respeitam. Ali está a plaquinha: ‘Pensionato Familiar Feminino’. Se elas desrespeitam as regras, não é mais familiar.” O pensionato, para ela, foi uma maneira de fugir da depressão. Depois da morte da mãe e do filho, o pensionato surgiu como um bálsamo. “O meu sonho, desde menina, era ter uma filha. Mas eu nunca tive. Só tive os dois filhos. Agora, tenho várias.”

Contando histórias

Inúmeras histórias já se passaram no pensionato para meninas, que chegam de diferentes lugares do país. Algumas dessas histórias marcaram a memória de Emília. Outras, nem autoriza contar. “Uma que também me marcou muito, aconteceu bem no comecinho. Veio uma mulher desesperada para arrumar lugar para a empregada. Dizia que era uma pessoa maravilhosa, querida. Resolvi aceitar. A patroa trouxe cobertor, travesseiro, pagou adiantado com cheque, tudo certo. Com o passar dos dias, notei que a moça trazia muita coisa cara para comer, se chaveava no quarto. Até que um dia, a patroa veio atrás da fulana. Ela disse no telefone: ‘Dona Emília, não saía! Tranque a porta do quarto dela, não deixe ela sair, me espere chegar.’ A menina tinha roubado. Eram mais de 16 sacolas cheias. Deu um cerro ali na frente, só de coisa roubada. Resultado: três camburões da polícia vieram atender a ocorrência.” Depois disso, Emília passou a ter todas as chaves dos quartos e se tornou ainda uma espécie de investigadora amadora dos quartos da pensão, para que passagens como essa não voltem a acontecer.
Mas nem só de passagens tristes é composta a história do pensionato. Emília, às vezes, tem o poder de mudar a vida de algumas meninas. “Teve uma menina que entrou aqui de mal com a mãe e eu abri uma exceção. A menina se queixava da mãe e eu dizia que aqui estava cheio de meninas que choram de saudades de suas mães.” Falava de amor e perdão para a garota e a convenceu a voltar a falar com a mãe. “Ela falava que não tinha coragem, mas eu me propus a levar ela até lá. Pegamos um taxi e fomos até à casa, para ela abraçar a mãe.” O que era para ser apenas um abraço, se transformou em estadia permanente. “Está até hoje. Foi uma benção. Uma lição.”
Atrás do pensionato, Emília também transformou um lugar onde só havia mato, em estacionamento. “Os ladrões vinham e se escondiam ali. A polícia vivia ali atrás catando ladrão. Peguei, carpi, limpei, botei dois caminhões de brita e hoje está aí, um estacionamento, com 12 carros.” Hoje, informatizada, dona Emília conta que divulga o pensionato em um site da cidade, tem MSN e Orkut, onde posta fotos suas ao lado das meninas do pensionato, sua nova família.

Crônica de um Amor Louco [Filme]


Presente aos leitores do Café, Cigarros & Desordem! É um dos melhores filmes que já vi. Recomendo o uso do VLC, para execução, que não tem erro, pois não exige Codecs.

Crônica de um amor louco é o primeiro dos dois volumes da obra Ereções, ejaculações e exibicionismos, do escritor Charles Bukowski (1920-1994), lançado no Brasil pela L&PM Editora. Baseado nessa obra, o filme "Crônica De Um Amor Louco" é um dos mais elogiados cult-movies dos anos 80. Inspirando-se na vida e na obra do poeta Charles Bukowski, o cineasta Marco Ferreri (A Comilança) criou um filme ousado repleto de erotismo e lirismo. Charles Serking (Ben Gazarra) é um poeta anárquico e beberrão que vive no submundo de Los Angeles, entre prostitutas e marginais. Numa de suas maratonas pelos bares, conhece a linda prostituta Cass (Ornella Muti), com quem inicia um tórrido e trágico romance.

Título Original: Storie di ordinaria follia / Tales of Ordinary Madness
País de Origem: Itália / França
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento: 1981
Direção: Marco Ferreri

Download do filme:


A vida entre paredes

Sua vida se restringe a permanecer parado, em silêncio, encostado em uma parede da área de casa, que já guarda as marcas de seu corpo

A caminho da Trilha do Pitoco, a figura de um homem, inerte em uma casa. Barba e unha crescida, olhos inflamados, seminu por opção, independente das estações do ano, Paulo Santolin tem uma história cheia de tabus e limitações. Sua vida se restringe a permanecer parado, em silêncio, encostado em uma parede da área de casa, que já guarda as marcas de seu corpo.
Os moradores da região não querem falar a respeito abertamente, tampouco terem seus nomes divulgados, quando o assunto é Paulo. Apesar da surdez adquirida por conta de uma meningite aos 13 anos, Paulo era muito trabalhador. O que se ouve dizer é que até os seus 25 anos, ele trabalhava na roça. Saía, assistia e jogava futebol, lia jornais e revistas, como a maioria dos jovens de sua idade.
Certo dia, Paulo resolveu não mais sair da cama. Passado do meio-dia, a mãe foi ver o que o filho tinha. Ele dizia ser apenas uma gripe. Assim, recebeu os cuidados e remédios necessários para que se curasse. Os dias foram passando e ele começou a se mostrar agressivo. Queimar roupas se tornou parte de sua rotina. Paulo então foi internado, na capital catarinense. Mas, a medida não resolveu, pois ele fugiu, voltando para Chapecó.
Conversar com Paulo é quase tarefa impossível. Apesar de gentil com a reportagem do Voz do Oeste, o homem não conseguia se fazer entender, parecia falar até mesmo em uma língua desconhecida. Acenou e permitiu ser fotografado, mas pouco se moveu da posição inicial, como se fora dos limites da área da casa – onde vive sozinho, porém próximo de seus familiares –, algo incontrolável pudesse acontecer.
Seus pais já são falecidos. Os vizinhos contam que quando eram vivos, Paulo era mais agressivo. Não raro, quando a mãe levava comida para ele no quarto, ele afirmava que se saísse de lá iam prendê-lo ou levá-lo para a guerra. Saía do quarto apenas para fazer suas necessidades. Por mais de seis meses, se recusou a tomar banho. Morou por muitos anos em uma casa já muito velha e, quando quiseram construir a nova casa que ele vive hoje, se recusou a sair da antiga.
Hoje, com mais de 60 anos, não responde por si. Tomar banho, hábito comum para qualquer pessoa, não é mais praticado por ele. As roupas, rejeita, as joga no mato. Moradores dizem que muitas vezes o flagram nu em frente de casa. Recebe comida e medicação dos familiares.
Uma das hipóteses dos moradores para a situação de Paulo, foi uma pancada na cabeça que sofreu com a queda de uma trave. Eles comentam que médicos dizem que o caso de Paulo é diagnosticado como depressão, que evoluiu a ponto de transformá-lo no homem que é, marcado pelo silêncio e pela inércia.