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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Não me chame de Querosene


Ler “Uma Reportagem Maldita (Querô)”, dá impressão ao leitor de estar lendo as linhas escritas pelo próprio protagonista, Querosene, ou simplesmente Querô. Plínio Marcos, o escritor-andarilho-vendedor-de-livros, jornalista, diretor e ator, insere Querô em primeira pessoa e de tal forma que parece ser o marginal o autor da trama.
Querosene recebeu o apelido odioso – rejeitado veementemente – de Violeta, dona do meretrício que serviu de casa durante boa parte de sua vida. Isso porque sua mãe, ao pari-lo, tomou querosene, tamanha foi a pressão social que sentiu com a criança nos braços e sem ter onde morar.
“Não tem por onde. Assim é que é. Uns têm tudo logo de saída. Os outros só se estrepam”, sintetiza o personagem já no início da estória. Cansado dos maus tratos, Querô cai no mundo e começa a cometer delitos. E é aí que se desenrola ainda mais todo o trágico destino do garoto.
Romance realista ou denúncia social, “Uma Reportagem Maldita (Querô)” faz com que acessemos o universo íntimo da marginalidade, de forma que é impossível não compreender o que faz um marginal ser de fato um marginal.
Ao aproximar-se do fim, podemos encontrar o jornalista, que gravou fitas e mais fitas de conversa com Querô, pouco antes da morte. Seria Plínio Marcos o jornalista, se inserindo no livro? Teria a estória existido? Não se sabe. Mas vidas como as de Querô não são difíceis de encontrar. Porém, escritas com a riqueza de detalhes, proximidade de linguagem e intensidade de Plínio Marcos, são raras.
Um belo recorte ainda atual de uma realidade torta, desigual, poucas vezes registrada como deveria pelo jornalismo tradicional. Sim, pode-se dizer que a obra de Marcos é jornalística, documental, muito mais do que os textos convencionais que vemos nos jornais, caracterizados como, de fato, jornalísticos. Longe dos boletins policiais, os casos têm mais complexidade do que se imagina. Os porquês, esquecidos dos leads das matérias informativas, possuem mais conteúdo do que se julga.
A obra “Uma Reportagem Maldita (Querô)” foi escrita em 1976, época da censura, como muitos escritos de Plínio, e recentemente ganhou adaptação no cinema, em 2007. Além dessa obra, ele escreveu peças de teatro memoráveis, como “Navalha na Carne” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, conhecida internacionalmente, que também ganhou versão no cinema, em 1970 e 2003.


Título: Uma Reportagem Maldita (Querô)
Autor: Plínio Marcos
Categoria: Romance
Ano: 1976


(Publicado no Caderno Blitz, em 28 de maio de 2010)


quarta-feira, 26 de maio de 2010

As injustiças do mundo



Raquete de tênis arrancada das mãos por dois inimigos maiores e mais fortes que eu, senti, pela primeira vez, que não existia justiça divina, muito menos humana


Por Milly Lacombe | Ilustração Helena Pessoa

Aos 8 anos, meu mundo se dividia entre dois pólos: futebol e tênis. Meu radar não captava nada que não navegasse por uma dessas freqüências. Foi nu­ma manhã qualquer da fase mais binária da minha vida que pe­guei a Dunlop de madeira que alguém tinha me trazido da Eu­ropa no dia anterior e me mandei para o clube para jogar pa­redão. Era um dia que tinha tudo para ser perfeito.
Estava ali, totalmente concentrada em fazer a bolinha ir e vir, ainda meio sem jeito porque a raquete era bem maior do que a mi­nha mão, quando entraram na quadra um menino e uma me­ni­na, adolescentes e de mãos dadas. Ficaram ali me olhando por al­guns segundos, eu certa de que eles estavam apenas apreciando meu equipamento novinho, até que a menina, sob o olhar ri­so­nho do menino, veio em minha direção: “Sai que a gente quer jo­gar”. “Mas eu tô jogando”, argumentei. “Dane-se! A gente agora é que vai jogar.” Num golpe bastante rápido, sacou de mi­nhas mã­os a raquete novinha e a atirou longe. Eu estava com­ple­ta­men­te embasbacada. Onde já se viu tamanho absurdo? Nin­guém ia fazer nada por mim? E a tal justiça divina? Não interce­deria? Tu­do parecia extremamente novo. As sensações de raiva, im­po­tência, frustração, indignação – foi a primeira vez na vida que deparei com sentimentos tão agudos.
Olhei para os lados na esperança de que alguém tivesse visto e viesse em minha defesa. Nada. Olhei para os dois adolescentes pa­rados à minha frente, muito maiores do que eu, e entendi que, naquela situação, não havia nada que eu pudesse fazer.

Na boca, gostos novos e ruins

Fui andando com a cabeça baixa em di­re­ção ao local onde a raquete havia sido a­­ti­­rada. Na boca, gostos novos e ruins. En­contrei a raquete, abaixei para apanhá-la e se­gui a passos de cágado em direção à lan­cho­nete. Enquanto me arrastava pelo clube, re­­passava o filme em minha cabeça. Co­me­cei a imaginar todo tipo de vingança. Ah, se eu fosse maior, mais forte, mais ágil. Só que eu não era nenhuma dessas coisas.
Cresci e, várias outra vezes na vida, ru­mi­nei esse gosto na boca. O mundo está lon­­ge de ser justo. O sistema a que nos sub­­­metemos diariamente é cruel e privilegia descaradamente os mais fortes e podero­sos. A honestidade, atualmente, vale mui­­to pouco. E, exatamente como aconteceu na­­quela manhã em que tudo o que eu queria era jogar paredão e experimentar minha Dun­lop nova, não há nada que possamos fa­­zer. Apenas abaixar a cabeça e sair an­dan­do. Comecei a entender o que dizia meu pai, que, aos 48 anos, abandonou a pro­fissão de advogado por não acreditar mais na justiça. Nem na divina, muito me­nos na do homem.
A cada dia que passa, a cada manhã que abro os jornais, me convenço de que não há justiça à nossa volta. E de que nunca ha­ve­rá. Mas aí olho para o lado e vejo minha mulher com uma xícara de café quente para mim, que ela não me entrega sem antes rou­bar um beijo e dizer que me ama, e tudo entra em perspectiva no­vamente.
Quanto àquela manhã dos meus 8 anos, a primeira vez que me senti moralmente aniquilada na vida, nem tudo foi frus­tra­ção. Ao chegar na lanchonete, encontrei minha mãe, que me viu chorando. Ela perguntou o que tinha acontecido. Contei. Foi quan­do ela me arrastou pelo braço, meus pezinhos praticamente fo­ra do chão, em direção ao paredão. Chegando lá, entrou comigo na quadra e vociferou em voz muito alta, esticando o queixo na direção de meus dois inimigos: “Foram eles?”. Eu confirmei com a cabeça. A próxima coisa que vi foram duas raquetes sendo arre­messadas bastante longe, e minha mãe recomendando, com aque­le olhar siciliano que afugentaria um lobisomem, que os dois saíssem dali e não voltassem mais.
Assistida e protegida pela orgulhosíssima matriarca, fiquei jogando por horas. Porque, ao contrário das demais, a justiça materna, assim como o amor, raramente falha. O duro é que, pelo resto da vida, buscaremos alguém que nos proteja das “injus­tezas” do mundo da mesma forma que essas mulheres, um dia, nos protegeram.

(Publicado na Revista TPM, Coluna do Meio, em julho de 2007)

sábado, 22 de maio de 2010

ácido

estou bem no meio

de tudo o que eu deixei

e do que restou daquilo

que um dia foi.

e tu,

que tanto me atrai como,

na mesma medida,

me repele,

me faz pensar

se pelo menos sou

o suficiente

do que deveria ser pra ti.

sou o suficiente pra mim.

da cara de sono,

cabelos armados ao amanhecer,

olhos fundos de dores profundas

até as idéias complexas

acumuladas durante os anos,

que agora se precipitam

na simplicidade dos fatos.

não, tu não és quem eu procuro.

e como são improváveis

os encontros da vida.

pessoas não aceitam as falhas,

suas e alheias.

como são tolas

ao negar o erro,

ao querer o impossível.

e como é bom desejar o impossível,

até que as ilusões

abracem toda a roda viva

e parem o movimento.

mova-se,

mova-se como jamais se moveu.

beije a flor exótica

e espere o perfume

perfurar ácido ou belo,

mas inspire.

só não bata na minha porta

se eu não for a flor (es)colhida.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

buenas e m'espalho




Atípico e indecifrável

“Minha música, o que eu faço, a minha vida, sempre foi calcada no débilmentalzismo. Eu amo a débilmentalidade.”

Uma figura atípica. Quem conhece Astronauta Pingüim, sabe que esta é uma verdade. No Start Bowling Bar, em Carazinho, na última sexta, o músico deu uma entrevista exclusiva para o Blitz e mostrou um pouco de sua personalidade mítica e por vezes indecifrável.

Blitz – Qual é o seu nome verdadeiro?
Astronauta Pingüim – O nome que eu considero é Astronauta Pingüim, mas meu nome de batismo é Fabrício Carvalho, só que nem a minha família me chama assim. Pingüim é muito de infância, acho que eu tinha um jeito de andar diferente das outras crianças, aí me apelidaram de Pingüim. Eu não tenho como saber onde isso começou. Astronauta surgiu na época de adolescência. Assumi os dois nomes. Sabe aquela coisa de colégio, quando te chamam de um apelido e tu não gosta, mas é pior negar, porque aí é que vão te chamar?

Blitz – Astronauta Pingüim é um personagem?
AP – Não, não é um personagem. Sou eu mesmo. Gosto de toda essa indumentária. Não uso sempre porque às vezes não estou no clima. Não tenho uma cueca ou um par de meias, que não tenha sido minha mãe ou alguma namorada que me deu.

Blitz – Você tem várias namoradas?
AP – Quem me dera.

Blitz – Quem é o Astronauta Pingüim nas horas vagas? Soube que você vê cada programa...
AP –
Eu adoro o Ratinho. E acho que o mundo inteiro adora o Ratinho, só falta o povo admitir.

Blitz – Quando você começou a trabalhar com música?
AP –
Vou fazer 35 anos dia 11 de outubro e a música entrou na minha vida quando eu tinha uns oito ou nove anos de idade. Eu tenho um pai, muito querido. Nunca foi presente, mas sempre bancou o que eu queria. Lembro que em 1987, quando eu devia ter uns 12 anos, comecei a fazer música.

Blitz – Onde você nasceu?
AP –
Nasci em São Leopoldo, mas meu pai é mineiro. Sou de uma família ridícula. Se meu pai é mineiro, o que veio fazer aqui? Mas enfim... Moro agora em São Paulo, graças ao meu bom Deus e ao meu bom discernimento. Sou muito grato àquela cidade. Também sou muito grato à cidade de Carazinho. Adoro. Tenho um grande amigo aqui, (Ilario Junior Amaral da Silva) que me trouxe à Carazinho da primeira, da segunda e da terceira vez. Passo Fundo, Porto Alegre, São Leopoldo, adoro todas essas cidades. Mas no Brasil, São Paulo é a cidade que eu mais amo. Dou graças a Deus de morar na melhor cidade da América do Sul. Não tenho palavras para exemplificar minha gratidão por São Paulo.

Blitz – Recentemente, você toca com o baterista Ramiro Pissetti (ex Os Pistoleiros, Incríveis Animais que Tocam e atual Animales), não é?
AP –
Eu amo o Ramiro. Se tu soubesse o quanto eu amo o Ramiro Pissetti, o Glauco Caruso, outro baterista que toca comigo. Cleiton Martins, Cristiano Krause. Amo essas pessoas. Elas me dão suporte – palavra mais próxima do que quero dizer – para eu fazer a minha debilmentalzisse. Minha música, o que eu faço, a minha vida, sempre foi calcada no débilmentalzismo. Eu amo a débilmentalidade. Essas pessoas se privam, às vezes, por mim. O Ramiro então, um professor de uma faculdade, se priva de dar aulas para ir tocar comigo. Mas às vezes eu toco sozinho também, quando ninguém me dá bola. Eu toco baixo, toco bateria, toco guitarra...

Blitz – E essa proposta de ter você no teclado e voz, ao lado do baterista, tocando músicas próprias, mas também clássicas da Madonna, Cyndi Lauper e até Lulu Santos? Muita música das décadas de 1980 e 1990...
AP –
Não é uma coisa que eu tenha inventado, uma grande invenção.

Blitz – Quanto ao seu álbum Supersexxxysounds (2008)? Se encaixa no estilo Eletro Rock?
AP – Esse é o meu segundo álbum. Legal você chamar de Eletro Rock, porque ninguém chama. Eu acho que é, porque tem situações eletrônicas. Bem aquela dos anos 80 e 90. Ele é muito bom, mas o próximo vai ser ainda melhor.

Blitz – Ainda toca com o Júpiter Maçã?
AP –
Toquei com o Júpiter Maçã de 2000 a 2003, aí o Flávio Basso teve uns envolvimentos na vida dele e eu tive os meus e nos separamos. Voltei a tocar com ele em fevereiro de 2009 e estou até agora. Toco piano e órgão. Viajo bastante por causa do Júpiter, principalmente para o sul.

Blitz – Você participou do clipe recente do Júpiter Maçã, Modern Kid. Uma proposta bem diferente do que a banda já havia apresentado, mais moderna.
AP –
É uma proposta diferente, mas que eu não entendi. Te juro. Não sei quão mais moderna é essa proposta. Sei que me pediram para fazer um personagem naquele clipe que eu acho que não iria servir e eu não fiz, sou quase um manequim naquele clipe. E isso eu quis ser.

Blitz – O que a música representa na tua vida, na vida das pessoas?
AP –
Dependo da música, vivo dela; dependo das pessoas gostarem do que faço. É uma estratégia que vai se desenvolvendo de forma gradual. Não se trata da pessoa gostar da minha música e ponto. Não é só isso. Tu gosta da minha música e no próximo show eu vou te enxergar. No outro tu vai vir falar comigo. Essa é a grande coisa. Eu faço amigos nos shows. Tenho amigos que vieram me ver aqui. Eles estavam num show em Passo Fundo. Uma das coisas mais legais, uma das únicas coisas que valem a pena, é conhecer pessoas. O que vale é a parceria. Como todas essas pessoas não vão morar no meu coração? Eu quero mais é fazer amizade nesse mundo – uma das poucas coisas que são verdadeiras.

Conheça Astronauta Pingüim: www.myspace.com/astronautapinguim

(Publicado no Caderno Blitz em 21 de maio de 2010)

terça-feira, 18 de maio de 2010

E nós relaxamos e gostamos


“Relaxe e Goste” mostra o nosso despreparo e impaciência secular ao lidar com o sexo oposto, com idades opostas, com humanos opostos

Ao chegar no teatro, passados alguns minutos das 20h – horário de início da peça –, me deparo com um homem semi-nu, enrolado da cintura para baixo em uma toalha vermelha, com a cara branca de creme de barbear, me pedindo licença, enquanto eu tentava entrar porta a dentro. Ao me afastar, observo que o homem botou para estourar uma daquelas bombinhas, que lembram a infância, porém um tanto maior, entrando em seguida dentro do auditório do Notre Dame Aparecida atordoado, em meio a fumaça.
Era o início, pelo menos para mim, da peça “Relaxe e Goste”, escrita numa parceria de gigantes: Luis Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, trazida à Carazinho pelo Sesc no último sábado. A resposta do público não podia ser melhor. Risadas e acenos de cabeça em sinal de identificação denunciavam o sucesso da peça, que tratou da reação homem-mulher desde os primórdios.
Uma possível sátira da história mal contada de Adão & Eva no paraíso; da maneira equivocada que os adultos falam sobre sexo com as crianças e de como o ser humano é patético quando tenta usar demais a razão ao se tratar de relacionamentos ou quando acha que é muito experiente em termos de sexo. Nuca se é.
“Relaxe e Goste” mostra o nosso despreparo e impaciência secular ao lidar com o sexo oposto, com idades opostas, com humanos opostos. Não se chega a grandes conclusões filosóficas através da peça, não se distingue mensagens sérias e grandes morais, mas se garante uma boa dose de entretenimento, com personagens impagáveis, como o bom e velho Deus, Eva e seus palpites e desalinho, sem contar com os professores de sexo, totalmente desconexos ao tentar novas posições de nomes impronunciáveis, interagindo com o público.
Foi uma noite de humor inteligente, bem estruturado, digno de seus autores. Nós relaxamos e gostamos, e esperamos por novas noites assim, regadas a boa cultura, risos e relações de espelhismo divertidamente constrangedoras.

(Publicado no Caderno Blitz em 21 de maio de 2010)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Hotel dos Corbellinis


Com nome inspirado na placa cadente de um dos hotéis mais antigos de Espumoso (o Hotel Corbellini, que pertence ao avô do baterista), a banda Corbellinis cresce mais a cada show. A explicação é simples: felicidade em fazer o que gostam, conhecendo novas pessoas (que no início eram poucas) e lugares (por tantas ezes impróprios).
A música, para eles, é um misto de satisfação e responsabilidade, que carrega uma pitada intimista dos compositores, resultando em identificação por parte do público. Crentes de que a energia da banda é harmônica, os Corbellinis querem em breve, além de lançar o EP, disponibilizar suas músicas no MySpace.
E depois? Nada demais, só um desejozinho à toa, expressado pela banda através do trecho de When the Music’s Over, do The Doors: We want the world and we want it now (nós queremos o mundo e nós o queremos agora).


Os Corbellinis são:

Everton “Cotonote” Kottwitz (Guitarra)
Gustavo “Barba”Avila (Vocal e Contrabaixo)
Tiano Corbellini Masutti (Bateria)

(Publicado no Caderno Blitz em 14 de maio de 2010)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eu sou Bandini, Arturo Bandini!

A mão o alcançou na fileira de livros num daqueles momentos de timidez e desejo de fuga, de vontade de cair para dentro de um outro lugar, distante daquele que se apresentava: hostil, incompatível e tedioso. Para o meu deleite, o prefácio daquela edição (a sétima) havia sido escrito por Charles Bukowski, em 1979, o que agregava à obra uma credibilidade extra, na minha visão, seletiva para obras malditas.
Já tinha ouvido falar de John Fante e do peculiar personagem de “Pergunte ao Pó”, Arturo Bandini, mas nunca tinha tido a chance de ler as tais linhas e de estar frente a frente ao anti-herói Bandini, escritor de contos como “O cachorrinho riu”, de apenas vinte anos, que se lançou de uma cidadezinha do Colorado para Los Angeles, Califórnia, para tentar ser um dos grandes.
E estar diante dele e de personagens como Camilla Lopez , garçonete de uma cervejaria, vítima de preconceito e discriminação até mesmo por Bandini (às vezes nacionalista) por conta de seu sangue latino e de seus huaraches; Hellfrick, o maníaco por carne, alcoólatra e devedor; e o barman Sammy, doente e recluso no deserto, só me fez constatar que eu era um deles.
Apesar de ser uma obra de ficção, o livro demonstra uma proximidade intrigante em relação à marginalidade do personagem principal. O autor de “Espere a Primavera, Bandini” e “Sonhos de Bunker Hill”, John Fante, mostra ter vivido uma história semelhante ou ter convivido intimamente com pessoas que, como o seu Bandini, corriam atrás do famoso Sonho Americano.
O leitor pode sentir na pele as oscilações bruscas de humor de Bandini – refém de seu quarto de hotel, de café, cigarros e de sua máquina de escrever, o abatimento, a rejeição e a desordem sofrida por Camilla, ambos ícones do clima tenso e de pobreza do auge da depressão americana e, acima de tudo, feliz ou infelizmente, constatar que os tempos são os mesmos, seja na década de 1930, seja na de 2000.
Nossos vícios e sonhos imediatistas são os mesmos, a miséria experimentada se assemelha e os acessos íntimos à natureza humana não são novos. Somos Bandinis, Arturos Bandinis, jogando histórias no deserto do mundo, sem perspectivas de futuro, inconstantes e contraditórios, criando roteiros de filmes mentais do que queríamos ser.

Título: Pergunte ao Pó
Autor: John Fante
Categoria: Ficção americana
Ano: 1937

(Publicado no caderno Blitz em 30 de abril de 2010)

sábado, 17 de abril de 2010

assimétrico



tenho lidado com as mentes mais doentias, com os jogos de estratégia mais complexos, com risos de escárnio, pratos quebrados, não há vagas. longe da minha máquina de escrever, bocas estranhas no largo da rua, questão de esquecer escritos, tv fora do ar, modo em vídeo e nada mais. queria te contar, meu bem: não se importe. das recusas, silêncios, negativas e ausências, decorei os roteiros. é bom que saiba que não é de ti que me lembro quando ouço aquela música ou quando aquele perfume vem no meio da sala ou quando olho da janela do décimo quarto andar, quando meus olhos são mais um ponto de luz assimétrico na noite escura. desculpe, baby. não é de que ti que me lembro. não sei qual é o nome do meu grande amor, mas não é teu nome que eu chamo. o que posso te dar: algumas conversas intermináveis, silêncios maiores ainda, meu colo macio, meu riso sincero. posso te emprestar a minha desordem e meus cigarros baratos, te peço uma xícara de café e um pouco do teu doce pra enfeitar a noite. se tu me quiseres ou me esqueceres, diferença já não vejo. sabes, as nuances dos opostos perdem o brilho depois dos 25. não faz diferença. nessas horas não se fala em paixões. não mais. só fica alguma dose de respeito, consideração, planos tolos e impraticáveis, teu convite pro cinema na mão esquerda e o resto do mundo escrito na outra...




sexta-feira, 2 de abril de 2010


tive a sorte de escolher a profissão certa. o que mais posso dizer? ao olhar o mundo lá fora, de dentro daquele bar, a placa luminosa me fez entrar num insight. estava vivendo como queria viver. desde a infância, apaixonada pelas rádio-novelas, pelo cinema, pelas artes gráficas e pela literatura, eu me via no lugar exato. e então, pegando a estrada e chegando até essa cidade, me senti tão estrangeira como jamais havia me sentido. naquela noite, toda a tristeza de anos de rejeição, de reclusão, do ar pesado das drogas nos edifícios, dos amigos falsos e da parafernália toda de viver aqui, me invadiu a veia principal. lembrei que até fui feliz com ele, no tempo em que achávamos que nosso amor suportaria tudo, das contas a pagar as pulgas no carpet. não suportou. depois dele, ninguém mais chegou tão perto do que sou. lembro dele seguidamente. da barba macia e do sorriso tímido batendo na minha porta no final da tarde. ele jamais me espinhou. talvez por isso tenha saído por aí procurando o empecilho de sentir espinhos. e ele está com o oposto de mim e eu, com o oposto dele. e eu fui embora, milhares de vezes tu me viu partir. quem sabe eu tenha tido alguma sorte na vida, mas não desmereço meu empenho e minha dedicação para ser só. talvez eu tenha algum talento também, para a solidão e para as linhas tortas. lembro do espaço que tenho no mundo, meu pequeno espaço de tratar das artes, da minha quitinete alugada na glória, meu canto escuro longe de tudo. tão bom. e melhor é ter para onde voltar. toda casa é uma benção para um espírito errante. e é tão maravilhoso saber que há poesia na minha vida e que uma pitada disso pode perfurar séculos inteiros, pelo que diz saramago. escrever é o desejo de ser amado, desejo que não acaba porque o amor nunca é grande que chega, como mais ou menos diz gabriel. me sinto satisfeita em sentir a literatura tão perto do jornalismo. e sei que isso é só o começo...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Então, que seja doce"


O cenário é um casarão: o Asilo São Vicente de Paulo, com quase 60 anos de existência. Quarenta e sete mulheres dividem os corredores de vastos espaços, os quartos de camas gratuitas e odores variados, o jardim de balanços e sóis poentes. Há aquelas que falam, há as que simplesmente não falam mais – balbuciam. Mulheres que desaprenderam a linguagem dos homens, mas que ainda guardam alguns pequenos elementos da linguagem universal: o sorriso e o olhar doce. E doce é tudo o que elas esperam dessa Páscoa, essa data que traz tantas lembranças de um passado distante, cheio de vida, de pessoas e de dias bem mais gloriosos...

Escolhidas ao acaso ou pelo destino, guiadas pelas mãos acolhedoras de pessoas como Irmã Alzira Zardo, as mulheres que serão apresentadas na sequência são parte de uma realidade muito menos otimista do que se gostaria de encontrar. Aqui, onde o tempo custa a passar, as conversas são arrastadas e lentas, o futuro é o café-da-manhã, almoço e o jantar, e o sonho mais ambicioso é uma visita sem previsão de fim.
A primeira regra que todas aprendem é a da perda da privacidade. Coisa que não foi bem assimilada pela nossa primeira entrevistada. Eva, como na Bíblia. Eva Nunes. Cento e um anos, boa parte deles passados em uma cadeira, no corredor do São Vicente de Paulo. O dia em que nasceu já não lembra. Trazida por uma filha ao asilo, não gosta do aglomero das mulheres na sala principal. Prefere mesmo a solitude. No jardim, não passeia. “Faz mal para as vistas”, diz ela. Ouve pouco, fala menos ainda. As suas palavras não são compreensíveis aos meros mortais, mas ela tenta. Até que é indagada sobre a Páscoa. Longa pausa. Gestos fechados, a boca de poucos dentes se cerra de vez, silêncio total.

Eva Nunes,
101 anos

“Maria Lorena Müller, mas meu pai era Guerreiro”, falando sobre o nome de solteira.
- A senhora está aqui desde quando?
- Doze de junho...
- Doze de junho...?
- De 95.
Aos 81 anos (“só 81”, diz, provocando risadas nas colegas), Maria Lorena conta que passa o tempo dormindo e comendo. “Mais nada”, lança, apertando os olhos afetados pela miopia.
- O que significa a Páscoa para a senhora?
- Olha, nem sei explicar nada pra ti hoje. Porque, eu não sei, fiquei tão atrasada depois que eu tive uma crise de nervos... Eu fiquei “esquecida das coisas”, eu estou por estar. Mas eu rezo muito, principalmente de noite, de dia não. Mas eu não acredito em certas coisas. Só acredito em Deus.
- E na Páscoa?
- Tanto faz. Quando a gente é nova, as páscoas são bem diferentes. Depois dos 60, aí terminou. Quando os anos pesam nas costas, na cabeça, a gente muda, se sente diferente.
Há quase dois anos sem receber visitas, Maria Lorena não tem filhos. Perdeu dois no nascimento. O marido faleceu, a casa e a família não existem mais.
- Só estou eu aqui na Terra.

Maria Lorena Müller,
“Só 81”

Dona Cecília Peres vagava pelo longo corredor do asilo. Por que? Não soube dizer, tampouco sabia a sua idade. Há muitos anos lá, Cecília diz receber visitas de uma filha, a única ainda viva. “Tinha duas, mas uma faleceu. O que se pode fazer?” Da Páscoa, espera um “ninhozinho”. “Um ninho com doces, trazido pelo coelhinho”.
- Tinha ninho antigamente na Páscoa?
- Tinha, tinha ninho.
O marido ainda vive, mas não ela acha que ele não sabe que ela está no asilo. Não vai visitá-la. “Eu estou escondida”, afirma.

Cecília Peres,
Não sabe quantos anos tem

Sebastiana Marcondes, na cadeira de rodas, enquanto tomava a sopa dada pela Irmã Alzira, servida pouco antes do chá com bolachas, nada quis falar da Páscoa. O assunto preferido dela é Paulinho Vargas, que criou desde os dois anos. Agora um homenzarrão, granjeiro, que sempre leva medicamentos à ela quando precisa. A sua idade? Noventa e dois, ditos com orgulho na entonação.
- Está chegando a Páscoa...
- Ah, é...
- O que a senhora acha da Páscoa?
- Bonito!

Sebastiana Marcondes
92 anos

Uma das mais novas entrevistadas, há dois anos no asilo, Nair dos Santos, 62, chama atenção pelo tom do cabelo, ainda castanho, diferente do céu grisalho e branco que há em quase toda a parte. No movimento tranqüilo do balanço no final da tarde, Nair conta que tem um filho, que a visitou uma vez somente desde que entrou no São Vicente. Não sabe o motivo de sua nova morada, mas sabe que, da Páscoa, quer apenas uma coisa: doce.

Nair dos Santos,
62 anos

São mulheres que, no fim da vida, dependem da ajuda de pessoas como Irmã Alzira para as atividades mais simples, como para comer e tomar o banho diário. “Elas não envelheceram sadiamente, já envelheceram doentes”, explica a irmã. Tomadas pela depressão, pelo abandono da família, elas tem nas datas comemorativas momentos dolorosos, que necessitam de muito zelo por parte das cuidadoras. Optaram pela vida ou não tiveram escolha. Passam os dias, meses e anos em um ritmo incompatível com o ritmo do mundo dos familiares que lhe restaram ou não. Mundo que raramente se encontra com o mundo delas, machucado pelas recusas, partidas, ausências, silêncios intermináveis e feriados nem sempre tão doces como o desejo de tê-los.

(Publicado no Diário da Manhã em 2, 3 e 4 de abril de 2010)

domingo, 28 de março de 2010

cão de rua



ah, relacionamentos modernos.
tu ficas com teu ovo apunhalado
e eu com meus morangos mofados,
o mistério de um intruso num edifício
e a liberdade de um cão de rua.

sexta-feira, 19 de março de 2010

anões de jardim


sempre quis ser livre como um homem. andar pelas ruas de noite, chamando apenas a atenção de alguns anões de jardim. sempre quis viajar pelo mundo, minha mochila e eu. como um homem. sempre quis ser forte como um homem e gerar como um homem, se defender como um homem. mas não do tipo que mente ou massacra ou faz guerra. apenas livre, como um homem. e sempre quis achar o meu espaço no mundo, meu lugar, meu rumo, meu prumo. nunca fui competitiva, ou alardeante e quase nunca fui agressiva. abaixo os olhos e choro, na primeira ofensa. e sempre tentei achar no abraço de um homem a minha espécie equivocada de salvação. e acho que deus sabe do que precisamos e que nossa ansiedade é pura bobagem. e sim, eu acredito em deus. e sou feliz com as coisas mais pequenas. se ligo o rádio e ouço o que gosto; se aquela pessoa fala comigo na hora exata; se tenho dinheiro para a passagem de volta para casa. nunca, sempre, sempre e nunca amo o tempo todo. e tenho toda a preguiça do mundo, mas nunca para escrever. e tenho toda a loucura do mundo, mas não para trair. e tenho toda a bondade do mundo, mas não para perdoar. guardo rancor, sou imperfeita, me debato contra meu inimigo imaginário. e sei que meu corpo acumula as minhas boas e más escolhas e se fico sozinha em casa de noite, sei que o que eu sinto é um sentimento universal, e que ele, o vazio, só existe para que tentemos preencher. com arte, com vida, amor, lances simples, palavras, frases noturnas, loucuras de bar, amigos, ócio, viagens e finais felizes.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Formigas lidando com elefantes

Mãe de Pedro Luiz Migott Maciel ainda espera pelo filho que desapareceu em 27 de maio de 2008.

“Somos formigas lidando com elefantes. Ninguém sai da cadeira para ajudar”, desabafa Marines Migott Maciel, mãe de Pedro Luiz Migott Maciel, atleta, ciclista, desaparecido aos 21 anos, em 27 de maio de 2008 em Bento Gonçalves, cidade onde morava.
Trabalhador, sem vícios, Pedro se dedicava exclusivamente ao esporte e ao emprego, em uma empresa de móveis. Além de filho, era amigo e grande companheiro da mãe Marines. “Ele ligava todos os dias do trabalho, ao meio-dia. Só que naquela terça-feira ele não ligou e o telefone dele estava desligado”.
A mãe desconfia que uma pancada na cabeça dias antes teria feito o filho perder a memória. Naquela terça-feira, Pedro saiu para ir para o trabalho, como sempre, e não voltou mais. Marines encontrou os documentos do filho em casa – coisa que ele jamais fizera – e a pia do banheiro ainda seca. “‘Ele saiu de casa tão apressado que não teve tempo de lavar o rosto’, pensei.” Um amigo, que estava no ponto de ônibus, viu o rapaz indo para o lado contrário da empresa em que trabalhava, gritou, chamou, mas Pedro demorou a atinar.
E desde então a mãe se sente indefesa diante dessa situação, conta que o apoio da polícia é quase nulo, já que não há suspeita de crime.
Com ajuda de amigos e parentes, a mãe procura o filho por todo o estado do Rio Grande do Sul, espalhando cartazes com a foto de Pedro, hoje com 23 anos, e um retrato-falado que representa a suposta imagem atual do garoto. “Meu filho está vivo; não sinto o meu filho morto”, afirma Marines, que diz suportar um fardo penoso demais para qualquer mãe.
Em Carazinho, no último sábado, novos cartazes podiam ser vistos em pontos movimentados da cidade, como na praça e arredores. No entanto, a chuva, a má intenção de alguma pessoa ou a preocupação com a limpeza nos locais, resultou na retirada dos cartazes. Já na segunda-feira, os cartazes de Pedro não estavam mais nesses locais.
O que a família espera é apoio para encontrar o rapaz, que nessa altura pode ter se tornado um andarilho e estar sofrendo toda a discriminação que uma pessoa nessas condições sofre no meio social.


Foto e informações sobre Pedro, e de centenas de outras pessoas desaparecidas, podem ser encontrados no site: http://www.desaparecidos.rs.gov.br

FONES PARA CONTATO:

(54) 3454-6259 - 9186-5130 - 9204-0410 ou 9648-3928

terça-feira, 16 de março de 2010

nunca fui a mais inteligente,
nem a mais bonita ou experiente.
mas acho que sou uma das pessoas
mais sensíveis e intensas que já conheci...

conto do além-mar

enquanto a velha esposa macumbeira rezava fervorosa, chamando todas as virgenzinhas & santos do corpo celeste no seu transe particular tão bem bolado, influenciado por toda a literatura de ladainhas de uma vida inteira, o velho, de corpo fechado, chegando quase aos cem, caminhava ereto & branco para o “chaleira preta” – uma zona vaporosa de uma rua paralela à flores da cunha, num cais de porto de um passado distante. crê-se que o sexo dele por lá grunhia nos embalos das batidas da umbanda, tamanha a força da bruxa, leitora do baralho cigano de madame lenormand da paris antiga. e ele, que pouco ouvia, pois seus ouvidos foram comidos por negros pelos quentes, deixava a carne impessoal tomar a sua, nojenta, afundando na lingerie, até que decidisse, depois de alguns goles de pinga forte, seguir para casa indiferente. a velha, já cansada de crenças & profecias & esperas, eis que um dia partiu. conta a lenda que nesse dia, na volta do “chaleira preta”, depois de ter levado a comadre e melhor amiga da cartomante para ter com ele no puteiro, o machão chorou. desde aquele dia, dizem as más línguas, que dona macumbeira virou mesmo dona puta e que o velho ereto botou a fazer via-sacra em cada meretrício da cidade, mas agora a procura da reza única da esposa maldita, fugitiva dos pesados cornos. acontece que a dor foi tanta para o pobre velho, que findou lhe trazendo o beijo da morte, talvez sua grande alegria, já que a boca do povo diz ainda vê-lo abrir as pernas da velha mulher nas noites quentes de verão, quando nenhum cliente toma coragem de com ela se deitar, graças às pragas que o marido joga das lonjuras do além-mar...

domingo, 14 de março de 2010

Sempre acho que vou encontrar o mar no fim do horizonte.
O mais estranho disso é saber que não gosto do mar.

fotografias em preto & branco



chove e faz frio no rio grande. o ar é seco, o dia é cinza. sinto falta da ilusão de ser amada. consciente das minhas limitações, das tuas, do mundo, sigo só para um café. sonny boy williamson na cabeça que se agita na estação do trem. lembro de quando passeamos juntos por aqui, das fotografias em preto & branco e dos rolos coloridos da analógica, lembro do deslumbramento diante do antigo, da arquitetura dos anos 30, das casas que fazíamos nossas. penso em onde possa estar agora, abraçando ombros de cabelos lisos, pretos e longos, arrastando nas calçadas. não sou eu que estou contigo. estranho. parecia que era para ser... e a lembrança não chega a doer e a tua solidão também é uma opção e a minha, condição. amor não se pede e não se deixa pedir. deixa estar, deixa morrer. lá vem o trem, o dia seguinte, a lotação para o nada, o frio, o frio... deixa eu devanear, poetizar, sozinha na terra antiga. sou tão pequena, tenho tanto para escrever. pequena demais para ser escolhida, grande demais para passar despercebida. mediana. sinto o corte do vento na cara, dilacerada de emoções velhas e pesadas. me escondo no manto xadrez, meus olhos captam um mundo invisível aos outros olhos, meu perfume espiral do outro lado do mundo. te espero chegar. beijo de até mais ver.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O NÃO-TEXTO

PROMETI ESCREVER O TEXTO DA MINHA VIDA EM UMA HORA. NÃO VOU. NA CORRERIA DOS DIÁRIOS, NA CORRERIA DO BATUQUE DOS TECLADOS, ELA NÃO SE ENCONTRA. TE VI E PARALISEI. ME VI. ANDARILHA DUM MUNDO DE BOLSOS VAZIOS. NASCI COM BOLSOS FORRADOS. FUREI. NASCI BELA, A BELEZA PERDI. DURMO DE FAVOR NA CASA DA VELHA MACUMBEIRA. RIO GRANDE, BUENOS IRES, VELHO OESTE. NÃO IMPORTA. NÃO SOU NADA, ALÉM DE MAIS UMA. TE VI... PENSO LOGO EM PRECONCEITOS, CHANCES, CAPACIDADES. NÃO FIZ, NÃO FAÇO PARTE. NÃO SOU, NÃO SEREI PARTE. HÁ QUEM LEIA, FAÇA, APRENDA E TRANSMITA. HÁ QUEM NASÇA EMERGENTE, FODIDA, FALIDA, PEQUENA E VIÚVA DE QUEBRANTES. E HÁ QUEM FAÇA DISSO VIDA, SEM CULPA DE NASCENÇA. HÁ QUEM TENHA TALENTO E HÁ QUEM DESPERDIÇA. EU SOU MAIS POSE DO QUE TUDO, MAIS PLÁGIO DO QUE PULSO, MAIS VULGAR DO QUE POEMA. ESSE NÃO É O TEXTO DA MINHA VIDA. ESSE TEXTO NÃO É MEU. EU NÃO RELI, NÃO SOU VOCÊ, NÃO TENHO MEMÓRIA. TALVEZ NUNCA CONHEÇA O VELHO MUNDO. TALVEZ NÃO SAIBA MAIS ATRAVESSAR A RUA SEM QUASE MORRER. MUQUIRANA-SANGUINÁRIA, VÍCIO COR DE VERMELHO LICOR. VI MINHA POESIA NO FOLHETIM DA ESQUINA. A POESIA NÃO ERA MINHA. MEU EGO VIROU PÓ. CAMINHANTE POBRE NA MULTIDÃO. LUZ PELA METADE DOS OLHOS. PIFEI. ENGOLI ASTROLOGIA HOJE, DO CAFÉ AO SERÃO. IGNORÂNCIA COM ROUPA DE CIÊNCIA ANTIGA, ME DEIXE EM PAZ. E TE VI. E TE VI E FIZ DE TI MEU CHÃO. MEU CHÃO ESPERANÇOSO E ESCORREGADIO. VOU CAIR NA PRIMEIRA IMERSÃO. CAÇANDO UM CANTO PARA ESCREVER. NÃO ESCREVO MAIS A MÃO, NÃO ESCREVO SEM MEUS PADRÕES, NÃO VIVO SEM REPETIÇÕES, TENHO A ESPONTANEIDADE DE UM ERMITÃO, TENHO A LEVEZA DE UM TREM DOS ANOS 20. PARE, OLHE, ESCUTE. ESTOU VELHA DE EMOÇÕES. NÃO GUARDEI TEU NOME, DUAS HORAS DEPOIS TINHA ESQUECIDO DE TI. QUEM É VOCÊ? NA REPORTAGEM DA MANHÃ, TU ERA DEUS, NO BOLETIM DA MEIA- TARDE, UM COMPLETO DESCONHECIDO. FUREI O JANTAR PARA ESCREVER. COMI A BATERIA PARA DESCANSAR. GAZEEI A VOLTA PARA RESMUNGAR, EM MIM, NA TELA BRANCA, MINHA E TUA E DE TODOS. E EU NÃO LEIO POESIA. E EU NÃO RELEIO. EU NÃO ME LEMBRO! CORROMPIDA, IMPERFEITA, CRAVADA DE CRAVOS PODRES, DA TUA LANÇA JOGADA EM FLAMAS. RIDÍCULA CHAMA. PEGO O TAXI, MORRO NA CAMA, ME DEIXE EM PAZ, QUIETA, TÍMIDA, VAGA, DE GESTOS FINITOS/////////////////////////

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dois minutos eternos



Tânia Rösing esteve no Chile durante os tremores e fala sobre a experiência


“Inesquecível, inusitada e irrepetível”. É assim que Tânia Rösing, professora, doutora em Teoria Literária, idealizadora e organizadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo, define a experiência vivida em Santiago do Chile, enquanto participava do Congresso Ibero-Americano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil da Fundação SM, que deveria acontecer de 24 a 28 de fevereiro.
Do 5º andar do Hotel São Francisco, Tânia e o esposo foram surpreendidos na madrugada de sábado (27) por um tremor que durou pouco, mas que foi o suficiente tirar os móveis e a estabilidade emocional do lugar. “Foram só dois minutos, mas foram dois minutos eternos”, declara Tânia.Eternos, assim como foi eterno o caminho do 5º andar até a calçada, onde esperaram pelo socorro. O resgate veio a bordo de um avião-extra que acompanhava o presidente Lula. Já no Brasil, em São Paulo, Tânia rumou para Passo Fundo, chegando na cidade no dia 2.
Nem ela, nem o esposo se feriram. Mas, para Tânia, a Santiago que conheceu, de arquitetura vitoriana, de igrejas e prédios marcados pelos traços espanhóis, franceses e ingleses, não será mais a mesma. “Santiago estava vivendo um momento atraente. Peças de teatro com personagens da literatura, como Don Quixote de La Macha, e grandes shows folclóricos. Agora não sei o que será”, finaliza.


(Publicado no Diário da Manhã em 5 de março de 2010)


Tremores numéricos




Números. Como acontece em todas as situações de catástrofe e morte, a imprensa divulga números. Número de cidades atingidas, número de graus de magnitude, número de dinheiro investido, número de mortos. Número de vidas perdidas. É o que está sendo divulgado recentemente com os terremotos ocorridos no Chile, Peru e parte da Argentina.
A vida, essa presença misteriosa que habita todos nós. Nós, que somos muito mais do que números, que somos seres subjetivos, contraditórios, ricos em detalhes genéticos, habituais, filosóficos... nesta hora de abalo somos mesmo números. Portadores de RG, CPF e o escambau. Somos nome, sobrenome e idade. Somos um a mais ou um a menos.
E os números aumentam, as vidas perdidas, encaixadas rapidamente em gavetas numéricas. Mas é lógico que a imprensa precisa divulgar os números; é claro que a imprensa é subsidiada por dados. Mas a imprensa também pode olhar nos olhos fundos de quem perdeu família, casa e identidade, desolado no meio dos escombros, e desvendar o sentimento, e sem sensacionalismo.
É só regular o macro das pupilas, desfocar os fundos numéricos e direcionar para a imagem do desolado, daquele que já não sabe mais para onde ir, o que fazer, o que sentir. Deixar a mente gravar o essencial e a lente ler aquelas perguntas direcionadas ao Deus da Fúria, os porquês sem resposta, desencontrados por entre a tralha toda, de roupas em trapos, dos móveis em frangalhos, dos sonhos idos e das lembranças impregnadas.
Como pessoas que somos, como cidadãos do mundo, podemos reconhecer irmãos em qualquer nação, em qualquer idioma, em qualquer território ou fronteira, mesmo que de longe. Filhos do mesmo Deus, da Fúria e do Alento, temos o poder de nos despedir da matemática da dor e abrir espaço para o lado humano, o centro nervoso da vida, que se aproxima, que sente, que compadece e que transmite isso com verdade, acima de tudo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tenho nojo dos meios
Nojo da politicagem
Desses sonhos vendidos
Das almas trocadas
Dos planos perdidos
Eu tenho nojo dos meios
Da máfia, do anúncio
Da vaga não preenchida
Das pílulas pra esquecer
Do acomodado que se isenta
Nojo dos lados
De quem toma partido
Nojo dos corpos
Vendidos em troca
De poder, dinheiro e fama
Tenho nojo de ti
Das modas e modismos
Das fotos e legendas
Da oratória
Da zorra toda
Tenho nojo de mim
Dos repertórios
Das iras, fúrias
Subversões
Nojo das greves
Dos piquetes
Da massa otária em levedo
Do anarquista de almanaque
Dos professores mequetrefes
Do alienado, do operário
Do burguês, do patrão
Tenho nojo do mundo
Tenho nojo da humanidade
Tenho nojo dos sexos
Das idades
Pra onde foram os sonhos?
Vendi por dois pães e uma dose
Pra onde foi a rebelião?
Ficou trancafiada no porão
Pra onde foram os homens?
Viraram ratos na inquisição
E a história, e a filosofia
Os mapas, os fósseis, os rumos?
Encontraram atalho eletrônico
Pra onde você foi?
Fui pra longe tentar ser eu mesmo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Não há nada que se compare a um coração desocupado...



Não há nada que se compare a um coração desocupado. Nem mesmo um coração ocupado, pelo mais doce amor correspondido, nem este pode ser comparado ao instante de paz, sossego e liberdade que de um coração desocupado emana. Ele é ele e ponto. Ele não é ansiedade, angústia ou paranóia. Ele não espera por absolutamente nada, não sofre, não inventa, não cria constelações de ilusões entre seus vãos ou rios de esperanças nos seus armazéns. Ele goza simplesmente daquele pequeno e raro momento, aquele em que sentimos que podemos partir para onde quer que desejemos, sem nos enrolarmos nos cordões de prata do amor que nos une e nos segue sem querer. Um coração desocupado é aquele que arruma as malas de madrugada e pela manhã está pronto para partir, ainda que saiba que qualquer batida de vento em seu rosto pode trazer o amor dilacerante outra vez. Mas enquanto ele é ele e nada ou ninguém mais, ele pode voar, sonhar sem doer com os dias que virão. Enquanto ele é só ele, o coração desocupado se embriaga de poesia, ainda que de brisa, experimenta o gosto do mundo que o amor jamais poderá oferecer, pelo menos para pessoas como eu. Pessoas como eu têm um daqueles amores desconfiados, meio de canto de olho. Não admitem que podem ser amadas, e encontram as mais loucas provas de que estão sempre certas, que a sua teoria é infalível e altamente palpável. Pessoas como eu, sentem-se felizes com seus corações desocupados, mais do que poderiam ser com quaisquer dos preenchimentos amorosos. Amores platônicos até nos caem bem, pelo menos por um tempo, diferente dos namoricos de portão, amizades coloridas, amores à primeira vista ou de verão. Pessoas como eu, que guardam a sete chaves corações como o meu, morrem de medo de enlaçar-se nesse emaranhado de emoções. Fazem-se de difíceis, bancam as duronas, mas, na verdade, apaixonam-se perdidamente todo dia, porque pessoas como eu, com corações como o meu, procuram sempre um sopro de vento que se compare a um coração desocupado, só que sem nada em comum...


(Texto bobo e antigo - mas que condiz com o momento - encontrado entre os arquivos)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

até quando vinícius quiser





foi bem ali, no meio daquela kitnet verde-musgo-rosa-antigo, que eu olhei pra ti, quando me ensinava a lidar com a câmera nova. nova também era a cidade e a revista, e tu, era meu guia, dentro e fora dos edifícios, das sessões de cinema, das noites da metrópole. a kitnet tinha apenas um colchão, canecas de café, um cinzeiro de vidro em cima da mesa ao lado do notebook, uma mala, livros empoeirados de jornalismo policial, astrologia e culinária de botequim, uma tv pequena, um dvd barato, quadros rusticamente pintados com cores primárias – que mais pareciam ter sido feitos por uma criança atormentada –, os quais não encontraram lugar nas molduras ou divisórias, e fotografias de trabalho nas paredes. e olhando para as fotos em preto & branco, já tão velhas, tu me dizia sorrindo: “se tu tira fotos desde a infância, não achas que já deveria ter aprendido?” e eu, com cara de “também acho”, lerda em tecnologias, sorri de volta pra tua boca, submersa naquela barba toda e pedi: “pra sempre?” e tu citava vinícius, em soneto de fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama. mas que seja infinito enquanto dure.” preocupado com reações, tu continuava de olho na máquina, desviando de quando em quando pra minha boca que então citava caio fernando: “deixa o vento soprar, let it be”. e tu cantou um trecho da música, me beijou e me desvendou, para o resto dos meus dias. ou até quando vinícius quiser.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010