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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eu sou Bandini, Arturo Bandini!

A mão o alcançou na fileira de livros num daqueles momentos de timidez e desejo de fuga, de vontade de cair para dentro de um outro lugar, distante daquele que se apresentava: hostil, incompatível e tedioso. Para o meu deleite, o prefácio daquela edição (a sétima) havia sido escrito por Charles Bukowski, em 1979, o que agregava à obra uma credibilidade extra, na minha visão, seletiva para obras malditas.
Já tinha ouvido falar de John Fante e do peculiar personagem de “Pergunte ao Pó”, Arturo Bandini, mas nunca tinha tido a chance de ler as tais linhas e de estar frente a frente ao anti-herói Bandini, escritor de contos como “O cachorrinho riu”, de apenas vinte anos, que se lançou de uma cidadezinha do Colorado para Los Angeles, Califórnia, para tentar ser um dos grandes.
E estar diante dele e de personagens como Camilla Lopez , garçonete de uma cervejaria, vítima de preconceito e discriminação até mesmo por Bandini (às vezes nacionalista) por conta de seu sangue latino e de seus huaraches; Hellfrick, o maníaco por carne, alcoólatra e devedor; e o barman Sammy, doente e recluso no deserto, só me fez constatar que eu era um deles.
Apesar de ser uma obra de ficção, o livro demonstra uma proximidade intrigante em relação à marginalidade do personagem principal. O autor de “Espere a Primavera, Bandini” e “Sonhos de Bunker Hill”, John Fante, mostra ter vivido uma história semelhante ou ter convivido intimamente com pessoas que, como o seu Bandini, corriam atrás do famoso Sonho Americano.
O leitor pode sentir na pele as oscilações bruscas de humor de Bandini – refém de seu quarto de hotel, de café, cigarros e de sua máquina de escrever, o abatimento, a rejeição e a desordem sofrida por Camilla, ambos ícones do clima tenso e de pobreza do auge da depressão americana e, acima de tudo, feliz ou infelizmente, constatar que os tempos são os mesmos, seja na década de 1930, seja na de 2000.
Nossos vícios e sonhos imediatistas são os mesmos, a miséria experimentada se assemelha e os acessos íntimos à natureza humana não são novos. Somos Bandinis, Arturos Bandinis, jogando histórias no deserto do mundo, sem perspectivas de futuro, inconstantes e contraditórios, criando roteiros de filmes mentais do que queríamos ser.

Título: Pergunte ao Pó
Autor: John Fante
Categoria: Ficção americana
Ano: 1937

(Publicado no caderno Blitz em 30 de abril de 2010)

sábado, 17 de abril de 2010

assimétrico



tenho lidado com as mentes mais doentias, com os jogos de estratégia mais complexos, com risos de escárnio, pratos quebrados, não há vagas. longe da minha máquina de escrever, bocas estranhas no largo da rua, questão de esquecer escritos, tv fora do ar, modo em vídeo e nada mais. queria te contar, meu bem: não se importe. das recusas, silêncios, negativas e ausências, decorei os roteiros. é bom que saiba que não é de ti que me lembro quando ouço aquela música ou quando aquele perfume vem no meio da sala ou quando olho da janela do décimo quarto andar, quando meus olhos são mais um ponto de luz assimétrico na noite escura. desculpe, baby. não é de que ti que me lembro. não sei qual é o nome do meu grande amor, mas não é teu nome que eu chamo. o que posso te dar: algumas conversas intermináveis, silêncios maiores ainda, meu colo macio, meu riso sincero. posso te emprestar a minha desordem e meus cigarros baratos, te peço uma xícara de café e um pouco do teu doce pra enfeitar a noite. se tu me quiseres ou me esqueceres, diferença já não vejo. sabes, as nuances dos opostos perdem o brilho depois dos 25. não faz diferença. nessas horas não se fala em paixões. não mais. só fica alguma dose de respeito, consideração, planos tolos e impraticáveis, teu convite pro cinema na mão esquerda e o resto do mundo escrito na outra...




sexta-feira, 2 de abril de 2010


tive a sorte de escolher a profissão certa. o que mais posso dizer? ao olhar o mundo lá fora, de dentro daquele bar, a placa luminosa me fez entrar num insight. estava vivendo como queria viver. desde a infância, apaixonada pelas rádio-novelas, pelo cinema, pelas artes gráficas e pela literatura, eu me via no lugar exato. e então, pegando a estrada e chegando até essa cidade, me senti tão estrangeira como jamais havia me sentido. naquela noite, toda a tristeza de anos de rejeição, de reclusão, do ar pesado das drogas nos edifícios, dos amigos falsos e da parafernália toda de viver aqui, me invadiu a veia principal. lembrei que até fui feliz com ele, no tempo em que achávamos que nosso amor suportaria tudo, das contas a pagar as pulgas no carpet. não suportou. depois dele, ninguém mais chegou tão perto do que sou. lembro dele seguidamente. da barba macia e do sorriso tímido batendo na minha porta no final da tarde. ele jamais me espinhou. talvez por isso tenha saído por aí procurando o empecilho de sentir espinhos. e ele está com o oposto de mim e eu, com o oposto dele. e eu fui embora, milhares de vezes tu me viu partir. quem sabe eu tenha tido alguma sorte na vida, mas não desmereço meu empenho e minha dedicação para ser só. talvez eu tenha algum talento também, para a solidão e para as linhas tortas. lembro do espaço que tenho no mundo, meu pequeno espaço de tratar das artes, da minha quitinete alugada na glória, meu canto escuro longe de tudo. tão bom. e melhor é ter para onde voltar. toda casa é uma benção para um espírito errante. e é tão maravilhoso saber que há poesia na minha vida e que uma pitada disso pode perfurar séculos inteiros, pelo que diz saramago. escrever é o desejo de ser amado, desejo que não acaba porque o amor nunca é grande que chega, como mais ou menos diz gabriel. me sinto satisfeita em sentir a literatura tão perto do jornalismo. e sei que isso é só o começo...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Então, que seja doce"


O cenário é um casarão: o Asilo São Vicente de Paulo, com quase 60 anos de existência. Quarenta e sete mulheres dividem os corredores de vastos espaços, os quartos de camas gratuitas e odores variados, o jardim de balanços e sóis poentes. Há aquelas que falam, há as que simplesmente não falam mais – balbuciam. Mulheres que desaprenderam a linguagem dos homens, mas que ainda guardam alguns pequenos elementos da linguagem universal: o sorriso e o olhar doce. E doce é tudo o que elas esperam dessa Páscoa, essa data que traz tantas lembranças de um passado distante, cheio de vida, de pessoas e de dias bem mais gloriosos...

Escolhidas ao acaso ou pelo destino, guiadas pelas mãos acolhedoras de pessoas como Irmã Alzira Zardo, as mulheres que serão apresentadas na sequência são parte de uma realidade muito menos otimista do que se gostaria de encontrar. Aqui, onde o tempo custa a passar, as conversas são arrastadas e lentas, o futuro é o café-da-manhã, almoço e o jantar, e o sonho mais ambicioso é uma visita sem previsão de fim.
A primeira regra que todas aprendem é a da perda da privacidade. Coisa que não foi bem assimilada pela nossa primeira entrevistada. Eva, como na Bíblia. Eva Nunes. Cento e um anos, boa parte deles passados em uma cadeira, no corredor do São Vicente de Paulo. O dia em que nasceu já não lembra. Trazida por uma filha ao asilo, não gosta do aglomero das mulheres na sala principal. Prefere mesmo a solitude. No jardim, não passeia. “Faz mal para as vistas”, diz ela. Ouve pouco, fala menos ainda. As suas palavras não são compreensíveis aos meros mortais, mas ela tenta. Até que é indagada sobre a Páscoa. Longa pausa. Gestos fechados, a boca de poucos dentes se cerra de vez, silêncio total.

Eva Nunes,
101 anos

“Maria Lorena Müller, mas meu pai era Guerreiro”, falando sobre o nome de solteira.
- A senhora está aqui desde quando?
- Doze de junho...
- Doze de junho...?
- De 95.
Aos 81 anos (“só 81”, diz, provocando risadas nas colegas), Maria Lorena conta que passa o tempo dormindo e comendo. “Mais nada”, lança, apertando os olhos afetados pela miopia.
- O que significa a Páscoa para a senhora?
- Olha, nem sei explicar nada pra ti hoje. Porque, eu não sei, fiquei tão atrasada depois que eu tive uma crise de nervos... Eu fiquei “esquecida das coisas”, eu estou por estar. Mas eu rezo muito, principalmente de noite, de dia não. Mas eu não acredito em certas coisas. Só acredito em Deus.
- E na Páscoa?
- Tanto faz. Quando a gente é nova, as páscoas são bem diferentes. Depois dos 60, aí terminou. Quando os anos pesam nas costas, na cabeça, a gente muda, se sente diferente.
Há quase dois anos sem receber visitas, Maria Lorena não tem filhos. Perdeu dois no nascimento. O marido faleceu, a casa e a família não existem mais.
- Só estou eu aqui na Terra.

Maria Lorena Müller,
“Só 81”

Dona Cecília Peres vagava pelo longo corredor do asilo. Por que? Não soube dizer, tampouco sabia a sua idade. Há muitos anos lá, Cecília diz receber visitas de uma filha, a única ainda viva. “Tinha duas, mas uma faleceu. O que se pode fazer?” Da Páscoa, espera um “ninhozinho”. “Um ninho com doces, trazido pelo coelhinho”.
- Tinha ninho antigamente na Páscoa?
- Tinha, tinha ninho.
O marido ainda vive, mas não ela acha que ele não sabe que ela está no asilo. Não vai visitá-la. “Eu estou escondida”, afirma.

Cecília Peres,
Não sabe quantos anos tem

Sebastiana Marcondes, na cadeira de rodas, enquanto tomava a sopa dada pela Irmã Alzira, servida pouco antes do chá com bolachas, nada quis falar da Páscoa. O assunto preferido dela é Paulinho Vargas, que criou desde os dois anos. Agora um homenzarrão, granjeiro, que sempre leva medicamentos à ela quando precisa. A sua idade? Noventa e dois, ditos com orgulho na entonação.
- Está chegando a Páscoa...
- Ah, é...
- O que a senhora acha da Páscoa?
- Bonito!

Sebastiana Marcondes
92 anos

Uma das mais novas entrevistadas, há dois anos no asilo, Nair dos Santos, 62, chama atenção pelo tom do cabelo, ainda castanho, diferente do céu grisalho e branco que há em quase toda a parte. No movimento tranqüilo do balanço no final da tarde, Nair conta que tem um filho, que a visitou uma vez somente desde que entrou no São Vicente. Não sabe o motivo de sua nova morada, mas sabe que, da Páscoa, quer apenas uma coisa: doce.

Nair dos Santos,
62 anos

São mulheres que, no fim da vida, dependem da ajuda de pessoas como Irmã Alzira para as atividades mais simples, como para comer e tomar o banho diário. “Elas não envelheceram sadiamente, já envelheceram doentes”, explica a irmã. Tomadas pela depressão, pelo abandono da família, elas tem nas datas comemorativas momentos dolorosos, que necessitam de muito zelo por parte das cuidadoras. Optaram pela vida ou não tiveram escolha. Passam os dias, meses e anos em um ritmo incompatível com o ritmo do mundo dos familiares que lhe restaram ou não. Mundo que raramente se encontra com o mundo delas, machucado pelas recusas, partidas, ausências, silêncios intermináveis e feriados nem sempre tão doces como o desejo de tê-los.

(Publicado no Diário da Manhã em 2, 3 e 4 de abril de 2010)

domingo, 28 de março de 2010

cão de rua



ah, relacionamentos modernos.
tu ficas com teu ovo apunhalado
e eu com meus morangos mofados,
o mistério de um intruso num edifício
e a liberdade de um cão de rua.

sexta-feira, 19 de março de 2010

anões de jardim


sempre quis ser livre como um homem. andar pelas ruas de noite, chamando apenas a atenção de alguns anões de jardim. sempre quis viajar pelo mundo, minha mochila e eu. como um homem. sempre quis ser forte como um homem e gerar como um homem, se defender como um homem. mas não do tipo que mente ou massacra ou faz guerra. apenas livre, como um homem. e sempre quis achar o meu espaço no mundo, meu lugar, meu rumo, meu prumo. nunca fui competitiva, ou alardeante e quase nunca fui agressiva. abaixo os olhos e choro, na primeira ofensa. e sempre tentei achar no abraço de um homem a minha espécie equivocada de salvação. e acho que deus sabe do que precisamos e que nossa ansiedade é pura bobagem. e sim, eu acredito em deus. e sou feliz com as coisas mais pequenas. se ligo o rádio e ouço o que gosto; se aquela pessoa fala comigo na hora exata; se tenho dinheiro para a passagem de volta para casa. nunca, sempre, sempre e nunca amo o tempo todo. e tenho toda a preguiça do mundo, mas nunca para escrever. e tenho toda a loucura do mundo, mas não para trair. e tenho toda a bondade do mundo, mas não para perdoar. guardo rancor, sou imperfeita, me debato contra meu inimigo imaginário. e sei que meu corpo acumula as minhas boas e más escolhas e se fico sozinha em casa de noite, sei que o que eu sinto é um sentimento universal, e que ele, o vazio, só existe para que tentemos preencher. com arte, com vida, amor, lances simples, palavras, frases noturnas, loucuras de bar, amigos, ócio, viagens e finais felizes.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Formigas lidando com elefantes

Mãe de Pedro Luiz Migott Maciel ainda espera pelo filho que desapareceu em 27 de maio de 2008.

“Somos formigas lidando com elefantes. Ninguém sai da cadeira para ajudar”, desabafa Marines Migott Maciel, mãe de Pedro Luiz Migott Maciel, atleta, ciclista, desaparecido aos 21 anos, em 27 de maio de 2008 em Bento Gonçalves, cidade onde morava.
Trabalhador, sem vícios, Pedro se dedicava exclusivamente ao esporte e ao emprego, em uma empresa de móveis. Além de filho, era amigo e grande companheiro da mãe Marines. “Ele ligava todos os dias do trabalho, ao meio-dia. Só que naquela terça-feira ele não ligou e o telefone dele estava desligado”.
A mãe desconfia que uma pancada na cabeça dias antes teria feito o filho perder a memória. Naquela terça-feira, Pedro saiu para ir para o trabalho, como sempre, e não voltou mais. Marines encontrou os documentos do filho em casa – coisa que ele jamais fizera – e a pia do banheiro ainda seca. “‘Ele saiu de casa tão apressado que não teve tempo de lavar o rosto’, pensei.” Um amigo, que estava no ponto de ônibus, viu o rapaz indo para o lado contrário da empresa em que trabalhava, gritou, chamou, mas Pedro demorou a atinar.
E desde então a mãe se sente indefesa diante dessa situação, conta que o apoio da polícia é quase nulo, já que não há suspeita de crime.
Com ajuda de amigos e parentes, a mãe procura o filho por todo o estado do Rio Grande do Sul, espalhando cartazes com a foto de Pedro, hoje com 23 anos, e um retrato-falado que representa a suposta imagem atual do garoto. “Meu filho está vivo; não sinto o meu filho morto”, afirma Marines, que diz suportar um fardo penoso demais para qualquer mãe.
Em Carazinho, no último sábado, novos cartazes podiam ser vistos em pontos movimentados da cidade, como na praça e arredores. No entanto, a chuva, a má intenção de alguma pessoa ou a preocupação com a limpeza nos locais, resultou na retirada dos cartazes. Já na segunda-feira, os cartazes de Pedro não estavam mais nesses locais.
O que a família espera é apoio para encontrar o rapaz, que nessa altura pode ter se tornado um andarilho e estar sofrendo toda a discriminação que uma pessoa nessas condições sofre no meio social.


Foto e informações sobre Pedro, e de centenas de outras pessoas desaparecidas, podem ser encontrados no site: http://www.desaparecidos.rs.gov.br

FONES PARA CONTATO:

(54) 3454-6259 - 9186-5130 - 9204-0410 ou 9648-3928

terça-feira, 16 de março de 2010

nunca fui a mais inteligente,
nem a mais bonita ou experiente.
mas acho que sou uma das pessoas
mais sensíveis e intensas que já conheci...

conto do além-mar

enquanto a velha esposa macumbeira rezava fervorosa, chamando todas as virgenzinhas & santos do corpo celeste no seu transe particular tão bem bolado, influenciado por toda a literatura de ladainhas de uma vida inteira, o velho, de corpo fechado, chegando quase aos cem, caminhava ereto & branco para o “chaleira preta” – uma zona vaporosa de uma rua paralela à flores da cunha, num cais de porto de um passado distante. crê-se que o sexo dele por lá grunhia nos embalos das batidas da umbanda, tamanha a força da bruxa, leitora do baralho cigano de madame lenormand da paris antiga. e ele, que pouco ouvia, pois seus ouvidos foram comidos por negros pelos quentes, deixava a carne impessoal tomar a sua, nojenta, afundando na lingerie, até que decidisse, depois de alguns goles de pinga forte, seguir para casa indiferente. a velha, já cansada de crenças & profecias & esperas, eis que um dia partiu. conta a lenda que nesse dia, na volta do “chaleira preta”, depois de ter levado a comadre e melhor amiga da cartomante para ter com ele no puteiro, o machão chorou. desde aquele dia, dizem as más línguas, que dona macumbeira virou mesmo dona puta e que o velho ereto botou a fazer via-sacra em cada meretrício da cidade, mas agora a procura da reza única da esposa maldita, fugitiva dos pesados cornos. acontece que a dor foi tanta para o pobre velho, que findou lhe trazendo o beijo da morte, talvez sua grande alegria, já que a boca do povo diz ainda vê-lo abrir as pernas da velha mulher nas noites quentes de verão, quando nenhum cliente toma coragem de com ela se deitar, graças às pragas que o marido joga das lonjuras do além-mar...

domingo, 14 de março de 2010

Sempre acho que vou encontrar o mar no fim do horizonte.
O mais estranho disso é saber que não gosto do mar.

fotografias em preto & branco



chove e faz frio no rio grande. o ar é seco, o dia é cinza. sinto falta da ilusão de ser amada. consciente das minhas limitações, das tuas, do mundo, sigo só para um café. sonny boy williamson na cabeça que se agita na estação do trem. lembro de quando passeamos juntos por aqui, das fotografias em preto & branco e dos rolos coloridos da analógica, lembro do deslumbramento diante do antigo, da arquitetura dos anos 30, das casas que fazíamos nossas. penso em onde possa estar agora, abraçando ombros de cabelos lisos, pretos e longos, arrastando nas calçadas. não sou eu que estou contigo. estranho. parecia que era para ser... e a lembrança não chega a doer e a tua solidão também é uma opção e a minha, condição. amor não se pede e não se deixa pedir. deixa estar, deixa morrer. lá vem o trem, o dia seguinte, a lotação para o nada, o frio, o frio... deixa eu devanear, poetizar, sozinha na terra antiga. sou tão pequena, tenho tanto para escrever. pequena demais para ser escolhida, grande demais para passar despercebida. mediana. sinto o corte do vento na cara, dilacerada de emoções velhas e pesadas. me escondo no manto xadrez, meus olhos captam um mundo invisível aos outros olhos, meu perfume espiral do outro lado do mundo. te espero chegar. beijo de até mais ver.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O NÃO-TEXTO

PROMETI ESCREVER O TEXTO DA MINHA VIDA EM UMA HORA. NÃO VOU. NA CORRERIA DOS DIÁRIOS, NA CORRERIA DO BATUQUE DOS TECLADOS, ELA NÃO SE ENCONTRA. TE VI E PARALISEI. ME VI. ANDARILHA DUM MUNDO DE BOLSOS VAZIOS. NASCI COM BOLSOS FORRADOS. FUREI. NASCI BELA, A BELEZA PERDI. DURMO DE FAVOR NA CASA DA VELHA MACUMBEIRA. RIO GRANDE, BUENOS IRES, VELHO OESTE. NÃO IMPORTA. NÃO SOU NADA, ALÉM DE MAIS UMA. TE VI... PENSO LOGO EM PRECONCEITOS, CHANCES, CAPACIDADES. NÃO FIZ, NÃO FAÇO PARTE. NÃO SOU, NÃO SEREI PARTE. HÁ QUEM LEIA, FAÇA, APRENDA E TRANSMITA. HÁ QUEM NASÇA EMERGENTE, FODIDA, FALIDA, PEQUENA E VIÚVA DE QUEBRANTES. E HÁ QUEM FAÇA DISSO VIDA, SEM CULPA DE NASCENÇA. HÁ QUEM TENHA TALENTO E HÁ QUEM DESPERDIÇA. EU SOU MAIS POSE DO QUE TUDO, MAIS PLÁGIO DO QUE PULSO, MAIS VULGAR DO QUE POEMA. ESSE NÃO É O TEXTO DA MINHA VIDA. ESSE TEXTO NÃO É MEU. EU NÃO RELI, NÃO SOU VOCÊ, NÃO TENHO MEMÓRIA. TALVEZ NUNCA CONHEÇA O VELHO MUNDO. TALVEZ NÃO SAIBA MAIS ATRAVESSAR A RUA SEM QUASE MORRER. MUQUIRANA-SANGUINÁRIA, VÍCIO COR DE VERMELHO LICOR. VI MINHA POESIA NO FOLHETIM DA ESQUINA. A POESIA NÃO ERA MINHA. MEU EGO VIROU PÓ. CAMINHANTE POBRE NA MULTIDÃO. LUZ PELA METADE DOS OLHOS. PIFEI. ENGOLI ASTROLOGIA HOJE, DO CAFÉ AO SERÃO. IGNORÂNCIA COM ROUPA DE CIÊNCIA ANTIGA, ME DEIXE EM PAZ. E TE VI. E TE VI E FIZ DE TI MEU CHÃO. MEU CHÃO ESPERANÇOSO E ESCORREGADIO. VOU CAIR NA PRIMEIRA IMERSÃO. CAÇANDO UM CANTO PARA ESCREVER. NÃO ESCREVO MAIS A MÃO, NÃO ESCREVO SEM MEUS PADRÕES, NÃO VIVO SEM REPETIÇÕES, TENHO A ESPONTANEIDADE DE UM ERMITÃO, TENHO A LEVEZA DE UM TREM DOS ANOS 20. PARE, OLHE, ESCUTE. ESTOU VELHA DE EMOÇÕES. NÃO GUARDEI TEU NOME, DUAS HORAS DEPOIS TINHA ESQUECIDO DE TI. QUEM É VOCÊ? NA REPORTAGEM DA MANHÃ, TU ERA DEUS, NO BOLETIM DA MEIA- TARDE, UM COMPLETO DESCONHECIDO. FUREI O JANTAR PARA ESCREVER. COMI A BATERIA PARA DESCANSAR. GAZEEI A VOLTA PARA RESMUNGAR, EM MIM, NA TELA BRANCA, MINHA E TUA E DE TODOS. E EU NÃO LEIO POESIA. E EU NÃO RELEIO. EU NÃO ME LEMBRO! CORROMPIDA, IMPERFEITA, CRAVADA DE CRAVOS PODRES, DA TUA LANÇA JOGADA EM FLAMAS. RIDÍCULA CHAMA. PEGO O TAXI, MORRO NA CAMA, ME DEIXE EM PAZ, QUIETA, TÍMIDA, VAGA, DE GESTOS FINITOS/////////////////////////

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dois minutos eternos



Tânia Rösing esteve no Chile durante os tremores e fala sobre a experiência


“Inesquecível, inusitada e irrepetível”. É assim que Tânia Rösing, professora, doutora em Teoria Literária, idealizadora e organizadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo, define a experiência vivida em Santiago do Chile, enquanto participava do Congresso Ibero-Americano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil da Fundação SM, que deveria acontecer de 24 a 28 de fevereiro.
Do 5º andar do Hotel São Francisco, Tânia e o esposo foram surpreendidos na madrugada de sábado (27) por um tremor que durou pouco, mas que foi o suficiente tirar os móveis e a estabilidade emocional do lugar. “Foram só dois minutos, mas foram dois minutos eternos”, declara Tânia.Eternos, assim como foi eterno o caminho do 5º andar até a calçada, onde esperaram pelo socorro. O resgate veio a bordo de um avião-extra que acompanhava o presidente Lula. Já no Brasil, em São Paulo, Tânia rumou para Passo Fundo, chegando na cidade no dia 2.
Nem ela, nem o esposo se feriram. Mas, para Tânia, a Santiago que conheceu, de arquitetura vitoriana, de igrejas e prédios marcados pelos traços espanhóis, franceses e ingleses, não será mais a mesma. “Santiago estava vivendo um momento atraente. Peças de teatro com personagens da literatura, como Don Quixote de La Macha, e grandes shows folclóricos. Agora não sei o que será”, finaliza.


(Publicado no Diário da Manhã em 5 de março de 2010)


Tremores numéricos




Números. Como acontece em todas as situações de catástrofe e morte, a imprensa divulga números. Número de cidades atingidas, número de graus de magnitude, número de dinheiro investido, número de mortos. Número de vidas perdidas. É o que está sendo divulgado recentemente com os terremotos ocorridos no Chile, Peru e parte da Argentina.
A vida, essa presença misteriosa que habita todos nós. Nós, que somos muito mais do que números, que somos seres subjetivos, contraditórios, ricos em detalhes genéticos, habituais, filosóficos... nesta hora de abalo somos mesmo números. Portadores de RG, CPF e o escambau. Somos nome, sobrenome e idade. Somos um a mais ou um a menos.
E os números aumentam, as vidas perdidas, encaixadas rapidamente em gavetas numéricas. Mas é lógico que a imprensa precisa divulgar os números; é claro que a imprensa é subsidiada por dados. Mas a imprensa também pode olhar nos olhos fundos de quem perdeu família, casa e identidade, desolado no meio dos escombros, e desvendar o sentimento, e sem sensacionalismo.
É só regular o macro das pupilas, desfocar os fundos numéricos e direcionar para a imagem do desolado, daquele que já não sabe mais para onde ir, o que fazer, o que sentir. Deixar a mente gravar o essencial e a lente ler aquelas perguntas direcionadas ao Deus da Fúria, os porquês sem resposta, desencontrados por entre a tralha toda, de roupas em trapos, dos móveis em frangalhos, dos sonhos idos e das lembranças impregnadas.
Como pessoas que somos, como cidadãos do mundo, podemos reconhecer irmãos em qualquer nação, em qualquer idioma, em qualquer território ou fronteira, mesmo que de longe. Filhos do mesmo Deus, da Fúria e do Alento, temos o poder de nos despedir da matemática da dor e abrir espaço para o lado humano, o centro nervoso da vida, que se aproxima, que sente, que compadece e que transmite isso com verdade, acima de tudo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tenho nojo dos meios
Nojo da politicagem
Desses sonhos vendidos
Das almas trocadas
Dos planos perdidos
Eu tenho nojo dos meios
Da máfia, do anúncio
Da vaga não preenchida
Das pílulas pra esquecer
Do acomodado que se isenta
Nojo dos lados
De quem toma partido
Nojo dos corpos
Vendidos em troca
De poder, dinheiro e fama
Tenho nojo de ti
Das modas e modismos
Das fotos e legendas
Da oratória
Da zorra toda
Tenho nojo de mim
Dos repertórios
Das iras, fúrias
Subversões
Nojo das greves
Dos piquetes
Da massa otária em levedo
Do anarquista de almanaque
Dos professores mequetrefes
Do alienado, do operário
Do burguês, do patrão
Tenho nojo do mundo
Tenho nojo da humanidade
Tenho nojo dos sexos
Das idades
Pra onde foram os sonhos?
Vendi por dois pães e uma dose
Pra onde foi a rebelião?
Ficou trancafiada no porão
Pra onde foram os homens?
Viraram ratos na inquisição
E a história, e a filosofia
Os mapas, os fósseis, os rumos?
Encontraram atalho eletrônico
Pra onde você foi?
Fui pra longe tentar ser eu mesmo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Não há nada que se compare a um coração desocupado...



Não há nada que se compare a um coração desocupado. Nem mesmo um coração ocupado, pelo mais doce amor correspondido, nem este pode ser comparado ao instante de paz, sossego e liberdade que de um coração desocupado emana. Ele é ele e ponto. Ele não é ansiedade, angústia ou paranóia. Ele não espera por absolutamente nada, não sofre, não inventa, não cria constelações de ilusões entre seus vãos ou rios de esperanças nos seus armazéns. Ele goza simplesmente daquele pequeno e raro momento, aquele em que sentimos que podemos partir para onde quer que desejemos, sem nos enrolarmos nos cordões de prata do amor que nos une e nos segue sem querer. Um coração desocupado é aquele que arruma as malas de madrugada e pela manhã está pronto para partir, ainda que saiba que qualquer batida de vento em seu rosto pode trazer o amor dilacerante outra vez. Mas enquanto ele é ele e nada ou ninguém mais, ele pode voar, sonhar sem doer com os dias que virão. Enquanto ele é só ele, o coração desocupado se embriaga de poesia, ainda que de brisa, experimenta o gosto do mundo que o amor jamais poderá oferecer, pelo menos para pessoas como eu. Pessoas como eu têm um daqueles amores desconfiados, meio de canto de olho. Não admitem que podem ser amadas, e encontram as mais loucas provas de que estão sempre certas, que a sua teoria é infalível e altamente palpável. Pessoas como eu, sentem-se felizes com seus corações desocupados, mais do que poderiam ser com quaisquer dos preenchimentos amorosos. Amores platônicos até nos caem bem, pelo menos por um tempo, diferente dos namoricos de portão, amizades coloridas, amores à primeira vista ou de verão. Pessoas como eu, que guardam a sete chaves corações como o meu, morrem de medo de enlaçar-se nesse emaranhado de emoções. Fazem-se de difíceis, bancam as duronas, mas, na verdade, apaixonam-se perdidamente todo dia, porque pessoas como eu, com corações como o meu, procuram sempre um sopro de vento que se compare a um coração desocupado, só que sem nada em comum...


(Texto bobo e antigo - mas que condiz com o momento - encontrado entre os arquivos)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

até quando vinícius quiser





foi bem ali, no meio daquela kitnet verde-musgo-rosa-antigo, que eu olhei pra ti, quando me ensinava a lidar com a câmera nova. nova também era a cidade e a revista, e tu, era meu guia, dentro e fora dos edifícios, das sessões de cinema, das noites da metrópole. a kitnet tinha apenas um colchão, canecas de café, um cinzeiro de vidro em cima da mesa ao lado do notebook, uma mala, livros empoeirados de jornalismo policial, astrologia e culinária de botequim, uma tv pequena, um dvd barato, quadros rusticamente pintados com cores primárias – que mais pareciam ter sido feitos por uma criança atormentada –, os quais não encontraram lugar nas molduras ou divisórias, e fotografias de trabalho nas paredes. e olhando para as fotos em preto & branco, já tão velhas, tu me dizia sorrindo: “se tu tira fotos desde a infância, não achas que já deveria ter aprendido?” e eu, com cara de “também acho”, lerda em tecnologias, sorri de volta pra tua boca, submersa naquela barba toda e pedi: “pra sempre?” e tu citava vinícius, em soneto de fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama. mas que seja infinito enquanto dure.” preocupado com reações, tu continuava de olho na máquina, desviando de quando em quando pra minha boca que então citava caio fernando: “deixa o vento soprar, let it be”. e tu cantou um trecho da música, me beijou e me desvendou, para o resto dos meus dias. ou até quando vinícius quiser.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

vagos dias






















basta um toque apenas
para acionar toda essa explosão
de veias alarmadas, varizes nervosas
que me tomam o corpo enfermo
me espalho no vento inflamada de amores
me espalho nos teus cabelos
em finos sopros de esperança
basta um toque apenas e já sou tua
e com o passar dos dias
a indiferença que me cala
vai apagando sopro a sopro
o que resta da minha alegria
eu já não sou nada, muito menos minha
amaldiçôo o toque maldito
torno maldito o bendito
roçar de línguas da tua boca
nada, não sou nada
sequer decodifico os poemas
que lhe teço infame
nada, não sou nada
trapo antigo, rasgado no beco
pois não há de haver
dor maior que a indiferença
antes me dedicasse o teu ódio
tua ira, tua injúria
antes me despejasse grosserias
fizesse de mim messalina
amante dos vagos dias
antes me fizesse messalina
mas não, me ofertas teu silêncio
e do teu silêncio
se cria a minha dor
aninhada de solidão extrema
me sinto doente
o corpo já não abarca
de anti-corpos a dor
que vem de dentro
então jamais me toque
nunca mais toque na minha dor
não toque mais nessa ferida
se não quiser vê-la vestida de amor

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

queda livre



ele não responde,

ele não liga,

ele já não fala,

não ouço a sua voz.

quem é ele,

quem é ele,

quem é ele?



ele já não respira,

ele já não ouve,

ele não se move,

ele morreu.

ele não abre espaço,

ele não encontra caminho,

ele já não vive.



quem é ele?

quem é ele?

quem é ele?

ele se foi,

não voltou.

será que esqueceu?

será que pirou?

desistiu?

sonhou?



queméelequeméelequeméele?

terá o telefone estragado,

terá a caneta findado,

terá o suporte furado,

terá a linha quebrado,

terá a sorte azarada,

terá a sombra enviuvado,

terá a memória despedaçada,

terá a visão embaçada,

terá os poemas queimado,

terá as fotos aniquilado,

terá as desculpas escapado,

terão seus dedos enferrujado,



terá sua boca colada,

terá a pá de cal lançado?

terá? será?



bolero, violino,

cabaré de sonhos, café frio.

tu me deixou e meu riso virou rio.

meu desalinho desandou,

sou de linhas & manchas,

puxadas, pinceladas de fogo fátuo.

tufoiembora, eu não sei o que dizer.

te escrevo esse poema

que é pra não esquecer

que a minha rima pobre quer,

nas vias de fato,

relembrar teu nome

e que penso em ti

nem que seja pra lembrar

que já esqueci.



(pseudo-psicografado por um espírito exagerado, irreal e imaturo)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

desalinho


gosto desse estado entre paixões

tão raro, tão calmo, tão tranqüilo...

a pele amarelada de sois

meu hotel de ilusões particular


gosto de aceitar as estações

as idades das coisas, os tempos, os climas

tempestades, relâmpagos, trovões

manhãs brandas, céu azul, chuva fina


gosto de enfrentar essa guerra

dos meus infernos & paraísos astrais

gosto do verde, do roxo-vivo, púrpura

das rosas-magentas, da ferida que não dói mais


gosto da essência das sementes, de regar botões

acariciar sua prole, prover seu pólen

me agrada a dança das águas

“nesse rio que corre em veias mansas dentro de mim”


gosto da madeira como elemento

das presenças que invadem a alma

do estado infantil do ser humano, não raso

do balanço da rede nas tardes de domingo


das formas barrocas, dos dedos de diva

do hortelã do teu crivo, gudang

fazendas floridas, estampas, desalinho

de todo esse vinho, do teu beijo de mil morfinas


dessa centelha de vida que me invade

desse festival divino à flor-da-pele

dos perfumes, dos risos, dos poemas

das cantigas de ninar, dos infantes


livre do que me dilacera

longe de ti, “minha grande, minha pequena obsessão”

já que da tua lembrança ficou o vapor

ecos & sombras de palavras que se foram


palavras não salvas, antigas

que de ti me faziam refém

mas de mim agora sou dona

pois me sinto minha e não mais tua


da minha boca, fruta vermelha

fica o gosto do que se foi

fruto fora de época, perfil de begônia

que não mais reinará no teu jardim


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Os cafajestes (não) merecem o paraíso - Uma analogia descarada


É possível que o lugar ocupado por um cafajeste só seja devidamente medido quando, sem mais delongas, conseguimos tira-lo de nossas vidas. Um alívio em perceber que estamos, pela primeira vez desde os tempos remotos, condizentes com a nossa intuição. Não seria uma inverdade admitir que os cafajestes estimulam a nossa imaginação, nossa veia criativa; pois, para tolerar ou tentar compreender as atitudes de um cafajeste, nos lançamos em um descampado, porém rico e imaginativo, para nos convencer, da maneira mais poética e humana, de que não é possível existir ser vivente com tamanho despeito.
Senso de humor particular, estratégia amorosa pouco usual, medo de compromisso, trauma de infância, descaso materno ou paterno. Tudo isso entra em questão quando queremos justificar a personalidade de um cafajeste. Porém, pasmem as descrentes: os cafajestes existem, e estão entre nós. Hedonistas incuráveis, egocêntricos, quantitativos, apelativos, de olhares caninos, eles estão em toda parte. E haja psicanálise freudiana de botequim para explicar como é que eles surgem.
Senhoras bem-casadas, cuidem-se: eles podem estar entre vós. Nem todos possuem características semelhantes entre si e há aqueles que, como camaleões predadores do deserto, camuflam-se com zelo tal, que jamais, a mais desconfiada, neurótica e histérica balzaquiana ousaria por em xeque a sua conduta.
As chamadas mulheres do mundo, vividas, curtidas, também são vítimas corriqueiras dos cafajestes. Isso porque a carência e o excesso de pressão social é capaz de fazê-las admitirem um cafajeste para chacoalhar a solidão. Crentes de que “esse é diferente”, experimentam também o veneno amargo do cafajestino.
É claro que um mundo sem cafajestes seria um mundo menos boêmio, perderia o aspecto romântico ofertado pela canalhice. Não tentaremos aqui tirar os méritos dos cafajestes, canalhas e cachorros de espécies variadas. O universo feminino sem eles seria duro demais, sério demais, exato e previsível demais. Cafajestes ofertam ao mundo uma doce ilusão, que perdura mais ou menos o mesmo tempo que uma gripe. Entretanto, parasitas, muquiranas, se infiltram no frágil sistema emocional feminino e podem provocar estragos irreversíveis.
Mas dizem que mulher alguma pode considerar-se experiente nas intrincadas artes do amor sem ter passado, pelo menos uma vez na vida, pelas hábeis mãos de um cafajeste. E é provável que cafajeste algum passe pelo mundo à toa, ainda que com toda e única sede de prazeres que possui. Depois de um cafajeste, as mulheres são mais capazes de detectar investidas canalhas e, consequentemente, vislumbrar olhares mais bem intencionados.
Portanto, aos cafajestes de nossas vidas, agradecemos por toda a poesia, mas sigam adelante com essa indomabilidade dócil de cão sem dono bem longe de nós. Seguiremos com nossa poker face até que um novo caso seja escrito pelo destino.

(Inspirado em conversas noturnas com o grande Legramantti)

domingo, 31 de janeiro de 2010

"eu quero um dia de sol num copo d’água"


raros têm sido os dias como o de hoje. dias em que consigo sair desse emaranhado de emoções que crio, desse porão sombrio, assombrado por demônios ardilosamente inventados. hoje foi um dia bom. consegui aceitar melhor todo esse calor queimando a minha pele desenhada de cores, correndo livre por essas estradas, cabelo vermelho se armando todo no vento, vendo aquele horizonte tão conhecido bem detrás dos óculos de sol vagabundo. me senti dourada. me senti viva. velhos amigos, cerveja, novos olhares, maresia imaginária. seja lá o que me deixou assim, eu gostei. seja lá o que virá, foi bom. o rosto estampado de sorrisos, a boca, lotada de dentes. na brisa fresca e luminosa do fim de tarde, te encontrei bem perto de mim, na nossa casa de mornas sombras, embalada por música celta, medieval. precisava tanto de um colo e o tive, longe de tudo, emoldurado de doces espirais de incenso barato. e tudo foi tão sem medo e tão parecido com aqueles velhos anos, que não fiz nada além de sentir. e que se danem as palavras repetidas. e que se danem as histórias revividas. "eu quero um dia de sol num copo d’água".

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

sou a dos olhos
que, captando as milhares de imagens diárias
nas cores das palhetas
das placas luminosas, néons & standarts
se mistura no gás da cidade
pois sou também parte do rosa que tinge o céu
quando a noite cai

tenho álbuns de lembranças
bem na frente das pupilas
e quando olho para todos os rostos e carros
enquadrada & calada nas janelas dos ônibus
é o teu rosto e com o teu tom que desenho

se me distraio
já escrevo teu nome
e quando o silêncio do mundo vem
sou só saudades
carregadas de abraços
que eu não dei

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

não

não, não me mandem dormir,

não, não me mandem abaixar o som,

não mandem calar,

apagar o cigarro ou o cio.

eu não vou, hoje não.

quero cutucar o teu medo,

aquele que tu não pode sequer

bloquear, deletar, excluir.

não me mande parar,

hoje eu não vou.

vim pra bagunçar tuas certezas,

bem no meio da noite.

não quero o permitido,

não quero o absolvido,

o absoluto.

feche a janela,

eu ainda estarei lá.

desligue o telefone,

eu ainda vou te ouvir.

se tu não gosta do jogo,

estará perdido.

se tu não sabe jogar,

terá o meu tiro.

te encontro nos néons

do meu filme noir.

te encontro em david goodis

ou em hqs monocromáticas.

te encontro

e por que te encontro?

não te encontro

e por que do desencontro?

te prolongo no meu tango,

é personagem do meu sonho,

é figuraviva do meu fim,

és meu & delira.

velha dor em brasa,

velho amor em cena,

velho gosto amargo

na boca de gim.

mais uma terça-feira,

mais uma noite de insônia,

mais uma bofetada

do destino,

bang-bang, mescalina,

viúvanegra, feridaviva.

venha dor, deixe verter.

é a dor mesclada de cor

é a cor, virada em tons.

é o amor, te dilacerando

de novo.