Pesquisar este blog
domingo, 28 de março de 2010
cão de rua
ah, relacionamentos modernos.
tu ficas com teu ovo apunhalado
e eu com meus morangos mofados,
o mistério de um intruso num edifício
e a liberdade de um cão de rua.
sexta-feira, 19 de março de 2010
anões de jardim
quarta-feira, 17 de março de 2010
Formigas lidando com elefantes
Mãe de Pedro Luiz Migott Maciel ainda espera pelo filho que desapareceu em 27 de maio de 2008.
“Somos formigas lidando com elefantes. Ninguém sai da cadeira para ajudar”, desabafa Marines Migott Maciel, mãe de Pedro Luiz Migott Maciel, atleta, ciclista, desaparecido aos 21 anos, em 27 de maio de 2008 em Bento Gonçalves, cidade onde morava.
Trabalhador, sem vícios, Pedro se dedicava exclusivamente ao esporte e ao emprego, em uma empresa de móveis. Além de filho, era amigo e grande companheiro da mãe Marines. “Ele ligava todos os dias do trabalho, ao meio-dia. Só que naquela terça-feira ele não ligou e o telefone dele estava desligado”.
A mãe desconfia que uma pancada na cabeça dias antes teria feito o filho perder a memória. Naquela terça-feira, Pedro saiu para ir para o trabalho, como sempre, e não voltou mais. Marines encontrou os documentos do filho em casa – coisa que ele jamais fizera – e a pia do banheiro ainda seca. “‘Ele saiu de casa tão apressado que não teve tempo de lavar o rosto’, pensei.” Um amigo, que estava no ponto de ônibus, viu o rapaz indo para o lado contrário da empresa em que trabalhava, gritou, chamou, mas Pedro demorou a atinar.
E desde então a mãe se sente indefesa diante dessa situação, conta que o apoio da polícia é quase nulo, já que não há suspeita de crime.
Com ajuda de amigos e parentes, a mãe procura o filho por todo o estado do Rio Grande do Sul, espalhando cartazes com a foto de Pedro, hoje com 23 anos, e um retrato-falado que representa a suposta imagem atual do garoto. “Meu filho está vivo; não sinto o meu filho morto”, afirma Marines, que diz suportar um fardo penoso demais para qualquer mãe.
Em Carazinho, no último sábado, novos cartazes podiam ser vistos em pontos movimentados da cidade, como na praça e arredores. No entanto, a chuva, a má intenção de alguma pessoa ou a preocupação com a limpeza nos locais, resultou na retirada dos cartazes. Já na segunda-feira, os cartazes de Pedro não estavam mais nesses locais.
O que a família espera é apoio para encontrar o rapaz, que nessa altura pode ter se tornado um andarilho e estar sofrendo toda a discriminação que uma pessoa nessas condições sofre no meio social.
Foto e informações sobre Pedro, e de centenas de outras pessoas desaparecidas, podem ser encontrados no site: http://www.desaparecidos.rs.gov.br
FONES PARA CONTATO:
(54) 3454-6259 - 9186-5130 - 9204-0410 ou 9648-3928
terça-feira, 16 de março de 2010
conto do além-mar
enquanto a velha esposa macumbeira rezava fervorosa, chamando todas as virgenzinhas & santos do corpo celeste no seu transe particular tão bem bolado, influenciado por toda a literatura de ladainhas de uma vida inteira, o velho, de corpo fechado, chegando quase aos cem, caminhava ereto & branco para o “chaleira preta” – uma zona vaporosa de uma rua paralela à flores da cunha, num cais de porto de um passado distante. crê-se que o sexo dele por lá grunhia nos embalos das batidas da umbanda, tamanha a força da bruxa, leitora do baralho cigano de madame lenormand da paris antiga. e ele, que pouco ouvia, pois seus ouvidos foram comidos por negros pelos quentes, deixava a carne impessoal tomar a sua, nojenta, afundando na lingerie, até que decidisse, depois de alguns goles de pinga forte, seguir para casa indiferente. a velha, já cansada de crenças & profecias & esperas, eis que um dia partiu. conta a lenda que nesse dia, na volta do “chaleira preta”, depois de ter levado a comadre e melhor amiga da cartomante para ter com ele no puteiro, o machão chorou. desde aquele dia, dizem as más línguas, que dona macumbeira virou mesmo dona puta e que o velho ereto botou a fazer via-sacra em cada meretrício da cidade, mas agora a procura da reza única da esposa maldita, fugitiva dos pesados cornos. acontece que a dor foi tanta para o pobre velho, que findou lhe trazendo o beijo da morte, talvez sua grande alegria, já que a boca do povo diz ainda vê-lo abrir as pernas da velha mulher nas noites quentes de verão, quando nenhum cliente toma coragem de com ela se deitar, graças às pragas que o marido joga das lonjuras do além-mar...
domingo, 14 de março de 2010
fotografias em preto & branco
quarta-feira, 10 de março de 2010
O NÃO-TEXTO
sexta-feira, 5 de março de 2010
Dois minutos eternos
Tânia Rösing esteve no Chile durante os tremores e fala sobre a experiência
Nem ela, nem o esposo se feriram. Mas, para Tânia, a Santiago que conheceu, de arquitetura vitoriana, de igrejas e prédios marcados pelos traços espanhóis, franceses e ingleses, não será mais a mesma. “Santiago estava vivendo um momento atraente. Peças de teatro com personagens da literatura, como Don Quixote de La Macha, e grandes shows folclóricos. Agora não sei o que será”, finaliza.
(Publicado no Diário da Manhã em 5 de março de 2010)
Tremores numéricos
Números. Como acontece em todas as situações de catástrofe e morte, a imprensa divulga números. Número de cidades atingidas, número de graus de magnitude, número de dinheiro investido, número de mortos. Número de vidas perdidas. É o que está sendo divulgado recentemente com os terremotos ocorridos no Chile, Peru e parte da Argentina.
A vida, essa presença misteriosa que habita todos nós. Nós, que somos muito mais do que números, que somos seres subjetivos, contraditórios, ricos em detalhes genéticos, habituais, filosóficos... nesta hora de abalo somos mesmo números. Portadores de RG, CPF e o escambau. Somos nome, sobrenome e idade. Somos um a mais ou um a menos.
E os números aumentam, as vidas perdidas, encaixadas rapidamente em gavetas numéricas. Mas é lógico que a imprensa precisa divulgar os números; é claro que a imprensa é subsidiada por dados. Mas a imprensa também pode olhar nos olhos fundos de quem perdeu família, casa e identidade, desolado no meio dos escombros, e desvendar o sentimento, e sem sensacionalismo.
É só regular o macro das pupilas, desfocar os fundos numéricos e direcionar para a imagem do desolado, daquele que já não sabe mais para onde ir, o que fazer, o que sentir. Deixar a mente gravar o essencial e a lente ler aquelas perguntas direcionadas ao Deus da Fúria, os porquês sem resposta, desencontrados por entre a tralha toda, de roupas em trapos, dos móveis em frangalhos, dos sonhos idos e das lembranças impregnadas.
Como pessoas que somos, como cidadãos do mundo, podemos reconhecer irmãos em qualquer nação, em qualquer idioma, em qualquer território ou fronteira, mesmo que de longe. Filhos do mesmo Deus, da Fúria e do Alento, temos o poder de nos despedir da matemática da dor e abrir espaço para o lado humano, o centro nervoso da vida, que se aproxima, que sente, que compadece e que transmite isso com verdade, acima de tudo.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Nojo da politicagem
Desses sonhos vendidos
Das almas trocadas
Dos planos perdidos
Eu tenho nojo dos meios
Da máfia, do anúncio
Da vaga não preenchida
Das pílulas pra esquecer
Do acomodado que se isenta
Nojo dos lados
De quem toma partido
Nojo dos corpos
Vendidos em troca
De poder, dinheiro e fama
Tenho nojo de ti
Das modas e modismos
Das fotos e legendas
Da oratória
Da zorra toda
Tenho nojo de mim
Dos repertórios
Das iras, fúrias
Subversões
Nojo das greves
Dos piquetes
Da massa otária em levedo
Do anarquista de almanaque
Dos professores mequetrefes
Do alienado, do operário
Do burguês, do patrão
Tenho nojo do mundo
Tenho nojo da humanidade
Tenho nojo dos sexos
Das idades
Pra onde foram os sonhos?
Vendi por dois pães e uma dose
Pra onde foi a rebelião?
Ficou trancafiada no porão
Pra onde foram os homens?
Viraram ratos na inquisição
E a história, e a filosofia
Os mapas, os fósseis, os rumos?
Encontraram atalho eletrônico
Pra onde você foi?
Fui pra longe tentar ser eu mesmo.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Não há nada que se compare a um coração desocupado...
Não há nada que se compare a um coração desocupado. Nem mesmo um coração ocupado, pelo mais doce amor correspondido, nem este pode ser comparado ao instante de paz, sossego e liberdade que de um coração desocupado emana. Ele é ele e ponto. Ele não é ansiedade, angústia ou paranóia. Ele não espera por absolutamente nada, não sofre, não inventa, não cria constelações de ilusões entre seus vãos ou rios de esperanças nos seus armazéns. Ele goza simplesmente daquele pequeno e raro momento, aquele em que sentimos que podemos partir para onde quer que desejemos, sem nos enrolarmos nos cordões de prata do amor que nos une e nos segue sem querer. Um coração desocupado é aquele que arruma as malas de madrugada e pela manhã está pronto para partir, ainda que saiba que qualquer batida de vento em seu rosto pode trazer o amor dilacerante outra vez. Mas enquanto ele é ele e nada ou ninguém mais, ele pode voar, sonhar sem doer com os dias que virão. Enquanto ele é só ele, o coração desocupado se embriaga de poesia, ainda que de brisa, experimenta o gosto do mundo que o amor jamais poderá oferecer, pelo menos para pessoas como eu. Pessoas como eu têm um daqueles amores desconfiados, meio de canto de olho. Não admitem que podem ser amadas, e encontram as mais loucas provas de que estão sempre certas, que a sua teoria é infalível e altamente palpável. Pessoas como eu, sentem-se felizes com seus corações desocupados, mais do que poderiam ser com quaisquer dos preenchimentos amorosos. Amores platônicos até nos caem bem, pelo menos por um tempo, diferente dos namoricos de portão, amizades coloridas, amores à primeira vista ou de verão. Pessoas como eu, que guardam a sete chaves corações como o meu, morrem de medo de enlaçar-se nesse emaranhado de emoções. Fazem-se de difíceis, bancam as duronas, mas, na verdade, apaixonam-se perdidamente todo dia, porque pessoas como eu, com corações como o meu, procuram sempre um sopro de vento que se compare a um coração desocupado, só que sem nada em comum...
(Texto bobo e antigo - mas que condiz com o momento - encontrado entre os arquivos)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
até quando vinícius quiser

foi bem ali, no meio daquela kitnet verde-musgo-rosa-antigo, que eu olhei pra ti, quando me ensinava a lidar com a câmera nova. nova também era a cidade e a revista, e tu, era meu guia, dentro e fora dos edifícios, das sessões de cinema, das noites da metrópole. a kitnet tinha apenas um colchão, canecas de café, um cinzeiro de vidro em cima da mesa ao lado do notebook, uma mala, livros empoeirados de jornalismo policial, astrologia e culinária de botequim, uma tv pequena, um dvd barato, quadros rusticamente pintados com cores primárias – que mais pareciam ter sido feitos por uma criança atormentada –, os quais não encontraram lugar nas molduras ou divisórias, e fotografias de trabalho nas paredes. e olhando para as fotos em preto & branco, já tão velhas, tu me dizia sorrindo: “se tu tira fotos desde a infância, não achas que já deveria ter aprendido?” e eu, com cara de “também acho”, lerda em tecnologias, sorri de volta pra tua boca, submersa naquela barba toda e pedi: “pra sempre?” e tu citava vinícius, em soneto de fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama. mas que seja infinito enquanto dure.” preocupado com reações, tu continuava de olho na máquina, desviando de quando em quando pra minha boca que então citava caio fernando: “deixa o vento soprar, let it be”. e tu cantou um trecho da música, me beijou e me desvendou, para o resto dos meus dias. ou até quando vinícius quiser.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
vagos dias

basta um toque apenas
para acionar toda essa explosão
de veias alarmadas, varizes nervosas
que me tomam o corpo enfermo
me espalho no vento inflamada de amores
me espalho nos teus cabelos
em finos sopros de esperança
basta um toque apenas e já sou tua
e com o passar dos dias
a indiferença que me cala
vai apagando sopro a sopro
o que resta da minha alegria
eu já não sou nada, muito menos minha
amaldiçôo o toque maldito
torno maldito o bendito
roçar de línguas da tua boca
nada, não sou nada
sequer decodifico os poemas
que lhe teço infame
nada, não sou nada
trapo antigo, rasgado no beco
pois não há de haver
dor maior que a indiferença
antes me dedicasse o teu ódio
tua ira, tua injúria
antes me despejasse grosserias
fizesse de mim messalina
amante dos vagos dias
antes me fizesse messalina
mas não, me ofertas teu silêncio
e do teu silêncio
se cria a minha dor
aninhada de solidão extrema
me sinto doente
o corpo já não abarca
de anti-corpos a dor
que vem de dentro
então jamais me toque
nunca mais toque na minha dor
não toque mais nessa ferida
se não quiser vê-la vestida de amor
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
queda livre
ele não responde,
ele não liga,
ele já não fala,
não ouço a sua voz.
quem é ele,
quem é ele,
quem é ele?
ele já não respira,
ele já não ouve,
ele não se move,
ele morreu.
ele não abre espaço,
ele não encontra caminho,
ele já não vive.
quem é ele?
quem é ele?
quem é ele?
ele se foi,
não voltou.
será que esqueceu?
será que pirou?
desistiu?
sonhou?
queméelequeméelequeméele?
terá o telefone estragado,
terá a caneta findado,
terá o suporte furado,
terá a linha quebrado,
terá a sorte azarada,
terá a sombra enviuvado,
terá a memória despedaçada,
terá a visão embaçada,
terá os poemas queimado,
terá as fotos aniquilado,
terá as desculpas escapado,
terão seus dedos enferrujado,
terá sua boca colada,
terá a pá de cal lançado?
terá? será?
bolero, violino,
cabaré de sonhos, café frio.
tu me deixou e meu riso virou rio.
meu desalinho desandou,
sou de linhas & manchas,
puxadas, pinceladas de fogo fátuo.
tufoiembora, eu não sei o que dizer.
te escrevo esse poema
que é pra não esquecer
que a minha rima pobre quer,
nas vias de fato,
relembrar teu nome
e que penso em ti
nem que seja pra lembrar
que já esqueci.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
desalinho
gosto desse estado entre paixões
tão raro, tão calmo, tão tranqüilo...
a pele amarelada de sois
meu hotel de ilusões particular
gosto de aceitar as estações
as idades das coisas, os tempos, os climas
tempestades, relâmpagos, trovões
manhãs brandas, céu azul, chuva fina
gosto de enfrentar essa guerra
dos meus infernos & paraísos astrais
gosto do verde, do roxo-vivo, púrpura
das rosas-magentas, da ferida que não dói mais
gosto da essência das sementes, de regar botões
acariciar sua prole, prover seu pólen
me agrada a dança das águas
“nesse rio que corre em veias mansas dentro de mim”
gosto da madeira como elemento
das presenças que invadem a alma
do estado infantil do ser humano, não raso
do balanço da rede nas tardes de domingo
das formas barrocas, dos dedos de diva
do hortelã do teu crivo, gudang
fazendas floridas, estampas, desalinho
de todo esse vinho, do teu beijo de mil morfinas
dessa centelha de vida que me invade
desse festival divino à flor-da-pele
dos perfumes, dos risos, dos poemas
das cantigas de ninar, dos infantes
livre do que me dilacera
longe de ti, “minha grande, minha pequena obsessão”
já que da tua lembrança ficou o vapor
ecos & sombras de palavras que se foram
palavras não salvas, antigas
que de ti me faziam refém
mas de mim agora sou dona
pois me sinto minha e não mais tua
da minha boca, fruta vermelha
fica o gosto do que se foi
fruto fora de época, perfil de begônia
que não mais reinará no teu jardim
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Os cafajestes (não) merecem o paraíso - Uma analogia descarada
É possível que o lugar ocupado por um cafajeste só seja devidamente medido quando, sem mais delongas, conseguimos tira-lo de nossas vidas. Um alívio em perceber que estamos, pela primeira vez desde os tempos remotos, condizentes com a nossa intuição. Não seria uma inverdade admitir que os cafajestes estimulam a nossa imaginação, nossa veia criativa; pois, para tolerar ou tentar compreender as atitudes de um cafajeste, nos lançamos em um descampado, porém rico e imaginativo, para nos convencer, da maneira mais poética e humana, de que não é possível existir ser vivente com tamanho despeito.Senso de humor particular, estratégia amorosa pouco usual, medo de compromisso, trauma de infância, descaso materno ou paterno. Tudo isso entra em questão quando queremos justificar a personalidade de um cafajeste. Porém, pasmem as descrentes: os cafajestes existem, e estão entre nós. Hedonistas incuráveis, egocêntricos, quantitativos, apelativos, de olhares caninos, eles estão em toda parte. E haja psicanálise freudiana de botequim para explicar como é que eles surgem.
Senhoras bem-casadas, cuidem-se: eles podem estar entre vós. Nem todos possuem características semelhantes entre si e há aqueles que, como camaleões predadores do deserto, camuflam-se com zelo tal, que jamais, a mais desconfiada, neurótica e histérica balzaquiana ousaria por em xeque a sua conduta.
As chamadas mulheres do mundo, vividas, curtidas, também são vítimas corriqueiras dos cafajestes. Isso porque a carência e o excesso de pressão social é capaz de fazê-las admitirem um cafajeste para chacoalhar a solidão. Crentes de que “esse é diferente”, experimentam também o veneno amargo do cafajestino.
É claro que um mundo sem cafajestes seria um mundo menos boêmio, perderia o aspecto romântico ofertado pela canalhice. Não tentaremos aqui tirar os méritos dos cafajestes, canalhas e cachorros de espécies variadas. O universo feminino sem eles seria duro demais, sério demais, exato e previsível demais. Cafajestes ofertam ao mundo uma doce ilusão, que perdura mais ou menos o mesmo tempo que uma gripe. Entretanto, parasitas, muquiranas, se infiltram no frágil sistema emocional feminino e podem provocar estragos irreversíveis.
Mas dizem que mulher alguma pode considerar-se experiente nas intrincadas artes do amor sem ter passado, pelo menos uma vez na vida, pelas hábeis mãos de um cafajeste. E é provável que cafajeste algum passe pelo mundo à toa, ainda que com toda e única sede de prazeres que possui. Depois de um cafajeste, as mulheres são mais capazes de detectar investidas canalhas e, consequentemente, vislumbrar olhares mais bem intencionados.
Portanto, aos cafajestes de nossas vidas, agradecemos por toda a poesia, mas sigam adelante com essa indomabilidade dócil de cão sem dono bem longe de nós. Seguiremos com nossa poker face até que um novo caso seja escrito pelo destino.
domingo, 31 de janeiro de 2010
"eu quero um dia de sol num copo d’água"
raros têm sido os dias como o de hoje. dias em que consigo sair desse emaranhado de emoções que crio, desse porão sombrio, assombrado por demônios ardilosamente inventados. hoje foi um dia bom. consegui aceitar melhor todo esse calor queimando a minha pele desenhada de cores, correndo livre por essas estradas, cabelo vermelho se armando todo no vento, vendo aquele horizonte tão conhecido bem detrás dos óculos de sol vagabundo. me senti dourada. me senti viva. velhos amigos, cerveja, novos olhares, maresia imaginária. seja lá o que me deixou assim, eu gostei. seja lá o que virá, foi bom. o rosto estampado de sorrisos, a boca, lotada de dentes. na brisa fresca e luminosa do fim de tarde, te encontrei bem perto de mim, na nossa casa de mornas sombras, embalada por música celta, medieval. precisava tanto de um colo e o tive, longe de tudo, emoldurado de doces espirais de incenso barato. e tudo foi tão sem medo e tão parecido com aqueles velhos anos, que não fiz nada além de sentir. e que se danem as palavras repetidas. e que se danem as histórias revividas. "eu quero um dia de sol num copo d’água".quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
que, captando as milhares de imagens diárias
nas cores das palhetas
das placas luminosas, néons & standarts
se mistura no gás da cidade
pois sou também parte do rosa que tinge o céu
quando a noite cai
tenho álbuns de lembranças
bem na frente das pupilas
e quando olho para todos os rostos e carros
enquadrada & calada nas janelas dos ônibus
é o teu rosto e com o teu tom que desenho
se me distraio
já escrevo teu nome
e quando o silêncio do mundo vem
sou só saudades
carregadas de abraços
que eu não dei
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
não
não, não me mandem dormir,
não, não me mandem abaixar o som,
não mandem calar,
apagar o cigarro ou o cio.
eu não vou, hoje não.
quero cutucar o teu medo,
aquele que tu não pode sequer
bloquear, deletar, excluir.
não me mande parar,
hoje eu não vou.
vim pra bagunçar tuas certezas,
bem no meio da noite.
não quero o permitido,
não quero o absolvido,
o absoluto.
feche a janela,
eu ainda estarei lá.
desligue o telefone,
eu ainda vou te ouvir.
se tu não gosta do jogo,
estará perdido.
se tu não sabe jogar,
terá o meu tiro.
te encontro nos néons
do meu filme noir.
te encontro em david goodis
ou em hqs monocromáticas.
te encontro
e por que te encontro?
não te encontro
e por que do desencontro?
te prolongo no meu tango,
é personagem do meu sonho,
é figuraviva do meu fim,
és meu & delira.
velha dor em brasa,
velho amor em cena,
velho gosto amargo
na boca de gim.
mais uma terça-feira,
mais uma noite de insônia,
mais uma bofetada
do destino,
bang-bang, mescalina,
viúvanegra, feridaviva.
venha dor, deixe verter.
é a dor mesclada de cor
é a cor, virada em tons.
é o amor, te dilacerando
de novo.
domingo, 24 de janeiro de 2010
e se eu visse cazuza?
o que diria plínio marcos se me encontrasse numa dessas noites sujas, ele, vendendo livros, andarilho, com uma garrafa de cachaça pelas bordas do fim e eu, medrosa e sóbria, com toda a minha mania de controle? quem sabe riria da minha cara de merda e falaria sobre os chefes & chefetes e suas bundas cravadas de espinhas grotescas esprimidas nas cadeiras de couro falso, enquanto eu me afastaria boquiaberta desejando minha cama, longe do mundo. riria da minha mania de dar o meu sangue pra tudo o que faço sem ao menos gozar um pouco do lado doce, ainda que no fundo de uma garrafa pelas bordas do fim. o que diria ele desses falsos intelectuais e de suas revistas de coluna social, das rodas literárias e de toda essa grande escrotice de elite que chamam de cultura, desses risos distorcidos, desse medo, desse medo? se me visse pelas ruas dessa capital do oeste, me convidaria para passar a noite no hotel mais fuleiro dos terminais e eu pegaria um táxi de volta pra minha alcova burguesa, preferindo, de novo e sem dúvida, meus lençóis imaculados. que grande marginal de merda eu daria ao dar de cara com plínio marcos... diria talvez que eu estou perdendo tempo em não ser um grande palhaço. e se caio fernando abreu, bem no meio dos mendigos e falos, desse de cara comigo? me daria um abraço nojento dizendo pra eu segurar a minha loucura com essas garras atrofiadas de dama da noite e continuaria se divertindo sem medo do fim. que espécie de desgraçada eu seria ao dar de cara com o velho bukowski na bodega da esquina, com a cara fodida de tragos e dores em pencas, me dizendo que a mosca no braço dele era mais interessante. e que grande marginal eu seria, com a cara no mundo, e que grande merda maior ainda eu seria se visse cazuza. ele diria que estou desperdiçando todo o meu mel, soltaria uma gargalhada bêbada e diria pra eu mandar o mundo se foder. que grande merda eu seria se visse cazuza.sábado, 23 de janeiro de 2010
Crônica lamuriosa
Que parte da transição eu perdi? Aquela entre o sorriso fácil e a amargura de quem se acha dono das coisas (“essa caneta é minha, não toque”; “essa janela é minha, não abra”)? Sim, pois há de ter havido um momento crucial, a hora derradeira que transformou a alma infantil em uma alma de azedumes das noites de sábado.
É triste constatar as manias que se adquire com o passar dos anos e que elas vão ainda além da idéia de possessão ou aversão à luz: elas nos tornam distantes de quase todo tipo de espontaneidade (e de pessoas espontâneas, diga-se de passagem) já que a espontaneidade nossa já é uma espontaneidade neuroticamente calculada.
Envelheci rápido demais, viciei-me em palavras cruzadas fácil demais, desejo a minha poltrona com tesão demais. É a idade que chegou. Mas qual idade? 62? Não, apenas 26. O que estarei fazendo então quando estiver – definitivamente – na casa dos 60? Já ouvi falar que estarei escrevendo livros, mas até lá acho que estarei tão mais ranzinza, e, portanto, avessa ainda mais a espontaneidade e consequentemente a devaneios literários, sempre tão infantis, que não boto muita fé nisso, não. E que deprimente seria escrever livros tão sóbrios, de impulsos controlados metodicamente... (será que há Virgem no meu mapa astral?)
Mas que história é essa de 60? Até ontem pensava em morrer aos 27. Será que os ídolos da juventude não encontraram mais espaço entre as obrigações diárias, nessa vida operária, adquiridas tão sem querer? Quando se chega perto dos 27, é preciso escolher: morrer de uma vez, continuar na farra ou conviver com as paranóias e resquícios da vida que se levou até aí. No caso de pessoas com ídolos como os meus e, obviamente, com hábitos como os meus, paranóias e resquícios são constantes que tendem a esmagar o resto de vida que se tem aos quase 27.
É uma fase em que já não se tem mais tantas ilusões quanto às grandes transformações que incluem sempre sucesso imediato e pouco trabalho; é uma fase em que se nota que a partir daí alguma coisa vai mudar, mas que talvez não seja nada tão apoteótico, embora sempre reste uma esperança de estalos estreláticos e esforço nulo.
Deve haver pessoas nessa idade que pensam ainda em casamento, filhos, profissão bem sucedida e dinheiro (casa, carro, mestrado e blá, blá, blá). E se minhas manias de rock star não me deixarem pensar em nada disso, no que me resta pensar? Acho que deve haver um mundo inteiro para pensar. Devo fazer parte de uma geração paralela de tias(os), altamente satisfeitas(os) com seus filhos emprestados (sobrinhas e sobrinhos), com uma vontade (in)contida de rodar o mundo e ver no que vai dar.
E, o que vai dar, poderá ser apreciado pelo mundo quando os integrantes dessa geração paralela estiverem lá pela casa dos 60, já que gente como eu, que continua teimando em renunciar matrimônio e maternidade, deveria fazer algo mais útil do que beber no bar da esquina e lamentar ou relembrar os anos passados ou cortar os pulsos nas noites de sexta.
Quem sabe não surjam mesmo livros com enredos interessantes, ainda que amargos e neuróticos, novas composições musicais, filmes com argumentos e roteiros inesperados, um pouco de arte nos escombros? Mas que essa deixa não nos seja obrigação, pois sob pressão essa geração não faz nada além de merda. Ou não?
(Ao som do velho Cazuza em Burguesia)
domingo, 17 de janeiro de 2010
minuto

o peito fermentando de presença ausente
saudade, maturada em poesia
a falta de, no volume máximo do meu exagero
saudade calada, vivida gota a gota, pesadamente
desespero de te ter tão longe
desgraça de não vislumbrar chegadas
venderia mil liberdades por um sonho de minuto
que se perderia no vão dos anos, feitos de minutos tão sós
e tu, que sequer sabe de saudade alguma,
goza em prazeres comprados
que minhas barganhas jamais alcançariam
e eu, miserável, vou me contentando em delírios públicos
com desespero tal que arranco-te as palavras
cafetina dos teus desvios, catando a sombra do que deixou
e com o peito em levedo, choro
até secar o assunto e dar lugar ao sono
curtido na marra pelos olhos aguados
sobre o horror
de perguntas
respostas
& informações inúteis
serena a mente
torne-a vazia
jardim de cabelos apenas
a nascer novos fios
de compreensão
serena de manchetes
& manchas dos jornais
serena de títulos de impacto
de iras & revoltas
serena a mente quadriculada
serena o corpo assimétrico
serena de odores
serena de horrores
serena de amores errados
de companhias vis
serena essa mente
tingida de tinta dos impressos
serena essa mente
danosa de penas
serena essa mente de vento
serena essa mente de medo
a mente serena dos diagramas
serena essa mente serena
serena essa mente que mente


