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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mordidas leves & suspirantes

Este é um texto de agradecimento. Mas não um simples texto de agradecimento. Tenho elaborado ele mentalmente há alguns dias, mas não havia encontrado o tempo certo, as palavras certas. Há pouco mais de 15 dias, eu tinha uma ideia: ir embora, para qualquer lugar. Porto Alegre, São Paulo, ouvir somente a mim, o meu coração. Por mais consciência que eu tivesse, ela não era forte o suficiente para me fazer entender que não era o lugar, era eu.
Bem, eis que há 15 dias apareceu uma daquelas propostas irrecusáveis e eu resolvi ficar por aqui por mais um tempo. Só sei que, pela manhã, quando acordava para pegar o ônibus verde que para apressado na minha esquina, em meio aquela leve neblina de início de outono, eu pensava: “Meu deus, como esta rua é linda. A Jardim Europa é a rua mais linda da cidade.” E então, quando eu parava numa certa altura da Nereu, até chegar à Barão do Rio Branco, no Edifício Porto (ironia), eu pensava: “Não há lugar melhor do que este.”
Todas as ruas pelas quais eu passava, não eram mais as mesmas, os lugares não eram os mesmos, porque eu não era mais a mesma. Ao chegar nos restaurantes já conhecidos ou não, naqueles minutos que dividem a manhã da tarde, eles não eram mais os mesmos; e ao voltar para casa, já cansada, porém feliz, às 18h, eu pensava: “Essa é a casa mais linda da cidade. Um paraíso. E as pessoas que moram aqui, pequenos paraísos, presentes de Deus.”
Alguns dias se passaram e as surpresas continuaram, como um eterno feriado com pitadas de confeitos. Ele surgiu. Sabe ele? Aquele cara que a gente espera por anos e anos e, que de repente, quando a gente resolve amar a si mesma e ponto final, ele aparece? Eu estava muito feliz sozinha com os meus dias preguiçosos. Eu estava muito feliz, mesmo. Mas então ele surgiu e deu ares ainda mais surreais para aquela paisagem toda. Daquele tipo que liga, daquele tipo que se importa. Peça rara que encontrei por acaso, caso o acaso existisse.
Sabe aquela vontade de congelar o tempo? É isso que eu queria poder fazer nestes instantes. Congelar o tempo para não minar os dias com a minha desconfiança, com a minha tristeza crônica. São cicatrizes de um longo período de sofrimento, que me viciaram, pior do que chocolate, cafeína ou tabaco. Bem, eu não tenho um destes aparelhos-congeladores-de-tempo-ou-de-humor. Mas, sabe? Se eu morresse hoje, morreria feliz por ter sentido estes instantes preciosos da alma para fora.
Não sei se foram as rezas da minha mãe, que queimou tantas velas nos últimos dias, ou o que. Pode ter sido, já que as mães são seres de milagres, afinal elas provem a vida, com a ajuda de algum serzão que está em tudo. Não sei se é chamada Lei do Retorno, algum merecimento, algum sonho daqueles que você demora para acordar. Seja o que for, esta dita felicidade é mesmo um tanto doce. Não doce daquele que enjoa; doce daquele jeito, no ponto certo, que dá vontade de experimentar mais um pouquinho, com mordidas leves e suspirantes.

Fabita .
14/04/2011

Guarda-te-lá é apresentada em São Paulo


Para Rachel Kleinubing, a exposição na capital paulista é um reconhecimento do valor artístico do trabalho

Depois da exposição fotográfica “Guarda-te-lá”, em agosto de 2010, na Casa + Arte Galeria, a jornalista e fotógrafa Rachel Kleinubing recebeu uma sugestão da marchand Mirian Soprana para que inscrevesse suas obras no Salão de Verão 2011 da Organização Paulista de Arte e Galeria Malli Vilas-Bôas, em São Paulo.
E foi o que ela fez. Entre 208 artistas, apenas 34 foram escolhidos e, uma delas, era Rachel, que ganhou o Prêmio Destaque em Criatividade do Salão de Verão, em fevereiro deste ano. Agora, ela participa da exposição “Pintura, Fotografia, Detalhes...”, com as obras de “Guarda-te-lá”, ao lado de Beth Sallai, artista que ficou em primeiro lugar no Salão de Verão.
A exposição acontece na Galeria Malli Villas-Bôas na capital paulista. O coquetel de abertura aconteceu no dia 14 de abril. As obras da fotógrafa chapecoense ficam em exposição de 15 a 30 desse mês, de segunda a sexta, das 11h às 21h; sábado, das 13h às 22h. O evento tem apoio da Secretaria do Estado da Cultura, Governo do Estado de São Paulo e Sinapesp (Sindicato dos Artistas Plásticos do Estado de São Paulo).

Uma volta no tempo e no espaço

Rachel deu seus primeiros passos em direção à fotografia no laboratório de Fotojornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), onde pôde fazer suas experiências fotográficas. De lá para cá, muita estrada foi percorrida.
As fotos que compõem a exposição de Rachel foram feitas para o Projeto Experimental de Conclusão do Curso de Jornalismo. Uma grande reportagem fotográfica intitulada “Guartelá – Formas Desnudas”. “Foi custoso. Naquela época de universitária, tudo era oneroso. Usei 10 rolos de filme de 36 poses e isso na época era muita foto... E havia ainda o custo do papel fotográfico!”, revela a fotógrafa, lembrando a diferença entre a fotografia de meados dos anos 1990 em comparação à fotografia digital de hoje.
Na época, contatou empresas paranaenses em busca de patrocínio, mas nada conseguiu. Seu trabalho, muito ousado para a conservadora Ponta Grossa de 1996, só ganhou uma exposição 15 anos depois, na Casa + Arte, em 2010. Para realizar a exposição, as obras de “Guarda-te-lá” foram scanneadas de pequenas cópias, o que atribui a elas ainda mais valor. São obras que surgiram de um processo complexo, cujas tiragens são mínimas.
Para Rachel, a exposição em São Paulo é uma confirmação do valor artístico do trabalho como fotógrafa. Mais do que as obras de “Olhar de Contemplação”, exposição anterior de Rachel que apresenta um olhar particular para cenas reais, as obras de “Guarda-te-lá” têm uma linguagem artística mais apurada, pois são cenas criadas e intencionais. Em todo esse tempo em que o trabalho ficou guardado, Rachel também guardou alguma certeza, uma certa esperança de que haveria o momento certo de apresentá-lo. “Este reconhecimento de agora me faz pensar que essa esperança fazia sentido e que este é o momento perfeito”.

Conheça um pouco mais do universo da artista em seu portfólio na Web: http://rachelkleinubing.olhares.com

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Assessores de imprensa X galera da redação


- Alô, Caderno de Cultura.
- Boa tarde, com quem eu falo?
- Pedro.
- Pedro, aqui é o Edson, da Pauta Criativa Comunicação, tudo bom?
- Edson, estamos no fechamento. Liga depois, por favor.
- Vocês receberam o release do show do Bee Gees Cover?
- Não sei, mas agora não vai dar pra ver isso.
- Pedro, é só uma checadinha.
- Cara, não deu pra entender que estamos no fechamento?
- Mas é rapidi...
(tu-tu-tu)


- Vou mandar as perguntas por e-mail, ok?
- Fátima, nosso diretor comercial é muito ocupado e prefere atender a imprensa por telefone. É mais ágil.
- Querido, eu também sou muitíssimo ocupada aqui na redação. Vou mandar por e-mail mesmo.
- Quantas perguntas são, Fátima?
- Umas 20?
- Vinte?
- Vinte. Algum problema?
- Bom, vou ver se ele consegue responder tudo até sexta.
- Querido, tá louco? Aqui é jornal diário. Preciso das respostas em, no máximo, no máximo, uma hora. E presta atenção: quero também foto em alta resolução. E boa, hein?


- Bom dia, eu queria falar com o chefe de Reportagem. É o Marcos Araújo, né?
- Olha, o Marcos não trabalha aqui no jornal há mais de um ano.
- Mas tenho certeza que ele abraçou um novo desafio profissional.
- O Marcos morreu.
- Putz, morreu? Eu sinto muito mesmo. Não sabia.
- Tudo bem.
- Me desculpe. Estes mailings de imprensa vivem desatualizados.
- Tudo bem.
- Deixa então eu aproveitar pra falar da minha pauta com você mesma.
- Manda pro meu e-mail, por favor, que depois eu leio com calma. Pode ser?
- Vou mandar, sim, mas antes quero falar do novo tratamento para remoção de manchas na pele que é bár-ba-ro. Sabe bárbaro?
- Olha, você ligou no Caderno de Política. Ciência & Saúde é no ramal 3526.
- Tuuuudo bem. Vou ligar pra lá agora.
- Só um detalhe: o pessoal lá só chega à tarde.


- Alô.
- Alô. Edson? É Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia?
- Sim, Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia.
- Deixa eu te perguntar uma coisa, amigão: você tem ingresso sobrando pro show do Bee Gees Cover? Minha namorada adora Bee Gees, tá louca pra ir.
- Vocês não deram nem uma notinha, né? Viu pelo menos o release?
- Pois é, não teve espaço. Fica pra próxima. O show promete, hein?
- O show promete.
- E o ingresso rola?
- Pode ser, pode ser. Aguarda só um minutinho na linha que eu vou falar com a minha gerente.
- Tudo bem.
(tu-tu-tu)

Fonte: Desilusões Perdidas

domingo, 10 de abril de 2011

Gustavo Telles e Os Escolhidos

Do seu amor, primeiro é você quem precisa (2010)
01 – Do seu amor, primeiro é você quem precisa
02 – Passo a passo
03 – Faltou luz
04 – Quero mais
05 – Jogos mentais
06 – Girando em descompasso
07 – Só Deus sabe
08 – Deixa crescer
09 – O silêncio me impede de esquecer
10 – Pra acordar
11 – Posso me perder
12 – Tell Me Why

algumas coisas que aprendi com o tempo

- não espere ser quem você quer ser ou ter o que quer ter para amar a si mesmo;
- não é preciso ser perfeito para dar e receber amor;
- há sempre alguém que pensa/sente semelhante a ti;
- escolha, não seja escolhido e seja exigente nas escolhas;
- estar só é uma das circunstâncias mais prazerosas do mundo e uma chance de se conhecer melhor e não repetir os mesmos erros;
- por mais forte que uma pessoa possa parecer com sua maldade, nada é maior do que a bondade e o amor;
- a lei do retorno é infalível;
- tudo pode ser dito, desde que se use as palavras adequadas;
- quem não se aceita, não aceitará ninguém; quem não se ama, é incapaz de ver beleza nos outros;
- não importa o lugar em que você mora, onde está; o estado de espírito transforma tudo e renova o velho;
- é possível ter milhares de vidas em uma; milhares de vidas no mesmo lugar, com a mesma pessoa;
- se você quer fugir, ir embora, abandonar algo ou alguém, é porque ainda não se encontrou em si ou o que estava procurando;
- não se deixe paralisar pelo medo; se está sofrendo, tente resolver; se não der, procure outras opções;
- o ser humano tem direito de sentir paz e amor e isso é possível;
- se você está infeliz, contamina o ambiente e suga as energias de quem está por perto;
- é preciso bastar a si mesmo; quando descobrir prazer na solidão, encontrará a companhia certa;
- amar a si mesmo, antes de tudo, é preceito básico para viver bem;
- dê mais, peça menos;
- não procure alguém para se sentir amado;
- a companhia é apenas algo que deve aliviar a dor da vida; não se torne dependente;
- beleza e dinheiro acabam; os valores da alma ficam;
- a arte é maior do que a personalidade; o legado é maior do que tudo; preocupe-se em deixar algo de bom no mundo, uma marca, um vestígio;
- se ansiedade e violência resolvessem, o mundo estava resolvido;
- todos merecem amor;
- se receber ódio e indiferença, retribua com amor; o amor pode ensinar, mais do que qualquer outro sentimento;
- se falar mal das pessoas resolvesse, não haveria tanta gente infeliz;
- pressão e grito só resultam em distância;
- é preciso respeitar o tempo do outro e o jeito dele amar;
- não estamos aqui por acaso;
- a natureza está em tudo, em nós também;
- deus está em tudo;
- independente de você acreditar ou não, há algo maior do que eu e você.

sábado, 9 de abril de 2011

sobre a saudade



entre todos os temas em mente, a saudade é o tema principal desse sábado de outono. a saudade tomou conta do peito, da cabeça, do quarto, da casa toda, do quarteirão, da cidade, pegou um teletransporte e foi até você. nina simone não ajuda quando a saudade vem. ela a embala com aquele ar melancólico de fim de noite, em um bar prestes a fechar, onde eu sou a única mulher na mesa ainda esperando, esperando a saudade passar. sou difícil de tocar. poucos tocam. porque antes de tocar a mim, é preciso tocar na minha dor. e essa, essa dor, recheada de saudade, é quase intransponível. você quase, quase não pode entrar. meus olhos, sem os óculos, só miopia. meu abraço sem o teu, letargia. se eu gritar daqui dessa cama que já sente o frio chegar que te amo, você iria me escutar? quem sabe onde esteja, por mais alto que esteja o som, quem sabe você possa me escutar. você me tocou. como? ainda não sei. não somos tão parecidos assim, mas também nem tão diferentes. tenho te esperado durante todo esse tempo. meio sem querer, te esperei voltar. não deixei ninguém mais me beijar daquele jeito. minha boca ainda é tua. eu preciso apenas de um sinal para seguir e se ele surgir, quero que tudo mais vá para o inferno. foi meu bandini nos dias de glória. fui tua camila, quando já não tinha para onde voltar. lembro de uma noite que tu dizia que minha dor doía em ti; lembro da primeira vez que te olhei com olhos curiosos e que te vi retribuir. eu estava encostada em um muro de berlim, mochila nas costas, pronta para uma nova aventura que se tornou tortura, se não fosse por ti. ou seria você o maior motivo da minha tortura? eu sorri, você retribuiu, olhando para trás. te achei tão menino. e eu, tão mulher, me descobri menina nos teus braços. ninguém mais irá te abraçar daquele jeito, visceral. eu te amei 24 horas por dia. me julgue, se quiser, mas amei. e por alguns instantes, entre os boletins e tédios diários, talvez tenha sido amada. senti teu medo e teu medo te engoliu. teu medo quase, quase venceu o meu amor. quase. mas não venceu. te sinto perto de novo, quase posso te ouvir. ouvir aquilo que guarda lá nos porões censurados da tua alma. lá, onde o ar é carregado do silêncio mais denso, eu posso ouvir. e quando você ou eu voltar, vou quebrar o silêncio com a poesia que não viu sair de nenhum outro lugar. e nem verá.

pra ti.

terça-feira, 5 de abril de 2011

uma história de quase-amor

papel pardo amassado, eis o registro

sim, fez todo o sentido você aparecer agora. como um velho fantasma que volta a assombrar o sótão desse velho casarão. fui categórica ao responder o teu chamado, dando uma resposta exata para cada questão. sim, no fim deixei a razão de lado e apelei para a emoção. tão sem estratégias, admiti esse amor que me assola desde o último inverno. agora, novamente escrevo sem critérios sobre essa dor e essa volta. queria pegar o primeiro ônibus e dizer que ainda te amo. seria tolice. mas que vontade que tenho de bater naquela porta novamente e te ver abrir e lembrar daqueles dias em que fomos quase um casal, naquele frio edifício avenida, que vai guardar para sempre a história de um quase-amor.

quinta-feira, 31 de março de 2011

E a arte falou por si mesma

Apesar de abalada com o acidente sofrido pela amiga Miriam Postal, próximo a Ronda Alta (RS), quando percorria o trajeto Passo Fundo - Chapecó, a marchand Mirian Soprana conseguiu transformar aquela terça-feira




“Miroca, toca o evento. Faça acontecer”, foi a ordem da artista Miriam Postal, que estaria em Chapecó nessa terça-feira (29) para um bate-papo na Casa + Arte Galeria. E foi o que a marchand Mirian Soprana, a Miroca, fez. Apesar de abalada com o acidente sofrido pela amiga Miriam Postal, próximo a Ronda Alta (RS), quando percorria o trajeto Passo Fundo - Chapecó, a marchand conseguiu transformar aquela terça-feira.
Fez acontecer um bate-papo sobre a obra da artista plástica de Passo Fundo, que retrata a arte do cotidiano brasileiro, com formas simples e arredondadas. João e Maria, protagonistas de seu processo criativo, iniciado há 30 anos, guardam em si as cores típicas do Brasil, em cenas que mostram momentos de romance, de paquera e de todo o universo da emoção. Plástica que lida diretamente com o lado afetivo, a estrutura redundante, a áurea farta, cheia, é símbolo de proteção, para a marchand Mirian Soprana, que, em 24 anos de galeria, tem espaço garantido para a artista de Passo Fundo há 22 anos.
As obras, que estavam no carro de Miriam Postal, foram mandadas por um taxi, pelo esposo da artista. Ela passa bem, embora tenha fraturado a clavícula no acidente. Entre o bate-papo, um vídeo com um pouco da história de Miriam Postal foi mostrado ao público, composto basicamente por artistas, admiradores da arte e jornalistas. Além de quadros, Miriam Postal é conhecida por seus utilitários que repetem as cenas urbanas dos gordinhos que aconteceram, que o mundo fez acontecer, como explica a marchand.
Volume etéreo, linguagem universal da proteção, João e Maria são vendidos por Miriam Postal em qualquer destino, como Portugal e Suécia. De galeria em galeria, ela vende seu trabalho humanista, recheado de amor e paixão. Com o tempo, a padronagem das obras sofreu metamorfose. Os tons escuros se transformaram em tons claros, mas as formas generosas, por vezes sensuais, permanecem, assim como as cores vibrantes. Mas, entre os novos pulos de Miriam, estão as obras em preto e branco, com as quais começou a trabalhar recentemente.
Todas as obras mostram cenas que surgem da observação da artista, alguém que procura dar valor à humildade, presente nos tecidos populares, como a chita, ilustrada através das tintas, e nos chinelos de dedo, cansavelmente usados pelos personagens João e Maria. Naquela noite de terça, a artista ganhou presença pela voz de Miroca e, é claro, pela voz do público, mostrando que, muitas vezes, a arte fala por quem a admira e, principalmente, fala por si só.

Blog da Casa + Arte:
http://www.casamaisarte.com.br

domingo, 27 de março de 2011

sábado, 26 de março de 2011

diálogo terminal

ele: oi, o que você está fazendo?
ela: eu estou morrendo e você?

Oi! Tudo Bem?

Garotos Podres


- Oi, tudo bem?

- Tudo Bem...
...Fora o tédio que me consome,
todas as 24 horas do dia,
fora a decepção de ontem a decepção de hoje,
e a desesperança crônica no amanhã,
tenho vontade de chorar,
raiva de não poder,
quero gritar até ficar rouco,
quero gritar até ficar louco,
isso sem contar com a ânsia de vômito,
reação a tal pergunta idiota
...Fora tudo isso, tudo bem.

eu ou ela

ela: ou você dá aulas ou você trabalha no jornal.
eu, em pensamento: prefiro um tiro na cabeça.

eu digo não

ela: e então, você vai escrever a matéria sobre dietas malucas?
eu, em pensamento: não, prefiro virar puta.

conflitante

ela: eu não pedi para você escrever histórias; eu pedi para você escrever notícias.
eu, em pensamento: então, prefiro ser gari.

boneca vodu


“maldita literatura popular”, pensou suspirando. “maldita, maldita, maldita.” aquele título de obra sórdida havia ficado em sua cabeça quebrada em mil labirintos. “veronika decide morrer”. queria mais que veronika morresse, assim como as virgínias e as valquírias de todo o mundo. acordou com aquele título sórdido na cabeça. olhou os trejeitos daquele bairro familiar e aqueles sons de xícaras batendo em pratos mal lavados nas casas de luzes acesas e pensou: hora de morrer. segundo o “oráculo das horas”, havia hora para tudo. aquela, sem dúvida, era hora de morrer. descabelada, peitos brancos e pesados violentavam o decote profundo do vestido preto de festa. a festa que deixou de ir, pois estava enferma e odiava festas e não tinha o que comer nem com o que pagar a passagem. o café fraco caía sobre a cama manchada de cinzas, com largos furos de brasas em terror. escolheu ser escritora e as noites solitárias de sábado. ligou a sórdida tv e ouviu uma música popular dos anos 40. pegou seu cigarro e fez com ele círculos perfeitos no ar da noite. a moça se abrigava em um roupão vermelho-sangue e nos óculos de grau, que deveriam corrigir a miopia, herança genética da mãe louca, que permanecia no telefone dias e dias a fio. havia surtado, pudera. estava decidida a morrer. chutaria a vida como chutaria um cão inconveniente em seu caminho. estava árida aquela alma, empoeirada de matar mil homens em mil noites na estrada. se ligassem para ela e pedissem o que estava fazendo, sem cerimônias responderia: “estou morrendo e você?” se tornou uma serial killer do zodíaco, pronta para matar todos os virginianos da face da terra. sua paixão era somente a morte. no tarot, juntava os amantes ao arcano da morte na busca por um crime passional vodu. misteriosa como a lua, estava esperando aquele último suspiro há 27 anos. foi personagem principal de uma história barata, de literatura popular. pobre veronika. boneca vodu de si mesma. alfinetava-se enquanto pensava em clarisse e no amor morto em 1979, antes de nascer. lembrou-se de 1977, quando sentia aquele ar setentista nas ventas, em um metrô mais fétido do que a própria morte. caminhava sozinha pelo metrô, apaixonando-se brevemente até encontrar o amor perpétuo, morto dois anos depois. morto, gélido. seu terror trash e gótico e punk e junkie. nunca mais esqueceu aqueles azulejos pintados tal qual arte de pollock de vermelho espesso. a chaleira chiava e dava tons de realidade ao pesadelo. estava submersa no amor morto e não podia acordar. os sons do real apenas faziam eco no seu limo profundo. “hora de morrer”, poderia dizer o “oráculo das horas”.

mas ele nunca, nunca dizia.

Um e-mail cujo assunto ainda não surgiu

Eu imagino que atrás desse profissional que, com sorte, lerá esse e-mail, existe um ser humano que não pensa somente em dinheiro, em contratar um funcionário pronto, em parâmetros frios como "se encaixa no perfil" ou "não se encaixa no perfil", até porque isso só se descobre com o tempo. Partindo desse principio, sem apelar para o drama, meu nome é Fabiane De Carli Tedesco e eu amo cinema. Sou formada em Jornalismo, tenho paixão por Jornalismo Literário, estudei Cinema Digital, Filosofia à Maneira Clássica e a Filosofia das academias. Sou taróloga e escritora nas horas vagas.
Não sou uma pessoa pronta. Não nasci pronta. O que quero é uma chance de ser melhor. Mas não o melhor no sentido Capitalista. Melhor no sentido de poder me sentir mais em paz. Minha paz, que há de morar em mim, também encontrei em um lugar chamado Porto Alegre. Estive na capital gaúcha em três momentos: Fórum Social Mundial, em 2005, show da minha banda preferida, The Doors, em 2008, e, recentemente, no Carnaval, quando quis fugir da dita folia e conheci o sobradinho espanhol em que meu escritor favorito, Caio Fernando Abreu, viveu, inclusive nos seus últimos dias, quando se dedicou a cuidar das rosas do jardim. Além disso, conheci o jazigo dele. Tudo isso ao lado de um taxista, escritor e colunista do Diário Gaúcho, Mauro Castro.
Me apaixonei novamente por POA e é por isso que escrevo esse e-mail impessoal. Meu caro, procuro uma chance de sobreviver em Porto Alegre. Sou uma pessoa humilde, que não tem muitas ambições na vida, coisa que minha família jamais compreendeu. Eu quero uma chance de não morrer de fome em Porto Alegre, de ter um teto nessa cidade inspiradora, de ter um trabalho digno. Digo digno no sentido de não estar sujeita às pressões das redações. Eu não sou um produto. Sou uma pessoa sensível que não quer dedicar os seus dias à quantidade, presa ao relógio. Quero a paz para escrever nas horas vagas e um emprego decente. 
Como amo cinema, foi para aí que resolvi mandar esse desabafo. Pode excluir sem responder, pode me chamar de louca, me amaldiçoar, tomar as medidas cabíveis. Meu sonho, com ou sem a sua aprovação, continuará existindo. Poderia ganhar asas com a sua ajuda, mas se não ganhar, continuará existindo. Além desse, tenho outros também. Sim, moro longe, mas posso ir até aí, se tiver carta branca. Minha casa fica em um bairro familiar, repleto de cachorros e crianças, na Capital do Velho Oeste, Chapecó, Santa Catarina. Eu nasci em Xanxerê, lugar ainda mais escondido, porém, com uma energia magnífica.
Bem, muito obrigada se me leu até aqui. Se não, perdeu de conhecer uma pessoa bem, digamos, interessante.
Um abraço forte,
Fabita.

o encarcerado

tolo, acha que rege o tempo. o tempo é de chronos, não de meros bobos da corte. te vi pendurado, encarcerado, sendo encontrado por um telefone móvel. quase rezei e agradeci por ser livre, ainda que morta de fome e sem teto. fiz greve de fome e fumei luxus até a cabeça estourar. 10 de junho, prometeu. seu prazo final. humanos também têm prazo de validade, o meu expira em dois meses e meio. me asfixiei na tua fumaça tóxica, me senti feito um rato, morte lenta. se eu pudesse ver o futuro, no passado, me mataria antes de ver esse futuro presente. encontrei as oito maravilhas do mundo ontem. nenhuma delas tinha respostas. para que serve o talento? para enlouquecer, simplesmente. escute, não sou das tuas. observe eu mudar. nasci lagarto, em metamorfose, transformei-me em camaleão. não fico no mesmo lugar. se pudesse ver os antepassados do meu sangue, talvez visse os ciganos. tive um sonho erótico. quase vomitei. ainda dentro do sonho, saí por uma estrada chuvosa repleta de barro, em direção a uma rodoviária que se mantinha fechada na madrugada. de lá, fui parar em um hotel que não conhecia horário. dali te pintaria como o encarcerado dentro de um relógio em processo de derretimento. visão do inferno. visão. inferno. calam-se as bocas.

requiem para um sonho


quinta-feira, 24 de março de 2011

in cash


compromisso com a dor noturna


veja bem, eu querendo escrever por compromisso. compromisso eu só tenho com minha dor e meu sono e meu cansaço. não tenho compromisso com vocês. veja bem, eu já mudei. e o pior: me admiti. penso nesse velho corpo sendo comido pelos vermes e só sinto vontade de perambular e refletir, sentada, como buda, sorrindo para estranhos. a loucura me apossou, por tempo de uso. eu sou dela e ela é minha por uso capião. eu, eu só tenho compromisso com a minha dor e com os vermes do meu túmulo. eu, eu não comprei casa, não comprei fusca, não procriei, não fiz homem de refém. veja bem, eu não escolhi ninguém. velut luna não escolheu ninguém. ela vive na música e no latim que não sabe falar. velut luna lê tarot. fabita também. fabita vendeu suas linhas para comprar palavras como pão & circo. fabita foi e não voltou. na viagem que inventou, arrumou casa e trabalho. ela nunca mais voltou. veja bem, como um buda torto fuma o seu cigarro na noite seca. pretos são os bichanos, os vê pardos, da cor dos seus olhos, que leram demais ao anoitecer. ela mudou. não mora mais aqui. ninguém entende ela, ninguém a ama. quem dera fosse rimbaud ou baudelaire. quem dera fosse. mas não era. era um corpo comido por vermes, era um corpo bebido pela terra, embebido de musgo. um corpo no pântano, um homicídio culposo. ela não escreve mais para os jornais. ela desiste toda vez que o berro ecoa. ela não leva desaforos para casa. está velha demais para a filosofia, está velha demais para a academia. escreve listas todos os dias na sua mente insana. coração são, já foi uma vez. ela não vai mais voltar. ela nunca esteve aqui. ela não escreve mais. compromisso, apenas com os vermes. os vermes, que tem para dar de comer; são as únicas crias que dela saem. sempre pegou balas de estranhos para compor seus escritos. algumas delas, letais; algumas delas, alucinógenas, venenosas. disse que o nome da menina seria alice ou sofia. disse, mas não escreveu. aí está: alice ou sofia. bons nomes para vermes-fêmeas. ela não escolheu aquela vida regrada, ela não quis. compôs outra música bem no meio vago da madrugada. botou a vitrola para tocar e soltou os fantasmas do sótão. não pense em entender; não pense em desvendar; apenas deixe o cérebro roto acompanhar. se quiser, o embebede de gim ou rum. seu cérebro bárbaro vai navegar. e em cada porto, irá parar para vomitar uma rima gastro-intestinal. virulento é teu pobre coração. teu dedo é podre para amar. sarcástico é teu discurso que verte símbolos, signos, sinais. os trunfos já emergem do tarot. hora de dar aos vermes o que comer. segue a rima mais frígida para teu sonho embolorar.

velut luna.

quarta-feira, 16 de março de 2011

metamorfose.



















não sou meia dúzia de livros que só eu li, não. 
não sou meia dúzia de filmes que só eu vi, não.
não sou meia dúzia de músicas que só eu ouvi, não.
não sou a mesma o tempo todo, não.
sou do tipo que muda, do tipo que desiste
do que já passou, e está pronta para o que vier.
morro de medo, mas meu impulso me leva além.
tenho muito para aprender e conhecer.
não nasci pronta. preciso de planos,
mais do que preciso de sonhos.
sempre estive no mundo dos sonhos.
eu posso assustar, mas posso ser 
a criatura mais doce que você já viu.
eu sou o que sou. com todos os meus
dígitos, problemas, vícios & fúrias.
sondo a loucura, porque a loucura
me atrai mais do que a sanidade.
eu gosto do imperfeito, eu amo escrever,
eu me vendo para sobreviver.
mas vendo a minha verdade.
mas escrevo a minha verdade.
mas vivo a minha imperfeição.
se quer simetria, achou a pessoa errada.
se quer constância, idem.
se quer aventura & novidade, pode entrar.
se quiser estabilidade, me ajude a conquistar.
eu sigo regras, rituais, cronogramas.
sou exigente, sou enfática, sou da estrada.
entendo o quanto a vida é efêmera,
por isso escrevo, a minha e a tua história.
sou a responsável por registrar a vida,
esse pequeno espaço de luz no universo,
para quando a chama se apagar e partir.
deixo legados. deixo desafetos. deixo amores.
não me importo em me meter em confusão:
aprendo com tudo. tenho coragem até
de desistir; e de admitir que tenho 
covardia de sobra, já que sou humana 
e algo além. 

cuidado comigo: posso mudar a tua vida.
prazer, fabita.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Responda a pergunta, Noblat

Nessa semana, vou falar do livro “O que é ser jornalista – Memórias profissionais de Ricardo Noblat”, lançado pela Editora Record, em 2004. Faz parte de uma série que me pareceu um tanto bobinha, “O que é ser”, que inclui as profissões de arquiteto, astrônomo, dentista, diretor de cinema, fonoaudiólogo, maestro e médico. O comprei para o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), pois achava que ali encontraria respostas mais formais do que aquelas encontradas nos livros malucos que escolhi para fazer a dita monografia, cujo pano de fundo era o Jornalismo Gonzo. Julguei que precisava de uma resposta mais formal para que minha monografia fosse aceita. Tolice.
Bem, para a minha surpresa, o livro não era assim tão formal e bobo. E, Ricardo Noblat, que me parecia ser um daqueles jornalistas tradicionais, até que me impressionou. Cheio dos títulos, até que Noblat foi um sujeito interessante dentro da profissão. Reinventou o lead na redação do JB quando esteve no comando, incentivando os repórteres a contarem histórias, já que acreditava que as pessoas gostavam de ler histórias.
Ouvia até o indivíduo mais esquecido da empresa, em busca de opiniões. Joãozinhos da vida que Noblat fazia questão de prestar atenção, pois, se um Joãozinho entendesse uma reportagem de economia, qualquer leitor lá fora também entenderia. “Os repórteres de economia escreviam em ‘economês’. Joãzinho não entendia ‘economês’. Se lia jornal, tinha o direito de entender o que lia”, comenta em um trecho do capítulo “A síndrome de tia Zezinha”.
O moço era exigente. Queria distância de jornalista sem iniciativa. “Queria grudar no jornalista que tivesse olho para ver notícia onde os outros não viam, talento para escrever fora dos padrões convencionais, gosto para ir fundo numa investigação, vigor para jornadas diárias de 10 a 12 horas e desejo de reformar o mundo.” Exceto pelas jornadas diárias escravistas, ele me pareceu simpático. Hoje, no nosso contexto, Noblat seria um fora da lei.
Ser jornalista, para Noblat, é ser refém das leis universais que regem o Jornalismo. Leis desumanas, admite. Uma delas é que a glória de um repórter dura, no máximo, 24 horas, ao passo que o repórter se obriga a agarrar outro assunto assim que termina uma pauta. “Se não provar com regularidade que é capaz de continuar produzindo bons trabalhos, passará a ser objeto de críticas e se arriscará a perder o emprego.” Aos aspirantes e praticantes da arte das letras impressas, ouvidas e vistas, a pergunta: entre essas e outras leis universais e desumanas, você quer, mesmo, ser jornalista?

O longa picante de Baldini

“Bruna Surfistinha” já atingiu mais de 1 milhão de espectadores, em pouco mais de uma semana. Em Chapecó, ainda não tem previsão de chegar. Mas, em Porto Alegre, o tão esperado filme lota as salas de cinema


Nos cinemas de Chapecó, ele ainda não tem previsão de chegar. Mas, em Porto Alegre, o tão esperado “Bruna Surfistinha” já lota as salas de cinema. Estrelado por Deborah Secco, o filme mostra um lado menos banal da vida da celebridade instantânea, Raquel Pacheco, autora de “O Doce Veneno do Escorpião”, biografia escrita pela própria Raquel ou Bruna, lançada em 2005 pela Editora Panda Books.
A moça ficou conhecida como a prostituta mais famosa do Brasil, após escrever em um blog a sua rotina quente de trabalho. Filha da burguesia, hoje, aos 26 anos, já abandonou a profissão mais antiga do mundo. Sua vida ganhou as telas com o filme “Bruna Surfistinha”, que já atingiu mais de 1 milhão de espectadores, em pouco mais de uma semana em cartaz. Do diretor Marcus Baldini, o longa distribuído pela Imagem Filmes, é também hit da pirataria.
O longa reserva boas risadas, os altos e baixos de Bruna, seu envolvimento com drogas, a relação conturbada com a família e com os colegas de escola. “O Patinho Feio” em uma versão quentíssima, que mostra a fuga da menina, adotada, cansada de se sentir suja diante dos olhos da sociedade. Resolveu assumir seu lado promíscuo e ganhar a vida com isso.
Um filme de realidade social, com gancho jornalístico, que mostra um personagem contemporâneo com pitadas de arte. O universo da internet, tão conhecido por nós, e um universo nem tão conhecido pelas esposas ou ainda ignorado: o mundo dos maridos que procuram sexo pago, em forma de um refúgio, nas tardes em que deveriam estar no labor diário. Tudo isso, regado a altas doses de preconceito e erotismo, elementos que foram bem conduzidos pela protagonista Deborah Secco, ao lado de atores de renome, como Cássio Gabus Mendes – que no longa representa o primeiro homem com quem Bruna vai para cama como prostituta.
Com noites memoráveis no Love Story, casa noturna que fica no centro de São Paulo, barracos no salão de beleza, “Bruna Surfistinha” encanta e provoca sensações no escurinho do cinema. Um filme que não passa despercebido, não acaba sem provocar sensações intensas, seja de pena, euforia, tristeza ou curiosidade.
Bruna Surfistinha ou Raquel Pacheco, nascida em Sorocaba em 28 de outubro de 1984, mostra um lado nem tão rosa da liberação feminina, assim como da profissão de garota de programa, que muitas meninas caem por pura ilusão. Ainda hoje, alimenta um blog chamado “Não, não para”<naonaopara.virgula.uol.com.br/brunasurfistinha>, em que escreve como Bruna, e “RAQPAC” <www.raqpac.blogspot.com>, onde é apenas Raquel, em um cantinho virtual para chamar de seu.

O sonho perseguido ou nas moradas de vida & morte de Caio

Bem, eu nem sabia ao certo se Caio ainda tinha casa, já que morreu em 1996. E, se tinha, onde ficava. Se em Santiago do Boqueirão ou em Porto Alegre ou em algum lugar do estrangeiro...

Ao som de In The Ghetto, na voz de Elvis Presley

Por onde eu começo? Pelo sonho. Vou começar pelo sonho. Madrugada de domingo para segunda. Não lembro exatamente do sonho, mas na manhã de segunda-feira, com alguns trocados no bolso e algum tempo livre, tinha a certeza de que poderia ir visitar a casa de Caio Fernando Abreu – meu escritor preferido – como se fosse simples assim: ir à casa de Caio, como se a casa dele fosse na esquina, e tomar um café com ele. Depois voltar.
Bem, eu nem sabia ao certo se Caio ainda tinha casa, já que morreu em 1996. E, se, tinha, onde ficava. Se em Santiago do Boqueirão ou em Porto Alegre ou em algum lugar do estrangeiro. Seja lá qual foi o sonho, trouxe a certeza de que eu poderia visitar Caio a hora que bem entendesse. E a hora era aquela. Segunda à tarde, parto de ônibus para a capital gaúcha.
Calma, eu tinha os meus contatos. Um deles, o taxista, escritor e colunista do Diário Gaúcho, Mauro Castro, autor de “Taxitramas – diário de um taxista”, e a psicóloga e escritora Andréa Beheregaray, autora de “TPM – crônicas de uma mulher”. Ela encabeça um projeto chamado “Salve a Casa do Caio Fernando Abreu”, que ganhou um blog: <salveacasadocaiofernandoabreu.blogspot.com>. Nele, Mauro é parceiro. A ideia era preservar o sobradinho em que Caio morou com os pais, onde também passou seus últimos dias, cuidando das rosas do jardim. Mas, a casa foi vendida, apesar do esforço de pessoas como Andréia e Mauro.
Vendida ou não, a casa estava lá, como no sonho. O sobradinho espanhol fica no Bairro Menino Deus. Depois de muitas outras passagens memoráveis em POA, encontrei Mauro no Menino Deus na terça-feira. O taxista-escritor estava de folga e me levou, sem cobrar nada, até a Oscar Bittencourt, número 12. Com a filha Bruna de 15 anos ao lado, Mauro e eu seguimos no Fiat Uno vermelho comentando sobre a súbita apreciação do grande público por Caio – que teve recentemente mais obras publicadas: Caio 3 D: O Essencial da Década de 70; Caio 3 D: O Essencial da Década de 80; e Caio 3 D: O Essencial da Década de 90, lançadas pela Editora Agir.
Mauro conheceu Caio, em fase terminal. O levava para fazer seus tratamentos, a pedido da família. Ele lembra que quando ainda era vivo, Caio não tinha esse reconhecimento de hoje. E, segundo Castro, “mesmo depois de morto”, o reconhecimento tardou a chegar. Mauro comenta que o mesmo aconteceu com Nelson Rodrigues. Ao ler a biografia de Ruy Castro – que ele diz não ser seu parente –, intitulada “Anjo Pornográfico”, constatou essa verdade. “Nelson era considerado como baixa literatura. Ninguém gostava dele. Achavam que ele era um velho depravado.”
Esse ano, em fevereiro, completou 15 anos da morte do escritor Caio Fernando Abreu. Mauro conta que, apesar de Caio ser homossexual, jamais levantou a bandeira gay. “Até porque ele ficava também com mulher”, revela Mauro. A filha Bruna complementa, dizendo que ele não queria apenas levantar uma determinada bandeira, ainda que dentro de sua obra, haja contos nitidamente homossexuais. Por esse motivo, a não-defesa, o escritor gaúcho nem sempre foi visto com bons olhos pelos gays. Quanto à AIDS, seu comportamento foi semelhante.

Impressões do sobrado espanhol

Coisa de fã. Não podia acreditar que estava em frente à casa das roseiras, já mortas, em que Caio viveu e morreu. Sem a presença do escritor, o sonho ficava meio sem sentido. Porém, aquela realidade era surreal para mim, embora privada de café e dele. Bruna fala que o portão que havia me encantado, estava na biografia de Carla Dip, “Para sempre teu, Caio F. – cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”, lançado pela Editora Record em 2009.

Para outra morada

Antes mesmo de eu pedir, Mauro me leva para outra morada de Caio, dessa vez no Cemitério Ecumênico João XXIII. Lá, Caio está enterrado ao lado dos pais, que morreram logo depois do escritor. Nair Loureiro de Abreu, em 1997 e Zael Menezes Abreu, em 1999.
Em algum lugar da minha memória de sonho, havia essa outra certeza: que poderia visitar o jazigo do meu escritor preferido. E lá estávamos nós, diante de um túmulo comum, semelhante aos incontáveis que ali estão. Mas, para mim, aquele pequeno e simples espaço comum, era maior. Ele guarda uma vida que fez todo o sentido na minha.
Depois dessa experiência, descobri o literal significado de perseguir um sonho. E, do sonho, não queria mais voltar.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Coragem!


"Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, 
foi meu grande gesto de coragem." (Caio Fernando Abreu)