Pesquisar este blog

domingo, 6 de março de 2011

diálogo ilusório

(entre escritora & leitor)

ele diz:
?!

ela diz:
conversamos com tempo
meu querido
correria
aqui

ele diz:
tudo bem, fica bem!
 
ela diz:
fico feliz
que queira minha humilde obra
e um autógrafo
um dia ainda vamos nos encontrar

ele diz:
não sou freqüentador assíduo do teu blog, pouco freqüento e leio, mas é o bastante para admirar.

ela diz:
sou só uma garota solitária que encontra na escrita um pouco de alento

ele diz:
fico feliz que tenhas lançado o livro, sei o quanto deve ter sido prazeroso pra você.

ela diz:
na verdade
ele está lançado
não do jeito que gostaria
mas está lá
para quem quiser
apreciar

ele diz:
apreciarei com prazer e feliz por ser uma obra de uma garota que conheço. distante. mas que sei o seu valor. torço sempre pela sua "calmaria", garota.
e como disse,  um dia vamos nos encontrar, fico feliz ao ver você escrever isto.

ela diz:
um dia terei minha calmaria
uma casa no campo, filhos, maridinho, horta & jardim. rede na varanda & som de violão ao entardecer. quem sabe nesse dia, a escrita me seja algo menos doloroso.

ele diz:
será sim.

ela diz:
por enquanto
sou andarilha
moro em hotéis baratos & pensões
de cidade em cidade
procurando paz no meio da solidão extrema

ele diz:
e cada segundo de paz é uma eternidade.

ela diz:
estou cansada, sabe?
sim, estou cansada daqueles que passam sem deixar vestígios. estou cansada das bocas nervosas, das mãos que não trazem flores roubadas, das histórias sem rastros de todas as noites. sim, eu ainda quero o sagrado, a grama verde, nem que ela tenha começo, meio e fim, mas quero vê-la nascer fosforescente debaixo da árvore dos nossos sonhos.

ele diz:
moça, eu só te vejo cansada. é sempre a impressão que tenho, queria ver/sentir essa impressão totalmente contrária

ela diz:
não há esperança de melhora
há anos
só a solidão
me invade
pessoas surgem

ele diz:
mas a esperança é que nos desgraça. desculpa a forma que falo, é que nunca gostei dela.

ela diz:
e me usam, se aproveitam de mim
como um fetiche
fica um vazio

ele diz:
tenha fé, apenas fé. sempre.

ela diz:
que jamais pode ser preenchido apenas por um corpo sem a alma do amor

ele diz:
tens que respirar outros ares e adormecer todo o passado que te cansa.

ela diz:
o meu amor, aquele que abandonei, casou com outra esses dias
me doeu
saber que ainda estou só

ele diz:
não és só nesse sentimento no mundo, se te conforta. mas... só "substituindo" tudo isso que ainda sente, é que irá amenizar essa dor de solidão de agora.
menina, calma sempre.

ela diz:
diga para as minhas noites vazias terem calma
e para as minhas manhãs
que despertam tão sós
terem calma
porque elas me atormentam
o amor que tenho aqui dentro me atormenta
me atormento ao saber
que entre as seis bilhões de pessoas do mundo
nenhuma está ao meu lado
com todo esse amor
e toda essa poesia

ele diz:
digo mais, digo para não sufocar-te todo esse sentimento.

ela diz:
não há ninguém em sintonia
e olha que tento
e tudo o que tenho é mais solidão

ele diz:
doa aqueles que necessitam, aqueles que nunca mais verás

ela diz:
são corpos que roçam e fluídos que são trocados

ele diz:
aqueles que precisam pois não tem de ninguém

ela diz:
para que no dia seguinte
eu não mereça
nenhuma palavra
mesmo que eu tenha dado os melhores orgasmos da vida de alguém
me sinto uma garota de programa às vezes
saciando vontades
sendo que as minhas
não são jamais saciadas
nem com todo o dinheiro
e o assédio do mundo

ele diz:
mas isso há de ter um fim. tudo isso ruim que atormenta você
não podemos é nos cansar
e desistir de sonhar
infelizmente parece que fomos feitos para a dor

ela diz:
eu, de experiências, habilidades, especialidades, no auge da minha intensidade, tenho corpos enroscados ao meu, como gatos carentes em uma noite, e ausências, recusas e silêncios no dia seguinte
meus amores não ganham sequer a aurora

ele diz:
feliz aquele que ganhará
e feliz te fará

ela diz:
eu queria ser aceita, amada, desejada
até ter os cabelos brancos
e rugas na cara
com qualquer corpo
peso, altura
queria ter a alma acarinhada
por alguém semelhante a mim
que me mostre que há amor, fidelidade
que não há somente violência no mundo
traição
e abandono
quem me ganhar terá um céu dos mais delirantes
mas poucos se aventuram

ele diz:
mas chegará, tenhas calma, paciência, fé.      
não há de ser assim para sempre

ela diz:
poucos são os que se aventuram
muitos são os medrosos
aqueles que se deixam levar pela sobrevivência orgânica e social
eu não vivo no meu corpo, na minha cidade, apenas
vivo no universo
minha alma preenche o universo
ela o ganha
a cada novo verso
logo, vou morrer
pelos meus vícios
talvez sem ganhar um tostão pelos
meus escritos
quando te pedirem de mim
diga que ela amou demais
e talvez nunca tenha sido amada
por isso morreu
pelos seus vícios

ele diz:
não será assim.

ela diz:
abarrotados da dor mais doída

ele diz:
não sem sentir todo o amor que mereces

ela diz:
eu fracassei
escolhi a liberdade
e me arrependi

ele diz:
não, não fracassou.

ela diz:
escolhi o amor do mundo
ao invés do amor de um homem apenas
me tornei promíscua
quero saciar os corpos com a minha boca
como se precisasse

ele diz:
mas a liberdade que escolhestes é necessária para o ser
não se torne o que leio você escrever aqui

ela diz:
ser útil, como se precisasse arrancar um pouco de vida desses corpos todos
e experimentá-la
com a língua
e depois engolir, como se pudesse gerar vida com essa rainha na barriga, tal qual zaratustra
se arrependeu
de me tirar da minha alcova
não é?
nunca toque em mim
ou posso
te desnortear
por toda uma vida

ele diz:
qual seria o norte de um desnorteado?! não tens como me desnortear.

ela diz:
te encherei a cabeça de dúvidas

ele diz:
quero que sintas amor por si.

ela diz:
e o corpo novo de desejos impraticáveis
desejará entrar em um mundo jamais pisado
e se perderá
quando perceberes
estará em uma obra de literatura de cabaret

ele diz:
conheço esse mundo

ela diz:
sendo vendido por poucos tostões na estante da livraria mais barata
ainda vou me matar, meu querido

ele diz:
não vais.

ela diz:
ideias fixas me atormentam
tenho que seguir rituais
para qualquer vil atividade
não vivo sem minhas correntes

ele diz:
não és tola a ponto de dar teu corpo à terra como um troféu, sem lutar até o fim.

ela diz:
nem mais respiro sem elas
meu corpo?
usado pelos trogloditas do mundo
ganhará a terra
e os vermes
mais cedo ou mais tarde
ganhará a terra
e o pó
antes mesmo de gerar
uma cria
digna de minha poesia
nenhum homem irá gerar uma cria no meu ventre
tenho 27 anos e todo o desespero do mundo

ele diz:
lembra de tudo isso que estas me falando hoje! vou te encontrar um dia, verás o quando se enganou

ela diz:
meu peso, minha assimetria, meu padrão renascentista, não ganhará moldura de arte

ele diz:
farei 24 esse mês e nada tenho, a  não ser o mesmo desespero
és arte

ela diz:
ganhará uma moldura de madeira barata, feita apenas de verniz
que será corroída
pelas bactérias
desse corpo gasto
adeus, meu amigo
se um dia puderes me amar
venha até mim
ou deixe eu ir até você
do contrário
não mexa na minha solidão
e na minha dor
não a toque

ele diz:
não tiro ninguém de uma solidão e abandono, pois a solidão volta

ela diz:
se não puderes substituí-la pelo amor mais puro

ele diz:
e ainda mais forte

ela diz:
se puderes amar uma alma
que sofreu desde que encarnou nesse corpo
me chame
do contrário
me deixe quieta
até definhar
de amor
solitário

ele diz:
nunca estarás sozinha

ela diz:
até gastar meus pulsos
com a escrita
e com o prazer solitário
mais sórdido

ele diz:
sempre estive aqui

ela . diz:
você é um bebê
eu sou uma senhora devassa
que te engolirá
na primeira oportunidade

ele diz:
para retribuir o que um dia fizestes por mim quando eu estava aos prantos

ela diz:
ainda acabarei em um cabaret

ele diz:
não apenas retribuir, quero fazer amar, que cada um sinta-se amado(a)

ela diz:
ouvindo a boemia dentro da carcaça
bebendo o vinho mais forte
para afogar a dor
abrindo-me para estranhos

ele diz:
como num jogo, eu desafiaria você, e falo desde já que não sairei derrotado, tão pouco você que me fala tudo isso agora

ela diz:
deitando nos colos imundos
dando de mamar aos órfãos de um puteiro
uma mulher como eu
merece a solidão
minhas madeixas e unhas vermelhas, me dizem que nasci para as paixões
meu corpo branco nasceu para a dor

ele diz:
para, chega!

ela diz:
minhas tatuagens contam histórias de um submundo podre

ele diz:
não és nada disso garota
e provo
na minha oportunidade que eu puder vê-la diante de meus olhos

ela diz:
eu sou os personagens que crio
prazer, lolita.
sou o que quiser

ele diz:
és uma perdida! mas não derrotada. diferencie.

ela diz:
vou me perfurar com lanças de aço até ver meu corpo em sangue

ele diz:
como queria vê-la nesse instante.

ela diz:
como a mulher mais linda da cidade
como cass
a mais linda e a mais perdida
vendendo o corpo por uns trocados
até cortar o pescoço
por um escritor de quinta
fui abandonada pelo meu pai. freud deve explicar meu apreço por velhos grotescos
e comprometidos
fui feita em um maverick, sabes?
nasci filha bastarda
gerada na saída de um enterro
em uma estrada de chão

ele diz:
quem é você?

ela diz:
está aí: meu desejo de aventura & morbidez
meu gosto pelo proibido
consegui a habilidade de levar um homem a loucura com apenas um beijo ou toque das mãos
deveria ganhar um prêmio
por isso?
isso não dá prêmios de literatura
lolita, lucy
ou quem quiser ser
o mesmo apreço por homens, se repete pelas mulheres
uma doença?
quem sabe

ele diz:
não.

ela diz:
bissexualidade
ou devassidão
está apavorado?
é só o começo
mas vou te poupar

ele diz:
prazer, talvez, por que não? é errado? proibido?! 
não me poupe se um dia eu vê-la diante de mim

ela diz:
jamais me lerá sem sentir alguma reação
queres comprar meu livro?
esteja pronto:
vais criar as fantasias mais loucas
e não as saciará
sem mim

ele diz:
tudo bem, se preciso, buscarei você onde estiver

ela diz:
não sou como a sua amiguinha
sou um vício fatal
não sou assexuada
não escondo meus desejos
em deus
não escondo minhas vontades

ele diz:
que deus guria, que deus?!

ele diz:
o deus
das meninas
puras
que são devassas
disfarçadas
engraçadinhas

ele diz:
a amiguinha?!

ela diz:
de nelson rodrigues
não admitem seu fogo
o escondem em deus
como se isso bastasse
olham o amor pelo buraco da fechadura
são personagens de reportagens policiais e nem sabem
estão ali
furacões latentes
atrás de prazer e morte
mas não se admitem
eu me admito

ele diz:
talvez, elas se admitam, sim.

ela diz:
no quarto escuro
debaixo dos cobertores
da moralidade
com suas mãos pelos corpos de falsas virgens
me compreende?

ele diz:
perfeitamente. talvez quem melhor te compreende nesse assunto em relação a elas

ele diz:
eu quero ver o sangue, sempre quis ver o sangue jorrar
não o quis guardar nas entranhas
desde a infância, o quis jorrando
e assim o fiz

ele diz:
mas não foi essa pessoa que conheci, parecia outra, onde esteve essa de hoje?

ela diz:
aos 15, me transformei em mulher
escondida
para poucos
escolhidos
mas você tocou
na minha dor
agora agüente
pode agüentar a verdade?

ele diz:
não agüento a mentira

ela diz:
então, estaremos bem

ele diz:
quem lhe disse?

ele diz:
meu corpo já lateja
preciso saciá-lo

ele diz:
mas avante, garota.

ela diz:
morra de medo
fuja
se esconda
faça o que quiser

ele diz:
não fuja, não morra.
não se esconda
avante

ela diz:
o que quer de mim agora?
o que quiser
pode pedir
estou só e aproveitando minha solidão
essa é a tua hora

ele diz:
sinceramente, só queria uma companhia, na qual a sua seria agradável demais para o que mereço para me acalmar

ele diz:
estou sendo dispensada?
posso ir?

ele diz:
nunca
serve um nunca?
para suas perguntas?

ela diz:
o que fará agora?

ele diz:
irei ao teu encontro.

ela diz:
ariano, regido por marte, o deus da guerra, o que fará?
pois venha
espero que se arrependa

ele diz:
não vai me querer diante de si

ela diz:
eu vou querer até a última gota
não falarei nenhuma palavra
traga o livro

ele diz:
então, terei que seguir teu silêncio

ela diz:
autografo com teus fluídos
e os meus
numa fusão
se tiver coragem nesse corpo, venha
se tiver ainda mais, volte
e se tiver toda a coragem do mundo
fique

ele diz:
já foge?

ela diz:
vou saciar esse corpo

ele diz:
fala do meu?

ela diz:
o meu
com as tuas lembranças
e o teu
a hora que quiseres
me fale
o que acontece
nele
nesse instante?

ele diz:
nada, não acontece nada. mas isso não me diz nada

ela diz:
e na tua mente
o que acontece?
nada?
então não cumpri meu dever como escritora

ele diz:
que se tiver de saciá-lo da forma que fala, saciará plenamente e então caberá a mim saciá-la de uma forma superior a que me ofereceu
mas você sempre cumpre seu dever, sim
tenhas certeza

ela diz:
meu dever só estará cumprido
quando ver corpos em ereção, tal qual bukowski
e mentes excitadas
tomadas por paixão
e corações disparados
enquanto isso não acontecer
serei medíocre

ele diz:
medíocre ?
com tudo isso que me fez passar nessa manhã de domingo?

ela diz:
medíocre.
o que te fiz passar, meu caro leitor?

ele diz:
fez perder-me ainda mais nessa realidade
querer sair
não acreditar

ela diz:
se te deixei com vontade de ler da primeira até a última linha, cumpri o meu dever

ele diz:
e ir... ir.  até o chão cair

ela diz:
vir até mim?

ele diz:
sim.

ela diz:
ótimo

ele diz:
e irei.

ela diz:
estou satisfeita
por hora
como escritora maldita e amadora
tenho parte do meu desejo saciado
é um trabalho árduo o da arte

ele diz:
hoje eu fui usado como uma puta de cabaret. mas você me saciou, obrigado.

ela diz:
um trabalho sexual
entre escritor e presa
obrigada
a arte é sexual
toda ela é

ele diz:
concordo plenamente

ela diz:
você foi minha presa da vez
nesse domingo, te comi com todas as forças
pode partir assustado
mas jamais indiferente
bebê
não sabe onde se meteu

ele diz:
quer isso garota?

fabita . diz:
aconselho a procurar por outras garotas mais amenas
amenidades aqui não existem

ele diz:
não me meti em nenhum lugar diferente de onde já me encontro
podes ter certeza

ela diz:
provocou conversa, se perdeu

ele diz:
me faz voltar aos 17 anos, onde passei a ser perdido em minha vida.
talvez eu não me deixe se perder mais.

ela diz:
deus do fogo, deus da guerra, me teve nessa manhã. escondemos o sol com a nossa noite.
minha noite em plutão

ele diz:
pensamos muitas vezes ser predadores, mas por ventura acabamos presa.

ela diz:
foi presa
fiz um homem de presa
quem disse que só eles podem
violentar?
violentei
mas com poesia
te invadi
eu sinto

ele diz:
se te deixo saciada, aceito-me dizer que fiquei perdido.

ela diz:
perdido?
explique

ele diz:
não é o que me diz? que não devo procurar conversa, pois irei me perder? como se ao te ler me sentiria usado, uma presa em agonias e assim ficaria do início ao fim, e assim permanecerei e em ti nada irá causar
então, se nada te causa, tudo isso que foi dito aqui. aceito tê-la somente saciada e nada  mais.

ela diz:
você é incrível
mas me causou
imensa vontade
de te fazer encontrado
filosófico?
nonsense?
ético?

ele diz:
agradeço, me fez sorrir.

ela diz:
escrita espontânea
nada jornalística
e sim literária

ele diz:
acredito.

ela diz:
venha me ver, guri
se assim quiser
e venha logo

ele diz:
sou um guri mesmo frente a ti, que tenho tanto carinho.

ela diz:
um bebê
se hospede em um hotel e me chame
não vou tratar de amenidades

ele diz:
pretendo ir com uns três amigos no final do ano, mochilar na argentina. pensei logo em ti, irei precisar de dicas, ajuda sua, garota.

ela diz:
só de intensidades
faremos do hotel quase um consultório das letras

ele diz:
daí, não perderei a oportunidade, seja no rs, em sc ou na argentina, irei ao teu encontro

ela diz:
mulher, me chame de mulher

ele diz:
é estranho, mulher... mulher.
falarei seu nome então.

ela diz:
“mulher?”. ele sempre me chamava de “mulher”. “é você, mulher?, ele perguntava ao telefone. “você pode, mulher?”, “mulher, você vai?”, “você quer, mulher?”. de modo que eu quisesse imaginar, como uma idiota, minuto a minuto, que só havia uma “mulher” no mundo, e que era eu. “mulher”... “mulher” para não cair no erro de trocar os nomes das amantes, para não se dar o trabalho de guardar a individualidade de cada uma, procurando enquadrá-las todas em um substantivo simples de gênero que conotasse à feminilidade própria da presa, feita simplesmente para amar.

inspirado em um trecho de “fim de caso”, de graham greene.

ele diz:
ahá, assim, acertei em cheio ao falar que te chamarei pelo nome.

ela diz:
bebê, és um grande homem
nunca te disse
nunca te dei a chance
mas o é
cortou a veia certa
e eu jorrei até o fim

ele diz:
tenho receio de ti, já estivemos bem próximos, mas também já estivemos muito distantes. é sempre inesperada a forma como irá me tratar.

ela diz:
depois de hoje
teu acesso será livre
bata e entre
ou entre sem bater

ele diz:
sei que não será sempre assim. mas entenderei.

ela diz:
não será
és sábio
mas se souber cativar o teu espaço
será

ele diz:
assim terei de viver te cativando, uma... duas... três... n vezes.
pois não me recordo, de mais de uma vez, que entrei sem bater a porta
e fui recebido

ela diz:
e não é isso o amor?
cativar dia após dia
para ganhar o mel prometido,
até que o mel seja destinado a um único ser?

ele diz:
mas por que fazer recomeçar sempre?
todas as vezes tive de ir do início para conseguir acesso a ti.

ela diz:
eu sei
sou difícil
me perdoe
agora vou

ele diz:
és fantástica

ela diz:
um beijo
onde escolher
um beijo de uma dama da noite que te espera

ele diz:
sim!

ela diz:
com o cálice em punho
vertendo fogo

ele diz:
que assim seja.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Aperte o play, boy!


Sim, meus caros. Quem disse que a Playboy – maior revista masculina do Brasil – não tem conteúdo para ser lido? Nada melhor para comprovar que essa é uma mentira deslavada, do que “As 30 melhores entrevistas de Playboy” – coletânea de entrevistas criativas feitas entre agosto de 1975 e agosto de 2005. Tudo bem que entre a revista de ontem e de hoje, segundo os entendidos do Observatório da Imprensa, há um abismo dos mais assustadores.
De qualquer forma, voltemos à obra. É uma edição de colecionador, lançada em 2005 pela Editora Abril, que vi na estante da redação do Sentinela do Oeste – jornal entre a fronteira do Brasil com a Argentina em que trabalhei em 2009. O livro, ao lado de outros, como de Nelson Rodrigues, foi um dos motivos da minha permanência na cidade deserta chamada Palma Sola (SC). O li em um quarto de pensão da Dona Iria, em noites tediosas e solitárias que jamais vou esquecer. Ler as palavras de gente como o próprio Nelson Rodrigues, Henry Miller, Jean-Paul Sartre e Gabriel García Márquez, através das entrevistas, me trouxe um grande alento.
Para quem é jornalista, um livro cheio de ideias de como escrever introduções às entrevistas do tipo pingue-pongue, perguntas interessantes a serem feitas, conhecimento social/histórico através das fontes entrevistadas e muito, mas muito deleite literário. Para o grande público, o mesmo deleite, sem a paranóia, por exemplo, de querer detectar a técnica jornalística utilizada. Além da conversa franca com os entrevistados, fotos majestosas das moçoilas e moçoilos que nem sempre foram as criaturas mais belas do universo no passado, a exemplo de Xuxa – entrevistada que dividiu a capa da obra com Lula e Senna.
São 313 páginas que contém um pouco do mundo artístico, político, esportivo, empresarial e outros, por meio das entrevistas, publicadas na Playboy internacional e nacional, que mostra que tem bem mais do que coelhinhas sexys. Só dá saudade em “As 30 melhores entrevistas de Playboy”, livro organizado pelo jornalista Luiz Rivoiro, pai de João e casado com a também jornalista Angélica Banhara, conforme o PubliFolha.
Rivoiro é formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), trabalhou no jornal Folha de S.Paulo e, na Editora Abril, passou pela revista Superinteressante e colabora com a Playboy. Nascido em Ribeirão Preto em 1967, chegou a jogar no Botafogo F.C., mas acabou não seguindo a carreira de goleiro. Também lançou no mesmo ano “Pai é Pai – Diário de um Aprendiz”.

Hoje tem cinema!

Ele tem quase a idade de Chapecó. Estudou pouco, teve vários problemas de visão, passou por câncer no pâncreas e no intestino, mas foi o responsável por vários empreendimentos “ideais”. O Perfil Empreendedor dessa semana é Vitorino Tomazelli. Honrando o sobrenome, conhecido na cidade, fez a sua parte.
Para Chapecó, trouxe a Sétima Arte, através de filmes italianos, do Elvis Presley, do Teixeirinha, sem contar os pornográficos, que ganhavam sessões noturnas. Na Getúlio, o cinema formava filas quilométricas. Isso tudo antes da televisão chegar à cidade, em um tempo que o cinema era a maior diversão do lugar.
A sessão está só começando. O trailer do longametragem de Vitorino, e da esposa Nelcy, está na página três do Gazeta da Manhã. Comprem suas pipocas e suas balas de hortelã, que o filme já vai começar. É importante estarem confortáveis nas suas poltronas e cuidarem com o lanterninha, que está pronto para atrapalhar! Eis o Perfil Empreendedor dessa semana: “Uma história de cinema ideal”. Nele, muita luta e muito amor, ingredientes que não podem faltar, nem em Hollywood, tampouco no Velho Oeste catarinense.
- Homem de negócios, cheio de empreendimentos que levaram a sua marca, Vitorino crê que é preciso ter vontade de progredir para seguir o seu caminho e também “ser honesto”, como complementa a esposa. E o princípio ideal? Segundo ele é o caráter. O caráter sem falhas é, para ele, um norte. Além disso, há um outro princípio que transparece nas suas atitudes carinhosas com a esposa. Qual será? “O amor. O amor não morre nunca”, lança o senhor que criou uma história digna de um longametragem oestino.
Nesse trailer, um pouquinho do homem de negócios que foi Vitorino e também sua história de amor com a segunda esposa, com quem casou depois dos 50. Com ela, nunca brigou. Muito menos ela com ele. Nelcy, sem jamais ser vista como a madrasta dos contos infantis, assumiu os oito filhos do esposo, os 20 netos e os três bisnetos. Na sala do casal, estantes abarrotadas de porta-retratos, que já pedem um espaço maior, de tão numerosos que são.
Quem narra o trailer dessa história de cinema, cujo roteiro a própria vida escreveu, é a repórter Fabiane De Carli Tedesco. Saiu com uma câmara (fotográfica) na mão e uma ideia na cabeça: saber sobre o primeiro cinema da cidade e desvendar um pouco do lendário Hotel Ideal, localizado na Getúlio Vargas, no prédio mais antigo da cidade, construído em 1938. Perfil que contém o essencial da vida de seus personagens, recomenda-se ser apreciado em um só gole. Boa leitura!

Uma história de cinema ideal

Aquele homem que acabava de chegar, fez muita história em Chapecó. Tanto, que não foi esquecido pelos homens do ponto de taxi numa manhã de março, em pleno século 21

Primeiro, coloco os pés no Hotel Ideal – hotel mais antigo em funcionamento de Chapecó. Numa das esquinas da Getúlio, o prédio está desde 1938 e foi o primeiro prédio de alvenaria da cidade. Mas foi na década de 1950 que o Hotel Ideal foi fundado. Lá, o funcionário diz que a pessoa indicada para dar entrevista é Angelo, porém ele não estava. Não contente em abortar a missão, atravesso a rua e converso com alguns senhores que estavam ao lado de um ponto de taxi. A cor dos cabelos me contava que eles sabiam de algo que eu não sabia: das coisas do passado.
Foi com eles que soube da existência de Vitorino Tomazelli, pai de Angelo. A pé, segui a rota indicada. A casa era aquela que guardava três pés de jabuticaba no jardim, ao lado do ponto de ônibus na Fernando. Fui recebida por Lenita, empregada da família, e por um dos netos de Vitorino – que havia saído para buscar os óculos novos. Na sala, antiga, encontro Nelcy, 84, casada com Vitorino há mais de 40 anos. “É preciso ter uma Lenita dentro de casa”, comenta Nelcy, senhora que sofre há anos com uma doença degenerativa.

A fórmula mágica do amor

Quando casaram, ela já tinha mais de 40 anos; e ele, mais de 50. Ele era viúvo e pai de oito filhos, seis moças e dois rapazes. “Aconteceu”, fala. “Quando você menos espera...” A mulher, que conheceu o esposo na antiga loja da família dele, Casa Guaspari, acredita que o amor existe. Pode estar escondidinho, em um canto, mas que existe, existe. Nessas quatro décadas de matrimônio, nunca brigaram. A fórmula mágica do amor? Amizade, consideração e respeito. Hoje em dia, pensa que a vida separa os casais. As mulheres querem independência e liberdade. Mas esse não foi o seu caso. “Sempre segui os meus princípios”, revela. Uma vida de muitas alegrias compartilhadas. Os filhos de Vitorino deram pelo menos 20 netos ao casal. E esses, três bisnetos. Muitos dos filhos estão nos estados de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. Entre os momentos mais tristes da vida dos dois, a morte do filho mais velho.

O homem ideal

O papo se estendia na espera de Vitorino. Logo, o homem que agora enxerga melhor graças a uma cirurgia a laser, chega em casa. Chama a esposa de “amor” e dá um selinho. Aquele homem que acabava de chegar, fez muita história em Chapecó. Tanto, que não foi esquecido pelos homens do ponto de taxi numa manhã de março, em pleno século 21. Ele nasceu na cidade gaúcha de Barão de Cotegipe, em 27 de maio de 1918 – tendo então hoje 92 anos, quase 93. O problema de visão começou na infância, fato que prejudicou os estudos do menino – quase cego – que estudou somente até a 2ª série do Ensino Fundamental.
Em Chapecó, trabalhou na serraria do pai Aquiles, na Divisa Tomazelli. Mas isto é assunto para outra ocasião. Vitorino montou o primeiro cinema da cidade, o Cinema Ideal. Um cineminha, como afirma, uma casinha de madeira com 10 por 20, onde atualmente fica O Boticário. Seu Vitorino não é bom com datas, o que não é lá um problema tão grande, já que a história não se limita às datas. Conta que depois disso veio o Cine Ideal, na década de 1950, onde está localizada hoje a Leve, também na Getúlio. Não, a história de cinema não acaba por aqui: mais tarde veio ainda o Cine Astral, um grande cinema com 890 lugares, instalado onde fica O Boticário, no lugar do antigo Cinema Ideal.
O Cine Astral ganhou publicação em um jornal da época. Vitorino mostra uma matéria em folha de Xerox. Relembra que os cinemas criavam filas enormes, principalmente quando tinha filme do Teixeirinha, que demandava três sessões aos domingos. Uma emoção para Vitorino, que trabalhava com equipamentos modernos para a época, importados da Itália.
Nelcy fala que os pais deixavam as crianças na matinê porque sabiam que ali estariam bem. Ela trabalhava na bilheteria e no bombonieire. O cinema era a maior diversão da cidade. Isso, até chegar a televisão. Depois de algum tempo, os donos foram cansando de trabalhar com a Sétima Arte. Além desses empreendimentos, são proprietários, é claro, do Hotel Ideal, fundado nos anos 50. O hotel tem 28 quartos e 24 apartamentos e é administrado pelo filho Angelo, que tive o prazer de conhecer mais tarde.
Vitorino aprendeu uma coisa com o pai Aquiles: não fumar. Mas o fumo era o único defeito do pai, de acordo com ele. Houve um tempo em que Vitorino fumava escondido. O vício não o abandonava, principalmente quando andava pela estrada, na época em que era motorista de caminhão. Falando em estrada, lembra de um carro chamado Rubi, que adorava, assim como o Ford (Bigode) 1925.
Homem de negócios, cheio de empreendimentos que levaram a sua marca, Vitorino crê que é preciso ter vontade de progredir para seguir o seu caminho e também “ser honesto”, como complementa a esposa. E o princípio ideal? Segundo ele é o caráter. O caráter sem falhas é, para ele, um norte. Além disso, há um outro princípio que transparece nas suas atitudes carinhosas com a esposa. Qual será? “O amor. O amor não morre nunca”, lança o senhor que criou uma história digna de um longametragem oestino.

quarta-feira, 2 de março de 2011

jack dull boy

"All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy.""All work and no play makes Jack a dull boy."

83


“o repórter vive entre palavras e imagens, entre as coisas. levado por sua profissão a ser sempre e somente testemunha dos fatos, testemunha e não protagonista. os fatos se produzem independentemente dele. o repórter se esforça para conseguir estar presente na hora em que as coisas acontecem. depois, relata tudo segundo a obrigação artificial de objetividade própria da profissão. creio que este é um dos aspectos mais inquietantes e frustrantes no trabalho do repórter”.
gostaria 
de dormir 
e não 
acordar.

riot

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

“O pão da gente é isso”

Auditório lotado de catadores, mesa de honra de autoridades. Começa a reunião com os catadores, ontem, um grande dia para a categoria. Fortes aponta reivindicações, através de um ofício entregue ao prefeito


Ela queria logo entrar no auditório da prefeitura. Acostumada a sentar na carroça, queria aprovar o assento estofado do lugar. Nair Rosário veio acompanhada do nenê da casa, de três anos, Jonathan. Para ela, a situação dos catadores está boa, desde que não os impeçam de trabalhar. “Tavam tentando impedir a gente. Então, estamos aqui por isso, para lutar pelos nossos direitos.”
No Centro, eles não podem entrar, restando os bairros, em pontos determinados. “Queremos continuar trabalhando. Não queremos prejudicar ninguém e também não queremos ser prejudicados. Porque precisamos trabalhar para sobreviver.” Viver em cima da carroça não é coisa simples, mas que se acostuma com o tempo. Aos 30 anos, casada, com quatro filhos para criar, com o dinheiro do lixo reciclado, paga as contas, compra roupas, calçados para os filhos e as dá conta das despesas do colégio.
Dentre outros motivos, a situação está complicada porque há caminhões fazendo o trabalho de pessoas como Nair. “Chega o final do mês, vai pagar as contar e não conseguiu o dinheiro. É o nosso ganha pão. Como a gente vai ficar?”

Família em luta

Na primeira fila do auditório, família em peso para lutar pelos seus direitos. Helena Aparecida Soares, 23, mãe de três crianças (o mais velho com cinco anos), e a irmã Fabiana Aparecida da Rosa, 17, davam de mamar aos pequenos. Ao lado, o padrasto e a mãe. Todos catadores. Helena lamenta a dificuldade encontrada no seu cotidiano de catadora. “É difícil. A gente se suja bastante a roupa. Só que fazer o que? A gente não tem outro ganho. Já digo, o pão da gente é isso. Tem que se obrigar.”
Puxa carrinho nas sofridas subidas. Tem hora que para numa sombra e sente vontade de chorar, pelo nervosismo que aflora. “Tentei emprego nas firmas, mas não consegui. Tenho filhos e não vou deixar eles passarem fome. Jamais. Eles vão chegar, pedir um pedaço de pão e eu vou dizer: ‘não tem, meu filho!’ Que dor que é para uma mãe. Eu disse: ‘eu vou catar papelão.’ Não é feio. Não tô roubando, tô trabalhando. E se alguém quiser fazer farra, que faça.” Para tanto, pediu um carrinho para a mãe.
Helena mora no Tomazelli. “Às vezes faço Jardim do Lago, às vezes Colatto, sozinha, empurrando o carrinho.” Fala que um dos motivos da reunião é a baixa nos preços do material reciclável. “O preço das coisas tá lá embaixo.”
A moça teve os dois filhos sem querer. Tomava comprimido do posto, mas, pelo jeito, não surtiu efeito. Se obrigou a comprar anticoncepcional na farmácia. “Se eu continuar tomando comprimido do posto, capaz de ter mais uma ‘pencada’ de filho. Fazer o que? Agora tem que criar. Já que tá no mundo... Que nada, amanhã ou depois cresce e ajuda a mãe.”
A mãe de Helena entra na conversa. Terezinha da Lurdes Ferreira diz que sente dó da filha. “Ela, com aquele cargão. Empurrando sozinha. Um dia, menina, me deu muito dó. Suada, suada, suada. ‘Vermeia’ que era um peru. Arcadinha empurrando aquele carrinho.”
O padrasto, Antônio, 66 anos, ainda está na lida. Apesar da idade, não aparenta. Descendente de “bugre”, como lança a esposa, tem poucos cabelos brancos debaixo do chapéu charmoso. “É sangue de índio”, fala Terezinha. Na semana passada, Antônio entregou 1,8 mil quilos de ferro. “Puxado a muque”. Entretanto, o que ganhou foi “mixaria”. Se o preço estivesse bom, teria feito R$ 1 mil. Mas, com o preço atual, fez R$ 560. Hoje, o quilo do papelão, por exemplo, está 15 centavos; plástico seco 40; plástico mole 30; misto (jornal) 8. “O preço baixou. Deve fazer um mês e pouco.”

Compondo a mesa de honra

Auditório lotado de catadores, mesa de honra de autoridades. Começa a reunião com os catadores, ontem, um grande dia para a categoria. Sandro Fortes é o representante dos catadores. Prefeito Zé, como é chamado pelo secretário da Agricultura, João Rodrigues, que faz parte da platéia, agradece de início aos catadores por terem atendido ao pedido de não trafegaram mais no Centro da cidade.
Fortes aponta as reivindicações, através de um ofício entregue ao prefeito. São reivindicações que compõem um projeto, cujo prazo de elaboração dado pela prefeitura foi de 60 dias. O representante pede um prazo maior para a construção do projeto, pois acha necessário fazer um estudo aprofundado junto da prefeitura, órgãos públicos e trabalhadores. “Um projeto não é para um mês, nem para um ano; é para uma vida.”
Oito núcleos em oito regiões de Chapecó estão sendo montados, cada um com uma diretoria/coordenação, com um ou dois representantes dentro da Associação dos Trabalhadores de Serviço de Reciclagem. “Nos reunimos mensalmente com esse pessoal para discutir e decidir as situações. Chegamos à pauta de reivindicação com 12 itens, que aumentaram para 15.”

Entre os itens:

• Construção e adequação de no mínimo quatro galpões de alvenaria para poder abrigar todo o serviço de reciclagem, ainda que a necessidade seja atualmente de oito galpões. Lá os catadores terão onde depositar os materiais, ao invés de depositá-los em via pública/ao ar livre;
• Equipamentos de segurança para o trabalho, como luvas, bonés e jalecos;
• Aquisição de prensas e equipamentos de segurança para que os catadores possam enfardar o material, melhorando o preço da comercialização;
• Aumento de prazo para circulação dos veículos com tração animal em via pública, por um período de até 20 de novembro de 2011, em vias pré-estabelecidas entre a associação e o poder público;
• Convênio para manter os trabalhadores em situação de trabalho;
• Fornecimento de veículo para atender os moradores nas residências/comunidades, com visitas periódicas para que sejam reconhecidas as necessidades e transportar os trabalhadores quando necessário;
• Que o caminhão de coleta da prefeitura não entregue o material reciclável aos estabelecimentos e sim direto ao trabalhador, com roteiro pré-fixado ente o Poder Público e associação;
• Acompanhamento social e psicossocial com as famílias dos catadores;
• Contato direto da prefeitura com os núcleos e comunidades.

Nisso, um momento de ápice na reunião. Nair, ao lado do filho Jonathan, Paulo, Inês, Darci, Tereza, Vitacir, Everaldo, Neusa, Valdir, Abraão, Alessandro, Ângelo, Jair e Gilmar. Nomes de pessoas comuns, gente conhecida nas comunidades, chamadas para a mesa de honra, que sobem ao palco acompanhadas de palmas.
Zé Caramori se compromete a ajudar. Para tanto, salienta que é preciso que a voz das pessoas simples seja ouvida. “O município vai ajudar, mas quem sabe dos problemas, das necessidades, são vocês. Conhecem o dia a dia, a dor no pé, a dor no lombo.” Fala que o trabalho cumprido pelos catadores, não é somente meio de sustento deles, como é algo importante para a comunidade chapecoense.
Ele afirma que a construção do galpão na Efapi será feita ainda nesse semestre. O segundo galpão, deverá ter local definido. Promete que dois serão feitos, portanto, ainda em 2011, início de 2012. Os equipamentos de segurança serão conseguidos via convênio. Buscará linhas de crédito para compra de equipamentos, que serão pagos pelos catadores, cujo juros serão arcados pela prefeitura.
Veículos serão conseguidos através da Receita Federal, que apreende automóveis usados para tráfico entre outros, devendo cedê-los aos catadores. Os caminhões de coleta já estão, conforme Caramori, funcionando nos locais definidos pelos catadores, mas, a questão deve ser melhorada. Por meio da FASC (Fundação de Ação Social de Chapecó), o acompanhamento social e psicossocial também já está disponível. “Espero que tenha dado o encaminhamento imediato para todas as ações para que elas todas tenham solução”, conclui o prefeito.

Aqui estamos nós, os trabalhadores

Altas horas da noite, grevistas apelam para radinho, vuvuzela, chimarrão e café. Tudo isso “para não perder a esperança”, como diz um dos grevistas acampados em frente ao Prosegur


Ninguém quer saber de dar nome. Tudo bem. Com ou sem nomes, vários homens fazem vigília noite à dentro. Com radinho ligado na AM, rolando Tonico & Tinoco e Teixeirinha, eles apelam para a vuvuzela – instrumento que sobrou de uma Copa do Mundo frustrada –, quando um pega no sono, tomam um mate amargo ou um cafezinho e fazem o lanche ali mesmo, em frente à Prosegur. De quando em quando, também rola um baralhinho para distrair.
Lá, tem um corneteiro oficial. Com seu cata-ovo, que mais me parece o chapéu de um cantor de blues da madrugada, o corneteiro bota a vuvuzela para funcionar ao menor sinal de sono. Trabalhou durante 12 horas, para depois entrar no território de greve. Como não poderia ser diferente, assim como há o corneteiro, há o “corneteado”. “Nosso colega tá fazendo greve de fome. Estamos impressionados com ele, porque o que ele comeu hoje não chegou a 10 quilos. Ontem passou longe. Tá acontecendo alguma coisa.”
São 24h em greve. “Para não perder a esperança”, como diz um senhor, vale, vale tudo. Conversas na madrugada aliviam os revezamentos. Uma turma de dia; outra à noite. A greve começou na segunda e segue sem previsão de parada. Deixam as famílias de lado para brigar. Brigar pela dignidade, que é mais do que uma palavra estampada em vermelho nas faixas de improviso. “A gente não vê o filho acordando, nem dormindo.”
Um deles ia ter que ficar até a meia-noite. “Podia estar em casa, abraçadinho com a mulher e com os filhos. Mas são ‘ossos do ofício’. ‘Tamo’ aí, numa luta justa e ‘vamo’ até o final. Qualquer coisa, recupero esses dias perdidos.” Outro conta que a esposa entende algum sacrifício, mas que também sente em ter que passar parte da noite ali.
O acampamento foi montado com criatividade, com união, força, luta e dignidade, as mesmas virtudes que mantém a greve. Muitos deles, nunca tinham entrado em uma maratona de greve como essa. É a vez deles, a hora da luta, como as camisetas indicam. “O que nós mais queremos é que acabe a compensação de horas.”
Ninguém está ali por livre e espontânea vontade. “Se não fosse triste, seria cômico.” Outro complementa: “Bom seria se a gente não precisasse chegar a esse ponto. Que os patrões nos reconhecessem, tivessem uma visão não só da empresa crescer. Queremos que a empresa cresça, mas que as pessoas que desenvolvem ela, cresçam junto. Somos nós, os trabalhadores. Estamos brigando por uma coisa que não gostaríamos de estar brigando.”
Mas, agora que tiveram que parar, vão até o fim. Com essa parada, bancos ontem nem abriram. “Fica feio, uma vergonha para nós. Ter que tocar de ficar acampado.” Ainda assim, entendem sabiamente que as vidas valem mais e têm mais peso, do que a vergonha sentida.

Libertinagem & sadismo: ingredientes de um marquês


“O Marido Complacente” é um clássico do libertino Marquês de Sade. Contos reunidos, escritos com técnica exímia – fato que caracterizou Sade, quem deu origem ao termo sadismo, denotando a excitação e prazer provocados pelo sofrimento alheio. Escritor e filósofo francês, Donatien Alphonse-François de Sade ou simplesmente Marquês de Sade, dá uma amostra fiel de seu universo literário e pessoal através de “O Marido Complacente.”
Num raro ensaio sobre a arte da escrita, disse que um escritor deveria “pintar os homens tais como são”. E como há subjetividade e dificuldade nessa tarefa. Mas, ainda assim, Sade tentou ser coerente a esse conceito, a seu modo, tanto na literatura como na sua própria vida. Viveu encarcerado por muito tempo, ao passo que perversões não faltaram nos seus dias, fiéis aos seus delírios mais sinceros. Ofereceu à história uma ampla obra, complexa, repleta de um tormento (e de uma qualidade) inquestionável, segundo críticos.
Em pleno Século 18, em meio à Revolução Francesa, uma das mais perigosas figuras foi, sem dúvidas, Marquês de Sade. Uma pessoa contraditória, por vezes brilhante e sensível; outras, egoísta e demoníaca. Foi com espalhafato que continua a chocar, mesmo no Século 21. Seu legado provoca quebras de tabus. Publicou romances eróticos, foi banido da administração de Napoleão e passou os últimos anos de vida num sanatório. Hoje, um mito.
No trecho do conto “O Corno de Si Mesmo ou A Conciliação Inesperada”, uma pitada das picantes passagens de Sade, que escandalizou o seu tempo. “A amante do sr. de Raneville não era uma profissional, mas mulher casada e por isso mais excitante, pois, diga-se o que quiser, o salzinho do adultério valoriza não raro o prazer.”
Ele nasceu em Paris, no ano de 1740, tendo morrido no sanatório, em 1814. Entre suas obras, “Diálogo entre um Padre e um Moribundo” (1782); “Os 120 dias de Sodoma” (1785); “Os infortúnios da virtude” (1788); “La philososophie dans le boudoir” (1795); e “Os crimes do amor” (1800).
Já no ano 2000, Marquês de Sade ganhou a sétima arte em “Contos Proibidos de Marquês de Sade”, cujo título original é “Quills”. Se trata de um drama norte-americano, dirigido por Philip Kaufman. No elenco, ninguém menos do que Kate Winslet, no papel de Madeleine, e Geoffrey Rush, como Marquês de Sade.

“...e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.” (Marquês de Sade)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quanto vale uma vida?

Mãe teria ido a uma lanchonete do terminal urbano, pedindo para a proprietária ficar com criança de 14 dias. Há quem diga que a mãe teria pedido dinheiro em troca, fato negado pela dona do bar

Drogas e abandono. Confusão, versões diferentes de um mesmo fato. A princípio, o Conselho Tutelar recebeu uma denúncia de que uma senhora no terminal urbano estava com uma criança, deixada pela mãe, dependente química.

Versão do Conselho

Nossa primeira parada é no Conselho Tutelar. A conselheira tutelar, Laurita Becker, informou que, por telefone, a dona da lanchonete disse que a mãe do bebê estaria vendendo a criança. “Mas, no momento que fui até lá, ela colocou uma outra história, de que a criança teria sido abandonada pela mãe.” Conforme Laurita, a criança foi deixada no sábado (19), dia em que a mãe estava bastante entorpecida.
Dependente de drogas, principalmente de crack, ela teria ido a uma lanchonete do Terminal Urbano "Patrãozinho", Prefeito João Destri, pedindo para a proprietária ficar com a criança. A dona da lanchonete então ficou com o menino. “Comprou roupa, leite e cuidou”, continua. Na terça-feira (22), a mãe retornou ao local para buscar a criança. Entretanto, a proprietária da lanchonete não quis devolvê-la. A dona ligou para o seu advogado e ele esclareceu que ela não poderia ficar com a criança. Nisso, ligou então para o Conselho Tutelar. “Ela fez um procedimento legal, embora devesse ter ligado ainda no sábado.”
Laurita acredita que é complicado afirmar que a mãe teria tentado vender a criança. O boato, que se propagou na mídia, é de que ela teria tentado vender o bebê por R$ 100. “Daqui a pouco, a mulher do terminal vai dizer ‘não, eu não falei que estava comprando uma criança.’ Não temos essa certeza. Porque ela também pode ser processada criminalmente.”

Desenrolar da história

Um boletim de ocorrência foi feito. O bebê foi para uma instituição de acolhimento do município. A mãe está em casa. “Agora, a Justiça tomará as medidas cabíveis à situação”, observa a conselheira. Foi encaminhada ao Caps Ad (Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas), onde será acompanhada. A instituição de acolhimento fará os procedimentos legais, que inclui visita à família de origem, ver da possibilidade de retorno à família e, se não for possível da criança permanecer com a família biológica, pode ser adotada pela chamada família ampliada, ou seja, por outros parentes próximos, como tios, tias, avôs ou avós. “A ideia é que essa criança retorne à família”, completa Laurita.

Flerte fatal

Em conversa com a mãe da moça, que diz que quer cuidar da criança, o Conselho Tutelar soube que a família era do interior. “Saíram da beira do rio. São agricultores, trabalhadores, vieram para cidade com aquele sonho de melhorar de vida.” A moça entrou no universo das drogas de repente. “Disse: ‘Ah, aquela coisa. A gente nem sabia que existia. Ela começou a se envolver com umas pessoas e quando viu estava dependente.’”

Lanchonete do terminal

O nosso segundo destino é o terminal urbano. Lá, encontramos a dona da lanchonete, que não quer ser identificada, nem identificar seu estabelecimento, muito menos tirar fotos. Segundo ela, a mãe da criança freqüenta o terminal há muito tempo. Proibida de entrar na maioria dos bares, por conta de sua dependência, a moça também tem histórico de mais de 15 roubos. Ela conta que essa é a quarta criança que a moça tenta se livrar, tendo perdido os três anteriores.
Na versão da dona do bar, a criança chegou pelas mãos da mãe, esposa de um moto boy, à lanchonete na segunda-feira, 18h. Muito transtornada, a moça aparentava ter entre 25 e 27 anos. Fala que a mãe não pediu dinheiro em troca do filho, apenas queria doá-lo. “Ela disse que não queria a criança por causa da família, da mãe dela, e não tinha comida nem onde deixar o bebê.” Prometeu que iria voltar, que precisava apenas pegar um documento da criança, que tinha que comprar remédio. Na lanchonete, deixou a bolsa. Nela, havia uma receita.

Como demorou, a proprietária foi comprar leite para o bebê, que não parava de chorar. “Eu não sabia onde ela morava. Só sabia que era no São Pedro.” Esperaram até terça pela manhã. Ficou com medo de acionar a polícia. “Esperei que, a qualquer momento, ela batesse na porta.” Em sua cabeça, diz que nunca passou a ideia de adotar uma criança. Porém, ao ver o pequeno, sua concepção mudou.
“Lindo. Naquele momento, te dá aquela coisa, e tu pensa que nunca, nem um animal faria o que ela estava fazendo. Ela ficou o tempo inteiro ali, insistindo para que eu ficasse um pouquinho com a criança. Aí eu falei que eu não podia, que estava apurada. Depois eu disse: ‘Tá, parece que ninguém quer ficar com o anjo, então eu fico.’” Mãe de dois filhos, casada, ela acompanhou a gravidez da moça.
A mãe do bebê de 14 dias, que ficou pelo período de 10 dias no hospital longe dela, só teria ido ao hospital buscá-lo depois de um chamado. Quando ela foi dar à luz, o Conselho Tutelar já estava sob aviso, porque no hospital sabiam da condição de dependente da moça e seu histórico familiar.
A dona do bar revela que, com vontade de adotar o bebê depois de ter ficado por esse período com ele, foi aconselhada a pensar por um ou dois dias para que tivesse certeza se queria ou não assumir a criança. Uma vida nova, que surgiria a partir daí. De acordo com ela, a mãe da criança não tem condições de cuidar de um filho.
Apesar do bebê ter nascido de um corpo dependente de drogas, em um contexto complicado, é perfeito, conforme a proprietária da lanchonete. “Você acha que ele tem um mês, porque já queria se erguer. Quando eu dei leite para ele, chupava com tanta fome... É chocante a maneira e a frieza da mãe dele. Não dá para ela ficar andando com aquele bebê, como se fosse uma bola de pingue-pongue.” Para ela, a mãe estaria pensando em liberdade ao deixar o filho na lanchonete. “Ela sabe que a liberdade dela na rua acabou. Achou que podia deixar o bebê numa caixinha, quietinho, depois podia vir buscar.”

Burburinho

No terminal, algumas pessoas, que também não querem ser identificadas, que fazem parte do cotidiano do lugar e conhecem a mãe da criança há 10 anos, dizem que acham mesmo possível ela ter pedido dinheiro em troca da criança, para que continuasse sustentando o seu vício no crack. Eles confirmam o histórico de roubo da garota. Vista na noite do terminal, ela também faria programa por poucos trocados.

domingo, 20 de fevereiro de 2011


"Eu sou apenas uma garota ferrada procurando paz de espírito..."

Trainspotting



"Escolha sua vida. Escolha seu futuro. Escolha seu emprego. Escolha sua carreira. Escolha sua família. Escolha uma televisão enorme, um carro último tipo, celular e microondas. Escolha tudo isso e tente imaginar-se, feliz, entre todas essas coisas, num domingo de manhã. Mas, por que escolher só coisas como essas ?? Será que você sabe as razões? Ou será que é tudo uma questão de escolha?"

confissões para a lua



vivo entre ele e o mundo; entre o instinto e a razão. não aprecio distância e frieza. estou confusa. o que eu sou? minhas escolhas e opções me fazem perdida. me fazem o que? o que fez com a minha cabeça? o que eu fiz com ela? o desejo chega em tríades. move miríades. eu sou fogo, sou água, ar, terra. mas o elemento mais forte é o fogo e ele me consome. sobrevivo. procrastino meus atos. me tornei atriz. desde quando? no palco, meu teatro muda a cada subida de cortinas. eu sou veludo vermelho. não posso me conter. me jogando em todas as direções, como se precisasse um pouco de cada um para poder sobreviver. de repente, tudo some. meus rituais de magia branca, abandono em um canto do quarto de luz acesa na madrugada. às vezes, penso que sou a única com a luz ligada do quarto nessas horas da noite; às vezes penso, que somente eu permaneço adolescente aos 27, com as idéias fixas de sempre, com os mesmos gostos para blues & rock, jazz & mpb. ele surgiu. gaita na boca de blues, o corpo em furacão. ele me entende. será que me entende? às vezes calo, às vezes metralho ouvidos de palavras sem fim; às vezes gêmeos, às vezes escorpião. quase sempre, centaura. acordo meio mulher, meio bicho. meu desejo não tem rédeas. não aprecio a frieza, mas também não aprecio a busca pelo prazer pelo mero prazer. pela manhã, desperto lúcida e com a consciência nas alturas; adormeço em tremores de palavras em ecos falsos. minha mandíbula se abre no ritmo de uma alucinação que não era esperada. realidade e imaginação fazem festa na minha mente corroída. esquizofrenia e psicose na bula do meu cérebro de mil amoras e café preto. não. não fale comigo. não entendo felicidade e constância. não assumo, não me dôo. estou sendo perseguida há anos por uma criatura de carne. mas eu não sou apenas carne. vê, sou alma. mas só de alma, meu corpo não vive. preciso alimenta-lo de vida, ainda que a vida de mim não nasça. teria dias e mais dias de ócio e ainda assim, não me encontraria. o pensamento e a escrita não trazem respostas. é a loucura batendo na porta. bate, bate, bate. me quebra inteira. no vácuo de mim e das frases, crio um novo cenário de horror. não sei no que acreditar. nem rezas, nem bocas em silêncio, me dizem o que fazer. sou oráculo de mim. todas as bocas e todos os corpos não me dão respostas. todas as linhas dos meus livros de gaveta não me preenchem. ausência, distância, recusa, silêncio. fiz um roteiro de palhaço dentro da taça de medusa. quero ver os teus cabelos me trazerem o vinho até à boca. não quero a arte branca; não quero a arte permitida. quero a transgressão; a arte que não tem nome, nem palco, nem script. já ouviu falar da arte dos vagabundos? vagabundos fazem arte. o sonho de um vagabundo, é arte sacra nos becos do mundo. a música urbana dos guetos é arte viva. o stencil dos muros, o grafite nas unhas; a fuga dos homens da lei, eis a arte. meus amores são todos brutos; minha arte é toda torta. meu amor me homicida. minha voz tornou-se roca de arte. minha arte, tornou-me oca e irreparável. você chegou, vou descansar. deitar no teu ombro e cantar canções de ninar. deixa eu ser santa no teu ombro de deus assexuado. fui embora, para não voltar. finito.

Teatro & circo: ao ar livre, “Cirkito de los Badulakes” encantou o público






Uma tarde de boas risadas e de emoção. Malabares coloridos, pernas de pau, tango, brincadeiras e diversão não faltaram na apresentação, que é uma homenagem ao circo tradicional

Teatro ao ar livre e com pitadas de improviso. Foi o que fizeram três atores da Cia da Gaia no sábado (19) à tarde, na Praça Coronel Bertaso, através da peça “Cirkito de los Badulakes”. O público ficou simplesmente encantado com a apresentação informal dos atores. Uma tarde de boas risadas e de emoção. Malabares coloridos, pernas de pau, tango, brincadeiras e diversão não faltaram.
A ideia foi montar um espetáculo de teatro que fizesse uma homenagem ao circo. A peça foi montada no ano passado, para o Dia Mundial do Teatro e Circo, comemorado em 27 de março. “É uma homenagem ao circo, já que fazíamos brincadeiras circenses em alguns de nossos trabalhos”, comenta o ator Tarcísio Brighenti. Além disso, o dia 27 de março é o dia do aniversário de outro ator e apresentador da peça: Alejandro Abdala. No ano passado, a Palhaça Barrica também fez parte do espetáculo.
“Cirkito de los Badulakes” tem um roteiro, mas segue uma linha de improviso. “Dentro do roteiro, construímos as brincadeiras com o público”. Esse, por sua vez, interage com o espetáculo, apresentado até então em palco. Os próprios atores riam de si mesmos e usaram da espontaneidade para prender a atenção do público.
Teatro e circo em um mesmo espetáculo, que uniu doses de intervenção urbana e boa atuação. Uma ode ao circo tradicional, o espetáculo é composto pelas linguagens circenses e teatrais, resgatando a imaginação de quem o assiste.
Em “Cirkito de los Badulakes”, um homem solitário (curiosamente Alejando Abdala), no dia de seu aniversário, se depara com a nostalgia da infância. E, no palco de suas memórias, surge uma referência: o circo e seus personagens clássicos. Entre elementos e brinquedos, que encontra em sua maleta, o homem solitário esquece da solidão e não quer que a aventura termine.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Vidas que se chocam e culminam: Eis, Amores Brutos

O filme será exibido nesse sábado (19), das 20h às 22h, no Cine Teatro do Sesc. Faz parte de uma trilogia, na qual também estão incluídos os filmes 21 Gramas e Babel, do mesmo diretor

Do espanhol Amores Perros, Amor Cão no português de Portugal ou Amores Brutos na tradução brasileira, é um drama mexicano do ano de 2000, dirigido por Alejandro Gonzáles Iñarritu. Amores Brutos será exibido nesse sábado (19), das 20h às 22h, no Cine Teatro do Sesc Chapecó (Serviço Social do Comércio). O filme é recomendado para maiores de 16 anos. Outra exibição está programada para o dia 13 de março, também das 20h às 22h. Ambas as exibições têm entrada franca.

Auxiliar da biblioteca do Sesc, Cleber Bicigo conta que o filme faz parte de uma trilogia, na qual também estão incluídos os dois filmes: 21 Gramas (2003) e Babel (2006), do mesmo diretor. Iñarritu ainda dirigiu, entre outros filmes, o famoso documentário 11'09"01 - September 11 (2002).

“Os filmes têm um tempo narrativo não cronológico. É uma narrativa fragmentada. Dentro dos fragmentos, percebemos qual é a história que vai ser contada. No caso de Amores Brutos, ele começa com um acidente entre dois carros e, a partir disso, as histórias vão sendo desamarradas”, comenta Cleber. São personagens de classes sociais diferentes, cujas histórias de vida culminam nesse acidente. Depois do primeiro impacto em que as vidas se chocam, o filme remonta os momentos que levaram a chegar ao encontro entre os dois carros. “As vidas que se chocaram, em uma esquina, cada uma com uma história diferente a ser contada”, explica. A conexão dos três filmes está na narrativa. “O grande lance é a forma narrativa”, diz Bicigo.

Abrindo o debate

Quem complementa é a atriz e diretora chapecoense Inajá Neckel. “Não é um filme aristotélico (ou seja, linear). Não é nada aristotélico. Isso eu achei fantástico. Fui mais pela sensação quando assisti. Pela imagem e sensação. É terrível porque há uma impossibilidade dos personagens de lidarem com a situação”, revela a atriz. Inajá fala em especial da personagem Valeria – uma modelo que se envolve no acidente e, de cadeira de rodas, olha para a própria imagem do passado recente através de um outdoor.

Entre os filmes da trilogia, Amores Brutos é o favorito de Inajá. Ela salienta a parceria entre o diretor e o roteirista do filme, Guillermo Arriaga (indicado ao Ariel por Roteiro original). Arriaga, segundo Inajá, interferia na direção, embora tivesse a proposta da dramaturgia. “A dramaturgia é muito importante. É o diferencial do filme. As imagens são ótimas; os atores também, mas a dramaturgia é onde o filme dá o salto.” Ela enfatiza que o filme conduz o espectador e não dá muitas pistas do desfecho, ou seja, lança surpresas ao longo da história.

De certa forma, a trilogia marcada pelo tempo narrativo não cronológico, se assemelha ao trabalho de um diretor norte-americano muito conhecido: Quentin Tarantino, que procura uma visão não-linear dentro de suas produções. Entretanto, Cleber vê certa diferença entre os diretores. “Tarantino trabalha com a narrativa fragmentada, porém de uma mesma história; na trilogia de Iñarritu, a narrativa fragmentada é trabalhada na mesma perspectiva, mas são várias histórias diferentes que se unem, que culminam em um dado momento, em um único momento.”

SINOPSE

Na confusa cidade do México, um carro em alta velocidade provoca um acidente que destrói três vidas. Octavio, o adolescente ao volante, fugia das grandes confusões que deixou para trás, tendo ao lado seu cão Cofi, que sangra sem parar. Octavio ama sua cunhada, Susana, e Cofi é a fonte de renda dos dois. No outro carro, a modelo Valeria dirigia feliz. Ela tinha acabado de se mudar para viver ao lado de seu amor, o executivo Daniel. Depois do acidente, conhece o inferno. Até Richi, o cachorrinho de Valeria, assume a depressão e o desespero da dupla de recém-casados. El Chivo é uma testemunha do acidente. Ex-guerrilheiro comunista, atual matador de aluguel, ele é o modelo do desencanto e da amargura. Corre para o local do acidente, mas a única vida que lhe interessa ali é a de Cofi. Curiosamente, é o cachorro que perturba a sua vida, dando-lhe a chance de se reconciliar com o passado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Boca Maldita: Café, futebol & mulher

O lugar reúne gente famosa, influente. Antigos políticos, professores, jornalistas e até escritores têm no Boca espaço cativo

A história do Boca Maldita ou Café do Paludo, é uma história de várias bocas. Cheguei ao lendário café pouco depois das 9h de quinta-feira. “Aqui é o Boca Maldita?”, pergunto a um grupo de homens, que estavam sentados debaixo do toldo com a inscrição “Café Expresso”, na Getúlio, lendo jornal e botando as fofocas em dia. Edimar Ribeiro, aposentado, dono de uma empresa de transportes e turismo, é quem tira a minha dúvida. Ele diz que ali é o lugar certo para falar em futebol e mulher, enquanto se pode tomar um belo café expresso. “Café, futebol e mulher. Mas, mulher, deixa fora”, brinca.
Freqüentador assíduo há 20 anos do histórico café chapecoense, quando não está viajando, bate ponto no Boca Maldita, toda manhã. São 20 minutos diários dedicados ao cafezinho, entre às 8h e às 9h. “Eu gosto do Boca porque encontro com o pessoal. A maioria aqui é amiga. Jogamos conversa fora, lemos o jornal e, às vezes, sai alguma coisa interessante das conversas. Falamos de tudo um pouco. Faz bem para o dia-a-dia. Ando meio na folga, vou fazer o que?”
O café não é mais do Paludo, um dos donos mais conhecidos do estabelecimento. Agora, é de Amauri e Elisabete Espíndola. “Você fala com o povo e é: ‘eu vou lá no Café do Paludo’. Ainda é o Café do Paludo, do Alfredo Paludo.” Ribeiro afirma que Amauri, conhecido como “Havaiano”, pelo amor ao time catarinense, briga com os clientes por conta do time do coração. “Ele é havaiano doente”, comenta.
Pudera, o assunto que mais rola no balcão, bancos e banquetas do Boca é a Chapecoense, Grêmio e Internacional. “Aqui, é o lugar dos ‘expressadores’ de opiniões. Aqui, todos têm razão.” Quando o time de algum dos freqüentadores perde, aí é gozação generalizada, pegação no pé sem tamanho. Edimar fala que prefere escutar. “Eu mais escuto do que falo. Leio jornal. Porque não dá para se envolver em todas as discussões. Tem horas que você acaba discutindo. Todo mundo quer ter razão, todo mundo sabe, e aquele que fala demais é o que sabe menos.” Ele estranha a falta dos colorados naquela manhã. “Os colorados fugiram. Estou estranhando que não tem ninguém. Como o Inter perdeu ontem, os colorados não apareceram, porque é só pegação no pé.”

Figuras ilustres

O lugar reúne gente famosa, influente. Antigos políticos, professores, jornalistas e até escritores têm no Boca espaço cativo. Um dos freqüentadores assíduos é o personagem impagável, Katielly Lanzini, que se inspira nos papos do Boca para escrever o Diário Chapecó Urgente. Antigamente, o mendigo conhecidíssimo na cidade, “Tuté”, também freqüentava o café. O mendigo ganhou até coluna no Jornal Folha do Oeste.
Logo, o café recebe uma outra figura ilustre, famosa, formadora de opiniões: Nelson Badalotti. “Quer que eu fale sobre a sua pessoa?”, indaga. “Não, não. Muito obrigada. Eu já sei de mim.” Como se não bastasse, quer que eu conte alguma fofoca. “O que nós sabemos não interessa; queremos saber o que você sabe.” Parente do “cara do esporte”, infelizmente, como diz, Badalotti conta piada, no meio da entrevista.
Em frente a ele, Milton Lunardi, que não estava muito para papo com jornalista naquele dia. Mas, dá a dica: aponta uma placa, com informações valiosas sobre o lugar: “Boca Maldita de Chapecó. Reduto de formadores de opiniões aptos a discutirem assuntos de todos segmentos da sociedade moderna. Homenagem do proprietário Alfredo Paludo a todos os membros da academia dos imortais da Boca Maldita. Chapecó, Janeiro de 1997”. Além disso, mostra uma caricatura na parede do café. Uma obra de arte em couro, dotada de uma língua enorme, que não deixa incertezas sobre a fama assumida do café.
“Tu viu o que o Flamengo fez? Moeu a pau”, chega um novo cliente em estardalhaço. “Tudo bem, Nelson?” “Dia” para lá, “dia” para cá. Aperto de mão aqui, outro ali. “Vocês conhecem meu sobrinho? Polícia federal em Florianópolis. Ele é o ‘multador’ da estrada. Esse é o que pega a gente. É esse!”
Peço se as mulheres têm medo de passar por ali, medo de virar notícia. Para Nelson, o Boca é como um confessionário. O que rola debaixo do toldo, fica no toldo. “Aqui tem mais fama do que qualquer outra coisa. Os assuntos são seriíssimos. Embaixo desse toldinho aqui, o que a gente fala tem que morrer aqui dentro. Isso é norma.” Nisso, chega o escritor Silvério da Costa. Conversa vai, conversa vem, ganho um livro autografado do escritor que fez questão de fazer a foto da orelha da obra no Boca. O presente é “Trilhos Cruzados”, lançado em 2010, que marca os “20 e tantos anos de poesia” do “Portuga”, como é conhecido no lugar.

“Entrevista” com café

Ao lado da Livraria Cometa, também antiguíssima na cidade, e de uma banca de jornais, o Boca Maldita abriu por volta de 1976, segundo o primeiro proprietário, Honorino Antonio Gasparetto. Os proprietários atuais estavam bem inacessíveis. “Ah, essa vida de repórter. Tenho que ser humilde, insistente e conquistar as fontes todos os dias. Uma enxurrada de ‘nãos’. Nunca querem falar ou tirar fotos”, descontraio. Elisabete solta um sorriso, mas mesmo assim, não quer saber de entrevista formal. Estava muito ocupada e o esposo não se encontrava.
Faço o meu pedido. Café expresso, fraco, com leite e um pouco de canela. Já que me torno cliente, tenho mais chances com Elisabete que, depois de algumas tentativas, conta que veio de Palhoça, preservando o sotaque, e que trabalha no Boca Maldita há três anos. Uma mulher, no meio de tantos homens, no meio das línguas que são mais afiadas do que as de salão de beleza. Ela não fala nada, mas nem precisou. O próprio café fala por si.