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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

James D.

James D., discípulo de Charles B., O Ébrio, sempre desembarcava na estação e sentia que algo lhe faltava. Mas o que lhe faltava? Diriam os psicanalistas que sua compulsão desenfreada pelos cigarros conotaria claramente a falta do seio materno, substituído pelos seios de uma qualquer, sem amor, sem calor de mãe. Sempre embriagado, as máscaras lhe ficavam tão bem que parecia possuído. Inventava amores & histórias com cada uma das meretrizes da taberna que freqüentava para maquiar a sua dor carnívora & incansável. Por vezes, raras vezes, colocava-se a vomitar seus mais verdadeiros & rochosos sentimentos sob os seus colos já suados, desde que a quantidade de álcool fosse tão severamente alta que pudesse desmanchar suas muralhas tão bem feitas.
Suas antigas esposas assombravam-lhe a mente. Todas haviam o deixado pois não podiam amar um pobre coitado, alcoólatra, fracassado que não era capaz de satisfazer os menores de seus anseios materiais, nem a mais suave das pressões sociais que declinavam-se sob seus ombros cansados. Mas havia uma em especial, sua primeira esposa, seu primeiro e único amor: Gertrude, A Perversa. Gertrude o deixara depois de tê-lo atormentado por cinco longos anos com suas críticas mordazes & ferrenhas. James D. era um fantoche em suas mãos cheirosas. Fazia tudo o que ela queria. Cortara seus longos cabelos, aparava a barba minunciosamente a cada manhã, deixara a literatura, sua amante mais irresistível, e foi ter com um emprego penoso & massante.
Mesmo assim Gertrude não estava satisfeita. Dizem as más línguas que ela tinha um romance com o Luis, o Açougueiro. Como devem saber os açougueiros são os melhores amantes, assim como as enfermeiras & seus bustos fartos.

(Texto provavelmente sem fim)

revival

a partir desse post, vou postar alguns textos antigos que achei. interessante para confrontá-los com o estilo atual.

um beijo a todos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

John Lennon: a paixão que sobrevive

















Após 30 anos da morte de John Lennon, o líder dos Beatles continua fazendo parte da vida de Paulo e do filho Paulinho, integrante das bandas Mister Magoo e Power Trio


Filho do vendedor de bananas Osvaldo – dono da primeira fruteira da cidade, onde fica hoje a Nostra Casa – Paulo Dorvalino Franzmann odiava ser chamado de “bananeiro”. Chegava a fingir que não era com ele quando ouvia o apelido por aí. Até que depois de um grande sucesso de Jorge Ben, regravado pelos Incríveis, “Vendedor de Bananas” (Olha a banana / Olha o bananeiro / Eu trago bananas prá vender / Bananas de todas qualidades / Quem vai querer), Paulo e seus amigos da banda The Jokers resolveram adotar o nome Os Bananas.
“Bananeiro”, hoje com 59 anos, nascido em 26 de julho de 1951 em Chapecó, era guitarrista e vocalista da banda “rebelde” chapecoense de rock Os Bananas, surgida em 1967. “Aquilo que a gente não gostava quando éramos bem jovens, virou a nossa marca”, conta o roqueiro. A banda durou aproximadamente cinco anos. Costumavam fazer covers de bandas que gostavam, inclusive dos Beatles. Faziam show-bailes, tocando por cinco horas a fio. “Era para curtir e para dançar. Uma banda de baile, com repertório grande”, comenta o ex-integrante de Os Bananas, que chegou a gravar algumas fitas K7 na época.
“Um ser totalmente estranho”, influenciado pela Jovem Guarda, Paulo, um garoto de cabelos compridos e roupas extravagantes, alvo de discriminação, preconceito e até violência na Chapecó dos anos 60 e 70, foi uma das maiores inspirações do filho Paulo Ricardo, o Paulinho, integrante das bandas Mister Magoo e Power Trio, nascido dias antes da morte de John Lennon (Liverpool, 9 de outubro de 1940 — Nova Iorque, 8 de dezembro de 1980) em 18 de novembro de 1980. “A nossa banda acabou bem antes dele nascer. Por um tempo, houve um silêncio. O violão, até ele ter uns 14, 15 anos, ficou guardado. De repente, ele descobriu o violão. Foi até um motivo para eu buscar o instrumento de novo.”
Fãs inveterados dos Beatles, principalmente de John Lennon e Paul MCcArtney, Paulo e a esposa Beatriz, casados há 40 anos – na época, ela com 15, ele com 19 –, embalavam Paulinho e a filha Lilian Paula ao som dos meninos de Liverpool. Os dois não entendem o silêncio com que os filhos são criados pelos pais de hoje. “O vinil ficava rodando o dia inteiro, com eles pequenininhos”, diz Paulo. “O ninar era ao som do Rock and Roll”, complementa Beatriz, recordando do tempo em que estava grávida de Paulinho, quando costumava ouvir Paul MCcArtney. “Paulo até fazia serenata para mim com as músicas do John Lennon!”, prossegue a esposa. Se conheceram na boate do Chapecoense: ele tocando, ela admirando. “Ele tinha uma outra namorada, mas eu olhei, olhei e olhei e ele ficou comigo.”
Beatles, banda formada em 1960, foi uma verdadeira explosão, na definição de Paulo. “Imagine, a gente, longe, aqui no interior, a dificuldade que havia para conseguir um disco. Sorte que tínhamos amigos que traziam de fora. Não havia a facilidade da internet. Essa facilidade que tem agora, de chegar em frente ao computador e de baixar tudo o que quiser. Para tocarmos as músicas na banda, tínhamos muita dificuldade, porque precisávamos ouvi-las várias e várias vezes para tirarmos a letra. Não tinha letra impressa. Mas, como a gente era fã e gostava muito, valia o esforço. Passávamos o vinil para a fita K7. Repetíamos cem vezes para entender a letra direitinho.”
Quando o casal soube da morte de John Lennon, foi um impacto muito grande. “A maneira como ocorreu foi chocante. Ele era novo ainda (40 anos), e saber da forma como ele morreu, justamente por um fã, alguém que dizia adora-lo, foi muito forte.”
Após 30 anos da morte de John Lennon, que teria hoje 70 anos, o líder dos Beatles continua fazendo parte da vida de Paulo. “Lennon era o mais rebelde. As letras dele eram mais fortes, mais políticas. A própria presença dele era forte, com o cabelo longo mantido durante muitos anos. O Paul tinha e tem uma linha mais comportada.”
Para “Bananeiro”, “um garoto do interior”, os Beatles e John Lennon representaram uma espécie de descoberta. “Ninguém me falou deles. O meio de comunicação que tínhamos era o rádio AM. Aquilo bateu no ouvido e marcou. Havia muita dificuldade para conseguir as músicas, que chegavam depois de muito tempo em Chapecó. Hoje, toda essa moçada tem influência, nós não tínhamos essa raiz do rock.”
Os discos de Paulo e Beatriz agora estão com Paulinho – que foi representar a família roqueira no show do Beatle Paul recentemente. Mas nem por isso o pai deixa de ouvir os ídolos (e ídolos dos ídolos: Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard). Ouve no carro e baixa no computador suas músicas favoritas.
Quando morrer, Paulo quer como trilha sonora a música composta por Ben E. King, Jerry Leiber, Mike Stoller, “Stand By Me”, regravada pelo ídolo John Lennon. “É um som que vai ser preservado para sempre. Com 40, 50 anos da morte de Lennon, o som vai permanecer. Daqui 50 anos, ainda vão cantar e tocar Beatles e John Lennon.”

“When the night has come

And the land is dark

And the moon is the only light we'll see

No I won't be afraid, No I won't be afraid

Just as long as you stand, stand by me”


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mais longe do que a vista possa alcançar

Palhaça Barrica irá participar do II Encontro de Palhaças de Brasília entre os dias 9 e 19 de dezembro, na mesma semana em que é comemorado o Dia do Palhaço: 10 de dezembro

Reconhecida e feliz. É assim que a nossa querida Palhaça Barrica se sente por participar do II Encontro de Palhaças de Brasília, entre os dias 9 e 19 de dezembro. Será na UnB (Universidade de Brasília) e na sala Matins Pena, do Teatro Nacional Claudio Santoro, na mesma semana em que é comemorado o Dia do Palhaço: 10 de dezembro.
“Para mim, é uma grande alegria saber que a Barrica pode me levar para mais longe do que a minha vista possa alcançar”, comenta a palhaça. “Ir para Brasília apresentar a Barrica para outros públicos, conhecer outras palhaças, trocar estas ideias, é muito enriquecedor”.
Barrica conheceu as organizadoras do encontro no Rio de Janeiro, quando participou do “Esse monte de mulher palhaça” – o terceiro do mundo com foco nas mulheres palhaças. Ela é a única palhaça chapecoense a fazer parte do evento, realizado a cada dois anos, que tem ênfase na palhaçaria feminina. Entretanto, nos chamados Cabarés, espetáculos em que há vários números diferentes, haverá espaço para homens.
O intuito do encontro é descobrir, conhecer, reunir e divulgar a palhaçaria feminina. Nele, irão participar palhaças de todo o Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Santa Catarina) e também uma palhaça da França. Barrica se apresentará em um Cabaré, com um número de Sidney Magal; e no Restaurante da UnB, com o solo “Poráguabaixo”, criado e atuado por ela e co-dirigido pela atriz e diretora chapecoense Inajá Neckel. Haverá oficinas de palhaças, lançamento de livro, saídas de rua e fóruns de discussão sobre a arte da palhaçaria feminina.
“No Rio, no ano passado, se criou A GRUPA – Rede de Palhaçaria Feminina. Essa rede visa levantar questionamentos sobre a atuação da mulher palhaça, já que durante muitos anos, quem dominou a cena, o picadeiro, foi o homem palhaço. Agora, de uns anos para cá, este movimento tem crescido e ganhado espaço. Discutiremos sobre esses assuntos. Não será só palhaçadas”, brinca Michelle Silveira da Silva, quem está por trás da Missiê Barrica.
Recentemente, Michelle criou o blog “Palhaçaria Feminina” <http://mulherespalhacas.blogspot.com>. “Ele está sendo bem procurado. Já tem palhaças chegando de vários lugares do país. É uma forma de garimpar as palhaças que ficam atuando perdidas pelo país a fora, longe de nós. Eu adoraria poder um dia fazer em Chapecó um encontro desses”, sonha Michelle, que, com seu humor, quebra qualquer preconceito e discriminação.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Divagações sobre o fracasso ou a “vida real” dos reality shows

Somos todos fracassados, em maior ou menor grau. É desse princípio que parto. Numa dessas conversas de bar, ouvi dizer que fulana era fracassada. Pobre fulana, pensei. Poderiam estar falando de mim no mesmo tom. O conceito de fracasso expressado pelos caras do bar, consistia em alguns pontos principais: fracassado é quem vive com a própria mãe depois dos 20; fracassado é quem não “pega” ninguém; fracassado é quem não consegue emprego e fracassado é quem não se encaixa em um padrão de beleza. O esboço do dito monstro está em partes aí.
Mas vamos olhar para além das paredes sujas. Todos temos intentos que não alcançamos. Não conheço nenhuma criatura que tenha conseguido tudo e acho que nem vou conhecer. Quando temos uma coisa, não temos outra; quando estamos em um lugar, pensamos em estar em outro; quando estamos com alguém, pensamos em como seria se estivéssemos com outra pessoa ou gozando de total liberdade de escolha. E isso segue.
Só para constar minha indignação, viver com a mãe é muito melhor do que viver com um bando de vampiros que se dizem amigos; “pegar” alguém limita as possibilidades do ser humano, tão apto ao amor e aos sentimentos mais complexos, que vão além do mero instinto e dos processos de seleção natural, das aparências; emprego vai e vem e nem todos tem a sorte ou a necessidade de se encontrar com a rapidez de outros e também há quem ache e possa achar a vagabundagem mais atraente, o que também é compreensível; e padrão de beleza é horrendo, justamente por limitar, excluir a maioria.
Para aumentar a minha ira, que já estava em níveis extremos, ouço dizer que os reality shows são bons porque tratam da verdade. É o lance da vida como ela é, o lance da vida real. Pelo amor de Deus. Que vida real? Comer e beber do bom e do melhor por três meses em um casarão, ter direito a festas homéricas e suporte para quedas o tempo todo em desafios forjados, isso é a vida real? Artistas de merda cuidadosamente selecionados dentro de um padrão ridículo, são a vida real? Acordem, por favor. Não preciso dizer que na vida real pessoas passam fome, não têm casa e se quebra a cara valendo, sem almofada anti-impacto. Pessoas reais são imperfeitas. Se isso é vida real, não é a minha vida. Nem a da maioria dos brasileiros. Pensei que nunca precisaria dizer o que estou dizendo hoje, mas pelo visto a alienação impera e me obriga a falar o óbvio.
Perdi as estribeiras com essa história toda. Não tenho mais paciência para as pressões sociais, para o capitalismo, para o ocidente, para o século 21. Seres humanos desse espaço e desse tempo me assustam. Aqui, igualdade só existe na Coca-Cola. Vou explicar através de Andy Warhol, ícone da Pop Art. “O que este país tem de bom, é que a América estabeleceu uma tradição, segundo a qual os consumidores mais afortunados compram essencialmente as mesmas coisas que os pobres. Quando se está vendo televisão, bebe-se Coca-Cola; sabe-se que o presidente bebe Coke, Liz Taylor bebe Coke e, então, a pessoa pensa consigo mesma que também pode beber Coke. Nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar uma Coca-Cola melhor do que a que o mendigo está bebendo na esquina.”
Não há cansaço em tentar copiar o que vemos, feito cães em frente à padaria, de olho no frango? Achei que houvesse. Há em mim esse cansaço, essa confrontação enjoativa do ideal com o real, há em mim essa vontade de ser eu mesma e de mandar à merda quem não é capaz de admitir suas topadas com o fracasso. E vou: vão à merda.

dança do universo

abri a porta da rua. me deparei com a chuva molhando o jardim tão verde na luz da manhãquasetarde. na grama, novos habitantes me saudavam. tenros cogumelos brancos & lilases nasceram na madrugada chuvosa. na caixa do correio, a minha surpresa: o jornal úmido me esperava, contando as minhas & as nossas histórias. na noite anterior, eu era só cansaço. pensava na morte como solução para o marasmo e para a maldade, transvestida de boa moça. então pensei que se eu tirasse a minha vida naquela madrugada, mataria todas as outras madrugadas que poderiam chegar, tão melhores do que aquela. preferi o sono, essa quasemorte de todos os dias. eu, que não olho para as paredes do mundo; eu, que penetro sempre e toda na essência; eu, que me despedi das aparências há tantos anos, continuo viva. tola, me contento com o alvoroçar de pelos do meu cachorro no jardim de manhã cinzenta. sempre fui assim, amada. e sempre amei. a natureza é meu refúgio, é a obra mais perfeita que meus olhos captaram nas galerias do mundo. ontem conheci a dança do universo. eu era apenas uma noite vazia, mas a conheci. e ela pegou na minha mão e me rodopiou em um tango de piazzola. ontem eu beijei fundo o universo e sequer saí de casa.

“Mamãe não voltou do supermercado”

O livro desconfortante de Mário Bortolotto, “Mamãe não voltou do supermercado”, é meu escolhido dessa semana. Publicada pela Editora Alaúde, em 2006, a obra marca a estréia do autor de Londrina, Paraná. Bortolotto, através de seu livro, virou as costas para os clichês acadêmicos e deu um soco no estômago dos leitores. Olhou direto para a alucinação da rua, descrevendo a selvageria que habita nesse ambiente. Personagens que vivem em um meio em pleno contraste com o mundo do consumo vivenciado por outros.
A mãe de Caio sai para comprar açúcar e café no mercado da esquina e não volta mais, levando dois tiros na testa. Disso, surge o estopim do “passeio pelos infernos” de “Mamãe não voltou do supermercado”. Caio então se mune de um 38 e parte para a sua vingança, em uma verdadeira odisséia pelo submundo.
“Eu não gosto de rodoviárias. Não gosto de ônibus. Preferia um opala quatro portas, o banco de trás abarrotado de latinhas de cerveja, uma fitinha de Chuck Berry rolando e tava limpo. Sou um cara sem muitas aspirações, mas não gosto de ônibus. Os passageiros subiram. Percebi que também ia ter que fazer o mesmo. O meu banco era o último, perto do banheiro. Fui andando pelo corredor arrastando minha carcaça renitente e sacando as figuras. Todo mundo com cara de entediado.”
Diferente dos heróis antigos, Caio tem métodos nada louváveis, caracterizando o personagem mais como um anti-herói do que qualquer outra coisa, que deixa seu rastro de sangue por Londrina, Foz do Iguaçu, Ourinhos, Cuiabá e São Paulo. Apesar da semelhança com a realidade, se trata de uma obra ficcional.
O autor nasceu em 1962, em Londrina, mas mora atualmente em São Paulo. Seu estilo se assemelha ao de Charles Bukowski e Jack Kerouac, assim como os ambientes escolhidos, com a diferença de que são lugares familiares aos leitores brasileiros.
Mário Bortolotto é conhecido como ator e dramaturgo, tendo encenado e escrito quase 50 peças, entre elas “Homens, Santos e Desertores” e “Nossa Vida não Vale um Chevrolet”. Escreveu ainda o romance “Bagana na Chuva”, o livro de poemas “Para os Inocentes que Ficam em Casa” e o livro de textos jornalísticos “Gutemberg Blues”. É também vocalista e compositor da banda de jazz-blues “Tempo Instável”.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amar um jornalista é...

Não se importar em passar o Natal sem ele, o carnaval sem ele, o aniversário sem ele.

Ficar acordada até as cinco esperando ele chegar do pescoção.

Empurrar o carro velho dele que sempre quebra de madrugada.

Suportar os amigos dele que não param de falar de jornalismo na mesa do bar.

Tolerar as reclamações de salário ruim, pauta ruim, editor ruim.

Acompanhá-lo em trabalhos free lance no sábado à noite ou domingo bem cedo.

Ler as matérias horríveis dele e dizer que ficaram ótimas.

Passar o feriadão em Paranapiacaba, uma charmosa “vila inglesa”, enquanto suas amigas casadas com homens do mercado financeiro vão passar o feriadão em Londres.

Achar graça quando ele interrompe a transa para atender o pauteiro no celular.

Ouvir as histórias fantásticas da carreira dele quando vocês dois ficarem velhinhos sem dizer “querido, você já contou isso um milhão de vezes”.


{E aí, candidatos? Hahaha!}


(Do blog "Desilusões Perdidas" http://desilusoesperdidas.blogspot.com/)

Cine Sesc apresenta: “Edifício Master"
















A equipe bate na porta, pede licença e entra nos apartamentos, já com a câmera ligada

O Cine Sesc apresenta hoje (30), o filme “Edifício Master – Um filme sobre pessoas como você e eu”. Será no Sesc (Serviço Social do Comércio) Chapecó a partir das 20h. Produzido em 2002 pelo cineasta Eduardo Coutinho, o filme é um documentário, do gênero drama. É um filme livre para todos os públicos, que chega até o Sesc Chapecó através da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.
A Programadora Brasil, segundo o site do órgão, é um programa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, desenvolvido por meio da Cinemateca Brasileira e do CTAv (Centro Técnico do Audiovisual). Disponibiliza filmes e vídeos para pontos de exibição audiovisual de circuitos não-comerciais para promover o encontro do público com o cinema brasileiro. Ação para formar platéias, o pensamento crítico em torno da produção nacional, a Programadora Brasil representa a contribuição com a formação intelectual, social e cultural dos brasileiros.
No Sesc Chapecó, há dezenas de filmes provindos da Programadora Brasil, que traz filmes históricos, contemporâneos, muitos deles submetidos a um processo de tratamento. Filmes do melhor do cinema brasileiro, que são recuperados, passados para o DVD e exibidos gratuitamente ao público de todo o Brasil.
Cleber Bicigo, auxiliar da biblioteca do Sesc assistiu ao filme. “O edifício é antigo. Faz parte da mitologia urbana do Rio de Janeiro. Um edifício popular em um centro cultural e econômico. Um lugar historicamente privilegiado. Mas, ao mesmo tempo, o Edifício Master é um lugar à parte.”
Ele conta que o Edifício Master era conhecido pelas casas de massagem. “A promiscuidade, a prostituição eram muito grandes. Com o passar do tempo, com o trabalho dos síndicos, esse pessoal foi expulso. Depois disso, o Edifício Master se tornou um edifico residencial. O interessante é a abordagem atual do lugar, com a participação de pessoas de todas as procedências possíveis e imagináveis.”
A equipe bate na porta, pede licença e entra nos apartamentos, já com a câmera ligada. Conforme a recepção das pessoas, se dá ou não a entrevista. “Apartamentos pequenos que têm muito de clausura. São pessoas (homens, mulheres, de todas as idades) que vivem em uma megalópole, muitas delas sozinhas, numa espécie de confinamento, como se não conseguissem se inserir naquele meio.”

SINOPSE

Durante sete dias, uma equipe de cinema filmou o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana, a um quarteirão da praia. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. O diretor Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas.

Don´t Smoke In Bed


Por Guido Brasil

Manhã cinzenta num domingo de maio. Entre quatro paredes de um quarto onde tudo deveria ser perfeito, chorei. Com cuidado para não acordar você, sem conseguir entender os motivos daquela solidão, tentei me mexer na sua cama. Despedi-me de sonhos antigos. Suspirei e sufoquei qualquer som vermelho e, pela última vez, senti o sabor de um desejo. Então encolhi meu corpo. Abracei minhas pernas. Estava frio.
O mundo em desalinho e alguém tentando, de alguma forma possível, acertar os passos, sem conhecer os passos. Uma batalha interna. Um abismo. Eternamente na contramão.
Levantei da cama, vesti o seu casaco, sentei na cadeira. Olhei para você e vi o seu sono tranquilo. Pensei em gritar seu nome. Não gritei. Cruzei as pernas, acendi um cigarro, olhei pela janela e encontrei a cidade despertando. Os vultos nas outras janelas. Os carros na rua lá embaixo. Lembrei uma canção antiga, uma canção que eu amava, uma canção antes de você. Procurei pelos versos já esquecidos. Novamente senti dor. Não consegui levantar, catar as minhas coisas e sumir. Pela milésima vez, eu não consegui.
O show, eu sei, pode se transformar no circo dos horrores. Mas, enquanto alguma coisa aqui dentro durar ou eu não encontrar a minha sentença, você sempre terá um café da manhã aos domingos. Bom dia.

(Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26)

tente


tentar não é conseguir, baby. mas sempre se tenta.

admita a sua ignorância enquanto há tempo
















quanto maior a ênfase e o escárnio que se fala algo, mais se faz temer. quem fala com inflamação quer meter medo e mostrar que sabe e persuadir o outro com o que acha que sabe. mas quer saber? ninguém sabe porra nenhuma desse mundo. admita a sua ignorância enquanto há tempo.

não tenho mais idade para bancar deus

existe uma diferença básica entre eu e outros do meu tempo: o egocentrismo. me disseram semana passada, que o que me sobra em percepção, me falta em egocentrismo. me falta estima por mim. não saio por aí vomitando minhas verdades, esfregando elas nas caras que encontro. não as escancaro como se elas fossem as únicas. me falta a propensão para o embate. me falta a arrogância e a prepotência de outros do meu tempo. não olho para o outro, antes de olhar para mim, em uma espécie de egocentrismo invertido. minha seta está apontada para dentro. me falta a predisposição ao discurso. claro, nem sempre fui assim. costumava encher a boca de verdades e proliferá-las aos sete ventos. mas, sabe, nessas noites quentes e embebidas de chuva, no meu quarto com adoniran barbosa, cigarros e o ventilador agitando ideias, só o que vem de mim me interessa, no sentido de me conhecer, me descobrir, me desvendar. se precisar machucar, machuco a mim. coisa de escorpiana, quem sabe. sei que vejo meus feitos tortos contrapondo os retos e noto que quem deve ser alvo das setas, sou eu. percebo que é tão fácil apontar a seta sangrenta no alvo vizinho, tão fácil. rir com escárnio da cara alheia. por isso, faço o caminho contrário. me chamem de tola, mas vejo que todos nós, que nos colocamos nessa grande obra de arte da vida, tentamos fazer o melhor. não acho digno julgar o outro, como se eu fosse divindade encarnada. é claro que penso, falo sozinha ou desabafo os horrores que vejo, mas tento impedir que os horrores cheguem aos ouvidos de quem tenta, como eu, passar pelo mundo e deixar algo. não me digam que não há intento ao escrever, ao pintar, ao cantar. sempre há intento. estamos longe da reta ação. estamos todos incluídos em cidades doentes. até podemos tentar brincar de divindade, mas somos primitivos e buscamos, sim, algum reconhecimento. não tenho mais idade para bancar deus e quando cavalgo no vento de mim, olho para dentro o tempo todo. enquanto cavalgo e penso e escrevo sem pensar, meu destino é in. estou cravada no meu ritmo, tento acompanha-lo, faze-lo chegar ao ápice de tudo. quanto aos outros, dou a eles o que querem. se querem a minha morte, minha morte aparente eu dou. mas eu renasço, baby, renasço em mim a cada nova manhã. e só estou começando. ainda vou incomodar e muito, apenas por existir e respirar e cavalgar para dentro. não li mil livros, não sou historiadora, filósofa, psicóloga ou jornalista. sou um ser humano como qualquer outro, numa viagem louca sem roteiro. se incomodo, é uma pena. sou melhor como amante do que como combatente. dou a minha indiferença (sem) querer. tento encontrar uma compreensão que se eleva ao meio termo. não andar mais nos extremos, do amor e do ódio. o extremo é burro. ouço o chamado da vida, que é maior do que todos os métodos, do que todos os conceitos. um chamado que ouço e sigo só, para santo não entediar ou provocar ira. viajo sozinha porque a paisagem me enche os olhos e me cala. a vida é maior do que as palavras, do que a linguagem. desde pequena, duvidam que sou eu mesma quem escreve tais linhas. nunca tentei provar, apenas continuei escrevendo. mais do que as minhas palavras, é o meu silêncio. e o silêncio é sempre maior. e quanto mais escrevo e calo, mais machuco sem querer. por que? pergunte aos atiradores de seta o motivo do ódio e da desconfiança. estou vivendo a minha viagem há 27 anos, só dela eu sei. pergunte aos letrados, historiadores, filósofos, psicólogos, psicanalistas, jornalistas, escritores e poetas do meu tempo, o motivo de eu incomodar apenas por ser eu. uma criatura ignorante tateando o mundo com dedos em ferida viva, vestida de pele, tecido encarnado. pergunte a eles o motivo. aos sábios magoados, aos intelectuais, aos budas e cristos. por que alguém, que nem coragem tem para publicar um livro, pode ser tão temido e odiado? sem falar, já alvoroço as mentes. falando, então, deverei ser morta no primeiro verso. então, que seja. um brinde à minha perdição e morte. um brinde à mim, que fiz jazigo nas telas brancas da modernidade. o mundo todo pode pisotear o que sou, mas ainda assim serei eu. de mim, ninguém me tira.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Dos diários de Anaïs Nin


Um encontro que a levaria para a psicanálise. Assim foi a conjunção da escritora Anaïs Nin (1903-1977) com o escritor Henry Miller e sua mulher June. Henry & June é parte dos diários não-expurgados de Anaïs Nin. Considerado o melhor livro da autora (melhor ainda do que Delta de Vênus e Uma espiã na casa do amor), foi lançado originalmente após a sua morte, no ano de 1980.
Henry Miller, que escrevia Trópico de Câncer, foi o responsável por um certo florescer sexual de Anaïs, casada com o banqueiro Hugh Guiler (Hugo). O relato apresenta um período intenso, do final do ano de 1931 ao final de 1932. Tempo em que a escritora se manteve em Paris e se apaixonou pela beleza de June, além de é claro, se encantar pela escrita e pela rudeza de Henry. Desse affair, surge a liberação não só sexual como moral da autora.
Um livro em que não se distingue realidade de ficção, carregado de um texto forte que caracterizou Nin. “Fiquei assombrada. Lembrei-lhe de como as primeiras palavras que lhe escrevi depois de nosso encontro quase foram: ‘A montanha de palavras se rachou, a literatura caiu por terra’. Quis dizer que os verdadeiros sentimentos tinham começado – e que o intenso sensualismo da escrita dele foi uma coisa, e a nossa sensualidade juntos foi outra, uma coisa verdadeira.”
Em 1990, Henry & June foi adaptado para o cinema. No filme, Maria de Medeiros interpreta Anaïs e Uma Thurman faz o papel de June.
Criadora da frase “a vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo”, Anaïs Nin mostrou que a vida pode ser bem mais do que nosso contexto cultural impõe. Nin é conhecida como a precursora das lutas pela emancipação sexual da mulher. Nascida em 21 de fevereiro de 1903, em Neuilly, próximo a Paris, Anaïs veio de uma união no mínimo interessante: seu pai, Joaquín Nin, foi pianista e compositor espanhol e sua mãe, uma dançarina franco-dinamarquesa.
Foi amiga de várias figuras célebres, entre elas D. H. Lawrence, André Breton e Antonin Artaud. Anaïs morreu em 14 de janeiro de 1977, em Los Angeles, no solo norte-americano, onde muitos anos antes iniciou o famoso diário, que ao final de sua vida atingiu dezenas de volumes.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

27

minha mão está seca. sabia que esse dia iria chegar. ela não tece mais, vê? ela rasga espelhos, ela torce imagens, mas ela não tece. quando ouço billie holiday, a diva do jazz, de dentro do carro, e vejo aqueles botecos sobreviventes noturnos, eu já não abro meus olhos com encanto. vê, meus olhos não tecem mais. e quando vejo um ser que me faria bater mais forte o peito, eu logo esqueço, pois, vê, meu peito não tece mais. desde os malditos 27 feitos, desde o maldito livro impresso, eu não teço, apenas tateio a dita nova fase. eu perdi, eu morri, vocês estão certos. vocês, montados nessa arrogância destrutiva, estão certos. cavei minha cova das letras. vê, aqui jaz a sombra pútrida do que fui. sente, o cheiro de coisa velha e morta invade o ar. não, não. não escrevo mais. não, não. não vejo mais. não, não. não me apaixono mais. centaura alada, sagitário minando o mapa, os planetas, o descendente filosófico me trouxe até aqui. mas vê, ele não quer mais imperar. sinto a necessidade de comunicar, mas comunicar o que? os gêmeos ascendem e requerem as palavras, mas eu não as tenho para dar. não sou como vocês, que falam sem saber o motivo. só falo o que a psiquê me diz, o que meu corpo tem de pérolas do espírito, só falo dos mitos manifestos, das musas que carrego e atraio. mas agora, agora tudo é passado. meu eu-divino espera o caminhante que me trará uma nova história para morar no peito, nos dedos e nos olhos. mas vê, ele tarda a chegar. e eu nunca fui tudo aquilo e nunca serei. serei apenas eu, embriagada de eus. para sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O amor é uma arte


O livro pode ser antigo, mas é atemporal. A edição que tenho em mãos é do ano de 1971, publicada pela Editora Itatiaia, mas o li como se tivesse sido lançado ontem, afinal, trata do amor – esse sentimento universal que vai além dos vincos das datas. “A Arte de Amar” traz o sentimento esmiuçado pelo raciocínio privilegiado do psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, Erich Fromm (1900-1980).
Ele acredita que dedicamos tempo demais tentando ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o amor é visto como um luxo, pois “só” traz proveito à alma. E diz mais: se um músico, médico ou carpinteiro precisa aprender a arte da música, a arte médica ou a arte da carpintaria antes de exercer sua função, porque, antes de tudo, não aprendemos a amar, já que todos nós estamos sujeitos a dar e receber amor? Acreditamos que já nascemos prontos nesse aspecto, mas Fromm mostra que nos falta muito discernimento sobre o que é o amor.
Nossa tendência é suprir necessidades: a necessidade de superar a separação, de deixar a prisão em que se está só. Chegamos a ver o outro como mercadoria. “Assim, duas pessoas se apaixonam quando sentem haver encontrado o melhor objeto disponível no mercado, considerando as limitações de seus próprios valores cambiais.”
Em uma de suas passagens, o autor descreve com precisão o que acontece quando julgamos amar alguém. “Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos somos, subitamente deixam ruir a parede que as separa e se sentem próximas, se sentem uma só, esse momento de unidade é uma das mais jubilosas e excitantes experiências da vida. (...) Contudo, tal tipo de amor, por sua própria natureza, não é duradouro.”
Fromm aponta que após as duas pessoas se tornarem mutuamente conhecidas, a intimidade perde o caráter miraculoso, o que mata a excitação inicial. A “loucura” da primeira fase dos relacionamentos, é espelho de uma grande solidão anterior. No frenesi de ansiedade causada pela separação, do vazio que sentimos desde o nascimento, buscamos a chamada “metade”, como se pudéssemos encontrar no outro tudo o que nos faltava, o que gera ainda mais ansiedade e frustração.
Ressalta ainda que a procura pelo orgasmo reveste-se de uma função semelhante ao alcoolismo e do vício em drogas. “Torna-se uma tentativa desesperada para fugir da ansiedade engendrada pela separação”. Dessa forma, Fromm observa que “o ato sexual sem amor nunca lança uma ponte sobre o abismo entre dois seres humanos, senão momentaneamente.”

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Os Amantes do Café Flore


Sorbonne, Paris, 1929. Simone de Beauvoir se apaixona pelo carismático jovem gênio, um rebelde contra os valores burgueses: Jean Paul-Sartre. Juntos, eles embarcam numa viagem erótica e emocional. Depois de vinte anos na profunda perversão, ela encontra forças para reivindicar sua própria identidade e fama. Em uma viagem pela América, ela conhece Nelson Algren, futuro vencedor do prêmio Pulitzer, e descobre uma nova forma de viver a sexualidade. Depois de se apaixonar, ela escreve seu famoso livro O Segundo Sexo. Ao retornar a Paris, Simone se sente dividida: sem Nelson, sua vida fica vazia, e sem Sartre, sem significado

Formato: RMVB
Tamanho: 442 Mb
Legenda: Português

domingo, 14 de novembro de 2010

A OBSCENA SENHORA D.

“escute, senhora d, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? e apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de ivan ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o tempo.”

hilda hilst

Renda-se


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

Clarice Lispector

I Want You (She's So Heavy)



















I want you
I want you so bad
I want you,
I want you so bad
It’s driving me mad, it’s driving me mad.
I want you
I want you so bad babe
I want you,
I want you so bad
It’s driving me mad, it’s driving me mad.
Yeah.
I want you
I want you so bad babe
I want you,
I want you so bad
It’s driving me mad, it’s driving me mad.
I want you
I want you so bad
I want you,
I want you so bad
It’s driving me mad, it’s driving me mad.
Yeah.
She’s so heavy heavy.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Literatura barata

Prisioneiro das ancas largas de Mildred, Jim Cassidy é um motorista de ônibus com más lembranças, que espera encontrar em Doris a sua salvação. Alcoólatra, ele é um personagem do subúrbio da Filadélfia, de hotéis baratos e bares sórdidos, envolvida por úmidos cais de porto.
“Ele sempre fora atraente para um certo tipo de mulher, o tipo hedonista, e era por seu corpo ser forte, denso, compacto e bastante duro. Aos trinta e seis ele tinha uma rudeza sólida numa estrutura robusta, os ombros largos e musculosos, o estômago liso e firme, as pernas bem grossas e rígidas.”
“A Garota de Cassidy”, obra publicada originalmente no ano de 1951, é um romance noir. Surgido no começo do século XX, o romance noir ou policial, sempre ocupou um lugar menor no meio literário. Considerado pela elite intelectual da época como lixo cultural, literatura barata, desprovida de elementos que levassem à reflexão do indivíduo, criada apenas para o consumo rápido e distração de pessoas “incultas”, esse tipo de ficção, ainda hoje, perambula pelos guetos da história.
Um dos principais livros de David Goodis, “A Garota de Cassidy” trata do amor e da sordidez de vidas sem perspectiva. Violência, desordem, ódio e traição coexistem com atos de amor, afeição e amizade. As relações humanas em um palco de horrores, descrito por Goodis com o tato de grande escritor, reconhecido somente depois da morte. Um verdadeiro templo de perdedores, é o que traz esse mestre do romance noir.
“Talvez café ajudasse. Acendeu o gás sob a cafeteira, sentou-se à mesa e fixou o olhar no assoalho. Virou a cabeça devagar e olhou pela janela da cozinha. A chuva estava amainando e ele podia ouvir sua batida fraca nas paredes e telhados. Se chovesse um mês inteiro, não daria nem para começar a limpar esses prédios miseráveis, ele pensou.”
A Filadélfia foi a cidade em que nasceu o escritor David Goodis, no ano de 1917. Aos 21 anos, publicou o seu primeiro livro. É autor de “Atire no pianista”, “Lua na sarjeta” e “Sexta-feira negra”. Faleceu em 1967.
Barata ou não, a literatura de David Goodis, como a de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James Cain, mostra a podridão de uma terra marcada pelo fracasso, esquecida por tantos escritores de seu tempo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Os dragões não conhecem o paraíso

Por Caio Fernando Abreu

Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.

Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.

Ainda não comecei.

Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.

Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.

Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.

Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.

Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.

Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.

Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".

Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.

Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.

A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.

Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.

Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.

Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?

Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.

Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.

Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.

As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.

Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe.

Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade.

literatura de cabaré

os últimos quatro anos da minha vida passei escrevendo. sinto que é o fim de uma fase. não me pergunte o que virá, mas essa fase, essa literatura de cabaré, está no livro “contos, crônicas & poemas em tempos de caos”. agora, não estou ainda identificando a minha escrita. na verdade, me falta vontade, inspiração. não vou me pressionar, até porque acabei de parir. uma gestação de quatro anos, quatro longos anos de dores e de amores-furacões. se eu não tivesse me submetido às situações que me submeti, certamente não teria essa coletânea de escritos viscerais. bem lembro que antes desses quatro anos eu era mais promessa do que ato. vou me deixar livre, para ver o que virá. aos poucos retorno, espero. um beijo aos que me seguem. enquanto isso, um pouco do que me encanta vindo de outras mãos.