Pesquisar este blog

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

o calhambeque vermelho & a úlcera no estômago

e era assim toda a manhã. aquele monstruoso carro preto acotovelando a garagem, bem em frente ao (meu) calhambeque mignon vermelho, que nas manhãs de inverno não pegava nem com reza braba. cansava de pedir ao dono para que, por favor, fizesse a gentileza de tirar a banheira negra da garagem, dia após dia, e nada.

cidadão era meu chefe, era o cara que podia me dar pelos meus textos uns 350 paus que eu trocaria por uns minutos de paz, sossego, liberdade, solidão e silêncio, tudo o que mais prezo na vida. não bastava o cidadão estacionar no meu acesso a tão sonhada rua: quando eu pedia encarecidamente para que ele tirasse sua extensão ostensiva do corpo da garagem, ele caçoava, ele demorava, ele esquecia, ele fazia brotar em mim um lampejo de ódio indescritível.

e aí então, manhã após manhã, eu, de hora marcada, dava uma volta a pé pela quadra, fumava um cigarro, chutava uma ou outra pedra ou laranja podre e seguia, esbravejando com os meus demônios, bufando, amaldiçoando a raça de todos os chefes do mundo.

não raro, quando eu voltava, estava lá o monumento gigantesco no mesmo lugar. nos dias de sol, era para matar. a raiva minava o meu sangue, que não é de barata, apesar de parecer de quando em quando. eu encarnava a matilda e olhava para aquela caranga diabólica desejando bater nela em todos os ângulos. batia com a mente, na falta de coragem para enfrenta-la com o calhambeque, que só fazia ronronar.

quando a criatura finalmente aparecia, eu já estava parindo um assassino nas ventas, bolando milhares de teorias sobre o motivo daquela atitude horrenda que se repetia todos os dias, independente do meu pedido constante. cheguei a pensar que ele queria mesmo era me ver e ouvir minha voz, já que se não fosse pelo empecilho, eu não cederia um relâmpago sequer da minha presença, nem um uivo da minha voz embrulhada pelo pigarro dos anos. timidez, entenda.

como eu ia dizendo, quando ele aparecia, me chamando de “querida”, estava sempre pronta para xingar a mãe do folgado. mas, todo o dia, vestia uma cara de paisagem e seguia, como se minha paciência fosse um bloco impenetrável de concreto. pegava o calhambeque vermelho e ia, finalmente, engolindo o asfalto, pensando no belo dia em que me despediria da sujeira alheia e pudesse, enfim, ter um canto para morar que não me custasse a paz do estômago.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

(não) abra a janela

me livre desse sentimento incoerente, de querer deixar entrar grandes diabos pela minha janela. me livre dos bichos que usurpam deuses nas florestas detrás das minhas vidraças e fazem das carcaças, máscaras fantasiosas. teus dedos se calaram outra vez. falaram e calaram. tuas palavras fantasmagóricas no vácuo das horas fazem em mim abismo & desejo. e as minhas palavras não lidas são ainda o que me mantém viva. tenho pena de quem te adula e tenho pena de mim, afogada nessa enrascada que me meti, no matadouro de um grande diabo subjugador de mentes em excitação, nesse baile de máscaras & músicas que me perfuram letais. ainda vou morrer nos teus braços, lobo em cativeiro. ainda nos morderemos até ver o sangue inundar nossas bocas que não se desunem. e na noite despida, velada pela ursa maior, casarei minha alma com a tua. bruxa da montanha, arrancarei de ti o delírio do pulso. te espero, com vontade e com medo,

ela.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

patinetes & as férias de outono

não consegui tirar a roupa da rua ainda, nem ver tv. não quero me render ao sofá, enquanto tiver olhos para ler. alguém me explica por que quero uma cama de espinhos? alguém me explica por que só o mal chama os meus olhos? deus, como sou cruel. costumes nefastos de enterrar vivos. falei com ele hoje. e se fosse verdade. e se fosse? e se fosse definitivo? estou comendo meus dedos e arrancando o verniz das unhas para afia-las. talvez eu mude outra vez. por que amar o movimento se ele me causa náuseas? eu não desisto da vertigem. notei que me aliei aos odiados. eu, por mim mesma, já era odiada o suficiente. má escolha. sabe quando os solavancos já não fazem sentido e as paradas também não? sabe quando a vida não tem roteiro? e se tem, não é compreensível a mim, como se eu fosse ignorante demais para entender de enredos cults. a vida é um filme de enredo cult. e eu sou ignorante demais para isso. prefiro as morais escancaradas. ouvi dizer em gente que não tem cultura. ouvi isso dum daqueles sanguessugas do poder. queria cuspir na cara dele e dizer que todas as pessoas têm cultura e molha-lo com a minha filosofia antropológica e academicista, mas me conti. ele disse que inteligentes são aqueles que ficam calados. mal sabia ele o que minha boca guardava: um punhado de ofensas prontas para espirrar na cara de âncora dele. sem inteligência nenhuma. só desastre. não quero cumprir deveres. quero extrapolar o script.

Imagem revolucionária

Há 40 anos morria Janis Joplin, cantora que tornou-se referência dos anos 1960

Por Renê Müller

Há 40 anos, desaparecia uma artista que será eternamente lembrada. Não por ter sido uma grande compositora, ou simplesmente por fazer sucesso. Também não era a rigor um símbolo sexual, embora fosse, da cabeça aos pés, uma provocação à libido dos seus contemporâneos. Janis Joplin, porém, era uma cantora maravilhosa, que, com sua personalidade e seu modo de encarar a vida, tornou-se a referência de uma época.

O final dos anos 1960 foi um período conturbado. Antes mesmo do Maio de 68, a intervenção militar dos norte-americanos no Vietnã era contestada por um número cada vez maior de jovens. A caretice provinciana que dominava a classe média ocidental, em especial na América católica (Latina) e evangélica (Canadá e EUA), era de certa forma virada do avesso com a geração que havia nascido entre 1940 e 1950.

O sexo deixava de ser um pecado, para ter mais significados do que o reprodutivo. Era alegria e recreação, ou elevação espiritual, e até mesmo uma maneira da mulher expressar sua emancipação. Nesse ambiente é que explodia Janis Joplin. Nascida no dia 19 de janeiro de 1943, cresceu numa cidade pequena do Texas, Port Arthur. Ultraconservador, fechado, o município abrigava alguns jovens que não se encaixavam em tal modo de vida.

Janis, é claro, integrava a patota que deixava a cidade para andar pelos clubes e espeluncas de má fama que, à época, eram muito mais divertidos do que os demais. Alguns deles eram de e para os negros. A música fazia parte do pacote, claro, sobretudo o blues. Assim como o folk, o lamento úmido das blueswoman – a inspiração maior da cantora talvez tenha sido Bessie Smith – já estava mas cordas vocais de Joplin desde a adolescência.

Não demorou muito para Janis chegar a São Francisco, que era onde tudo, em pouco tempo, estaria acontecendo. Começou em apresentações de folk e blues nas quais tinha Jorma Kaukonen – às que viria a integrar o Jefferson Airplane – nos violões. Janis virou a Janis que o mundo conheceu com a banda psicodélica Big Brother & the Holding Company. Não era uma formação ruim ou incompetente. Mas ficava claro, desde o início, que a estrela era aquela cantora pálida que, de início, parecia berrar – e depois assombrava a todos com o alcance de sua voz, a intensidade emocional e sensual que emanava de sua face e seu corpo.

Cheap Thrills, o segundo álbum do Big Brother, foi a estreia do grupo na poderosa gravadora Columbia – e foi um sucesso. O público jovem estava voltado ou para Londres ou para São Francisco – onde toda a cultura parecia fervilhar –, e Janis era a tradução desse momento.

Em seguida, a cantora partiu para sua primeira tentativa solo, o álbum I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!, e para a consagração em Woodstock. As imagens de sua apresentação no festival são praticamente a imagem que fica para a posteridade, escancarando toda sua capacidade e energia.

O segundo e último disco solo foi póstumo

Janis até gravou o segundo álbum, Pearl, seu maior momento em disco. Só que tornou-se um trabalho póstumo. Uma das 11 faixas é instrumental: Buried Alive in the Blues. Ela iria gravar seus vocais no dia 5 de outubro de 1970. Mas um dia antes, num hotel de Los Angeles, uma overdose de heroína a levou para “outro plano” – como era comum falar da morte na Califórnia florida de então.

Os problemas com as drogas – várias delas – não eram os únicos. A bebida castigava o organismo de Joplin, que também tinha personalidade difícil. Altos e baixos se sucederam até o fim de uma trajetória de intensidade poucas vezes igualada no showbiz. Se há alguma mulher que simboliza a liberação feminina, e toda a revolução que marcou a segunda parte da década de 1960, essa mulher é a inimitável, inesquecível Janis.

ESTÓRIAS COTIDIANAS

A partir do dia 06/10, além das crônicas diárias, nas quartas-feiras a pág. 02 do jornal Voz do Oeste, trará ‘estórias’ do dia-a-dia contadas por Herman G. Silvani. Estórias internas e externas (como contos ou novelas) recheadas de realidade & fantasia, humor & melancolia, poesia & ironia.

A Situação mesmo quando Crônica, traz consigo um sopro de transformação, literatura e poesia. Confiram e bebam deste vinho!

Depois da festa da democracia, quem faz a faxina?

É a festa dos santos na rua. Mas santos que são parte de uma natureza bem mais humana. Ou seria desumana?

Lore acordou às 4h45 na segunda-feira, pós-eleições. Ao chegar às 7h nas ruas, seu lugar de trabalho, seus pés alvoroçavam santinhos de todos os tipos. “Acho isso um absurdo. É só isso que eu sei dizer. É um absurdo. Sabe quando você leva aquele choque? Não é justo.” Até pouco depois das 10h, ela já havia limpado toda a sujeira que encontrou pelo caminho, assim como suas colegas de serviço. Todas, infiltradas em uma missão impossível: limpar a cidade toda, tomada por santos.

Para Lore, essa não é a festa da democracia, mas a festa da sujeira. É a festa dos santos na rua. Mas santos que são parte de uma natureza bem mais humana. Ou seria desumana? José é um dos que dizem ser esse um comportamento desumano. José trabalha em uma empresa encarregada de limpar a sujeira alheia. Ele é líder, mas limpa a sujeira de outros líderes.

O mar de santinhos foi uma das primeiras coisas que viu ao acordar, logo após às 4h. Antes das 5h, já estava recolhendo santinhos. Seu lugar de trabalho é uma grande universidade e, apesar da vergonha de ter que limpar o mar das divindades, se sente responsável pela limpeza do espaço, para que os alunos possam chegar à universidade sem se assustarem com a cena que lhe chocou.

“O que os alunos vão dizer da gente?” Com essa ideia em mente, fez o possível para dar conta do recado, mesmo que tivesse que arranhar asfaltos ou se embrenhar nas capoeiras para tirar os santinhos impregnados. José conta que nas escolas da cidade, a situação era ainda pior.

“Sofri muito essa manhã. Com a chuva, ficou ainda pior de juntar os santinhos. Enfrente aos blocos, estava feio. Falam tanto a respeito de cidade limpa, em preservar o meio ambiente. Eu estava pensando nessa manhã: acho que isso deveria mudar. Chega a época das eleições e não existe mais como limpar tanta sujeira.”

Naquela instituição, outro senhor é encarregado da limpeza nos locais em que estava a maior parte dos santinhos. Mas José fez uma boa ação, já que a idade do senhor encarregado é avançada e José julgou que poderia ajudá-lo em um momento como esse, de trabalho intenso – pelo menos para os homens e as mulheres da limpeza.

- Será que quem jogou esses santinhos está trabalhando agora? Pergunto. Ouço um “duvido” vindo de longe, dito por outro indignado. “Quem ganhou está comemorando”, fala José, crendo que deveria haver uma lei que proibisse os santinhos, jogados de sacoladas durante as campanhas. Sacoladas, recolhidas pelas mãos de pessoas como Lore e José, que não fazem as leis, mas que se submetem a elas, sendo elas humanas ou não.

sábado, 2 de outubro de 2010

carta ao grande legramantti


grande legramantti, tu bem sabes, não temos a petulância de dar conselhos aos escritores, porque tu bem sabes, como eu, que não valemos um escarro. antes, tiramos deles o nosso conselho, como vampiros que somos. bom te ter ao meu lado, para encarar o mostro que pintei com asas de anjo. bom te ter ao meu lado com aquele televisor preto & branco iluminando o quarto que arrombamos e aquela substância toda na mente e aquela lua e aquele campo de martes verdes fritos. legramantti, tu me conheces, assim como eu te conheço. se existe um deus e ele é o cara dos moldes, nos fez do mesmo clichê. mas, sabes, legramantti, pessoa diria que os deuses são deuses porque não se pensam. então imagines, meu caro, o quanto estamos longe da divindade. foi um sinal aquele dia, te encontrar na rua e te levar à cantina de dionísio. não achas? eu sei que achas, você acredita em sinais e em signos, como eu, e em desenhos rabiscados antes dos teus passos cronometrados na calçada. sabes, sei que o nosso papo foi bom, mas não faça de mim a tua salvadora. nem preciso dizer-te que sou só uma garota escrota também tentando se encontrar. se existirá alguém que poderá dizer-te quem você é, tu sabes, esse é o cara do espelho. mas quantas loucuras, legramantti, quantas loucuras naquela noite de sexta. senti tua sensibilidade extrema ao notar os freqüentadores daquele boteco. e, ah, legramantti, tu deverias escrever sobre eles e sobre as tuas madrugadas no bar. aproveita, meu velho, você nasceu homem. a madrugada é tua companheira. estava lembrando... recordas que me escreveu uma carta? onde está? quero ler. mesmo que esteja incompleta, legramantti, quero ler. querido, meu colchão vai guardar o teu sono e vai esperar o retorno das tuas curvas rudes ao amanhecer.


com amor,

aquela-que-não-é-madre-teresa,

fabita vênus nas peles.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A mais hedionda das posições






"– A luz tem que estar apagada. Sou adepto, adepto sim do... papai-e-mamãe – e com requintes de crueldade! Isso mesmo: Papai-e-Mamãe! Faço questão de sussurrar um ‘eu te amo’ no ouvido da incauta... e por nada nesse mundo tiro as meias dos pés, pega a Radial Leste e segue até o Love Story, motorista."

(Marcelo Mirisola em "Festinha na Masmorra", do livro "Proibidão".)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Quem tem medo de Mirisola?

Ainda estou pensando em como falar de “Proibidão”, de Marcelo Mirisola, sem assustar ninguém. Primeiro vou falar da minha surpresa ao ler “São Miguel do Oeste” entre as linhas do texto “Terapia do Amor”. “Às vezes sinto saudades dos tempos que eu era um chapeirinho sonhador sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes, vindo do interior gelado de São Miguel do Oeste, que divisa com a Argentina. Saudades da Alaíde e, vá lá, saudades do Brecão.”

Sim, ele deu uma leve plagiada em Belchior: “Eu sou apenas um rapaz / Latino-Americano / Sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes / E vindo do interior...”, mas não estava nem aí. Nunca se sabe quais são os limites entre realidade e ficção de Mirisola. Mistura supostos personagens de sua infância nebulosa com figuras conhecidas nacionalmente, como Padre Marcelo Rossi e Bispo Edir Macedo, em críticas tão rasgadas que imagino estar ele, o autor, e sua editora “Demônio Negro”, imersos em processos.

Nem Paulo César Pereio, ator saído de Alegrete (RS), escapou das garras de Mirisola, apesar dele ser fã de Pereio. O que o autor critica é o apreço do público jovem por caras do passado, como P.C.P. e Cartola, como se tal apreço fizesse apenas parte de um modismo vazio (que redundância), ou coisa que o valha, que não condiz com a realidade desse público.

Esculacha a Revista Piauí – meio considerado como sinônimo de cult hoje em dia – como sendo revista de maurcinho (tive que rir, tem toda razão) e até desdenhou o “baiano profundo”, Jorge Amado.

Não é o tipo de livro e de autor politicamente corretos, ainda bem. Os dois são bastante divertidos, mas também rabugentos. Em quase todos os capítulos, principalmente em “Bangue-Bangue”, Mirisola mostra a sua rabugice. Já em “Um pouco de lirismo” traz crônicas mais amenas, apesar do escracho costumeiro, a exemplo de “Valentina e o Laranja Intenso”.

Se vale a pena? Claro que vale. Não é todo dia que se encontra um autor (ou seria um personagem?) que admite ser adepto do papai-e-mamãe em tempos de atletismos sexuais.

Gimmicks de um universo paralelo


“Trabalhos Divertidos”, exposição de Éder Minetto, segue para o Celeiro Center onde ficará até o dia 7.

A exposição “Trabalhos Divertidos”, de Éder Minetto, parte do Projeto Unocultural, que até ontem estava no Ateliê de Marlowa, segue a partir de hoje (1) para o Celeiro Center, onde ficará até o dia 7.

Designer, Minetto busca a diversão em seus trabalhos. Motivo que deu nome à sua primeira exposição. Sócio do Estúdio Alice, fez carreira na área publicitária. É formado em Design Industrial e pós-graduado em Gerenciamento de Projetos.

Diz ter pensando na “rebarba industrial” para compor seu trabalho e através dela criou personagens, os gimmicks, ou seja, mascotes publicitários. Porém, nas palavras de Minetto, são gimmicks que de tão feios, jamais poderiam ser selecionados para campanhas da Coca-Cola ou de grandes redes de supermercados.

A criação de Minetto mostra que um bom trabalho também pode surgir da diversão. Na exposição, quadros do cotidiano de um lugar em que seus mascotes podem viver livres e felizes. Um universo paralelo, elaborado por meio de uma grande mistura de objetos, criado por Minetto.

Para quem gostou do trabalho de Éder Minetto, segue o Flickr do designer: http://www.flickr.com/photos/ederminetto/

Lugar de artesanato é na rua!





















O artesanato em série de Luíz da Silva encontrou na rua o seu meio de divulgação.

Luíz da Silva levou sua arte para as ruas. Em cima de sua caminhonete vermelha, no centro da cidade, na quinta-feira, alocou estatuetas, imagens de santos, bustos egípcios e infinitas peças de artesanato fabricadas por ele no Quedas do Palmital, onde tem uma pequena loja. A rua, é o seu meio de divulgação.

Chapecoense, morou no Rio de Janeiro por mais de vinte anos. Lá, estudou na Escola de Belas Artes e se dedicou à restauração de arte sacra em igrejas. “Eu me encontrei com a arte. Eu gosto, sempre gostei de arte”, comenta.

Em Chapecó, há cinco anos trabalha com o artesanato em série. Desenvolve moldes de borracha e fibra e trabalha com o gesso e com o cimento. Depois disso, vem a pintura. Processo que faz sozinho e dá a ele o título de único artesão de artefatos de decorações da cidade.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O artista das cores


Com a câmera nas mãos, deu luz à paixão antiga: a fotografia.

Longe da redação, após visitar a exposição “Recortes Coloridos” no Shopping Itajoara, liguei para ele de um posto telefônico tão retrô que seria digno de Rodrigo Scandolara (Grau), autor das fotos que levei comigo da SG Arte Visual em forma de cartazes e espécies de cartões postais. Do telefone pesado e cinza, de dentro da cabine, confirmei a entrevista e minha ida à loja de Rodrigo, a Vintage Rouparia & Photoarte.

Andei castigada pelo sol e com os recortes coloridos ainda nas pupilas, em direção a Marechal Deodoro da Fonseca, rumo à casa de madeira de dois andares, onde encontraria o artista das cores. Novos recortes coloridos e texturas me preenchem os olhos na Vintage Rouparia & Photoarte. Do lustre que pendia gotas de cristal luminoso, da Marilyn Monroe de Andy Warhol no respiro da escada, dos quadros e das fotos dos Beatles e de John Lennon pelas paredes decoradas, dos papeis de parede e do sofá de veludo vermelho.

Fomos ao sótão para fugir da poluição sonora. Sentei em um banco de letras; ele em dois pufes enormes, entremeando fotos & imagens móbiles. Rodrigo, chapecoense, 26 anos, esboça passagens de sua trajetória pelo Direito. Escolha que não deu certo, já que sua tendência natural era mesmo a arte. Com a câmera nas mãos, deu luz à paixão antiga: a fotografia. Paixão embasada em estudo e curiosidade, praticada há mais ou menos quatro anos.

Em 28 de setembro, ele deu início à sua primeira exposição fotográfica. Convidado por Roberto Panarotto para acompanhar o projeto da Unocultural, Rodrigo passou o ano todo de 2010 fotografando ícones como Jorge Mautner, Júpiter Maçã e Wander Wildner. O último projeto do ano da Unocultural acabou sendo o trabalho do fotógrafo. Seu projeto se baseou em cores. Extraiu, de cada fotografia, a cor mais forte. “A proposta era fotografar os artistas fazendo o que eles gostam”, conta Rodrigo.

Com o gravador desligado, ele fala mais à vontade. Mostra seu conhecimento sobre maquinas fotográficas e relembra de quanto tempo faz que gosta de fotografar shows de rock. Mas, agora ele pretende seguir a sua carreira de fotógrafo de moda, elaborando catálogos, e se vê continuando o trabalho de direção de fotografia no cinema, algo que já tem feito na faculdade de Produção Audiovisual.

Quando e onde

Até o dia 7 de outubro, a exposição “Recortes Coloridos” fica na SG Arte Visual, no Shopping Itajoara. De 8 a 15 de outubro, as fotos de Rodrigo Scandolara (Grau) vão para o Celeiro Center.

domingo, 26 de setembro de 2010

A história do Velho Oeste pelos olhos de Fiúca



Introdução


Tem sangue de índio, mas é branco porque a mãe o lavava com água de cal. Ercílio Pedroso, brasileiro nato, nasceu em Chapecó, Santa Catarina, em 5 de fevereiro de 1932. “Às duas horas da tarde, me alembro até hoje, tinha um sol bonito que nem agora.” Demorou três anos para nascer, mas já nasceu jogando bola com a piazada, “pinchando” pedra nos passarinhos, com um bodoque na mão. Um piazinho inteligente, desde pequenininho. Só que não teve um segundo de aula até agora, também nenhum segundo de cadeia e nenhum segundo de hospital.

“Então eu gostaria de fazer uma reportagem com alguém do Chapecó. Porque aqui eu conheci com mais ou menos 200 casas. Aqui, foi feita a pracinha, mas só da metade pra lá, da metade pra cá, tinha uma bodeguinha de vender banana, de vender fruta. Essa rua aí que desce na rádio, só se descia de a cavalo. Na esquina de lá, tinha um matador de vaca, era banhadão. A piazada ficava matando passarinho, saracurinha, de bodoque. Aqui na esquina tinha o primeiro clube, de madeira, dois andares. Embaixo era o clube e em cima, moradia.”

É o Papai Noel, prove o contrário quem puder. Além disso, só trabalhou no brabo. Fiúca tinha 25 anos quando fizeram escola onde morava e a professora, 19, uma russa que o aceitou na turma porque ele era mais velho do que ela. “Só faço o meu nome male má. Não tenho profissão nenhuma. Enfrentei geada, chuva, sol. A maior parte do tempo fiz poço. Aqui tem três poços, com 33 metros de fundura. Fui eu que fiz os três. Trabalhei quatro anos com encanamento d’água, com 25 peões. Eu fazia 25, 27 metros de valeta por dia; os outros faziam 20, 22. Fui muito fera na picareta. Hoje, tô com 78 anos, mas se me botarem na picareta, ainda vou trabalhar.”

Chegado em um saravá, é desconfiado em relação aos médicos. “Porque eu tinha uma criança com seis meses e deu uma paralisia infantil e meningite. Tava tratando com o médico e o médico disse que era inflamação no intestino. Um dia, numa noite, eu ponhei uma oração no peitinho da criança para a criança não morrer. Eu vou te dizer que aquela febre que dá com a meningite e com a paralisia, parte a cabeça de qualquer pessoa. Digo que aquela febre é pra matar. Eu não sabia o que fazer. Pensei anssim, me veio na cabeça, pra eu pegar água de limão num prato, botar num pano e depois na cabeça da criança. Em dois minutos tava seco. Eu ponhava outro e outro e outro. Eu defendia a meningite da criança ali. Hoje, ele tem 40 e poucos anos. A paralisia pegou, tem uma perna mais fina que a outra. Mas é trabalhador igual.” Dos cinco filhos, três guris e duas meninas, só esse filho foi vacinado contra paralisia e meningite. “Nem uma gripe meus filhos conhecem o que é.”

Tem muita história da cidade que diz gostar tanto. Algumas, não pode revelar. “Tem história feia que eu não posso contar. Assustadora. Se você sair comigo em todos os bairros da cidade, você vai ficar admirada, porque todo mundo me conhece. Onde eu passo é: ‘ô, seu Pedroso!’; ‘ô, seu Fiúca!’”

Dente de ouro na boca, do tempo que o ouro era barato. Se aposentou vendendo fruta e verdura no refeitório da Sadia Alimentos S.A. “Durante vinte anos, todo o dia, todo o dia, todo o dia.” Sua aula, o mundo. “O mundo, para o homem, é a maior escola. Eu conheço onze estado, não achei ninguém que me dissesse ‘você é feio’ ou ‘é bonito’. Eu só achei gente boa. Decerto, eu sou uma pessoa boa. A gente proseia com todo mundo, brinca com todo mundo. Parei em casa de tudo quanto foi nação. Alemão, polaco, gringo. A nação mais ruim que diz que é, de todas as nações, é o russo. Eu parei na casa deles, mas para mim, eram que nem meus pai.”

Adora pessoas, principalmente crianças. Ostentação, não. “Se eu chegar numa casa, pode ser uma casa muito linda, mas se eu não vê flor, eu não acho graça. Eu tenho que ver flor, sou assanhado pelas flor. Sempre trabalhei como jardineiro, eu gosto de plantar muda de arvoredo. Planto em qualquer tempo. Se eu plantar dez muda, nove eu garanto que pega. Tenho muita sorte pra plantar muda.”

Nunca sentiu tristeza. Só quando morreu o pai e a mãe. “Meu vô tinha 22 fio e quase 80 neto. De tudo os fio e os neto, ele tirou eu pra confiança dele. Tudo o que ele via era ‘Fiúca do céu, vi tal coisa e tal coisa.’ Um dia ele disse ‘Fiúca do céu’ – foi lá na Sede Trentin, lá era sertão –, ‘eu vi um tigre pegar um índio!’ eu disse ‘credo, vô, o que é o tigre, o que é o índio? ele disse ‘índio é uma pessoa que nem nóis, mas é do mato.’ Perguntei pra ele se ele não atirou no tigre, ele tinha um revolvinho, pequeninho. ‘Não, se eu atirasse e errasse, ele vinha pela fumaça e me derrubava do cavalo.’ Foi lá pelas bandas de Seara, viu cana florescida, nunca tinha visto. ‘Fiúca do céu, sabe o que eu vi hoje? Cana florescida!’”

Não conhecia tigre, índio, ou cana. Mas escutava a tudo, atento. O avô morreu com 105 anos. Cedo, Fiúca ia tomar café com o avô. Era revirado de feijão com guarapa e rapadura. Assim como Fiúca, não conhecia o que era dentista e médico, mesmo depois de ter sido picado por seis cobras.

Fiúca casou porque comprou a mulher. Mas, comprou mal. Muito braba. “Brigou comigo desde o terceiro dia de casada. Pita e bebe. E eu nem chimarrão tomo.” Foi depois de 40 anos, que os dois se separaram. “Se eu te conto, você não acredita. Ela bebeu num ano 120 garrafas de cachaça.” Agora, Fiúca está num céu aberto. Vai onde quer, em qualquer hora do dia ou da noite, sem encrenca. “Ah, quase não danço. Vou no baile porque gosto de escuitá a música, porque eu também fui músico. Mas vou lá vê a música, vejo o pessoal dançando e fico nervoso e danço também. Sovaqueio a muierada.”

Tem três terrenos que comprou com gaita. Saía do São Cristóvão, atravessava a cidade, chegava no Santa Maria ou no Maria Goretti. Voltava à uma hora da manhã, na escuridão, porque luz só apareceu depois da meia-noite há 45 anos. “Nunca encontrei um cachorro na estrada que me pulasse. Mas agora saia hoje de noite com a gaita nas costas. Não caminha vinte metros, toma um tapa no pescoço e se foi a gaita.”

Só passou por um perigo até agora. Foi tocar num baile para lá do São Pedro e quando voltou, em um potreiro, tinha 40 “vaca braba”. Era proibido passar por lá, só que Fiúca não sabia. “As vaca me avançaram. Vieram tudo as vaca me pegar. E tinha um toro vermeio, o toro tava lá e o gado por aqui. O toro veio e atravessou na frente do gado e eu esmureci. Minha arma era a gaita nas costas. O gado oiava pra mim. O toro ia e voltava, ia e voltava e aí eu sai a passo. Você tem que ter uma devoção forte. Senão fosse isso, eu ia ficar em pedacinho assim na guampa do gado.”

Faz mais de 30 quilômetros por dia, sozinho, não é adepto às andanças em bando. “Eu não faço falta em lugar nenhum. Daqui uma hora, você vai lá no Bormann e vai ver eu lá. Tô no Maria Goretti, tô no Santa Maria, tô no Cristo Rei. Não posso lhe contar toda a minha história, porque se eu lhe contar toda a minha história, eu não conto em 15 dias: eu levo três ano te contando. Eu te conto tanta história. Eu te conto que eu conheço três pedra com 120 metros de altura. Eu acho que eu tenho a fotografia em casa. Eu tenho muitas fotografias, mas eu me separei da muié e ela me consumiu com elas. Eu não posso te contar história de caçada. Se eu te contar história de caçada, eu levo dois ano. Fui muito caçadô. Te conto causo de tigre, causo de tudo quanto é bicho, que você vai ficar abismada.”

Tocou em baile de casamento de índio. Passou fome e medo por lá. “Em baile de índio, você tá parado aqui e ele vem dançando de lá. Se você vê que ele vem em você, caia fora, porque ele não respeita ninguém. Ele vem e te derruba. É que nem anta no mato. Anta do mato vem corrida, tem um pau no meio do caminho, ela dá uma cabeçada e passa.” Conhece da costa do Uruguai à costa do Irani. Tocou também em baile de casamento cigano. “Três dia de bebida, de refrigerante, comida, doce. Três dia! E eu com a minha gaita véia. Via a sorte, dançava, uma coisa louca.”

Fiúca parte, todo aprumado. Da praça central vai para o terminal urbano, pegar um ônibus para o Distrito de Marechal Bormann, onde ia visitar uma namorada que não chega a ter 100 anos, só 90 e 10. Mas esse, espero, era só o início da nossa prosa.

sábado, 25 de setembro de 2010

Foi o pé que cresceu ou foi o chinelo que diminuiu?


Se te excluem de uma sociedade, você já não é mais obrigado a seguir a sua lei. Esta há de ser a nossa brecha, a nossa clave de sol. O caminho é mais pela rebelião do que pela obediência. A rebelião é um extremo anarquista, que tem como base a criação da própria lei. Um “indivíduo”, não sendo aceito como ele é, sem poder dar vazão a sua voz e adaptar suas regras dentro de um sistema, tem todo o direito de criar um novo mundo, uma nova lei, podendo ser avessa a uma lei maior.
Seres humanos são jogados em favelas, nos morros, em partes desprivilegiadas das cidades, sem infraestrutura, saneamento básico ou lazer, por não se encaixarem nos padrões sociais dos brancos e católicos, “gente fina, elegante e sincera”, que habitam os centros e bairros nobres. Cada um que nasce em um determinado ponto desprivilegiado, embora possa ser bom por essência, é discriminado, sendo alvo de preconceito plurilateral, explicitados em pensamentos, olhares, palavras e atitudes. O preconceito não é um mal que se prolifera somente entre analfabetos e leigos, mas que é disseminado nos lugares mais improváveis, como em universidades e demais instituições de ensino. Diploma não dá humanidade a ninguém, isso é fato.
A pessoa então, atingida pelo preconceito, se torna, com o passar do tempo, exatamente aquilo que a pintaram, dando movimento ao círculo vicioso da criminalidade. Incorpora artifícios de defesa que vão desde o modo de andar, à indumentária, a música e outras manifestações culturais, ao porte de armas, e claro, ao uso delas.
O sol na moleira, a boca seca, o pé na poeira & a pedra na mão, lançada no menor sinal de provocação. Essa é a lei da selva, alimentada por “pessoas de bem”, capitalistas convictos, engolidos dia após dia pelo próprio sistema que adoram. A criminalidade é cria do capitalismo e agora é a hora do aborto. O mundo está em crise. O capitalismo, modelo fortemente difundido pelos Estados Unidos, mostrou as suas falhas. É hora de descobrir um novo mundo. De “braços dados ou não”.

olhodarua

O zine olhodarua é o jornalismo de rua, o jornalismo de muro, o jornalismo de botequim. É o jornalismo casado com a poesia, de mãos dadas com a literatura, amante da arte e do joão da esquina. O jornalismo que dispensa terninhos e laquê, quebra o protocolo e extrapola a pauta. E por que não?

(Encontrado no meu blog falido "zine olhodarua", um projeto impresso e online de fanzine)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

tributo aos trópicos

agora que está tudo calmo e eu já perdi a mão, sigo os conselhos de virgínia wolff e registro alguns acessos meus. tenho criado rostos em minhas galerias. os crio e já penso em abate-los. e me é um alivio quando consigo. vivo na cidade dos vampiros, xapecó. ofereço meu pescoço sem querer, por pura inocência. eles se saciam e nem dizem obrigado. eles saciam, destroem e partem, voam em seus vôos rasos. detonam meu pescoço de carne nova, eternamente nova. arrumo minhas malas no pensamento. escolho meu destino no meu mapa particular. recebo convites indecentes e desdenho, como se já não tivesse um corpo que sustenta esse espírito de fogaréu vivo ambulante. não tenho rédeas. corro de edifício em edifício com o mais vermelho dos pelos. me enamoro pelas letras. antes fosse pelos números. teria respostas exatas para me dar. eu andava pelas ruas cravadas de cacos de espelhos falsos em frangalhos. ignorei os piquetes e os levantes que meus olhos nublados viam pela ótica de um óculos de camelô. vestia negro, da cabeça aos pés. me escondia marginal no meu capuz de moleton. nas pernas, a calça junto ao corpo se esfregava viçosa. na mão, um cigarro que acinzentava o rosto de cansaço venenoso. o cabelo vermelho se vestia de voltas no vento, assustava as carolas, buscava alento no suor do fim da tarde. cabeça forrada de recortes de jornais, erros ortográficos, frases que não escrevi, peripécias que não delatei. te trazia no peito chacoalhado de horror. te comi em todas as horas do dia. levava a desordem no casco. pisei nos cacos de espelhos e escolhi meu ângulo menos terroso. eu era cinza de uma brasa que pisoteei. ela me convidou para ir ao seu apartamento. recusei, novamente, soberana. como se não precisasse entorpecer o corpo de ervas doces. mas eu precisava. queria assinar minha alforria. não pude. não deu. não como, não durmo, não vivo. me chamam de máquina. me chamam de robô, escravo. óleo de máquina escorrendo pelo vácuo dos dentes. eu deslizava por xapecó. bati nas portas abandonadas do velho oeste seu-vagem, ninguém me atendeu. nem uma moça no saloon para me entreter com seu amor barato com gosto de bituca amanhecida. a tarde caía e eu também. pedindo as contas para o mundo, desejando uma permissão da dona de mim, eu mesma. não me dei. não me dou. no chuveiro, desci pelo ralo. voei no submundo das águas. fui maremoto, tufão. entrei em mim e fui engolida pelo universo que eu escondia. cavalguei pelas montanhas de sangue, adormeci nos anticorpos e nasci de novo do meio de mim. minha mão me deu uma alma, ela brilhava como falso brilhante mas era negra e grande e vasta demais para caber em mim. fui morar na minha boca. morri no sussurro úmido dos meus lábios que se partiram em fendas de dor e de sangue. bebi do que sou. me iniciei. me tornei vampira estridente, num ventre de fogo. provei do teu veneno, não suportei. cometi suicídio no primeiro raio de sol. hoje sou pó, mas não me pergunte nada. minhas respostas são embaralhados focos de dor. adormeço e acordo sem saber o que uno em silabas. ainda te espero chegar. faça de mim quebra-cabeças e organize meu sonho ácido. me desvende, me descubra. sinto calor. me aproximo de ti e te vejo de perto e te olho nos olhos e faço casa debaixo do teu chapéu. tem lugar na tua boca? quero ver se nossas línguas se entendem, se as palavras combinam, se as vírgulas se encaixam. não me encontro mais em mim. quem sabe no teu abraço, quem sabe no teu grande abraço que abarca o mundo. tenho milhões de caracteres para preencher até engolir o branco das laudas. o branco me assusta. preciso entupi-lo de letras como se as letras fizessem do branco paradeiro. preciso de paradeiro. sou um mistério para mim. me derramo no teu chão e colho os teus refrões e faço deles a roupa que estou vestindo. soletro teu nome em sonhos e te rapto em pesadelos horrendos e sou maga de cristal na janela do teu quintal. eu que nunca fui de rimas, arremesso os ecos nas trincheiras. me ponha em ordem ou me ponha em chamas de vez. centauro dos céus de fogo, me leve na colina de onomatopéias. deixe eu gritar meus eufemismos no boom do tempo.

Mañana, baby

Do dia em que comprei a obra (09/11/2007, data rabiscada debaixo do meu apelido de faculdade, Fabita), seis dias antes do meu aniversário, até o dia em que a li, há um intervalo de mais de um ano. Me senti, por muito tempo, obrigada a ler a bíblia da geração beat, On The Road (Pé na Estrada), de Jack Kerouac.
Enquanto eu era bombardeada pela crítica da rua, que falava o quanto o livro era bom e indispensável, não conseguia, para variar, chegar perto de On the Road. Foi então em uma daquelas férias de verão, mais precisamente as férias de 2008/2009, longe do barulho alheio, com um amor não correspondido pesado no peito e nenhum centavo no bolso, que me embalei na rede da varanda e o devorei, finalmente.
“(...) e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop – pode-se ver um brilho azul intenso”.
Era como se meu espírito estivesse contribuído para a elaboração daquelas páginas todas, por vezes, um tanto cansativas e repetitivas. Pudera, se trata de uma bíblia. Obra que me influenciou e influenciou pessoas de todo canto a saírem de suas zonas de conforto, a exemplo de Bob Dylan. Não só influenciou, como inspirou obras, inspirou gerações, inclusive a minha, de inícios dos anos 80.
Dizem que o livro foi escrito em quase 37 metros de papel e em três semanas. Como se ele, Jack Kerouac, tivesse aberto uma veia a faca e tivesse a deixado jorrar, até acabar o sangue. Senti as estrelas nos olhos na garupa dos caminhões, o vento da noite na cara, colhi algodão nos vastos campos, vaguei pelos bares, fui caroneira de Dean Moriarty, me apaixonei de novo.
E deixei o tempo passar, como costumo e gosto de fazer, como se já não fizesse mais parte dessa esmagadora prensa mercadológica. “‘Claro, baby, mañana.’ Era sempre mañana. Foi tudo o que eu ouvi durante toda a semana seguinte – mañana, uma palavra adorável que provavelmente quer dizer paraíso."
Sim, recomendo.

(Publicado no Caderno Comportamento em 25 de setembro de 2010)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

mesmo que se perca o sono...



Nem sempre somos bem compreendidos, nem sempre recebemos um mísero elogio ou um obrigado, mas continuamos tentando fazer o melhor, dentro das nossas capacidades, mesmo que se perca o sono, mesmo que se perca o punho.

IMPRENSA NEGRA




CRIATURA DE OLHEIRAS FUNDAS & DORES TERRÍVEIS NO BRAÇO DIREITO. CARREGO UM PESO ENORME NO PEITO E OUTRO NO CORPO. CARREGO INFINITAS VEZES MAIS DO QUE PODERIA CARREGAR. PARTE É NOJO. NOJO DOS QUE CONHECEM EM UM DIA E DESCONHECEM NO OUTRO. AH, VELHO OESTE, AINDA TE MATAREI DENTRO DE MIM; E OUTRA É NOJO, DOS QUE RECLAMAM DAS COISAS EXISTENTES E DAS INEXISTENTES. JÁ OUVIU FALAR EM IMPRENSA NEGRA? EU NÃO. TALVEZ TENHA OUVIDO FALAR SOBRE A IMPRENSA ROSA OU MARROM, MAS DUVIDO QUE CONHEÇA A NEGRA. FUNDEI ELA NA MINHA CABEÇA ESSA MANHÃ. ALGO TERRORISTA, COISA DE QUEM CONFABULA MESMO EM SONHOS E QUANDO ACORDA, JÁ DE OLHEIRAS PESADAS E DE BRAÇO CADENTE DE TANTO ESCREVER DORMINDO, MIRABOLA NO PRIMEIRO E DOCE BAFO DA MANHÃ. SUGIRO QUE NÃO SE META COMIGO. COSTUMO MATAR EM DIAS DE SANGUE. SUGIRO QUE NÃO SE APROXIME, NÃO SOU DADA A CONVERSAS OU ENCONTROS CASUAIS. COSTUMO TER CASOS AMOROSOS INTENSOS ENTRE MEU CÉREBRO E DE OUTROS. O MAIS PERIGOSO DOS CASOS É O MENTAL. SUGIRO QUE NÃO ENTRE NO MEU JOGO, A GUERRA PODE DURAR UMA VIDA INTEIRA. ME TORNO VERME & ENTRO NO TEU SONO E NAS PREGAS DO TEU CÉREBRO O RAPTO E O MATO LENTA E PESADAMENTE. MINHAS OLHEIRAS NÃO VIERAM DE GRAÇA; MINHA DOR, TAMPOUCO. LUTEI SOZINHA POR SÉCULOS SEM FIM. FUI INSETO EM TEMPOS DE INSETICIDA. JÁ VOEI PARA A ÁFRICA, ÍNDIA E PELOS CAMPOS BRANCOS DA BOLÍVIA, CHILE E COLÔMBIA. MAS AINDA NÃO SAÍ DO LUGAR. 27 ANOS NA CARA, RUGAS DE EXPRESSÃO, VINCOS DE SOLIDÃO. DESVIE, CAMINHANTE. ESTOU ESPERANDO A VÍTIMA DA SEMANA. EM POUCOS DIAS, A MATAREI DENTRO DE MIM. QUANTOS DIAS PERECERÁ? TE ARRANCAREI AS DIGITAIS ANTES QUE POSSA DEIXAR SUA MARCA VIRULENTA DENTRO DE MIM. ESCREVO PARA VIVER. ESCREVO PORQUE AMO. DO MEU AMOR, NASCE O ÓDIO. DO ÓDIO, FAÇO PROSA ROTA. NÃO TENHO CONTROLE DE TI, MUITO MENOS DE MIM. HÁ ENTIDADES OCULTAS QUE REGEM AS LETRAS, QUE TU JAMAIS VAI DOMAR. EXISTEM ENTIDADES QUE ME REGEM, QUE EU JAMAIS VOU DOMAR. EXISTEM ENTIDADES EM TI, QUE EU JAMAIS, OUSAREI, DOMAR.

Nas profundezas do subsolo

A peça “Memórias do Subsolo” foge do conceito tradicional. Espetáculo sério, que apresenta variações, próprias do ser humano.


Inspirado no texto de Fiódor Dostoievski, o espetáculo “Memórias do Subsolo”, inclui experiências dos atores e não somente aquelas sugeridas pelo texto, ou seja, permite a autonomia criadora. Faz parte da “Semana Ousada de Artes UFSC & UDESC”, desenvolvida em uma parceria com a Fundação Cultural de Chapecó.
É de autoria da atriz Inajá Neckel, que nesse momento se abstém da atuação e assume a direção da peça. Direcionado ao público adulto, se trata de um espetáculo mais sério, que apresenta as variações, próprias do ser humano. “A ideia de montar um Dostoievski me acompanhou a vida inteira. O primeiro espetáculo de teatro que mexeu comigo foi ‘Crime e Castigo’. Eu já tinha lido o livro. Era uma adolescente e fiquei louca. Disse: ‘eu quero fazer isso na minha vida’”, conta Inajá.
O escritor russo sempre acompanhou a atriz, que se apaixonou ainda mais pelos russos quando fazia o Bacharelado em Interpretação Teatral na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Chapecoense, aos 31 anos, agora conclui o mestrado, feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Uma grande crítica ao racionalismo, “Memórias do Subsolo” de Dostoievski pode dar a impressão de que existem vários personagens no texto. Porém, Ina explica que existe apenas um, que é o homem do subsolo. “O homem do subsolo é povoado por milhões de vozes, como nós também somos, esse turbilhão.” São nove atores em cena (nove vozes) que vivem numa catástrofe. Para quem espera por uma peça de teatro tradicional, é melhor abandonar logo essa esperança.
“Só não gostaria que as pessoas pensassem que estou montando Dostoievski. Eu não me atreveria. Respeito demais ele. Estou montando uma percepção de Dostoievski. Minha e dos meus atores.” Inajá não espera que entendam a literatura, mas a linguagem da cena, a percepção da ação do ator. “É uma construção poética, corpórea, essencialmente corpórea. Um trabalho físico, que nasce do físico e que chega a um outro nível.” Um espetáculo com base técnica, mas Ina esclarece que está dentro de uma técnica que faz a peça chegar além.
A diretora – que diz não se encaixar nos moldes formais de direção – se preocupa em encontrar uma sensibilidade comum, algo que tenta alcançar por meio dos personagens-ideias. Para ela, não há como controlar as percepções do público. “É muita pretensão do ator querer controlar o público. Não há controle. O ator pode ter domínio de si e só. É como se você quisesse que o público reagisse de tal modo, em um momento específico. Impossível, pretensioso demais.”
O grupo trabalhou de março a julho, três vezes por semana, três horas diárias. Agora, ensaiam duas vezes por semana, três horas por dia. “Eles compraram a minha ideia”, comenta. Alguns dos atores são iniciantes nas artes cênicas.
A peça faz parte de um processo que ainda não terminou. “A construção das cenas não nasce separada de todo esse processo de criação, de poética, de autonomia”, prossegue. “Em cada segundo que passa, não sei quantas células morrem em mim, morrem em você, morrem em todo mundo, e se não tivermos alguma coisa um pouco maior para nos apegar, nada funciona.”

(Publicado no Voz do Oeste em 22 de setembro de 2010)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

AGUARDO RETORNO

TEM UM CARA QUE É UM PERIGO PARA A MINHA CABEÇA. SIM, ELE ME REMETE AO QUE EU FUI, ANTES DE TER QUE LEVAR DINHEIRO PARA CASA. ELE ME FAZ PENSAR SE EU DEVERIA DEIXAR DE SER UM MEIO DA INFORMAÇÃO APENAS OU UM ESPELHO DO LADO ROSA DAS COISAS. VOU LOGO AVISANDO, MINHA LÍNGUA É AFIADA E, AO LANÇAR VENENO, NÃO VÊ A QUEM. TENHO MEDO DELA, POR ISSO A DEIXO GUARDADA. E SE EU A TROUXESSE PARA O TERRITÓRIO DAS PALAVRAS E PARA OS JORNAIS DIÁRIOS? SE ME DESSE O DIREITO? E SE, AO ATRAVESSAR MADRUGADAS BUSCANDO ÂNGULOS E FRASES, ME PERMITISSE TAMBÉM BUSCAR AS CRÍTICAS DOÍDAS? E SE EU FIZESSE AINDA MAIS DO QUE FAÇO? NA CERTA, SERIA MAIS FIEL AO QUE EU SINTO. E JORNALISTA SE PERMITE SENTIR E ESCARRAR O QUE SENTE, MESMO QUE ISSO SEJA CRUEL? EU COSTUMAVA ME PERMITIR. ERA MAIS FIEL E TINHA TAMBÉM MAIS INIMIGOS. SOU FIEL NO LADO ROSA DAS LETRAS, MAS OCULTO O QUE ME INCOMODA NA MAIORIA DAS LINHAS. POR QUE? FUI E SOU CRIADA COM BASE NUMA ÓTICA MENOS FILOSÓFICA E MAIS MERCADOLÓGICA. TRAZER DINHEIRO PARA CASA ME LIMITA. MANTER EMPREGOS ME LIMITA. POR ISSO, NÃO RARO PROCURO ESCAPES. PORÉM, SE AO INVÉS DE INVENTAR ESCAPES, EU TECESSE MINHA IRA NOS MEIOS TRADICIONAIS? QUANTOS DIAS EU DURARIA, QUANTOS DIAS DURARIAM OS JORNAIS? NINGUÉM ENTENDE OS IMPASSES EM QUE ESTÃO INSERIDOS OS JORNALISTAS, ATÉ QUE SE TORNE UM DELES. NOSSOS ACESSOS TEMPESTUOSOS NA FACULDADE, VINHAM DE UMA CAVERNA DE SOMBRAS. FALÁVAMOS MAL, MAS NÃO TÍNHAMOS BOTADO NOSSOS PÉS DE ALL STAR SUJO EM UMA REDAÇÃO. ENCHÍAMOS A BOCA PARA FALAR E COMO FALÁVAMOS. ATÉ QUE CHEGOU O DIA DE NÃO SERMOS MAIS SUSTENTADOS PELOS PAIS. SE CADA VEZ QUE OUÇO UMA BARBARIDADE, OU MELHOR, ALGO QUE NÃO CONDIZ COM OS MEUS CONCEITOS OU OPINIÕES, EU VOMITASSE MINHA INDIGNAÇÃO NAS FOLHAS DE JORNAIS? QUE TAL? ENCONTRARIA TERRENO, PODE TER CERTEZA. E SE EU DEIXASSE DE LADO MEU ASCENDENTE EM GÊMEOS, ESQUECESSE A SUPERFICIALIDADE MOMENTÂNEA QUE ME IMPONHO E ESCULHAMBASSE EM PESQUISAS (IN)DIGNAS DE FILÓSOFOS, HISTORIADORES OU LETRADOS? PASSARIA O RESTO DA VIDA PARA ESCREVER UM TEXTO. HÁ ALGUM JORNAL DISPOSTO A ME ESPERAR? A ME AGÜENTAR? AGUARDO RETORNO.

o que os olhos dizem




sábado, 18 de setembro de 2010

classificados

não existo no barulho;

não existo em bando.

necessito do silêncio e da solidão

de um canto barato,

para cantar meu canto escrito.

não quero ninguém ao meu lado.

ninguém para dividir espaço

ou palavras.

sou egoísta.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cinco minutos com Galeano

Outro dia, uma moça desconhecida comentou em um texto rápido – que falava do universo e suas experiências – do meu blog (http://cafecigarrosedesordem.blogspot.com): “a vida é eterna em cinco minutos.”

Pesquisei, e descobri uma canção de Victor Jara, “Te Recuerdo Amanda”, que tem essa frase. “Son cinco minutos / la vida es eterna / en cinco minutos / Suena la sirena / de vuelta al trabajo / y tu caminando lo iluminas todo / los cinco minutos / te hacen florecer”

O comentário me remeteu ao livro que traz a beleza e a emoção dos “pequenos momentos”, de Eduardo Galeano, “O Livro dos Abraços”. Me foi indicado por um amigo (ver Perfil dessa edição do Caderno Comportamento) em uma noite no Morrison Rock’n Blues Bar. O estranho é que nos dias seguintes, a obra “caiu em minhas mãos” e eu entendi os bons comentários que ouvi. Eu floresci naqueles pequenos momentos.

Nunca havia lido o autor das veias abertas da América Latina. Ali, pude perceber o motivo dele ser tão admirado. “O Livro dos Abraços” apresenta textos miúdos de passagens por cidades de paises diferentes, histórias curiosas ouvidas pelo autor e sentimentos em noites tortuosas, tudo isso junto de um punhado de ilustrações em negro que parecem ser de tempos remotos ou de um estilo passado. Quase um livro de recordações, já que recordar, do Latim re-cordis, é “tornar a passar pelo coração”, como diz na página que antecede os momentos de Galeano.

“Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem.” Esse é um recorte de um texto sentido por Galeano que me tocou, chamado “A televisão/3”.

O autor e também jornalista, nascido em 1940, é uruguaio, mas foi exilado na Argentina e na Espanha, entre 1973 e 1985. Escritor premiado, Eduardo Galeano, de cinco em cinco minutos, se faz necessário como dose diária de um abraço que pode ir do calmo ao intranqüilo, assim como a vida.

(Publicado no Caderno Comportamento em 18 de setembro de 2010)

“Vento Negro eu sou”

Capturar as palavras foi tanto ou mais difícil do que capturar os ângulos na penumbra.

Eram iluminados por ondas de projeção. Um no vocal, outro no violão. Juntos, eram perfeitos. Dois opostos, de elementos complementares. Senti um arrepio na espinha e uma vontade de chorar, ao ouvir a voz conhecida cantando: “Onde a terra começar / Vento Negro gente eu sou / Onde a terra terminar / Vento negro eu sou”, (“Vento Negro”, composta por José Alberto Fogaça), como se fosse a primeira vez que eu ouvia o espetáculo mágico.

Noite de quarta-feira. Atravessei a madrugada tentando capturar o melhor ângulo e algumas palavras dos dois no Morrison Rock’n Blues Bar. Marcelo Peron e Mateus Pereira Specht, violão e voz, numa ordem que pode variar, conforme o vento.

Capturar as palavras foi tanto ou mais difícil do que capturar os ângulos na penumbra. Os dois falavam como se fossem ir embora. “Vento negro, campo afora / Vai correr / Quem vai embora tem que saber / É viração”. E logo, realmente foram. Mas para o palco, aquele campo magnético com o qual não ousei competir. Nesse pequeno instante dentro do tempo, a selva urbana embalou a nossa prosa noturna, que foi pouca, mas intensa.

A aventura

“Fomos para a casa de um amigo nosso na Barra da Lagoa. Estávamos com o dinheiro contado. Só que a gente se emocionou e acabou gastando todo o dinheiro. Tivemos que ser sustentados pelo nosso amigo, que chegou a vender um jogo de xadrez para comprar as passagens para a gente voltar!”, relembram. Nem preciso perguntar se o amigo disse: “Venham mais vezes”.

Foi a chance de criarem juntos. Muitas músicas foram compostas nesse período, incorporadas ao repertório da Diabo a Quatro, surgida de uma idéia que nasceu do outro lado da fronteira: em Pelotas (RS), ou na Satolep de Mateus, que (des)costura o seu destino desde a infância, num rasgar e costurar sem fim. Em Chapecó, a Diabo a Quatro emergiu em 2005 e segue até hoje no Velho Oeste como um convite ao encantamento.

A banda teve momentos únicos ao longo da carreira. No antigo TNT – O Bar do Fano, ver a Diabo a Quatro era uma experiência grandiosa. Se vangloriam de ter reunido mais de 300 pessoas em uma cancha de bocha, no Bar da Odi. “Isso marca a história do alternativo”, lança Mateus. “Fazemos música pop. A palavra pop soa meio ácida ao alternativo, mas viemos de uma cultura pop.”

De próprio punho

Cantar/tocar música própria é algo delicado para o vocalista. “Não vejo muito sentido em fazer show com música própria. As pessoas não vão para o show para conhecer música. Vão para ouvir o que elas conhecem e gostam. Há uma certa expectativa.” Mesmo assim, de quando em quando, as músicas próprias têm espaço no show dos dois.

Opostos complementares

MPB, música nativista & Rock and Roll. Combinação, no mínimo, acertada. “Uma coisa que é considerada brega para o pessoal daqui, é a cultura gaúcha. Mas nós não fechamos os olhos para a cultura gaúcha.” Na música Jesus Krishna, por exemplo, há uma mescla de milonga com baião, além de caracteres religiosos, da vivência de Mateus com esoterismo e ocultismo.

Um ser teatral

Mateus é um ator e continua o sendo no palco das canções. Bata e calça branca, olhos pintados de negro, heranças do teatro. Busca suas crenças e as representa, em uma performance de paralelos: artística e religiosa. “Como um xamã” – explica. “O xamã é ao mesmo tempo um sacerdote, um mestre de cerimônias e também um ator”, se remete aos conceitos absorvidos por Jim Morrison.

Volta para a Mitologia Grega: “O primeiro ator que surgiu, representou Baco – o deus do vinho”, fala o vocalista, contando que Secos & Molhados e O Teatro Mágico, são bandas que influenciam o teatro da Diabo a Quatro, dona de um ecletismo inteligente.

Ele solta poesia no ar, sem perceber. Já é natural. Figuras de linguagem invadem a noite que, para mim, chegava ao fim. Perdi para o palco, o campo magnético, que recuperou os dois, para o deleite do público. “Não creio em paz sem divisão / De tanto amor que eu espalhei / Em cada céu em cada chão / Minha alma lá deixei”.

Morrison Bar

“Estão todos aí? A cerimônia vai começar.” A frase do vocalista da banda norte americana The Doors, Jim Morrison, é ótima para falar desse bar que inaugurou em 25 de junho em Chapecó. Isso porque o bar se tornou quase que um templo para os admiradores do “Rei Lagarto.”

Proprietário do Morrison Bar, o porto alegrense Rodrigo Linhares dos Santos, fundou uma casa semelhante na Praia do Rosa, litoral catarinense, há 9 anos. Em Chapecó, ele e os sócios resolveram abrir a filial do bar de maneira inesperada. “Viemos a passeio e procuramos uma casa no estilo para curtir, mas não encontramos em lugar nenhum.”

A homenagem ao vocalista do Doors aconteceu pela passagem de uma fase marcante na vida de Rodrigo. “Doors e Jim Morrison foram fortes na minha vida”, diz o proprietário.

(Publicado no Caderno Comportamento em 18 de setembro de 2010)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

um homem com uma dor












um homem com uma dor

é muito mais elegante

caminha assim de lado

como se chegasse atrasado

andasse mais adiante

carrega o peso da dor

como se portasse medalhas

uma coroa um milhão de dólares

ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos

não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

sofrer, vai ser minha última obra


(paulo leminski)