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domingo, 12 de setembro de 2010

... E o rock permanece

Epopeia continua, bebendo da fonte do caos urbano

O samba de terreiro de Ruy Muriti era a trilha sonora da entrevista feita na casa, conhecida pelos amigos como Purple House, de dois dos quatro integrantes da banda de rock chapecoense Epopeia: Liza A. Bueno e Herman G. Silvani, o Niko. Paredes vermelhas e roxas, o contraste com o verde limão fluorescente da cortina de pedrarias falsas, as estampas de sol, as almofadas cintilantes, filmes, CDs, livros, muitos livros.

Acompanhados por Teckila, a fiel cachorrinha do casal, tomamos mate e comemos amoras do quintal, enquanto conversávamos sobre os tempos em que tocavam na X-Meleka, banda punk que se transformou em Tribo Audaz, que trouxe não somente o punk, como o hardcore, o ska e o rock. Da Tribo Audaz, veio a Epopeia – nome que referencia um estilo clássico de poesia, caracterizado por heroísmos, grandes acontecimentos e grandes personagens.

“O rock nasceu no pós-guerra. Querendo ou não, ele se tornou a primeira voz ativa e coletiva da juventude. Dá para se pensar na história do rock como uma epopeia contemporânea, moderna”, explica Niko, guitarra & voz da banda. Ele pensa o rock não somente como música, mas como comportamento, atitude, concepção.

A base da banda, criada em 2001, é o garage rock, o psicodelismo, bandas de meados da década de 1960 até meados da década de 1970, como as internacionais The Cream, The Who, The Velvet Underground and Nico e Pink Floyd, e as nacionais Os Mutantes e Patrulha do Espaço, além de bandas contemporâneas, como Plástico Lunar. Sonoridade pesquisada pelos integrantes, que contribuem com seus estilos preferidos na banda. “O rock está sempre presente. Não é um modismo. O rock permanece”, fala Liza.

Apesar disso, acreditam que o rock está perdendo um pouco da sua força com as novas gerações. “É só moda, é só visual. Mais visual do que som”, comenta Liza. “Os jovens absorvem muito mais a estética visual, pela televisão, pelos vídeos, do que a sonoridade. Estamos até pensando em fazer um novo estilo: rock universitário ou rock colegial”, brinca Niko.

Mas, não só o rock permanece como a Epopeia continua, bebendo da fonte do caos urbano, pelo motivo mais simples e nobre de todos: o amor. “Quem toca, é porque gosta de tocar. É como quem escreve, independente se há vendas ou não, você quer escrever, assim como quem toca quer continuar tocando”, prossegue Niko.

Com esse desejo, criaram o projeto “Entrevero de Rock”, para unir forças com as bandas chapecoenses que têm composições próprias, na vontade de criar um grande movimento musical na cidade, que agora, pretende ser feito no Morrison Rock’n Blues Bar.

Depois de dois álbuns gravados, “...canções noturnas & outras contravenções sonoras...” – 2007 (demo, quando ainda era um trio), e “em mo.vi.men.to” – 2009 (recente, com Eliz no vocal), a Epopeia pretende gravar um novo CD entre o final desse ano e o inicio do ano que vem.


Epopeia é composta por Fabrício Tubin (Tuba) na bateria, Elizangela A. Bueno (Liza) baixo & voz, Herman G. Silvani (Niko) guitarra & voz e Elizandra A. Bueno (Eliz) vocal.


A energia da Epopeia em ação, no Morrison Rock’n Blues Bar, no sábado (11):

(Publicado no Voz do Oeste em 13 de setembro de 2010)

sábado, 11 de setembro de 2010

“Estranhas Cores Fantásticas”

O poético baile de máscaras de um pierrô que escreve com seu espírito tão... “palidamente colorido”

Um dia Marciano Jr. Maraschin ouviu dizer que para se escrever era preciso pegar vários “recortes de palavras de jornais”, colocar em um “liquidificador” e ver no que ia dar. Foi mais ou menos isso que ele fez, através da livre associação ou, como costumo chamar, da escrita inconsciente, ele pegou “recortes” de influências, experiências e visões pessoais que andavam perdidas pela mente e colocou-as em forma de poesia, que resultou em seu livro alternativo/independente chamado “Estranhas Cores Fantásticas”.

Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Jim Morrison, da banda The Doors, e João Ricardo, dos Secos & Molhados, foram as principais influências desse poeta de apenas 23 anos que mora em Lindóia do Sul (SC), interior de Concórdia. Um cenário, diga-se de passagem, bem rimbaudiano[1].

Há dois anos Marciano escreve poesias e antes disso compunha letras de música anarquistas para sua extinta banda punk Vermes do Subúrbio. Algumas dessas letras também estão no livro que considerei “palidamente colorido”, por ser, a primeira vista, de conteúdo alegre, mas que logo percebe-se o aspecto obscuro e triste que se esconde entre as linhas e atrás da máscara ou da maquiagem cheia de cores. São poesias de pierrô, de um palhaço triste, que, ao invés de passar alegria – sentimento que o personagem palhaço deveria representar – transmite sensações lúgubres.

Marciano diz que o conteúdo do livro provém de uma desilusão total, da perda da inocência ou talvez dos seus acessos a paraísos artificiais[2] e que é direcionado para aqueles que tem viseiras, “como as que os cavalos usam”, diz Marciano, que são “escravos”, não para os “loucos”. Apesar disso, são os “loucos”, aqueles que o poeta diz falar de igual para igual, que mais lêem, compreendem a sua obra e o ajudam a vendê-la, já que optou por imprimir seus escritos através de uma gráfica, pois nem passou por sua cabeça ir atrás de editoras, pela modéstia em acreditar que seus poemas não seriam aceitos ou bons o suficiente e até mesmo por julgar que só quem possui dinheiro consegue publicar conteúdos provocativos, o que não deixa de poder ser uma verdade.

Devido a sua escolha, Marciano enfrentou os problemas em conseguir patrocínio do comércio, sofrendo muita resistência. “É por isso que o Brasil está deste jeito, o pessoal não quer investir em cultura”, comenta. De qualquer maneira, ele conseguiu reunir um bom número de apoiadores e editar o seu livro. Esse deveria ser um meio para que ele conseguisse subsídios financeiros para gravar o CD da sua atual banda, Australopithecus Cintilante, e para partir para outras paragens, conhecer outros lugares, coisa que ele sabe bem fazer através de seus poemas e que oferece a todos que tiverem coragem de aceitar essa viagem poética, seja “louco” ou “escravo”, abstrato ou concreto, surreal ou simplesmente real, que viva de literatura ou submerso em números, não importa. O que importa é aceitar o desafio e ele já está lançado.


Título: “Estranhas Cores Fantásticas”

Autor: Marciano Jr. Maraschin

Ano: 2005

Valor: R$ 5,00



[1] O poeta francês Arthur Rimbaud também morava em uma pequena cidade chamada Charleville;

[2] Termo utilizado pelo poeta francês Charles Baudelaire que faz alusão ao consumo de drogas.


(Publicado há milhares de anos no Passe a Folha)

diário poético - stereo (meu diário impublicável de viagem na íntegra)

que lugar é esse? 15/16 de julho de 2009

uma estrada. uma nova estrada. sempre estou indo, indo, indo... mas para onde? mas por que? uma coisa é certa: o preço que se paga é altíssimo. uma mulher e uma estrada. mulher? me vejo ainda criança ouvindo “my girl” na voz da primeira boy band do mundo e sonhando. uma menina e uma estrada. diy, diy, baby. mas eu sai ontem da universidade, literalmente. e das fraldas creio que nem tenha saído ainda. e hoje sou jornalista. jornalista? não. um emaranhado de ideologias dispersas. anos e anos de estudo para me perder toda desse jeito. não sei mais quem eu sou, não sei mais no que acredito. tanto esforço, tanto sacrifício para estar assim, desse jeito. só... a solidão é o efeito colateral de uma ideologia que eu nem sei mais qual é o nome. se é que isso tem nome. arte, arte... deve ser arte. o efeito colateral da arte é a solidão. mas eu nem sei se estou fazendo arte, não sei se conseguirei fazer algo. estou aqui, insone, em um quarto de hotel. dias punks na nova cidade. a chuva lá fora, calma, é contraste da tempestade aqui dentro. não posso dormir porque meus sonhos foram vendidos. sou uma imagem imutável de uma mulher meio que andarilha, nômade. digna de má fama, escolhi a solidão. será que escolhi? em partes. em partes escolheram para mim. assim como escolheram que eu seria a louca que sou, desde que nasci em um berço impróprio para menores.

prazer,

me chamam de ladrão,

de bicha & maconheiro.

quarto ao lado, 21 de julho de 2009

se lembra quando eu dizia que estava entre a casa no campo, a rede na varanda e o jardim florido, e entre o hotel barato, a literatura e a solidão? pois eu sempre achei que a segunda opção me caia muito bem. estou no quarto ao lado. estou só, no quarto ao lado. sem blues, sem grana, sem poesia, sem vinho. estou do lado de fora, estou só para todo o sempre. o espelho me machuca; as leis da matéria me machucam. pesos & medidas. o preconceito e a discriminação já não me comovem. o que me comove é ver um lapso de compaixão nesse céu tão cinza. um suspiro de humanidade, isso me comove. vivo para escrever. mas escrever o que? sou escrava das letras, mas ainda que seja das letras. sou escrava desse exército vermelho da visão, sou escrava desse neon que vomita e engole a luz desse quarto ao lado. sou só e não sei escrever. literatura chumbrega. nomenclatura exata para definir a amargura dessas linhas. repepepetititititivavavavasss. deus existe? sei lá, vou pensar no kerouac, com ele tenho mais afinidades. ele, o cara que morreu vendo programas de auditório, enquanto era bajulado por uma velha beijoqueira. ele, com um pé na estrada, outro na universidade. um pé em peixes, outro em mercúrio. mas assim o pé se mancha e se tinge e se sonha e se dorme e... até amanhã.

vou dormir com fome, 23 de julho de 2009

clima horroroso de fim de década, de fim de carreira. meu estomago está roncando, vou dormir com fome e não há nada que você possa fazer. estou vivendo as minhas custas. piada do dia. tirada da semana. vou dormir com fome, cede, medo, raiva nojo e dó. trabalho escravo, hotel barato da porra, cobertor felpudo que é uma merda. estou dando uma de sex and the city nesse notebook. pensar que há alguns anos me animava com a mais elétrica das olivettis. estou velha. estou chegando ao fim. eu não jogo. se jogo, jogo limpo. não entendo essas tramas que tu te envolves. minha única estratégia é a verdade; meu único discurso é o automático. e como lidar contigo? me ensina? me explica? é o mal dos capricornianos serem traidores desse jeito? ah, foda-se a astrologia. me sinto emoldurada em uma obra de andy warhol, em uma frase de woody allen. me sinto meio elvis, meio marlon brando. um ser andrógino, parte maysa, parte tim maia. ou quem sabe maria callas com jim morrison. sei lá. eu sou os meus heróis, eu sou anti, eu sou chata e estou na beira desse precipício chamado fase crítica da arte que não é arte. me fodi.

buenas (roncos) notches,

brega & breve alegoria.

ateia-me fuego, 11 de agosto de 2009

atrasos, fracassos, intentos & inventos. dia de tesões, cansativos unilateralismos, altas tensões e fuego, muito fuego. ateia-me, mas por que me ateia? isso não se faz, atear para depois sumir, atear para depois deixar. por que me miras se no me quieres? e se me quieres, por que não pode ser para sempre? mas o para sempre não existe, e tu é de outra, e eu cairia na boca do povo. ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de baudelaire. estou na poesia dos dias, no hotel nublado da fumaça literária. golpes na autoestima, henry miller no lugar das veias. preto & branco, sexo dos anjos, eu e você, talvez. vontade, delírio, palavras jogadas sem critério, recortes de versos no jornal local. vapor barato de mim mesma. o hotel, o jornalismo, o café, o cigarro, a desordem. minha vida monocromática, disco furado, fita cassete com defeitos épicos. a doença, o reconhecimento falido, a libido corroída de fartos seios. estou no escuro desse quarto que ninguém lê. minha esquizofrenia é plena, é mágico o gozo dos deuses. sem pensar, sem revisão, sem borracha pra apagar. adolescência tardia de sempre, te quero com sorvete e martesméllow. não sei escrever em inglês, papos de rotina no restaurante da esquina. delírios epopéicos. ateia para depois punir. ateia e pune. estereótipo. plágio não pode. saí da mesma forma que você. rock and roll. oi, tudo bem? desculpe, eu sou tímida. travei. confesso que bebi. jaguar e jornal bolorento. acabou a descarga. finito. esqueço.

só que eu, eu não sou robô.

a um mestre de calças ii, 13 de agosto de 2009

versão impublicável de.

nos conhecemos na biblioteca. tu, barba crescida e jaqueta de couro. eu, óculos de grau e cafonices. pela primeira vez na vida eu tentava pegar um livro de consulta local. eu te via, mas a confusão já vinha de antes. olhei pra ti, a barba, a jaqueta, a alma toda. desci os olhos para a mão, aliança de ouro reluzente, fim do sonho repentino. “não, moça. este você não pode levar para casa”, dizia a atendente da biblioteca. e eu pensava “o que? não posso levá-lo?”. inconformada, olhava para ele e para o livro, para ele e para o livro. “este eu não podia, não podia”. as palavras se duplicavam, assim mesmo. eis que se iniciava a sequencia de sonhos e de insônia, de vontades impraticáveis. dois anos já. dois anos? tudo isso? só isso? quantas vieram antes de mim. quantas existem paralelamente a mim. quantas ainda existirão. timidez e um quase sorriso. negativas de minha parte. fugas, nossas. gato e rato. filme b sem fim previsto. tento esquecer. tento dormir. exagero de minha parte. exagero literário ou oportunismo poético. estou no quarto 11, ou seria o 12? hoje, dia 13, dia místico. a sequencia cabalística dos números. e tu é meu número. azar o meu. por trás da barba, descubro um novo homem, tão ou mais brilhante do que eu pintava. quantas serão as vezes que eu me apaixonarei por ti? quantas já foram... e são? mentalizo meus rituais profanos, meus, só meus. contigo não divido nada muito além do meu silêncio, como saberás quem eu sou? mas tu sabe, como sabe, como pode saber? teus olhos me viram, meus olhos te viram. tua face oculta ultrapassa as paredes do quarto, minha pele. sin(croni)cidade. sin, de pecado, de cronos, de cidade. o que é pecado? (recados divinos, mensagens instantâneas de outros templos). o que será de mim sem teu peito a me acalmar? sem tua atenção, tuas palavras, teu raio x da mente humana? tento me acalmar. escrevi demais. escrevi para mim. versão impublicável de um mini-conto que é teu, ou de syd barrett. escolhe. agora ou em outra vida.

de uma certa garota.

dia de falar mais alto, 24 de agosto de 2009

queria poder dizer: “ah, não me importo que tenhas outras moças” ou então: “não, não faz diferença se tu vens de outros braços” ou ainda: “vá, te ver partir me é uma dor já passada. vai, pode ir”. mas não. sofro tanto, tanto. sem saber o que quero, me vejo nessa estrada sem fim. te vejo hoje, amanhã nem sei. não sabes como me sinto só, aqui, ouvindo esse jazz. me tornei uma daquelas pessoas que fica depois do horário, porque lá fora tudo ainda é mais frio. e o que pode ser mais frio do que um escritório? um hotel de quinta. quase morri atropelada há menos de dez minutos, depois que voltava da lanchonete que não queria permanecer aberta para mim. mesmo assim, pedi um lanche e uma coca-cola de garrafa de vidro: a melhor de todas. quando saio, dou de cara com a morte. o mais estranho é recuar dela. por que recuamos da morte se a desejamos? digo nós, os loucos, como me chamou o motorista: “ô, sua loca! a faixa de pedestre é pra lá!” má fase na escrita também. escrevo e já nem publico, deixo tudo lá na caderneta, mofando. ou na cabeça, o que é pior. mudo o tempo todo, sou levemente esquizofrênica. lunática. e tu te envolves com a putaria da esquina. putarias de esquina lhe caem bem. e eu me apaixono por ti todo dia. cafajeste, como podes ser tão doce? escrevo sobre ti nesse diário poético impublicável. pobre stereo, ninguém te lerá, pobre coitado, pobre diabo. hoje descobri que tenho um leitor assíduo. creio que ele é um guarda de um prédio qualquer, não sei. sei que ele me lê, lê todas essas produções jornalístico-literárias que faço sem saber se faço. jornalismo cultural, histórico, autoral. chame como quiser. isso que faço e que não vale absolutamente nada. se ainda valesse a minha solidão, se ainda eu passasse de uma louca que quase é atropelada todos os dias por esse trem da morte, que espero ouvindo um robert johnson imaginário. mas hoje é dia de falar mais alto, hoje é dia da saudade, do adeus sem palavras, de você e de mim. patética, escrevo nesse diário que não há de vingar ao invés de adiantar as matérias desse jornal provinciano. não tenho opção. ou trabalho ou cometo suicídio. como pode, em um dia estou nas nuvens, noutro nas garras desse hades do inferno. há ainda os dias mornos, o meio termo, um tédio. não passam nesse lugar de marasmo. espero, espero e espero. nada. meus olhos, que tanto se encantam, às vezes se fecham para os brilhos do mundo. só vêem poeira na estrada e frustração. chamo por ti, mas nem te quero. ou será que quero? tu diz que eu não sei o que quero, mas e o que eu posso querer? ah, se eu fosse uma de suas putas tristes: daria pra ti e dormiria em paz. mas não, sou essa louca poética, delinqüente, visceral e intensa que engana a todos com a promessa de uma poesia constante, quando na verdade não passa de ilusão vulgar.

colinas latejantes, 26 de agosto de 2009

lateja, cabeça, lateja. clareia e pulsa, pubiana cabeça. eu te amo, porra. meu doce setembro nem começou e eu já te amo. porra. me ame, acabe comigo. o que faço contigo? poemas mofados na cabeça. amor azedando no peito. estampo na cara esse amor barato. me tome. me pinte de vermelho. me faça tua presa da vez.

- o que você quer?

- você.

- em que sentido?

- todos.

- quanto?

- muito.

- quando?

- agora e até quando eu não sei.

durante o verão, 31 de agosto de 2009

ventilador ligado no quarto de hotel, vendo velhos clipes de doors e black sabbath e fumando camomila na folha do caderno. acabei com o café com leite, está quente, parece verão. seios a mostra, pele branca no vestido negro, cabelo bagunçado caído no pescoço que guarda a tatuagem de borboleta: “the scream of the butterfly”. hoje me pediram se sou louca. acho que a pergunta foi mais para comentar a loucura já pré-diagnosticada. coitados. o que eles sabem da loucura? hoje ele me procurou. cafajeste. que vontade dele. eu disse que tinha medo, eu disse que não podia, eu disse que gostava dele, o adorava. disse que eu não queria nada efêmero e ele disse que também. mas como “também” se ele tem outra? ah, mas a outra sou eu. queria pensar menos, queria ter uma descarga de pensamentos, uma pinça-tiradora-de-ideias. ele fala de morfeu, me faço de boba. ele fala que eu prefiro os sonhos, e eu que o prefiro, incondicionalmente. na quinta nos vimos. ele parecia sem jeito, eu com vontade de pular pro mundo dele. quis que eu fosse até o birô de fotografia, depois até o carro, disse que tinha um presente. era minha formatura. eu disse não. fui embora, ele me liga. eu disse não. era noite e eu morria. morria de vontades. mal dormi. vim para o hotel de manhã bem cedo. dou de cara com a bunda de uma puta no corredor. a puta lavava a boca numa pia. a bunda tinha um hematoma. noitada caliente no hotel. a moça deve ter servido um dos marmanjos solitários que aqui vivem. decadência compreendida, não deduro, não julgo. a boca com um piercing sorri. a bunda no vestido curtíssimo estampado espera o taxi. pra me libertar, mais tarde fui num show de punk rock. decadência de novo. aficionados por nirvana em um show que não era grunge. em roda, lembravam os velhos dias de grunge. eu lá, curtindo pra ver qual era. a lata de cerveja cai de bico. os pequenos kurts caem de boca e lambem a ceva. é minha deixa. entre a roda grunge, a roda punk e a roda hippie do lado de fora, prefiro a saída. não me encaixo. bebem a noite inteira e quando não há mais o que conversar, rola pancadaria. pego a estrada. cabelo vermelho no vento do oeste. é ali que eu moro. fujo da polícia como sempre. estava bêbada, ouvia música alta e não queria conversa. delinqüente. aqui, tenho que aturar todos os metidos a jornalistas. e são tantos. todos escrevem, todos querem ser o que estudei anos e anos para ser, o que paguei caro para ser. mas há técnicas, sentidos, regras, estudos e ética. pelo menos é o que dizem nas universidades. nojo disso tudo. estou no meio do olho do furacão. estou no meio do caos, do vandalismo, da destruição. se eu pudesse ao menos compartilhar a minha confusão contigo, perder-se contigo e em ti...

te amo.

de novo.

eu vi el rey andar de quatro, 12 de setembro de 2009

nova cidade, novas pessoas, novo hotel, novo jornal. as estradas são outras, os nomes das ruas, dos senhores do poder. sen-ti-nela. repito pausadamente, tentando me acostumar com a ideia. senti nela, na cidade, um quê de cidade mais paranaense do que catarinense. estou perto da fronteira. estou perto da argentina. estou perdida. novidades? algumas. meu chefe lê nelson rodrigues e as entrevistas da playboy. tem boas noções de fotografia, fotografia artística, perfis e memória. ouve ac/dc. medo. medo de não dar conta. mas ele diz nariz de cera, lead, pirâmide invertida. eu digo literatura. alivia, alivia, cabeça. na lanchonete do hotel, viola e cantoria. boemia típica. na tv, bollywood. as avenidas são longas e ornadas de palmeiras. a noite é dos bailes e dos bares. eu, sozinha. e como não? sem sinais no céu, vivendo a cobrar. saudades. sau-da-des. te amo.

encaro?

encaro.

quarto de pensão, 13 de setembro de 2009

da morada do sol, para o quarto de pensão da família brum – dona do primeiro hotel da cidade. de uma noite para outra, tudo mudou. motivo? a falta de grana. estou aqui de passagem. devo procurar outras opções em breve. alojamento para moças, uma kitnet qualquer, a estrada outra vez. verei. como me sairei no novo jornal, qual é a tua comigo, qual será o próximo destino. destino... dizem que ele existe, mas que o livre arbítrio também existe. ah, filosofias. quais delas eu adoto? enquanto isso, encho a barriga de comida caseira alemã, durmo como neta dos brum e espero achar o caminho. levo minha casa na mala, levo sonhos no peito e te levo comigo. preciso de um visto para ir para argentina, preciso passar livremente pela aduana. vacinas em dia, documentos e o caralho. 50 km e estou em solo argentino. que rico. procurarei o primeiro cassino para encher a cara. ou quem sabe vá para o paraná, das terras vermelhas e planos intermináveis. verei, verei. dizem que jornalistas são cidadãos do mundo. estou ansiosa por esse mundo. em cada lugar, pretendo ficar o tempo que me for útil. um mês, seis meses, um ano. a vida toda, se for contigo. tolice.

óculos embaçados de lãs vesgas, 29 de setembro de 2009

é sempre o mesmo: pesos & medidas; formas & valores. ter. comparações infantis. tédio. teu jogo é claro e infame. me liberte de tua voz essa noite, de teus comentários e de tuas perguntas doentes. de tua risada, de teu grunhido, de teu miocárdio. deixe eu masturbar minhas palavras em paz. se vá, o quanto antes. mas me pague o que deves, sua vaca. picaretas do inferno, vadias do sexo sangrento. podres. estou com febre. quero um habitáculo em lãs vesgas. quero o cassino do outro lado da fronteira, quero ser uma criança ou cachorro da rua, quero ser um andarilho. quero ser uma foto do bresson, um produto vencido na prateleira, um bl fosco, um copo suado. quero meu canto pra te levar. sou a ninfa das pedras, teu jogo eu sei jogar. rima barata, o cigarro acabou, tomo banho de chuva, ódio e horror. eu tenho pena de vocês e de mim. eu tenho pena de ter que viver. eu tenho duas mãos e um braço fodido de tanto escrever. vou pegar tua lambreta emprestada, vamos passear. seu burguês selvagem, seja você. com born to be wild, maryjane & on the road.

escarro.

palma suela, 1º de outubro de 2009

las palmas são suelas, como são suelas las chicas da fronteira. desordem. catatônica alma violentada. tenho nojo de pensar nos corpos que envolvem o teu. tenho nojo imaginário do que tu faz. acho que estou com tédio também. sem rumo, sempre. sem deus. sempre perdida, confusa, sem planos. tudo vira escrita, tudo vira crônica. a ira, o desejo e a solidão. a ausência. que tal montar uma kitnet pra reunir você e essa gente que não presta? que tal criar mais um fanzine inútil, um sonho barato sem recheio? que tal eu esquecer você e toda essa gente e me mandar daqui imediatamente? que tal provar um pouco de morte? e você diz que quer provar-me a vida. louco. ganhei o dia, a semana e o ano, até que me dei conta de que tu estavas com outra, com outras, com todas. como sou ingênua. te odeio.

me esqueça,

me deixe,

me mate,

mary.

planos desfeitos, 4 de outubro de 2009

nem sei o que dizer. desconfio da minha sanidade. estou comendo demais, trabalhando demais, viajando demais. desconfio dele. mas quem não desconfiaria de um homem casado e sem vergonha? é claro que ele está com outra(s). meus amigos são inúteis. cai de moto, quase morro. poderia morrer agora. quem ligaria? minha imagem no espelho me assusta. tento ficar em paz. olho o jardim, colho morangos e ameixas. medito. olho para o céu. tento esvaziar a cabeça cansada de pensar. quero estar bela e leve e revigorada pra te encontrar. tua expressão não muda. indiferença. maldito hábito alemão. mas agora, com o passar dos dias, a tua ausência nem me causa mais dor. deixo de te amar aos poucos, deixo de te ver passar, deixo os meus delírios de lado e dou vazão ao meu amor próprio. te deixo ir. me deixo ir. à tarde vou passar pela fronteira. irei de ônibus. aproveitarei o dia para ver a cidade que existe do outro lado. volto amanhã. vou ficar em um hotel. minha mochila e eu. sem companhia, com um pouco de medo, esqueço os planos de ir até o cassino. fica pra próxima. hasta, stereo.

la negra, 4/5 de outubro de 2009

deixe que venha o quiser escorrer dessa rosa negra, la negra rosa da fronteira. já estou do outro lado, mercedes sosa, morta, canta pra mim. rapazes fronteiriços, hospedaje 24h, sir phillip morris no cinzeiro improvisado. compro meu ópio em pesos. cortinas floridas que dão para o asfalto feito de lunas falsas. todos os países têm seus ídolos pré-fabricados. todo o amor é feito solitário. aventuras perpétuas em castelhano falado em altas velocidades. lembro de meu pai. nossa última viagem foi para bernardo de irigoyen. gasosas, framboesas, garapas & tomates. longas esperas no chevette marrom metálico. meu pai, selvagem do asfalto, cachimbos, mavericks & noviças. ouvia perla e pegava a estrada, ao lado da loura fatal que era mi madre. fronteiriços como eu. amantes, como nós. ironia. destino. porra nenhuma. cachorros sem dono, cão e cadela. lençóis surrados, poeira, suor e cerveja. eles se encontravam sem pronunciar palavra alguma em orelhões movediços. se achavam pelo cheiro, pela exuberância das formas disformes, das couraças de aura escandalosa. (cante mais, sosa, cante). o cio inevitável, a morte prematura, um novo caminho, praia ou paraguay, abortos humanos, nós. experiências que não deram certo. por que eu nasci? por que de ti? as velhas banheiras passam velozes & capengas. interrompem meu sono tardio. quero morrer como tu, sosa. em guerra com os pulmões, nas malvinas argentinas.

pelo menos até às 5h45.

adios, “la negra” sosa.

a amargura é um câncer, 14/15 de outubro de 2009

“mulher?”. ele sempre me chamava de “mulher”. “é você, mulher?, ele perguntava ao telefone. “você pode, mulher?”, “mulher, você vai?”, “você quer, mulher?”. de modo que eu quisesse imaginar, como uma idiota, minuto a minuto, que só havia uma “mulher” no mundo, e que era eu. “mulher”... “mulher” para não cair no erro de trocar os nomes das amantes, para não se dar o trabalho de guardar a individualidade de cada uma, procurando enquadrá-las todas em um substantivo simples de gênero que conotasse à feminilidade própria da presa, feita simplesmente para amar.

inspirado em um trecho de “fim de caso”, de graham greene.

Velho Oeste, oito de novembro de 2008.

Olá, meu bem,

Meados de novembro, após várias tentativas frustradas, eu, enfim, resolvo responder a tua carta – enviada ainda em fevereiro com um endereço diferente do que tens agora. Com Big Mama Thornton & The Muddy Waters Blues Band ao fundo, escrevo as ditas linhas que não pretendo deixar amarelar entre as pilhas de jornais e revistas de um canto qualquer.

Tive, de fato, receio de te escrever, assim como tive de te ler, mesmo sabendo que do medo vem o tédio e que o antídoto do tédio é o amor (respondendo a pergunta feita em um dos teus poemas), não só o carnal, mas também o fraterno e todos os outros amores, preferi ficar com o meu medo a me arriscar. Tive, sim, medo de me perder de amores pela tua poesia, tanto que não ousei repetir a leitura muitas vezes, como faço com outros autores. Li poucas vezes, mas, o tanto que li, ficou impregnado em mim, tal é o teor da tua literatura em minha visão.

Apesar de tudo, eu e meu medo até que convivemos pacificamente. Tu chegastes a me pedir um dia como eu conseguia ficar sem sair para beber aos sábados, e eu, tímida, não consegui te explicar. Sabe, acho que é um pouco como John Lennon diz naquela frase-cliché: “Não se drogue por não ser capaz de suportar a sua própria dor. Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo”. Mas hoje, sábado, subitamente estou sentindo falta de beber. Contigo.

Lembro que quando te vi pela primeira vez, há uns dez anos, achei que tu fosses um ser de um universo muito distante do meu, e que jamais poderíamos travar uma conversa qualquer. Pudera, deves ter vindo mesmo de marte! Naquela época, ouvia muitos bons comentários ao teu respeito que só fui entender quando te li, anos mais tarde. Quando finalmente falei contigo por telefone, senti que nem tudo estava perdido nesse mundo e, apesar de não ter aprovado o texto que escrevi para o jornal da universidade, Passe a Folha, gostei muito de saber que alguém como você existia e não tão longe de mim. Guardei uma esperança, durante esses anos, de um dia ter a sorte de te encontrar pelos bares da vida ou de te dar uma carona por estas estradas.

Eis que te encontrei e troquei umas poucas palavras com você no ano passado. Bem mais espontâneo do que eu imaginava, o “meu poeta” não foi uma total decepção como o Niko falou. Adorei receber a tua carta e os telefonemas. Fiquei felicíssima em realmente poder te dar carona e irmos àquele show no Dia do Rock, apesar dos pesares. E a noite em que você apareceu aqui, com um bombom na mão, ignorando qualquer tipo de inacessibilidade de minha parte, foi incrível. Não sei o que te trouxe, se foi a minha literatura ou uma das tríades malditas, mas esta foi uma atitude muito corajosa. Se agi certo, também não sei, fiz o que achava que devia ser feito, tentando ser eu mesma.

Senti a tua falta nos The Beatles For Sale, mas me diverti muito com os meus e os teus amigos. Já no outro dia, talvez não quisesses me encontrar, porém eu já tinha planos de ir para Xaxim. Não entendi muito bem o que você queria, porque uma hora vinha me abraçar e me beijar, outra, dizia coisas que não fazia sentido, sumia ou ainda se “lançava” para outras meninas. Eu fiquei um pouco chateada. Já estava cansada por causa do trabalho, há noites sem dormir e bebendo desde o dia anterior. Sei que falei umas coisas pra ti e, infelizmente, acabei indo embora sem me despedir.

Como precisei dos meus DVDs, passei na tua casa na semana passada. Tu não estavas. Então eu falei com a tua mãe e deixei três livros do Machado de Assis: um que já era meu, e outros dois que completam a coleção. Espero que tenha algo nela que já não tenhas lido, que não tenhas em casa ou que pelo menos sejam edições diferentes das demais que deva ter. Tua mãe foi muito gentil e até me deu umas guloseimas! Deixei também um abraço, ela te deu?

Bem, só gostaria que tu soubesses que tens uma amiga, se assim quiseres. Sei que tens muitas pessoas que te admiram pelos teus múltiplos talentos, mas eu não gostaria que ficasse essa sensação ruim entre nós. Eu realmente gosto muito de ti e espero poder estar junto de você de novo, seja onde for, em uma dessas noites chuvosas, trocando palavras, copos e tudo mais. Estou combinando com uns amigos para vermos no Niko e na Liza o filme que encomendei: “Crônica de um Amor Louco”, baseado na obra de Charles Bukowski. Mas isso depois que eu voltar de viagem. Irei para algum lugar passar o meu aniversário, dia 15. Ainda que eu me encontre em mim mesma, estou precisando de um quarto de hotel barato para pensar e escrever com calma, além de caminhar por ruas distantes e desconhecidas por uns dias, pois a vida é infinita, portanto indigna do tédio, e acho que há sempre algo para se conhecer, sejam pessoas, coisas ou lugares.

Estou mandando o que coloquei no jornal que trabalhava, Gazeta Regional, sobre o Acampa Rock para você guardar como lembrança.

Com amor (ou quase isso),

uma certa garota.

penumbra

constatação

“o homem procura na mulher aquilo que salta aos olhos, ela (...) para ser desejada por um homem, basta-lhe ser a mulher que ele deseja. de nada lhe serve ir até a lua ou conquistar roma se não tem o traseiro com que esse homem sonha. as façanhas de um homem podem conquistar o amor de uma mulher, mesmo que ele seja um esfarrapado."
(efraim medina reyes em “técnicas de masturbação entre batman e robin”)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

da lacuna que você deixou

não quero dormir. não quero acordar. foram-se minhas aulas no eldorado. não pegarei mais duas lotações de manhã, não verei mais os letreiros do hotel delavy e imaginarei buenos aires da lotação da fernando, nem te pintarei dando aulas nos bairros pobres, nem verei ela no ponto pensando na índia ou na áfrica, nem as mães e suas crias no colo na lotação do são pedro esboçando a colômbia de janela em janela e nem comprarei cigarros no terminal antes de rachar a cabeça nos sois do meio-dia. ouço vozes tenebrosas nessa noite. constatei que quanto mais trabalho, mais são os cigarros baratos que tenho que comprar. não posso me mover. meu braço vai cair e se ele cair e dele jorrar sangue das veias suspensas e se eu não puder encaixa-lo e se eu não for uma boneca de plástico e se dentro de mim ainda houver dor e se ela sair e se ela urrar? e se eu for humana? e se eu não dormir nunca mais e escrever escrever e escrever até a insônia ser estado natural e até não existirem mais palavras não ditas e eu me repetir me repetir e me repetir e perceber que já não há nexo, assim como não há mais amor na minha alma? a lacuna que você deixou. irreparável. um corte de faca desafinada, um corte de faca e bem fundo. me sinto um verme esquecido no corpo de alguém, sem outros vermes para fazer festim. carcomendo o que restou de uma vida. acordo com a morte na boca, durmo com a morte no corpo. adivinhei teu ascendente na borra do teu café, arrastei meus punhos na calçada para morrer lenta. o concreto segredou nos meus punhos e mordi os peitos vigiados pelo vento e fui vento e fui epitáfio, epopéia, crônica. nasci perséfone, morri cleópatra. lacuna se abria, lacuna se contraia, lacuna se despia, dilatava e morria. lacuna virou meu nome. lacuna impronunciável. ave, lacuna. se alarga a cada sopro mais. do teu mantra, o delírio. de você, a lacuna que deixou. preencha as lacunas. conecte os pontos, leia o segredo cítrico contra a luz. sou eu, a queda. prazer, vilão.

O “caboclo tocador” ou escritor de livros de história

2ª Parte

“Pequeno foco de luz, a luz da esperança por um dia que ainda não clareou. A luz da esperança por uma vitória que ainda não veio” – Vicente Telles

Esperávamos encontra-lo em um bangalô no meio do mato, mas o que achamos foi uma suntuosa casa de três pisos. Só acertamos o ambiente: o meio do mato, escolhido “para fugir dos políticos corruptos”. Do vidro da porta da frente, vi rapidamente uma estante abarrotada de livros no segundo piso, um pesado piano no primeiro, em frente a uma enorme mesa carregada de papéis, gaitas pelo chão e um senhor grisalho, vindo até mim.
Era Vicente Telles, o escritor de livros de história ou o “caboclo tocador”, como costuma chamar a si mesmo. Entre os trabalhos literários que organizou, está o “Folclore Itinerante da Epopéia do Contestado – História em Música”. Nos recebeu carinhosamente em casa e começou a se exibir, como ele mesmo disse. Mostrou recortes de jornal da irmã já falecida, Lina Tellez, dançarina bastante conhecida no México e interprete de Carmen Miranda.
Logo, de homem comum, Vicente se transformou em seu personagem. Colocou chapéu de pele de jaguatirica com um broche da bandeira do Brasil no centro e seu terno preto. “Tenho que ter uma imagem que confirme o que eu prego.” Nos mostrou a casa enorme e suas escadas em caracóis e seu canto de trabalho, seu computador e até sua máquina de escrever. Tocou o telefone: um amigo, ou mais que isso, um discípulo. Disse que estava dando entrevista, mas que viesse para ajuda-lo a lidar com as perguntas da jornalista.
Ao lado da casa, o caboclo de 5 de outubro de 1931, tem uma sala de palestras particular, feita de bambu, cheia de simbolismos, onde recebe alunos e ensina através de encenações teatrais e muita música na gaita, as lições da “Guerra do Contestado.” “Hoje, tem muita gente e pouca terra, e se faz reassentamento; Antes, tinha muita terra e pouca gente, e não se fez”, falou Vicente, resumindo uma das grandes falhas que resultou na guerra. Afinal, “os caboclos não tinham onde ficar; não podiam ficar pendurados no espaço.”
Foi na casa dos bambus que ele falou e falou bonito. “Os corpos na relva, sangue correndo, uns mortos, outros morrendo. Tava o corpo, tava o sangue, as gralhas silenciaram, e de aves, só os corvos, os abutres, que manobravam suas asas negras sem pressa no ar, na volúpia, para o festim macabro subseqüente. Mulheres cobertas de luto e de lágrimas”, falas de uma encenação teatral de cinco fragmentos. Simula um combate, com a gaita no colo, em um espetáculo talvez indescritível, chamado “Choro das Véias”, uma canção de gritos de dor, armas nas mãos e vingança.
“Exauridas, pelas lágrimas ressecadas, elas começam o soluço” – diz. E a gaita soluçava agonizante. “Do soluço, vem o silêncio, e do silêncio a busca da consolação e Deus. A reza.” Foi a primeira vez que ouvi gaita soluçar, chorar e rezar. “Eram rezas entrecortadas por soluços, expulsados de suas entranhas à sombra da morte, que faziam renascer o solo úmido pelo sangue de seus homens. Pequeno foco de luz, a luz da esperança por um dia que ainda não clareou. A luz da esperança por uma vitória que ainda não veio.” Me restou aplaudi-lo, somente.
Vicente Telles revela olhar pelo lado do oprimido e não pelo lado do opressor. Foi “fecundado” em Irani, mas nasceu em Palmas (PR), voltando para Irani aos cinco anos. Conhece cada personagem que faz parte da história do lugar, como Maria Rosa, Chica Pelega e a figura de Matos Costa, retratados no seu livro. Descende de combatentes, “um de um lado, outro de outro” – o pai do lado dos coronéis e a mãe do lado dos jagunços –, ele serviu o exército, aos 18 anos. Na época, a guerra era assunto proibido. “Depois que as forças federais saíram da região, decidiu-se que a missão do Governo do Estado era fazer a limpa do resto dos bandidos. O governo criou a chamada ‘Operação Limpeza’, que consistia na prisão e execução sumária, na frente da família, para criar terror e trauma, para que ninguém abrisse a boca.”
Ficou 25 anos fora. Serviu no Paraná, Rio de Janeiro e Bahia. Quando voltou e tomou conhecimento do que havia sido a “Guerra do Contestado”, algo que até então não sabia, inflamou, incendiou por dentro. “Fiquei tão indignado que comecei a fuçar, a cavocar, para encontrar o âmago da história. Porque acredito que uma história que não serve para humanizar, não tem sentido de existir nos currículos escolares.” Do contrário, a história se torna uma tortura mental, limitada a datas, lugares, nomes e número de pessoas mortas.
Compreende que há três linhas distintas na história do Contestado: a mera informação; a deformação, ou seja, a informação errada ou aquela que protege os grupos dominantes; e a formação, cívica, moral e ética, última em que a vida é o fator mais relevante a ser trabalhado. “Se nós não temos bombas para acabar com a corrupção, só tem uma arma que podemos usar: a do voto, o voto consciente, o voto cívico, o voto moral.”
Para ele, a história do Contestado, tem seus antecedentes, causas determinantes, dimensões e efeitos felizes e sinistros. “Com um terço do que foi gasto na ‘Guerra do Constestado’ daria para implantar justiça social e escolas em toda a região do Vale” comenta.
Ele é um personagem ímpar do Vale do Contestado, tanto que os olhos de quem o vê, quase não acreditam estar diante de uma figura como aquela. “Eu sou um tocador, eu sou um caboclo. Aliás, eu acho que eu não sou nada, mas exerço o meu direito de exercer a cidadania. Nessa condição é que eu me apresento como rábula da história.”
Ao ser contrariado pela minha fiel companheira de viagem, que exclamou não ser ele um simples rábula, que segundo o dicionário se trata de um gritador, mau orador, homem muito falador que não chega às conclusões de sua prosa “caboclo tocador” lançou os finalmentes: “Olha, é bom que a senhora diga isso, porque eu não estava me valorizando. Agora, quero saber quanto vocês vão me pagar para conversar comigo daqui para frente”, solta uma gargalhada, finalizando seu discurso que, no final das contas, não precisou de ajuda nenhuma para se desenrolar poético.

(Publicado no Voz do Oeste em 10 de setembro de 2010)

domingo, 5 de setembro de 2010

"me fale sobre o universo & sua experiência com ele"

te vi através da vela acesa na mesa de mogno. o garçom cansado de ver o líquido gelado e louro escorrer pelos copos. te ouço tocar, olho ao redor, lembro de quando tudo ainda era mágico. onde foi exatamente que a magia acabou? fumávamos nossos cigarros com a selva de pedra como cenário. o cenário era o mesmo, os cigarros também. só nós, que não éramos mais os mesmos. nossos corpos já não se movimentam como antes e nossos rostos, que guardavam o sol, agora são cinzas, são tecidos pútridos de uma estampa que não fabricam mais. te vi e te amei. você me amou em noites como essa. e agora, o que será de nós? temos que despertar com o grito do dia, não mais enforcaremos as manhãs. caminhamos, mas vinte minutos são só vinte minutos e não mais vinte anos. e como eram longos os anos, mas como eram cheios & vivos & intensos. minha emoção se foi, é hora de morrer. me traga a próxima bebida e me mate, por favor. a vida não vale mais o gole.

a indústria jornalística perde grandes talentos

não, não está nas capas dos jornais, mas a indústria jornalística perde grandes talentos pela pressa. nessas horas penso em joseph mitchell & seus meses & anos para concluir um perfil. e noto que não é a toa que não se vê grandes nomes do jornalismo atual. hoje, ou os jornalistas dão um jeito de criar em moldes, em grande escala e com rapidez, ou estão fora. dia desses tivemos uma reunião na redação e percebi que a grande pauta era a “baixa na produção.” é claro que o raciocínio é inconsciente, mas é capitalista, é materialista, é equivocado, é de ameaça, é de pressão. me senti um produto, me senti uma operária em uma fábrica: quanto maior o número de frangos eu degringolar por dia, melhor para a empresa, melhor para mim. fácil se usar o lead, a pirâmide invertida. difícil para quem se reporta para dentro e para fora, num aproximar-se e num distanciar-se quase sensual, nesse complexo oficio de escrever. se usarmos moldes nessas horas, caímos fatidicamente no lugar comum. e me desculpe, mas não há espaço para isso no jornalismo literário. queridos, dinheiro se ganha também com um pouco de paciência. e qualidade, nem se fala. posso escrever em série rapidamente, mas julgo que um bom texto literário vale mais do que mil em roupagem de lead. está bem, quem está escrevendo é alguém que sempre esteve do lado oposto. fui “dona” de jornais alternativos como “manifesto cultural”, “moloko vellocet” e “o bobo da corte”. de projetos de jornais como “olhodarua” e do site “o escambau”. durante a faculdade, esperneei por um jornalismo que eu nem sabia o nome. depois descobri algumas nomenclaturas, como jornalismo alternativo, cultural, independente, literário e finalmente gonzo. minha monografia escrevi sobre o gonzo; meu projeto experimental, foi “o anti-herói” – uma grande reportagem literária & gonza. estou do lado mais difícil. daquele lado para onde as pessoas que se dizem corretas, jogam os tomates podres. e como eu tenho asco dos que se dizem corretos. eu já me chamo de extravio para não ter que me abalar quando constato os meus aspectos mais vergonhosos diante do espelho. e eu tento os constatar. eu tento os admitir. e eu continuo numa espécie de luta pessoal e social por um outro jornalismo. sei que me perdi um pouco pelo caminho. mas nem tanto. eu continuo. e digo aos que se deixam vender, assim como eu, de quando em quando, que quem perde com essa atitude não somos apenas nós, mas a sociedade. o jornalismo perde sim grandes talentos, assim como grandes talentos se perdem para puxar o saco do chefe. só que chefes mudam. você terá que se suportar por toda a vida. o jornalismo é uma arte. e como tal, é autoral. o autor precisa e está presente no texto, como parte indissolúvel da obra. o artista pode ser odiado, mas sua obra fica. independente de suas gafes, de suas relações sociais, de seus trejeitos que depõem a favor ou contra ele. ninguém pode saber tanto de um fato, se não de distanciar dele; ninguém pode saber tanto de um fato, se não se aproximar dele. o jornalista é o olho do leitor. se o jornalista se cega, o leitor se cega. portanto, adelante. pegue seu leitor pela mão e o conduza. quero ver até onde podemos ir. se não for assim, me perderei. me terão nas artes plásticas ou na filosofia, mas não num jornalismo de indústria.

“demita-se esse vagabundo”

dizem que o homem era sossegado. nove mulheres devem ter suportado o sedentarismo do grande poeta nos ombros. vinicius de moraes parece ter procurado uma mãe entre as amantes, que cuidasse de sua vida, enquanto ele descuidava. veja como são frágeis e sutis as leis sociais. de poeta a vagabundo em um piscar de olhos. acho que todos os poetas são ou deveriam ser abençoados por alminhas que compreendam o seu desdém pelo mundo meramente material, para que eles possam imergir na poesia no exato momento em que o universo gira lá fora, cruel e ambicioso. engraçado, trinta anos depois de sua morte, de vagabundo a embaixador. o ai-5, que só de pensar sinto calafrios, exigia o desligamento de “bêbados, homossexuais e vagabundos”.

“demita-se esse vagabundo”, era a ordem do dia, impressa no telegrama. ora, se vinicius levou um pé como esse e agüentou, por que nós, meros intentos poéticos, não podemos levar e agüentar? poeta, vagabundo, boêmio, embaixador. o último título parece não rimar. mas que seja. vinicius se deu a liberdade de criar, mesmo em um lugar e em um tempo de guerra. na dele, atrás do muro, se fez imortal, enquanto as vaias dos pragmáticos ecoavam soltas. e que morram os pragmáticos! quem se importa? o ser humano, essa coisa louca que somos, precisa mais do que cuidados práticos. vinicius sabia disso e deixou sua arte para o deleite de vagabundos como eu. e que seja eterna enquanto dure.

Chega de Saudade

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

me identifico

joão cabral de melo neto, sobre a idiossincrasia telefônica de drummond: - “era uma coisa engraçada: pessoalmente, ele falava menos” – constatava cabral. “mas tinha uma conversa longuíssima ao telefone. quer dizer: quanto mais longe a pessoa, mais afetuoso ele era. tenho a impressão de que ele não gostava era do contato físico”.

uma descrição qualquer


qualquer descrição otimista, me parece pretensiosa. qualquer conteúdo pessimista, me parece carente demais. se eu falasse em termos meios, seria artificial, seria um não eu. então, o que resta é me abster, por força maior & por tempo indeterminado. fica aí essa justificativa, não menos patética, contendo altos teores de pretensão-carente-artificial, que não soluciona coisíssima nenhuma & que poderia muito bem nem existir...


(encontrado no antigo diário que não vingou "Hotel L., 3689")

"sempre" & "nunca"

“sempre” e “nunca” são palavras usadas para se convencer ou convencer alguém de uma mentira. até porque não somos constantes a ponto de sempre ou nunca agirmos de tal forma, sentirmos de tal forma, sermos de tal forma. prometo nunca mais dizer isso. vou sempre falar a verdade.

sábado, 4 de setembro de 2010

canções de brisa ruidosa

tinha me apaixonado pelas linhas. queria ter entrado na tela. queria ser um vírus qualquer, daqueles sem remédio. de minha paixão, o trato banal. como se aquilo, apesar de acontecer todos os dias, em todos os lugares, com todo mundo, não fosse sagrado. era sagrado, ninguém me dirá o contrário. me roubou as madrugadas, te dei meus ouvidos e meus olhos e meus risos. fui ameaça, eu sei. se sentiu como eu, balançado no vento das letras só nossas. sei que não tens esses feitos como cotidianos. querido, tenho que dizer-te: tenho poucos dias de vida. vê, a vida me escorre por meio das pernas. não poderei lembrar de ti na velhice, pois não terei velhice. tuas filosofias, tuas crenças, não guardarei em arquivos. temos pouco tempo. minha memória está no fim; minha vida está no fim. te espero na porta, depois do caminho das bromélias & das papoulas. te aguardo com o céu na palma das mãos, estrelas no peito. quero fazer do teu rosto stencil e psicografa-lo em tatuagens na minha pele gelada. quando eu me for, avise para atearem fogo em mim. meus sonhos, deixe para ela; ela saberá o que fazer. o que deixei por fazer, deixe onde está; o que terminei, passe a diante. avise que tudo o que fiz, fiz com toda a força que guardei. estou partindo. diga que os amo e que sentirei saudades. me faça voar em alguma montanha azulada. não me trancafie, em hipótese alguma, me trancafie. quero voar. me faça imortal em tuas canções de brisa ruidosa. estou chegando ao fim, estou chegando. meu espírito se prepara para o fogo. eu vou, me guarde em ti, mundo. me guarde. te guardarei em mim e lembrarei dos dias de verão nos terrenos baldios da minha imaginação. eu volto, um dia eu volto. adeus. e parto.

arte de rua III

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

the spy

arte de rua II

quis a plástica das palavras


eles buscam a ordem. eu busco o oposto. tantas palavras já passaram pelas minhas mãos. que sejam eternas. quase não acreditei que havia névoa nessa noite. só tive certeza quando meus olhos, lavados de dor, sem contornos negros ou rimmel, viram através da luz dos postes públicos, aquele manto brilhante de chuva fina. as crianças ainda gritavam e corriam e falavam. ocupamos o mesmo espaço e como somos diferentes. se dedicam umas as outras num esconder-se e achar-se infinito, sem propósitos maiores. eu, faço questão de não existir. eu, faço questão de ter propósitos nobres que me afastam do mundo. vi teu nome apagar-se em mim. mais um nome que se apaga. acumular desafetos tornou-se meu maior ofício. há tempos tenho um costume tolo de freqüentar rodoviárias, terminais, metrôs, estações de todo tipo. enquanto escrevo, tomo café e fumo, espero por alguém que nunca chegou; espero por algo que jamais chegou de viagem. como se aguardasse uma alma forasteira compatível, que gostasse de ler poemas escritos nas mesas dessas estações tão minhas. é como se me esperasse chegar no próximo ônibus ou trem. eu nunca cheguei. há pessoas que confundem minha aventura com perversão. talvez seja esse o momento de esclarecer que, ao escolher a estrada, escolhi também a solidão. talvez seja hora de dizer não, não meu corpo não configura com corpo algum desse mundo. quando te deixei, escolhi a solidão; agora, anos e anos depois, sinto que não imaginei que seriam os dias tão longos. escolhi a solidão das cidades desconhecidas, lugares em que me fiz anônima. se eu pudesse dar um conselho a alguém diria: vá pelo caminho do meio. o extremo é burro. saiba que tua solidão não comprará o amor que perdeu ao sair de viagem. mas quanta tolice. não existe mais viagem. fulana solta bombas pela boca. fulana me aprisiona, me faz escrava. mas quem é fulana? fulana sou eu. pobre fulana, caranguejeira de travesseiros de pena. pobre fulana. só não enlouquece de vez pois quer manter a pose. pois não se fazem mais loucos como antigamente. loucos desvairados, de camisa de força. os loucos não são visitados em casa, são loucos de consultório. fazem-se de sãos na frente do médico. que desglamourização da loucura! eles não xingam mais os doutores da cabeça, engolem os remédios com resignação e até admitem-se loucos. desconstrução de uma antiga estirpe. é, estou meio fora de moda. ainda (re)monto um jornal medieval e me (re)torno o bobo da corte do velho oeste. já pensou? publicar somente as peripécias de uma cabeça insana. é o futuro do jornalismo. é o jornalismo individual, egoísta. dia desses me disseram: “és a heroína solitária.” ou algo assim. sim, devo ser. heroína que morrerá do próprio veneno. nasci no dia errado. no dia de um grande homicídio, no dia em que nasceu um anti-herói, bêbado e zoneiro. nasci no dia em que os gritos dos infantes eram mais fortes, mais intensos, carregados de desassossego pela consciência de terem entrado nesse mundo. nasci sob um sol que não me deu condições de me relacionar nas superfícies, mas sim nas periferias. sol que disse: “vai, vai, corta os pulsos aos 13, já que depois disso a vida será só desgraça.” insisti. estou viva por conveniência, por falta de um instrumento letal que me contente. vi uma geração inteira morrer para a vida e nascer para o vírus. vi corpos estilhaçados nas estradas, signos desencontrados, booom! fotografei com os olhos e com as máquinas. redigi. sequei lágrimas, provoquei algumas. nesse estado morta-viva, tenho feito de tudo para dar vida às palavras. acomodar pessoas, histórias e lugares em caracteres mínimos. fui fêmea e fui o contrário disso. desisti do ser humano, elegi os animais. vigiei vidas com olhos doloridos. chorei sozinha, pelo meu orgulho. fui cigana. não duvide. fiz previsões que ninguém contestou. continuo vivendo, mais morta do que viva e, quando chegam as noites de sexta, estou mais morta do que em qualquer outro dia. me vejo legume em uma rede no jardim. legume venenoso, pulmão cinza das fumaças das fábricas. não tenho antídoto. não tenho crias. não tenho mais sonhos. eu fui, agora não sou mais.

(sem(?) nexo ou revisão)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

vi uma pomba morta no asfalto

vi uma pomba morta no asfalto, era eu. de machucada a morta em segundos. a vida arrancada do peito macio, ainda quente. era eu, depois do golpe. pegou e puxou a vida de dentro de mim, num solavanco dos diabos. e eu, que nunca quis ter certificados de propriedade, naquela hora quis ter um de mim e outro de ti. e gritar para os sete ventos: é meu! o que guardo aqui e meu! e zombar e odiar todas as coisas e pessoas que te roubam de mim. mas bem sabe que mantenho a educação. afinal, mundo é linguagem. ah, mas como eu queria ser um animal nessas horas e me permitir agir pelas paixões, intuições, instintos, impulsos. quis ser um bicho e morder o inimigo e agarrar a presa e sair pelo deserto com ela na boca, tal cria ameaçada. mas me calei. do silêncio, veio o enjôo já bem sabido. e peguei a estrada, eu, pomba morta no asfalto, peguei a estrada e fui olhar a porra do horizonte e suas vacas pastando a esmo. parei em uma bodega de beira de estrada e comprei uma porra duma coca-cola, fumei meu dunhill e chorei. cara, eu chorei. os boêmios me olhavam e eu disfarçava. as lágrimas presas nos óculos de sol que intermediavam os meus olhos e o céu do fim da tarde. atravessei a estrada e cheguei mais perto da porra do horizonte e vi um abismo entre a estrada e a as vacas. se o abismo fosse grande o bastante, quem sabe, mas o abismo era tão medíocre quanto as bandeiras de propaganda de cerveja que os meus olhos avistavam de quando em quando, quando checavam o que os boêmios estavam pensando que eu iria fazer. e eu não fiz nada. peguei o carro, novelesca como sempre, liguei o radio, been a long lonely / lonely, lonely, lonely / lonely time, as batidas retumbando na cabeça cansada pós jornal-diário e parti. covarde. pobre pomba morta no asfalto, desprovida de instintos e defesas. guardei o céu azul na retina, deixei as lagrimas de sal secarem no sol tranqüilo do fim da tarde manchando o meu rosto para sempre. troquei a roupa negra, que uso “pelos pobres e oprimidos / que vivem no lado faminto e sem esperanças da cidade”, pelos campos de algodão e me escondi bem atrás dos lençóis da minha inconsciência, enquanto meu espírito, meu triste espírito, gritava de dor, num desespero caótico de se entender apenas corpo naquela hora, morto, estirado e morto, na estrada de fios de ouro de um já setembro sangrento.

O arredio

Não vou falar apenas de um livro nessa semana, mas de um autor. Curitibano, Dalton Trevisan é o meu escolhido. De escrita particular, é autor de livros como “O Vampiro de Curitiba”, “Novelas Nada Exemplares”, “O Grande Deflorador” e “A Gorda do Tiki Bar”. O primeiro eu apenas li; os três últimos, tenho na minha cabeceira.

A Editora L&PM Pocket se dedicou com afinco a publicar as obras do escritor arredio, nascido em 14 de junho de 1925, que escolheu o anonimato – tanto, que fotos suas são somente aquelas que algum fotógrafo intruso tirou sem o seu consentimento.

Admirado por vultos da literatura brasileira, como o intimista Caio Fernando Abreu (que o citou em sua famosa “Carta ao Zézim”), Dalton Trevisan, por vezes, se rende à escrita erótica em seus contos célebres, como é o caso de “Capitu Sou Eu”, do livro “A Gorda do Tiki Bar”, o conto da professorinha que se apaixona por um de seus alunos. “Caminha descalça pelo inferno de brasas vivas. Uma série vergonhosa de casos: fotógrafo homo, pintor futurista, professor impotente, sei lá, poeta bêbado.”

Sua linha é bastante poética e também bem humorada. Fala de casos cotidianos, fáceis do leitor identificar, a exemplo do conto “Tudo bem, querido”, da obra “O Grande Deflorador”, sobre um fora não bem digerido. “Já não me quer? Tudo bem. Basta que eu te olhe, nem chego perto, do outro lado da mesa. Cafetina de corações solitários. Ó estripadora de alminhas líricas.”

Trevisan usa diminutivos em excesso, dando graça ao texto, e parece engolir palavras do enredo em várias ocasiões. É de propósito, se trata de seu estilo. Pode-se perceber essa característica em praticamente toda a sua obra. Um exemplo disso está em “Idílio”, texto de “Novelas Nada Exemplares”: “Banho de chuveiro, jantava, corria ao seu encontro. Às vezes trescalava a toalha úmida. Paulo a beijava com tanta aflição, por pouco engoliu o brinco de pérola falsa. Na rua até às dez horas, fechado o portão.”

Um dos melhores textos, na minha opinião, de “Novelas Nada Exemplares”, é “Quarto de Hotel”, que começa: “Os pardais o acordam de manhã. ‘Malditos!’ gemendo, enterra a cabeça no travesseiro. Malditos pardais – o dia: mais um dia. Quietinho, morde o lençol, abafa os gritos: ‘Não acordei, estou dormindo. Não são os pardais, mas os grilos...’ Quem dera esganar todos os pardais da cidade.”

Seus personagens são comuns, carregados de detalhes íntimos, com histórias que muitas vezes são ocultadas entre os limites das paredes, espiadas por Dalton, como diria Nelson Rodrigues, tal “um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura”.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

“Pelas enfermidades terríveis que não hay cura”


Ela estava lá, no São Pedro, a pé, entregando seus folhetins divinos.

Se sabe que já está no São Pedro quando as retas de asfalto dão lugar à poeira das estradas de chão, ou quando os casarões cedem espaço aos casebres, onde os cachorros já não conseguem mais se manter brancos, limpos, sãos e atrás das grades, mas sim nas ruas, marrons e perebentos, reféns da sorte, do destino dos automóveis que passam capengas pelo lugar. Um lugar de fome, de prostituição, de tráfico. E de muito mais do que isso.
Enquanto os candidatos se dedicam a pagar meninas para andarem pelas ruas dos bairros da cidade entregando santinhos ou ficarem paradas nas avenidas, iludindo sonhadores como eu de que estão fazendo protesto, ela estava lá, no São Pedro, a pé, entregando seus folhetins divinos.
Impossível não vê-la de longe: Roupão roxo, cabelos pretos já grisalhos envolvidos por um manto azul-marinho de pano brilhante, a bolsa bordô imitando fuxico, os pés numa imitação de havaianas e os Dez Mandamentos, abertos nas mãos, escritos em castelhano, “La Ley Real”. “Essa roupa foi trazida do céu. Os mandamentos, dados pelo próprio Deus.”
Quer transmitir às pessoas, que busquem a Deus como buscam o ouro. “Coisas terríveis estão acontecendo. Um mata o outro, filho mata o pai, pai mata o filho. Guerras, temores, enfermidades terríveis que não hay cura.” Essa é Inoir dos Santos, gaúcha que mora no Paraguai e tem a missão de andar pelo mundo, pregando a palavra do seu Deus, o Deus da Congregação Israelita Nuevo Pacto Universal. “Israel era um muchacho, um rapazinho novo, quando recebeu os Dez Mandamentos. Assim é as coisas de Deus.”
Julgo que o peso e o calor, dela, das roupas e do sol, não ajudam na caminhada, tampouco a idade: Fará 60 em janeiro. “Temos que trabalhar para o Senhor, porque estamos nos últimos tempos”, fala a voz segredosa de veludo. “Deus cumpre o que promete: Ele diz que na hora do calor, ele refresca o nosso corpo. E na hora do frio, ele esquenta.”
A vestimenta tem que ser completa, “se vestir de couraça e justiça”. “Se por aí, um se ira comigo – porque tem os que metem a pata –, me quiere meter uma bala, não vai entrar.” Se espelha nos profetas do passado, que morreram por suas causas.
“A Bíblia diz que Deus come e diz como ele come: Cheirando”, lança. “Cheirando as coisas”, continua.
- O que você acha desses bairros, que tem tantas pessoas passando dificuldades, que não têm o que comer?
- Ah, um dia elas terão a recompensa. Por mais que as recompensas não sejam materiais, mas as recompensas espirituais, vão ganhar. Deus se agrada da humildade das pessoas. Ele fala que vem buscar um povo humilde.
Em Ernandária, perto de Ciudad Del Leste, no Paraguai, se recolhe na igreja nos dias de sábado, nos dias de festa e nos dias de Lua Nova. “Porque a Bíblia prega: Lua Nova é dia do Senhor, é um dia santo. Fizemos muito estudo bíblico, muita santa lavança também. Quando o sol se coloca outra vez, nóis se arretira.”
Ela está acostumada com os flashes das máquinas fotográficas nas rodoviárias, a posar em casa alheia, a vida sofrida. “Mas agradeço em demasiado ao nuestro Senhor.”, arrisca um portunhol novamente sem querer. “Isso é o que tenho que fazer: Sair pelo mundo.”

(Publicado no Voz do Oeste em 2 de setembro de 2010)