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quarta-feira, 10 de março de 2010
O NÃO-TEXTO
sexta-feira, 5 de março de 2010
Dois minutos eternos
Tânia Rösing esteve no Chile durante os tremores e fala sobre a experiência
Nem ela, nem o esposo se feriram. Mas, para Tânia, a Santiago que conheceu, de arquitetura vitoriana, de igrejas e prédios marcados pelos traços espanhóis, franceses e ingleses, não será mais a mesma. “Santiago estava vivendo um momento atraente. Peças de teatro com personagens da literatura, como Don Quixote de La Macha, e grandes shows folclóricos. Agora não sei o que será”, finaliza.
(Publicado no Diário da Manhã em 5 de março de 2010)
Tremores numéricos
Números. Como acontece em todas as situações de catástrofe e morte, a imprensa divulga números. Número de cidades atingidas, número de graus de magnitude, número de dinheiro investido, número de mortos. Número de vidas perdidas. É o que está sendo divulgado recentemente com os terremotos ocorridos no Chile, Peru e parte da Argentina.
A vida, essa presença misteriosa que habita todos nós. Nós, que somos muito mais do que números, que somos seres subjetivos, contraditórios, ricos em detalhes genéticos, habituais, filosóficos... nesta hora de abalo somos mesmo números. Portadores de RG, CPF e o escambau. Somos nome, sobrenome e idade. Somos um a mais ou um a menos.
E os números aumentam, as vidas perdidas, encaixadas rapidamente em gavetas numéricas. Mas é lógico que a imprensa precisa divulgar os números; é claro que a imprensa é subsidiada por dados. Mas a imprensa também pode olhar nos olhos fundos de quem perdeu família, casa e identidade, desolado no meio dos escombros, e desvendar o sentimento, e sem sensacionalismo.
É só regular o macro das pupilas, desfocar os fundos numéricos e direcionar para a imagem do desolado, daquele que já não sabe mais para onde ir, o que fazer, o que sentir. Deixar a mente gravar o essencial e a lente ler aquelas perguntas direcionadas ao Deus da Fúria, os porquês sem resposta, desencontrados por entre a tralha toda, de roupas em trapos, dos móveis em frangalhos, dos sonhos idos e das lembranças impregnadas.
Como pessoas que somos, como cidadãos do mundo, podemos reconhecer irmãos em qualquer nação, em qualquer idioma, em qualquer território ou fronteira, mesmo que de longe. Filhos do mesmo Deus, da Fúria e do Alento, temos o poder de nos despedir da matemática da dor e abrir espaço para o lado humano, o centro nervoso da vida, que se aproxima, que sente, que compadece e que transmite isso com verdade, acima de tudo.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Nojo da politicagem
Desses sonhos vendidos
Das almas trocadas
Dos planos perdidos
Eu tenho nojo dos meios
Da máfia, do anúncio
Da vaga não preenchida
Das pílulas pra esquecer
Do acomodado que se isenta
Nojo dos lados
De quem toma partido
Nojo dos corpos
Vendidos em troca
De poder, dinheiro e fama
Tenho nojo de ti
Das modas e modismos
Das fotos e legendas
Da oratória
Da zorra toda
Tenho nojo de mim
Dos repertórios
Das iras, fúrias
Subversões
Nojo das greves
Dos piquetes
Da massa otária em levedo
Do anarquista de almanaque
Dos professores mequetrefes
Do alienado, do operário
Do burguês, do patrão
Tenho nojo do mundo
Tenho nojo da humanidade
Tenho nojo dos sexos
Das idades
Pra onde foram os sonhos?
Vendi por dois pães e uma dose
Pra onde foi a rebelião?
Ficou trancafiada no porão
Pra onde foram os homens?
Viraram ratos na inquisição
E a história, e a filosofia
Os mapas, os fósseis, os rumos?
Encontraram atalho eletrônico
Pra onde você foi?
Fui pra longe tentar ser eu mesmo.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Não há nada que se compare a um coração desocupado...
Não há nada que se compare a um coração desocupado. Nem mesmo um coração ocupado, pelo mais doce amor correspondido, nem este pode ser comparado ao instante de paz, sossego e liberdade que de um coração desocupado emana. Ele é ele e ponto. Ele não é ansiedade, angústia ou paranóia. Ele não espera por absolutamente nada, não sofre, não inventa, não cria constelações de ilusões entre seus vãos ou rios de esperanças nos seus armazéns. Ele goza simplesmente daquele pequeno e raro momento, aquele em que sentimos que podemos partir para onde quer que desejemos, sem nos enrolarmos nos cordões de prata do amor que nos une e nos segue sem querer. Um coração desocupado é aquele que arruma as malas de madrugada e pela manhã está pronto para partir, ainda que saiba que qualquer batida de vento em seu rosto pode trazer o amor dilacerante outra vez. Mas enquanto ele é ele e nada ou ninguém mais, ele pode voar, sonhar sem doer com os dias que virão. Enquanto ele é só ele, o coração desocupado se embriaga de poesia, ainda que de brisa, experimenta o gosto do mundo que o amor jamais poderá oferecer, pelo menos para pessoas como eu. Pessoas como eu têm um daqueles amores desconfiados, meio de canto de olho. Não admitem que podem ser amadas, e encontram as mais loucas provas de que estão sempre certas, que a sua teoria é infalível e altamente palpável. Pessoas como eu, sentem-se felizes com seus corações desocupados, mais do que poderiam ser com quaisquer dos preenchimentos amorosos. Amores platônicos até nos caem bem, pelo menos por um tempo, diferente dos namoricos de portão, amizades coloridas, amores à primeira vista ou de verão. Pessoas como eu, que guardam a sete chaves corações como o meu, morrem de medo de enlaçar-se nesse emaranhado de emoções. Fazem-se de difíceis, bancam as duronas, mas, na verdade, apaixonam-se perdidamente todo dia, porque pessoas como eu, com corações como o meu, procuram sempre um sopro de vento que se compare a um coração desocupado, só que sem nada em comum...
(Texto bobo e antigo - mas que condiz com o momento - encontrado entre os arquivos)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
até quando vinícius quiser

foi bem ali, no meio daquela kitnet verde-musgo-rosa-antigo, que eu olhei pra ti, quando me ensinava a lidar com a câmera nova. nova também era a cidade e a revista, e tu, era meu guia, dentro e fora dos edifícios, das sessões de cinema, das noites da metrópole. a kitnet tinha apenas um colchão, canecas de café, um cinzeiro de vidro em cima da mesa ao lado do notebook, uma mala, livros empoeirados de jornalismo policial, astrologia e culinária de botequim, uma tv pequena, um dvd barato, quadros rusticamente pintados com cores primárias – que mais pareciam ter sido feitos por uma criança atormentada –, os quais não encontraram lugar nas molduras ou divisórias, e fotografias de trabalho nas paredes. e olhando para as fotos em preto & branco, já tão velhas, tu me dizia sorrindo: “se tu tira fotos desde a infância, não achas que já deveria ter aprendido?” e eu, com cara de “também acho”, lerda em tecnologias, sorri de volta pra tua boca, submersa naquela barba toda e pedi: “pra sempre?” e tu citava vinícius, em soneto de fidelidade: “que não seja imortal, posto que é chama. mas que seja infinito enquanto dure.” preocupado com reações, tu continuava de olho na máquina, desviando de quando em quando pra minha boca que então citava caio fernando: “deixa o vento soprar, let it be”. e tu cantou um trecho da música, me beijou e me desvendou, para o resto dos meus dias. ou até quando vinícius quiser.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
vagos dias

basta um toque apenas
para acionar toda essa explosão
de veias alarmadas, varizes nervosas
que me tomam o corpo enfermo
me espalho no vento inflamada de amores
me espalho nos teus cabelos
em finos sopros de esperança
basta um toque apenas e já sou tua
e com o passar dos dias
a indiferença que me cala
vai apagando sopro a sopro
o que resta da minha alegria
eu já não sou nada, muito menos minha
amaldiçôo o toque maldito
torno maldito o bendito
roçar de línguas da tua boca
nada, não sou nada
sequer decodifico os poemas
que lhe teço infame
nada, não sou nada
trapo antigo, rasgado no beco
pois não há de haver
dor maior que a indiferença
antes me dedicasse o teu ódio
tua ira, tua injúria
antes me despejasse grosserias
fizesse de mim messalina
amante dos vagos dias
antes me fizesse messalina
mas não, me ofertas teu silêncio
e do teu silêncio
se cria a minha dor
aninhada de solidão extrema
me sinto doente
o corpo já não abarca
de anti-corpos a dor
que vem de dentro
então jamais me toque
nunca mais toque na minha dor
não toque mais nessa ferida
se não quiser vê-la vestida de amor
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
queda livre
ele não responde,
ele não liga,
ele já não fala,
não ouço a sua voz.
quem é ele,
quem é ele,
quem é ele?
ele já não respira,
ele já não ouve,
ele não se move,
ele morreu.
ele não abre espaço,
ele não encontra caminho,
ele já não vive.
quem é ele?
quem é ele?
quem é ele?
ele se foi,
não voltou.
será que esqueceu?
será que pirou?
desistiu?
sonhou?
queméelequeméelequeméele?
terá o telefone estragado,
terá a caneta findado,
terá o suporte furado,
terá a linha quebrado,
terá a sorte azarada,
terá a sombra enviuvado,
terá a memória despedaçada,
terá a visão embaçada,
terá os poemas queimado,
terá as fotos aniquilado,
terá as desculpas escapado,
terão seus dedos enferrujado,
terá sua boca colada,
terá a pá de cal lançado?
terá? será?
bolero, violino,
cabaré de sonhos, café frio.
tu me deixou e meu riso virou rio.
meu desalinho desandou,
sou de linhas & manchas,
puxadas, pinceladas de fogo fátuo.
tufoiembora, eu não sei o que dizer.
te escrevo esse poema
que é pra não esquecer
que a minha rima pobre quer,
nas vias de fato,
relembrar teu nome
e que penso em ti
nem que seja pra lembrar
que já esqueci.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
desalinho
gosto desse estado entre paixões
tão raro, tão calmo, tão tranqüilo...
a pele amarelada de sois
meu hotel de ilusões particular
gosto de aceitar as estações
as idades das coisas, os tempos, os climas
tempestades, relâmpagos, trovões
manhãs brandas, céu azul, chuva fina
gosto de enfrentar essa guerra
dos meus infernos & paraísos astrais
gosto do verde, do roxo-vivo, púrpura
das rosas-magentas, da ferida que não dói mais
gosto da essência das sementes, de regar botões
acariciar sua prole, prover seu pólen
me agrada a dança das águas
“nesse rio que corre em veias mansas dentro de mim”
gosto da madeira como elemento
das presenças que invadem a alma
do estado infantil do ser humano, não raso
do balanço da rede nas tardes de domingo
das formas barrocas, dos dedos de diva
do hortelã do teu crivo, gudang
fazendas floridas, estampas, desalinho
de todo esse vinho, do teu beijo de mil morfinas
dessa centelha de vida que me invade
desse festival divino à flor-da-pele
dos perfumes, dos risos, dos poemas
das cantigas de ninar, dos infantes
livre do que me dilacera
longe de ti, “minha grande, minha pequena obsessão”
já que da tua lembrança ficou o vapor
ecos & sombras de palavras que se foram
palavras não salvas, antigas
que de ti me faziam refém
mas de mim agora sou dona
pois me sinto minha e não mais tua
da minha boca, fruta vermelha
fica o gosto do que se foi
fruto fora de época, perfil de begônia
que não mais reinará no teu jardim
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Os cafajestes (não) merecem o paraíso - Uma analogia descarada
É possível que o lugar ocupado por um cafajeste só seja devidamente medido quando, sem mais delongas, conseguimos tira-lo de nossas vidas. Um alívio em perceber que estamos, pela primeira vez desde os tempos remotos, condizentes com a nossa intuição. Não seria uma inverdade admitir que os cafajestes estimulam a nossa imaginação, nossa veia criativa; pois, para tolerar ou tentar compreender as atitudes de um cafajeste, nos lançamos em um descampado, porém rico e imaginativo, para nos convencer, da maneira mais poética e humana, de que não é possível existir ser vivente com tamanho despeito.Senso de humor particular, estratégia amorosa pouco usual, medo de compromisso, trauma de infância, descaso materno ou paterno. Tudo isso entra em questão quando queremos justificar a personalidade de um cafajeste. Porém, pasmem as descrentes: os cafajestes existem, e estão entre nós. Hedonistas incuráveis, egocêntricos, quantitativos, apelativos, de olhares caninos, eles estão em toda parte. E haja psicanálise freudiana de botequim para explicar como é que eles surgem.
Senhoras bem-casadas, cuidem-se: eles podem estar entre vós. Nem todos possuem características semelhantes entre si e há aqueles que, como camaleões predadores do deserto, camuflam-se com zelo tal, que jamais, a mais desconfiada, neurótica e histérica balzaquiana ousaria por em xeque a sua conduta.
As chamadas mulheres do mundo, vividas, curtidas, também são vítimas corriqueiras dos cafajestes. Isso porque a carência e o excesso de pressão social é capaz de fazê-las admitirem um cafajeste para chacoalhar a solidão. Crentes de que “esse é diferente”, experimentam também o veneno amargo do cafajestino.
É claro que um mundo sem cafajestes seria um mundo menos boêmio, perderia o aspecto romântico ofertado pela canalhice. Não tentaremos aqui tirar os méritos dos cafajestes, canalhas e cachorros de espécies variadas. O universo feminino sem eles seria duro demais, sério demais, exato e previsível demais. Cafajestes ofertam ao mundo uma doce ilusão, que perdura mais ou menos o mesmo tempo que uma gripe. Entretanto, parasitas, muquiranas, se infiltram no frágil sistema emocional feminino e podem provocar estragos irreversíveis.
Mas dizem que mulher alguma pode considerar-se experiente nas intrincadas artes do amor sem ter passado, pelo menos uma vez na vida, pelas hábeis mãos de um cafajeste. E é provável que cafajeste algum passe pelo mundo à toa, ainda que com toda e única sede de prazeres que possui. Depois de um cafajeste, as mulheres são mais capazes de detectar investidas canalhas e, consequentemente, vislumbrar olhares mais bem intencionados.
Portanto, aos cafajestes de nossas vidas, agradecemos por toda a poesia, mas sigam adelante com essa indomabilidade dócil de cão sem dono bem longe de nós. Seguiremos com nossa poker face até que um novo caso seja escrito pelo destino.
domingo, 31 de janeiro de 2010
"eu quero um dia de sol num copo d’água"
raros têm sido os dias como o de hoje. dias em que consigo sair desse emaranhado de emoções que crio, desse porão sombrio, assombrado por demônios ardilosamente inventados. hoje foi um dia bom. consegui aceitar melhor todo esse calor queimando a minha pele desenhada de cores, correndo livre por essas estradas, cabelo vermelho se armando todo no vento, vendo aquele horizonte tão conhecido bem detrás dos óculos de sol vagabundo. me senti dourada. me senti viva. velhos amigos, cerveja, novos olhares, maresia imaginária. seja lá o que me deixou assim, eu gostei. seja lá o que virá, foi bom. o rosto estampado de sorrisos, a boca, lotada de dentes. na brisa fresca e luminosa do fim de tarde, te encontrei bem perto de mim, na nossa casa de mornas sombras, embalada por música celta, medieval. precisava tanto de um colo e o tive, longe de tudo, emoldurado de doces espirais de incenso barato. e tudo foi tão sem medo e tão parecido com aqueles velhos anos, que não fiz nada além de sentir. e que se danem as palavras repetidas. e que se danem as histórias revividas. "eu quero um dia de sol num copo d’água".quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
que, captando as milhares de imagens diárias
nas cores das palhetas
das placas luminosas, néons & standarts
se mistura no gás da cidade
pois sou também parte do rosa que tinge o céu
quando a noite cai
tenho álbuns de lembranças
bem na frente das pupilas
e quando olho para todos os rostos e carros
enquadrada & calada nas janelas dos ônibus
é o teu rosto e com o teu tom que desenho
se me distraio
já escrevo teu nome
e quando o silêncio do mundo vem
sou só saudades
carregadas de abraços
que eu não dei
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
não
não, não me mandem dormir,
não, não me mandem abaixar o som,
não mandem calar,
apagar o cigarro ou o cio.
eu não vou, hoje não.
quero cutucar o teu medo,
aquele que tu não pode sequer
bloquear, deletar, excluir.
não me mande parar,
hoje eu não vou.
vim pra bagunçar tuas certezas,
bem no meio da noite.
não quero o permitido,
não quero o absolvido,
o absoluto.
feche a janela,
eu ainda estarei lá.
desligue o telefone,
eu ainda vou te ouvir.
se tu não gosta do jogo,
estará perdido.
se tu não sabe jogar,
terá o meu tiro.
te encontro nos néons
do meu filme noir.
te encontro em david goodis
ou em hqs monocromáticas.
te encontro
e por que te encontro?
não te encontro
e por que do desencontro?
te prolongo no meu tango,
é personagem do meu sonho,
é figuraviva do meu fim,
és meu & delira.
velha dor em brasa,
velho amor em cena,
velho gosto amargo
na boca de gim.
mais uma terça-feira,
mais uma noite de insônia,
mais uma bofetada
do destino,
bang-bang, mescalina,
viúvanegra, feridaviva.
venha dor, deixe verter.
é a dor mesclada de cor
é a cor, virada em tons.
é o amor, te dilacerando
de novo.
domingo, 24 de janeiro de 2010
e se eu visse cazuza?
o que diria plínio marcos se me encontrasse numa dessas noites sujas, ele, vendendo livros, andarilho, com uma garrafa de cachaça pelas bordas do fim e eu, medrosa e sóbria, com toda a minha mania de controle? quem sabe riria da minha cara de merda e falaria sobre os chefes & chefetes e suas bundas cravadas de espinhas grotescas esprimidas nas cadeiras de couro falso, enquanto eu me afastaria boquiaberta desejando minha cama, longe do mundo. riria da minha mania de dar o meu sangue pra tudo o que faço sem ao menos gozar um pouco do lado doce, ainda que no fundo de uma garrafa pelas bordas do fim. o que diria ele desses falsos intelectuais e de suas revistas de coluna social, das rodas literárias e de toda essa grande escrotice de elite que chamam de cultura, desses risos distorcidos, desse medo, desse medo? se me visse pelas ruas dessa capital do oeste, me convidaria para passar a noite no hotel mais fuleiro dos terminais e eu pegaria um táxi de volta pra minha alcova burguesa, preferindo, de novo e sem dúvida, meus lençóis imaculados. que grande marginal de merda eu daria ao dar de cara com plínio marcos... diria talvez que eu estou perdendo tempo em não ser um grande palhaço. e se caio fernando abreu, bem no meio dos mendigos e falos, desse de cara comigo? me daria um abraço nojento dizendo pra eu segurar a minha loucura com essas garras atrofiadas de dama da noite e continuaria se divertindo sem medo do fim. que espécie de desgraçada eu seria ao dar de cara com o velho bukowski na bodega da esquina, com a cara fodida de tragos e dores em pencas, me dizendo que a mosca no braço dele era mais interessante. e que grande marginal eu seria, com a cara no mundo, e que grande merda maior ainda eu seria se visse cazuza. ele diria que estou desperdiçando todo o meu mel, soltaria uma gargalhada bêbada e diria pra eu mandar o mundo se foder. que grande merda eu seria se visse cazuza.sábado, 23 de janeiro de 2010
Crônica lamuriosa
Que parte da transição eu perdi? Aquela entre o sorriso fácil e a amargura de quem se acha dono das coisas (“essa caneta é minha, não toque”; “essa janela é minha, não abra”)? Sim, pois há de ter havido um momento crucial, a hora derradeira que transformou a alma infantil em uma alma de azedumes das noites de sábado.
É triste constatar as manias que se adquire com o passar dos anos e que elas vão ainda além da idéia de possessão ou aversão à luz: elas nos tornam distantes de quase todo tipo de espontaneidade (e de pessoas espontâneas, diga-se de passagem) já que a espontaneidade nossa já é uma espontaneidade neuroticamente calculada.
Envelheci rápido demais, viciei-me em palavras cruzadas fácil demais, desejo a minha poltrona com tesão demais. É a idade que chegou. Mas qual idade? 62? Não, apenas 26. O que estarei fazendo então quando estiver – definitivamente – na casa dos 60? Já ouvi falar que estarei escrevendo livros, mas até lá acho que estarei tão mais ranzinza, e, portanto, avessa ainda mais a espontaneidade e consequentemente a devaneios literários, sempre tão infantis, que não boto muita fé nisso, não. E que deprimente seria escrever livros tão sóbrios, de impulsos controlados metodicamente... (será que há Virgem no meu mapa astral?)
Mas que história é essa de 60? Até ontem pensava em morrer aos 27. Será que os ídolos da juventude não encontraram mais espaço entre as obrigações diárias, nessa vida operária, adquiridas tão sem querer? Quando se chega perto dos 27, é preciso escolher: morrer de uma vez, continuar na farra ou conviver com as paranóias e resquícios da vida que se levou até aí. No caso de pessoas com ídolos como os meus e, obviamente, com hábitos como os meus, paranóias e resquícios são constantes que tendem a esmagar o resto de vida que se tem aos quase 27.
É uma fase em que já não se tem mais tantas ilusões quanto às grandes transformações que incluem sempre sucesso imediato e pouco trabalho; é uma fase em que se nota que a partir daí alguma coisa vai mudar, mas que talvez não seja nada tão apoteótico, embora sempre reste uma esperança de estalos estreláticos e esforço nulo.
Deve haver pessoas nessa idade que pensam ainda em casamento, filhos, profissão bem sucedida e dinheiro (casa, carro, mestrado e blá, blá, blá). E se minhas manias de rock star não me deixarem pensar em nada disso, no que me resta pensar? Acho que deve haver um mundo inteiro para pensar. Devo fazer parte de uma geração paralela de tias(os), altamente satisfeitas(os) com seus filhos emprestados (sobrinhas e sobrinhos), com uma vontade (in)contida de rodar o mundo e ver no que vai dar.
E, o que vai dar, poderá ser apreciado pelo mundo quando os integrantes dessa geração paralela estiverem lá pela casa dos 60, já que gente como eu, que continua teimando em renunciar matrimônio e maternidade, deveria fazer algo mais útil do que beber no bar da esquina e lamentar ou relembrar os anos passados ou cortar os pulsos nas noites de sexta.
Quem sabe não surjam mesmo livros com enredos interessantes, ainda que amargos e neuróticos, novas composições musicais, filmes com argumentos e roteiros inesperados, um pouco de arte nos escombros? Mas que essa deixa não nos seja obrigação, pois sob pressão essa geração não faz nada além de merda. Ou não?
(Ao som do velho Cazuza em Burguesia)
domingo, 17 de janeiro de 2010
minuto

o peito fermentando de presença ausente
saudade, maturada em poesia
a falta de, no volume máximo do meu exagero
saudade calada, vivida gota a gota, pesadamente
desespero de te ter tão longe
desgraça de não vislumbrar chegadas
venderia mil liberdades por um sonho de minuto
que se perderia no vão dos anos, feitos de minutos tão sós
e tu, que sequer sabe de saudade alguma,
goza em prazeres comprados
que minhas barganhas jamais alcançariam
e eu, miserável, vou me contentando em delírios públicos
com desespero tal que arranco-te as palavras
cafetina dos teus desvios, catando a sombra do que deixou
e com o peito em levedo, choro
até secar o assunto e dar lugar ao sono
curtido na marra pelos olhos aguados
sobre o horror
de perguntas
respostas
& informações inúteis
serena a mente
torne-a vazia
jardim de cabelos apenas
a nascer novos fios
de compreensão
serena de manchetes
& manchas dos jornais
serena de títulos de impacto
de iras & revoltas
serena a mente quadriculada
serena o corpo assimétrico
serena de odores
serena de horrores
serena de amores errados
de companhias vis
serena essa mente
tingida de tinta dos impressos
serena essa mente
danosa de penas
serena essa mente de vento
serena essa mente de medo
a mente serena dos diagramas
serena essa mente serena
serena essa mente que mente
"Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando
Tendo
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal."
(Emily Dickinson)
ensaio diante do espelho
vai, agora pega as tuas tralhas, põe o meu nome na tua lista e some daqui. não se esqueça de fechar a porta e de não me aparecer nunca mais. sim, meu bem, fácil assim. nojo, tenho nojo. tua cafajestagem, o que passa por essa cabeça suja, teu hedonismo, teu implicantismo, tudo me enoja. toma vergonha nessa cara, desiste desse teatro de quinta, benzinho, e vê se desaparece. sou a vítima que tu não se deu o trabalho de conhecer; sou as muitas caras do que tu jamais vai encarar. pesadelo, querido, teu pior pesadelo. pode me chamar assim. quando sozinho contigo depois da farra tua cara tu olhar no reflexo encardido, meu nome tu vai ver, bem assim: PE-SA-DE-LO, tatuado no espelho barato do banheiro. cansei desse barco furado perdido no meio do nada, desse movimento nauseante, desse vai e não vai. não sei nadar, mas vou me atirar nas águas desse desconhecido. eu, sempre tão incisiva, dei pra ter medo do corte. mas agora não, quero deixar essa correnteza me levar e que ela seja impulso divino e que me leve à terra firme ou me que mate de uma vez, salamandra explorando diques, desenho em nanquim diluindo no escuro das águas. porque nem toda ponte é real, porque há miragens também no lago. a prisão faz da ilusão um caminho, o medo faz do barco furado um refúgio, de onde não se vê salva-vidas...(monólogo de um futuro que não virá ao som de dead kennedys)
sábado, 16 de janeiro de 2010
Roma, 14 de maio de 1904.
Meu caro Sr. Kappus,Decorreu muito tempo desde que recebi a sua última carta. Não me guarde rancor por isto; trabalho, incômodos e indisposições impediram-me de sucessivamente de dar-lhe uma resposta. Queria que esta lhe viesse de dias tranquilos e bons. Agora me sinto outra vez um pouco melhor (o começo da primavera fez sentir bastante, também aqui, suas transições malignas e caprichosas) e venho cumprimentá-lo, caro Sr. Kappus , e (o que faço com tanto gosto) dizer-lhe, o melhor que posso, algumas coisas a respeito de sua carta.
Como vê, copiei o seu soneto por achá-lo belo e simples e porque nasceu numa forma em que se move com tão discreta correção. Dos versos seus que tenho lido estes são os melhores. Venho agora oferecer-lhe esta cópia, porque sei como é importante e cheio de novas experiências rever um trabalho próprio copiado pela mão de outrem. Leia os versos como se fossem de outra pessoa e no fundo da alma há de sentir como são seus.
Foi uma alegria para mim reler várias vezes o soneto e a carta, agradeço-lhe ambos.
Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais difícil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: têm que aprendê-lo.
Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como de um convite para trabalhar em si mesmos ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo ainda juntar muito, entesourar); são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana.
Aí está o erro tão grave e freqüente dos jovens: eles – cuja natureza comporta o serem impacientes – atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá pois ? que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamam sua comunhão e facilmente chamariam sua felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento. Depois procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este. Há nele uma profusão de cintos salva-vidas, canos e bexigas natatórias, toda espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada a considerar a vida amorosa um prazer, teve de torná-la fácil, barata , sem perigos e segura como os prazeres do público.
No entanto, muitos jovens que amam erradamente, isto é, entregando-se simplesmente sem manterem a sua solidão – e a média fica sempre nisso - , sentem o peso opressivo do erro cometido e gostariam de, à sua maneira, tornar vivedouro e fértil o estado de coisas a que se vêem reduzidos. A sua natureza lhes diz que as questões do amor não podem, menos ainda do que qualquer outra importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem outra resposta, específica, estritamente pessoal. Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Eles agem num desamparo comum e, ao quererem evitar com a maior boa vontade do mundo a convenção que lhes ocorre (como o casamento), vão dar em outra solução menos clamorosa mas de um convencionalismo não menos mortal. Eles não têm, de fato, senão convenções em redor de si. Tudo o que parte de uma comunhão mal coagulada é convencional: todas as relações resultantes de tal confusão por menos usual (ou, no sentido comum, por menos moral ) que seja. A própria separação seria aí um passo convencional, uma decisão fortuita e impessoal, sem força nem fruto.
Quem examina a questão com seriedade, acha que, como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não foi encontrado até hoje uma luz, uma solução, um aceno ou um caminho. Não se poderá encontrar, para ambas estas tarefas, que carregamos veladas em nós e transmitimos sem as esclarecer, nenhuma regra comum, baseada em qualquer acordo. Na medida, porém, em que começarmos a tentar, solitários, a vida, estas grandes coisas hão de aproximar da nossa solidão. As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa difícil do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura. Mas se perseverarmos, apesar de tudo, a aceitarmos esse amor com uma carga e um tirocínio em vez de nos perdermos na fácil e leviana brincadeira que serve aos homens para se subtraírem ao problema mais grave de sua existência – então, talvez, um leve progresso e alguma facilidade venham a ser experimentados por aqueles que chegarem muito tempo depois de nós – e isto já será muito.
Até agora conseguimos apenas examinar sem preconceitos, objetivamente, as relações de um ser para com outro, e nossas tentativas de viver tais relações ainda não têm um modelo diante de si. No entanto, o caminhar do tempo traz mais de um auxílio para a nossa indecisa aprendizagem.
A moça e a mulher, em sua nova e peculiar evolução, apenas transitoriamente imitarão os hábitos e os vícios masculinos, só transitoriamente repetirão as profissões masculinas. Depois de passada a incerteza dessa transição, é que se poderá perceber que as mulheres não adotaram toda aquela multidão de disfarces (freqüentemente ridículos) senão para limpar sua profunda essência das influências deformadoras do outro sexo. A mulher em quem a vida habita mais direta, fértil e cheia de confiança, deve, na realidade, ter-se tornado mais amadurecida, mais humana do que os homens, criaturas leves a quem o peso de um fruto carnal não fez descer sob a superfície da vida e que, vaidosos e apressados, subestimam o que pensam amar. Esta humanidade da mulher, levada a termo entre dores e humilhações há de vir à luz, uma vez despidas, nas transformações de sua situação exterior, as convenções de exclusiva feminilidade. Os homens que não a sentem vir ainda, serão por ela surpreendidos e derrotados. Um dia (desde já predito, sobretudo nos países nórdicos, por sinais fidedignos) ali estará a moça, ali estará a mulher cujo nome não mais significará apenas um oposição ao macho nem suscitará a idéia de complemento e de limite, mas sim a de vida, de existência: a mulher – ser – humano.
Esse progresso há de transformar radicalmente (muito contra a vontade dos homens a quem tomará a dianteira) a vida amorosa hoje tão cheia de erros numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea. E esse amor mais humano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelhar-se-á àquele que nós preparamos lutando fatigosamente, um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
Ainda mais: não pense que o grande amor que lhe fora imposto na sua adolescência se tenha perdido. Não terá sido então que amadureceram em si grandes e bons desejos e propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje? Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.
Todos os meus bons votos para si, caro Sr. Kappus.
Seu
Rainer Maria Rilke
Pela minha vida, sem amargura,
sem suspiro, vai uma dor sombria.
Dos meus sonhos, a florescência pura
é a bênção de meu mais tranquilo dia.
às vezes cruza a trilha que acompanho
a grande questão. Sigo assim, frio,
pequeno, como à margem de um rio
do qual não ouso medir o tamanho.
Então me vem um lamento, um torpor
cinza, como nas noites de verão,
céus em que raro uma estrela se acende.
Minhas mãos tateiam por amor,
porque gostaria de fazer uma oração,
mas ela escapa à minha boca quente...
(Franz Kappus)
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
hoje é um daqueles dias alegres, de sol poente, casa e roupa limpa, algodão, lavanda, água fresca, sorrisos e amigos. dia de deixar o passado pra trás e rezar para que o instante dure depois q ue a noite chegar. é que depois daquela noite, sigo o mesmo caminho todos os dias, revendo o nosso trajeto pra não esquecer de ti. tola, ouvindo baladinhas... wish you’re here, have you ever seen the rain e tantas outras que me lembram você. porque contigo posso ser o que eu sou e torço para que minha memória não te apague antes de te ver de novo. não conheço as tuas verdades, não sei com quem andas, mas me basta saber que de mim você gosta e que vais voltar. cuidadosos têm sido os meus passos, desviando cautelosa dos astros para não atrapalhar o curso das coisas, para não embaralhar os destinos e alterar rumos das marés. e é também verdade que perdi o tom da brincadeira, tenho mania de controle e que tu te embebedas longe de mim de afagos que não são meus. mas já não me importo e me satisfaço com omissões, criando meu mundo além da imaginação. só que hoje não seguirei o nosso caminho. ficarei aqui, com zeca baleiro, melodioso na rede na varanda. te espero voltar e quando voltar, que seja (só) pra me ver...
domingo, 3 de janeiro de 2010
A história e as lembranças da gaúcha precussora do feminismo no Brasil
O feminismo no Brasil tem um símbolo. É uma pioneira com quase quatro décadas de dedicação ao movimento de mulheres, 35 livros lançados, renome dentro e fora do país e inúmeras honrarias. A maior delas lhe foi concedida em 2005, quando o presidente Lula assinou a lei que decreta Rose Marie Muraro "a patrona do feminismo nacional".Mas a própria Rose Marie aponta outra precursora. Mais que isso, sua mestra: uma gaúcha de Rio Grande que, de 1963 até sua morte, em 1985, tomou para si a tarefa de despertar a consciência das mulheres nos provocadores textos que escrevia na coluna A Arte de Ser Mulher, na revista Claudia. Era possível ser muito mais do que a rainha do lar, repetia ela, uma figura mais irônica e desconcertante do que Danuza Leão, que hoje assina uma coluna na mesma publicação, com uma vida quase tão transgressora quanto uma de suas fontes de inspiração, a escritora francesa Simone de Beauvoir, e tão singular que deixou uma lacuna - ninguém mais mereceu o título de mulheróloga, outorgado pelo cronista Stanislaw Ponte Preta. Seu nome é Carmen da Silva.
– Carmen foi a primeira feminista do Brasil. Ou pré-feminista já que então a palavra era proibida. Foi minha mestra. As coisas que eu estava descobrindo, ela já estava vivendo. Se não fosse ela preparando o terreno, não teríamos conseguido o que conseguimos – diz Rose Marie.
Eram tempos de regras rídigas e tabus, pré-popularização da pílula anticoncepcional e da revolução que isso provocou, e a ordem vigente estabelecia que lugar de mulher era em casa, atendendo às vontades de filhos e marido. Mas o que ninguém dizia, Carmen escrevia e vivia: direito a prazer sem culpa, independência financeira, ambição intelectual, a recusa à dupla moral em que homens podiam tanto e mulheres tão pouco.
Carmen foi a primeira a falar para mulheres de forma tão contundente e era a estrela da revista feminina que havia recém surgido na carona de um país em transformação, com o objetivo de falar para "a nova mulher brasileira". A Arte de Ser Mulher era a coluna mais lida - e quem não lia ou se chocava com as ideias defendidas mesmo assim dizia que lia para parecer moderno. As cartas endereçadas a Carmen eram tantas que a revista abriu uma seção específica para elas.
– Havia leitoras que ficavam escandalizadas, mas muitas viam pela primeira vez suas dúvidas existenciais tratadas em uma revista – avalia Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial da Abril, que era redator-chefe de Claudia à época.
Carmen chegou à redação de Claudia sem qualquer referência. No início dos anos 1940, trocou Rio Grande por Montevidéu, no Uruguai, e depois mudou-se para Buenos Aires onde amou, tornou-se uma executiva e se iniciou na ficção, lançando o premiado romance Setiembre (1957). Voltou ao Brasil em 1962, aos 43 anos, e pouco depois enviou uma carta à redação de Claudia. Causou tão boa impressão, como conta Souto Corrêa, que decidiram chamá-la para uma conversa. O primeiro artigo já comprovou que a aposta fora acertada. A Arte de Ser Mulher, coluna até então escrita por quem estivesse desocupado na redação e assinada com o pseudônimo de Dona Letícia, ganhou assim nome e sobrenome e fez história. Mais do que isso, fez parte da intimidade de mais de uma geração de mulheres.
– Quando era menina, ficava fascinada com os textos de Carmen da Silva, que diziam o que nem a revista dizia. Carmen nos conclamava a ser alguém além da figura da mulher casadoira – lembra Nubia Hanciau, professora do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Rio Grande (Furg) e coordenadora de um projeto de pesquisas chamado Carmen da Silva, uma Escritora Feminista Avant la Lettre.
Na última quinta-feira, completaram-se 90 anos de nascimento de Carmen, que segue uma presença forte nas universidades, em pesquisas sobre questões de gênero, feminismo e imprensa feminina, e na memória de feministas precursoras como ela. Mas poucos lembram dela na cidade natal, diz Nubia, que sonha montar um centro cultural e de pesquisas na casa em que Carmen morou, no centro de Rio Grande. Antigas companheiras de luta, como Rose Marie Muraro, e amigas, como a escritora Nélida Piñón, também afirmam que Carmen é pouco conhecida entre as novas gerações. Mas suas ideias permanecem atuais.
Foi num sebo que outra escritora gaúcha, Clarah Averbuck, 30 anos, encontrou Carmen: deparou com o romance Sangue sem Dono, (1964), e se reconheceu na escrita da autora.
– Ela é uma das grandes mulheres esquecidas que, além de republicadas, deveriam ter seu lugar na história do feminismo no jornalismo brasileiro lembrado continuamente. Eu, da minha forma, tenho a mesma meta que a Carmen: fazer com que a mulher deixe de ser coadjuvante da vida de seu homem - ou dos homens, que seja - e passe a ser protagonista da sua própria.
Era esse o legado que a mulheróloga queria deixar.
O que dizia a mulheróloga
Carmen da Silva foi uma revolucionária que sabia negociar. Recuar nunca, diz ela no livro de memórias Histórias Híbridas de uma Senhora de Respeito: quando se dirigia às leitoras da revista Claudia, "malhava em ferro quente", sem fazer concessões, mas devagar, "evitando termos que podiam chocar e criar anticorpos". Levou oito anos para escrever a palavra-bicho-papão "feminismo", o que não a impediu de ser feminista e explosiva desde sua estreia.
Ao analisar os textos da coluna A Arte de Ser Mulher, de 1963 a 1985, a jornalista cearense e doutora em História Ana Rita Fonteles Duarte, autora do livro Carmen da Silva, o feminismo na Imprensa Brasileira, fruto de sua dissertação de mestrado, observou três fases distintas: no início, a colunista parecia cautelosa, mas já contundente, convocando as mulheres a serem protagonistas de suas vidas e a buscarem a independência financeira. Depois de conquistar a confiança do público, passou a se dedicar a temas como sexo, traição e a dupla moral para homens e mulheres - defendeu o divórcio já em 1967, uma década antes da aprovação da lei no Brasil. Em um terceiro momento, a partir de meados dos 1970, quando tomava corpo o movimento de mulheres que ela apadrinhava, finalmente escreveu: "Sou feminista, sim. E daí?".
Os trechos a seguir, extraídos da coletânea A Arte de Ser Mulher, lançada em 1967, e do livro de memórias, de 1984, mostram que alguns dos questionamentos de Carmen seguem atuais. Como ela sabia, mudanças levam tempo.
AUTONOMIA
"(...) certos homens jamais aceitariam uma mulher independente. Como outros tampouco aceitam a mulher livre de compromissos (todos conhecemos algum exemplo dessa obsessão pela mulher alheia), a honesta, a inteligente, a refinada, a culta. Os seres de segunda categoria - seja moral, intelectual ou ambas - procuram a forma de seu sapato, o que é muito lógico; mas eles não constituem a norma e de nenhum modo é justo tomá-los como padrão."
SEXO E PRAZER
"A vaidade masculina inventou que mulher, quando diz não, quer dizer sim."
"Digam o que disserem os pais severos e inibidos, que costumam falar em mal necessário, em tributo à nossa natureza animal ou, criando falsas conotações religiosas, em sacramentos; digam o que disserem os mitos sociais detratores da vida normal e sadia (em realidade, resquícios de primitivos tabus) o sexo é profundamente satisfatório e é tão pecaminoso como um banho de mar num dia de quarenta graus à sombra."
ONIPOTÊNCIA FEMININA
"Tentei explicar-lhe (a um editor da revista Claudia que queria que ela escrevesse sobre o que uma mulher deveria fazer para seduzir seu marido quando ele não "a abraçava mais") o caráter machista dessa noção de onipotência feminina: "se seu marido não quer trepar mais é porque você não sabe fazê-lo querer": ser onipotente é arcar com todas as responsabilidades, todas as culpas. (...) Não é de surpreender que ele não compreendesse: muita gente até hoje não compreendeu."
DUPLA MORAL
Na maioria dos lares vigoram dois códigos: um para as meninas, outro para os rapazes. Há pais que olham com indulgentes e até cúmplices as moroteiras sexuais dos filhos homens, sendo severíssimos com as meninas. Como explicar a estas que a moral muda de um sexo para o outro?
(Partes da reportagem escrita por Patrícia Rocha, publicada no caderno Donna, do Zero Hora em 3 de janeiro de 2010)
sábado, 2 de janeiro de 2010
satélite farsante
só começo a existir
depois que as últimas claves do sol
caem atrás das montanhas de concreto.
só assim posso respirar aliviada,
sem o calor para obstruir minha passagem.
minhas noites têm sido mais amenas,
porém um tanto inquietas.
a invejo todas as noites.
ela, a lua, que conhece o paraíso,
divino & também monótono,
que tem todos os sentidos
voltados em sua direção,
teu abraço sem pedir,
tuas mãos, apaziguadas com as dela.
que te tem por contrato, por escrito.
tu, de rubricas & afirmativas.
e eu, de conceitos verbais & efêmeros.
e para qual grande teatro compactuo
e qual novela teço?
tu, astro supremo,
satélite farsante,
já tens admiradores demais.
adeus.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
(sem revisão ou nexo para um amor que partiu)


