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domingo, 29 de março de 2009
Eu me repito
E
Eu
Eu m
Eu me
Eu me r
Eu me re
Eu me rep
Eu me repi
Eu me repit
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repit
Eu me repi
Eu me rep
Eu me re
Eu me r
Eu me
Eu m
Eu
E
Eu me repito
E
Eu
Eu m
Eu me
Eu me r
Eu me re
Eu me rep
Eu me repi
Eu me repit
Eu me repito
Eu me repito
Eu me repit
Eu me repi
Eu me rep
Eu me re
Eu me r
Eu me
Eu m
Eu
E
Eu me repito
La Muerte
Balada do Amor através das Idades
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.
Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.
Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.
Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.
Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.
Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'
quinta-feira, 26 de março de 2009
Das roupas que não servem mais
E escutarei o meu disco sozinho
Dentro do meu quarto na escuridão
(Graforréia Xilarmônica – Nunca Diga)
Despir-se das ilusões me é, nesse momento, no mínimo sensato. Admita, no auge de sua frustração e fracasso, tu ainda podes ser você mesmo e rir da tua cara de babaca grudada no espelho do banheiro. Admita, baby, os anjos já não lhe chamam para sair, tu já não és mais um brotinho, garota propaganda de absorvente feminino. Estás tensa, cabisbaixa, tens olheiras que descem até as bochechas e, se fosses um homem, estaria com a barba batendo na barriga, revestida por uma camisa xadrez de botão. “Decadência” piscando em luzes de néon na tua testa franzida. Vivestes dentro de ti tempo demais, baby, tempo demais! Escarafunche a ferida, faça-a sangrar e romper esses monótonos dias. Ah, mas tu tens vergonha. Tens listas negras de palavras que não podes pronunciar, sequer em pensamento. Ah, mas tu tens outras prioridades. A verdade é que já não sonhas, sequer dorme, apenas cochila, com um olho aberto e o outro não. A verdade é que despediu-se das ilusões e a vida lhe parece crua demais, tanto que chega a pingar. Sempre fostes caseira, artística, quieta. E talvez nunca deixes de ser. Mas que porra é essa que está vestindo? Esse tecido 100% sedentário, pois o nômade lhe causa alergia demais. Medo, medo, medo. E tu vês as horas passarem, ouvindo Tim Maia. Até quando irás permanecer nessa fase soul? Até quando poderás agüentar? (Cativeiro de luxo escondido atrás dos óculos de grau). Até tua altura diminuiu, tamanho é o peso do mundo nos ombros. “Não liguem, não. Isto aqui é apenas um acerto de contas comigo mesma”, diz o teu corpo para os clandestinos do lado de fora. “Onde é que tu moras, garotinha? Ainda existe? Se trata da mesma pessoa?” Com o nariz no meio de um livro de antologia poética, levantaria timidamente a cabeça – se levantaria –, lançaria um olhar vazio – se lançaria –, disfarçando a fornalha interior que és, e voltaria a ler, como uma autista opcional. Escolhestes o limite, mas borboletas loucas como tu, uma vez que tenham voado pelo céu tingido de anil, jamais voltam a ser o que eram. Isso, dê de ombros, esconda-se no quarto e vá ouvir teus discos de vinil, ver teus filmes cults, tua vida passar. Isso, desacredite da humanidade, engula mais uma dose de cafeína e de todas essas drogas lícitas vendidas no armazém da esquina. Mas não te esqueças de morrer, e de feder, bem longe de mim.
terça-feira, 24 de março de 2009
Andarilho na tormenta
Há algum tempo cheguei a este lugar. Um lugar cinzento, poeirento, seco, sujo, quente, barulhento e que fedia a excremento de porco. Todos que até hoje tiveram o infortúnio de aqui pousarem, dizem as mesmas tristes coisas. As histórias desse lugar se repercutem por todos os lados e já se tornaram parte do lendário popular. Vou então lhes contar a minha história que é semelhante à de muitos.Assim que cheguei nessa cidade, pus-me a andar sem rumo. Meu estômago se revoltava com tamanha energia negativa que emanava desse local. Não demorou muito para que minha intuição me levasse até um enorme casarão que fica distante do centro da cidade, ao alto. Ao chegar, uma mulher de tipo robusto e de estatura baixa me recebeu calorosamente. Ela, como todos os demais, eram seres de semblante alegre e acolhedor e não pude compreender como eles poderiam viver em uma cidade daquelas. Ofereceram-me pouso, trataram-me como rei.
O tempo foi passando e durante a minha estada na casa fui percebendo alguns estranhos costumes. Um deles consistia em consultar uma espécie de oráculo multicolorido que os dizia o que fazer. Como macacos, eles seguiam as ordens emitidas. E, falando em macacos, eles imitavam uns aos outros o tempo todo e demonstravam repulsa aos que destoavam. Nisso, eles eram bem rigorosos.
Havia uma espécie de cacoete coletivo entre os moradores do casarão. Cacoete esse que foi transmitido através do oráculo. Todos eles, em determinadas situações deixavam transparecer seu cacoete, como quando em frente ao olho que tudo vê, forma que chamavam um curioso objeto que captava tudo o que eles faziam. A voz deles se transformava em algo assombroso e todos falavam no mesmo ritmo, paravam de falar do mesmo modo, uma música paranoicamente ensaiada que perfurava-me os ouvidos. Era a tradição, passada de pai para filho ao longo dos anos, mas para mim parecia que estavam possuídos por seres que deviam habitar o insano oráculo.
Uma das coisas mais estranhas, era a expressão dos moradores. Sempre sorridentes, desde quando acordavam até a hora de dormir. Ás vezes eu tinha a impressão de estar em algum lugar além da imaginação, pois, jamais, em momento algum, eles paravam de sorrir. Lembro-me bem de um dia em que notei uma curiosa rachadura ao lado da boca de um deles. Dias depois, entrei sem querer em um dos banheiros da casa e avistei uma criatura de face horrorosa com uma máscara ao lado. Seu rosto parecia estar pútrido e o semblante era aterrador... malicioso e perverso. Saí rapidamente antes que a criatura pudesse perceber a minha presença. Mal sabia eu o que tudo ainda pioraria
Tempos depois, enquanto visitava o porão da casa, percebi que havia uma passagem secreta em uma das paredes. Entrei. Ao longe, ouvia-se uma antiga música circense e umas risadas abafadas. Fui andando por um corredor até avistar um saguão de chão rotatório. E o que eu vi? Jamais conseguirei explicar em sua magnitude, nem com todas as palavras de todos os idiomas do mundo, mas hei de tentar: os moradores da casa estavam fazendo uma espécie de ritual, em que gargalhavam pavorosamente, enquanto lágrimas escorriam por cima das máscaras. Dançavam sem parar... e o chão girando, girando e girando. Um tentava derrubar o outro e quando alguém caia, todos riam ainda mais alto e disputavam como loucos um espaço para pisoteá-lo.
Quando a vítima conseguia levantar-se, já toda desfigurada, tentava voltar ao seu lugar mas os demais não deixavam. Ia para um lugar, ia para outro como um tolo e nenhuma brecha era-lhe dada. Frenéticos, riam ainda mais e mais. Se chegava a conseguir um espaço, quando outro caía, sem a mínima compaixão, punha-se a fazer o mesmo com ele.
Aquela cena de deixou-me estarrecido e acabei sendo visto por um deles. Coloquei-me então a correr muito depressa, olhando para trás sem parar. Mais rápido, mais rápido, cada vez mais. Vi que havia despistado ele. Estava pronto para sair dos limites da casa e pegar o próximo trem para qualquer lugar quando me deparo de frente com todos os moradores.
- Você não pode partir assim! Disse um deles enérgico.
Naquele momento um ar gelado percorreu-me a espinha. Eles então propuseram um acordo: que eu me tornasse um deles ou me pisoteariam até a morte. O que fazer? Não podia sair dos limites do terreno, eles eram muitos e eu, somente um.
Fiz o mais sensato. Dei o meu corpo a eles... que fizessem bom proveito. Morri, sacrifiquei meu corpo, mas tornei-me um espírito livre a vagar, feliz com minha sinceridade.
Moral da história: Se está no inferno, não vire um capeta.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Amor áspero
mais que isso

com amor ou mais que isso,
uma certa garota.
domingo, 8 de março de 2009
Vai Passar
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Psicodália 2009: “Vida longa ao Rock’n’Roll!”
Gim com tônica
Rock no carnaval
Não. Nem só de samba, clássicas marchinhas e axé music é feito o carnaval. Para pelo menos três mil pessoas que foram ao Festival Psicodália de Carnaval 2009, no interior da pequena cidade de 3.500 habitantes, São Martinho (SC), localizada em plena Serra do Tabuleiro, o feriado foi tecido com os mais loucos acordes do rock psicodélico, experimental, teatral e circense – se é que as duas últimas terminações existem.Privilégio de poucos viajantes do Velho Oeste – que partiram de ônibus mágicos em seletas dúzias de cidades como Xanxerê, Xaxim, Chapecó, Joaçaba e São Miguel d’Oeste, o festival, que aconteceu de 20 a 24 de fevereiro, reuniu, além dos oestinos e demais catarinas, seres de vários estados, como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia.
Longe das parafernálias, tramas e paranóias tecnológicas, os dias de deleite na quarta edição do Psicodália “obrigaram” os peregrinos a gastar suas horas sem computadores, celulares e televisões! Em compensação, tiveram ao alcance das mãos oficinas variadas – de artesanato, massagem oriental, teatro e outros –, bem como shows e espetáculos, podendo instalar-se em meio a vibrantes montanhas, de suculentos cogumelos e de riachos convidativos, em acampamentos de “piras” diferentes e próprias, dos mais tranqüilos aos mais festivos, de nomes pitorescos, como “Mutantes”, “Secos & Molhados” e “Vale das Maçãs”, remetendo à grandes bandas de rock brasileiras.

Bandas estas que inspiraram novos grupos independentes, que dificilmente teriam espaço na mídia, entre eles Casa de Orates, O Sebbo, Pata de Elefante e Zé Trindade. Nomes deram o ar da graça no carnaval do rock, harmonizando espaços com uma banda das antigas, Som Nosso de Cada Dia, formada na década de 1970, que fez, no festival, seu terceiro show após a volta recente; e com o ícone crítico e profético Plá, músico e compositor meio bicho-grilo, que tem nada mais, nada menos do que 36 CDs gravados.
O difícil é não associar o Psicodália ao Woodstock. Entretanto, para alguns, pode ser ainda mais complicado imaginar que hoje em dia é possível reviver um festival desse gênero. Porém, o Psicodália é uma prova de que a nossa geração, habituada desde tão cedo aos cenários urbanóides, quer, precisa e retorna, aos poucos, à vida dos pais e avós, com uma nova roupagem, é claro, com um baita “medo da chuva” (né, Raulzito?!), mas com elementos em comum, já que, afinal de contas, a história é cíclica e “tudo deve passar”, como diria Renato Russo.

* Uma das lendas do festival é a Lenda de Wagner. Conta-se, em uma das diversas versões, que certa vez um rapaz chamado Wagner se perdeu no Psicodália e que seus amigos puseram-se a chamá-lo. Desde então, os participantes gritam o nome “Wagner”, ainda que ele não esteja lá, perpetuando o chamamento como marca do festival.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Das folias esotéricas
De que tempos remotos seriam datadas as superstições? De que matéria são feitas para que perdurem tanto? Teriam um fundo de verdade as histórias contadas pelos nossos pais e avós? As mesmas que ouviram dos seus, e assim por diante, como uma louca imagem de um espelho em frente ao outro: infinita, e de incertos paradeiros curvilíneos.E foram noites após noites de chuva e com cheiro de parafina, do fogo que queima a vela e acende a imaginação... A imaginação, e não seria esta a tal matéria de que são feitas as superstições? Diriam os simplistas, filósofos de boteco, que elas viriam do medo humano do desconhecido. O eterno receio do negro, o lendário medo da morte, ainda que a vida doa mais e seja comumente mais lenta; Diriam os crentes que elas viriam da mais pura e indiscutível verdade. Ora, quem desconfiaria do poder nocivo dos vãos das escadas pendidas nas paredes, dos gatos que cruzam as ruas furtivos e das temerosas sextas-feiras marcadas pelo tão afamado número 13?; “Uma mente doentia, alienada e ignorante”, lançariam os descrentes, munidos de cálculos, fórmulas e comprovações científicas provindas de cérebros altamente racionais, incompatíveis a quaisquer noções de fé.
No Tarot, o número 13 não é nada mais, nada menos do que o arcano da Morte, a mais temida das lâminas, que perambulam pelos séculos decifrando as engenhosas organizações sociais, do Imperador, passando pelo Hierofante, chegando ao Louco, o bobo da corte de todas as cidadelas do Mundo, aquele que de tão “bobo”, fala o que o povo vê, mesmo que com o pescoço em guilhotina eminente.
E o 6? Ah, o 6. Sua má fama é antiguíssima, dos tempos bíblicos, a-po-ca-lip-ti-ca! Sexta-feira, o sexto dia da semana: Que dia para estar aliado ao vilão dos números, o 13. Pior do que isso, somente se unido a uma seqüência de dois 6, aí sim. Meia, meia, meia (666): o Número da Besta. O que diria Pitágoras ou Einstein sobre tais atribuições? Chamem os matemáticos, porque disso, eu nada sei. Só do que me lembro dos tempos de escola é de uma frase nada amistosa que me vinha à mente: “Sorte desse cara que inventou a matemática de já estar morto; se não estivesse, eu mesma o mataria”.
Na tradições esotéricas da numerologia, o número 6 não é tão mal assim. Ele representa harmonia e o amor. O 13, é entendido pelo número 4 (1+3=4), um número bem menos excitante, já que fala de rotina e pragmatismo. É, e falando nisso, a escada, companhia rotineira de exímios pintores, lixadores de mão cheia e limpadores de translúcidas superfícies planas, só é nociva, na minha opinião, se aliada com más intenções à poderosa Lei da Inércia, a primeira de Isaac Newton, que diz que: “Um corpo em repouso irá permanecer em repouso até que alguém ou alguma coisa aplique uma força resultante diferente de zero sobre o mesmo”. Ou seja, se os pintores, lixadores e limpadores nervozinhos resolverem colocar determinada força em suas respectivas varinhas mágicas de cada dia e lançarem na sua cabeça. Aí sim, a Dona Inércia garante que o objeto não vai parar de cair até encontrar um obstáculo, ou seja, a sua cachola. Assim, garanto que passar debaixo de escadas é mesmo um tanto perigoso.
Quanto à discriminação ao negro do gato, a acho válida desde que o supersticioso em questão utilize a sua criatividade maléfica e preconceituosa contra o pobre bichano – Felis silvestris catus negrus – para baixar o Edgar Allan Poe que existe em si e (re)inventar um conto imortal, usando a matéria-prima das superstições, a imaginação: fonte indispensável de verdadeiras proezas nos campos da história, filosofia, religião, esoterismo, matemática, física e, é claro, das letras, para a qual me refugio sem saber de nada, nem dela, nem das outras, como uma supersticiosa e eterna espectadora da vida.
(Publicado no Folha Regional em 13 de fevereiro de 2009)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
linhas estranhas num guardanapo mal dobrado*
e agora?
se estamos em sintonia
e eu tenho o medo
maior do mundo?
não sei amar sem ter medo
nem estar junto sem fundir-me
como matéria pura
misturando-se no outro
e o velho vitrô a espreita
dias retrô na velha cidade
café preto & angústia
olhos que observam
corpos que cruzam
escrita espontânea na noite de quinta
sem saber para que diabos
rumar minha fonte
* sugestão de um velho-novo amigo.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Tião, o Andarilho da Passarela
Minha vida é andar
Por este país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
(Gonzaguinha -
Vida de Viajante)
Os moradores dizem que não é de hoje que ele perambula por aquelas bandas com o seu carrinho de papel, algo que ele mesmo confirmou. Como a Assistência Social da prefeitura não pôde passar informações sobre o destino do até então "sem nome" andarilho, a equipe de reportagem do Folha Regional decidiu procurar uma profissional especializada na Língua Brasileira de Sinais (Libras), Marisa Giroletti, para conversar com ele, já que ele é deficiente auditivo.
Muito amigável, Tião dormia quando chegamos, apesar de os caminhões de carga pesada passarem quase ao lado do seu travesseiro improvisado: um cobertor envolto em um pedaço de plástico. Assim que acordou e nos viu, abriu um sorriso e se dispôs a conversar, sem sair de sua (in)cômoda posição. Braços cruzados atrás da cabeça, pés encostados em um dos pilares do ponto de ônibus, Tião, e somente Tião – pois não soube dizer o seu sobrenome, tampouco escrevê-lo –, não tem carteira de identidade ou quaisquer documentos. O que leva consigo é uma carteira de habilitação de categoria própria para dirigir caminhões e outros documentos de um caminhão, porém, nenhum deles é seu.
Várias de nossas perguntas não puderam ser respondidas por Tião. De acordo com Marisa, ele não se comunica em Libras, pois usa gestos caseiros e leitura labial. "Ele fala pausadamente e usa palavras-chave. Quando questionado, ele olha bem para a boca da pessoa e faz leitura labial. Alguma coisa entende através de gestos, mas são gestos naturais, e não aqueles da língua de sinais", explica Marisa. Para ela, o andarilho ficou surdo depois de adulto, e é hoje um surdo oralizado.
O que conseguimos compreender é que ele não tem casa, mulher ou filhos; sua mãe morreu e de seu pai não sabe nem mesmo o nome. Entretanto, tem um irmão chamado Jorge, mas não pode mais morar junto dele. "Ele faz muitos sinais que dão a impressão de que ele é de um lugar mais distante do que Chapecó." O andarilho nunca teve casa, morava com o irmão, e agora ganha ou compra comida no restaurante do Posto Gueno, assim como o cigarro que acendeu no fim da entrevista. "Perguntei se ele gosta de beber, e ele respondeu, sorrindo, que sim; que gosta muito de beber... Mas é muito tranquilo, não me pareceu uma pessoa agressiva, e sim bastante simpático. Ele deve viver de doações, porque o que tem no carrinho são as coisas dele, não é para vender", lembra a intérprete. Segundo ela, ele não apresenta deficiência mental. Troca de roupa, mas provavelmente não tomou como rotina a higiene pessoal.
Na opinião de Marisa, é preciso encaminhá-lo para outro local, porque ali ele está atrapalhando. "Está num ponto de ônibus; podem ter mulheres que querem pegar o ônibus, ou estudantes, à noite, e de repente ele pode estar bêbado e não gostar de companhia. Não se sabe qual é o comportamento dele alcoolizado. Além disso, o carrinho atrapalha a visão dos motoristas de caminhão."
Profissional especializado
Um dos compromissos do prefeito eleito Bruno Bortoluzzi é inserir um profissional intérprete no Poder Público, na prefeitura ou na Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR). "Se tivesse esse intérprete, que entendesse da linguagem dos sinais, ele poderia até mesmo acompanhar o prefeito e outras autoridades em entrevistas na TV, porque os surdos também assistem e precisam de acesso às informações", afirma Marisa, citando como exemplo os comunicados em rede nacional.
Para resolver essa questão, está sendo discutida a possibilidade de abrir um concurso direcionado à área de Educação Especial. Um intérprete poderia acompanhar os deficientes auditivos às consultas médicas, ser útil nas sessões da Câmara de Vereadores ou, em um caso como o de Tião, auxiliar a comunicação, mais do que uma pessoa leiga conseguiria. "Nós fizemos isso de maneira voluntária, mas a profissão de intérprete é uma profissão como outra qualquer", conclui.
(Publicado no Folha Regional em 6 de fevereiro de 2009)
domingo, 1 de fevereiro de 2009
O Amor Romântico começa a sair de cena
Autor: ?
Uma história popular relata o caso de uma jovem que desejava muito viver uma relação de amor e então deixou um bilhete num local onde seria fácil de ser encontrado. A mensagem era a seguinte: "A quem encontrar este bilhete: eu te amo." (1) Parece improvável? Mas é isso mesmo o que acontece por aí, só que de forma mais sutil. Na verdade não faz muita diferença quem encontre o bilhete. Quantas vezes ouvimos a descrição do parceiro amoroso de alguém como sendo uma pessoa maravilhosa, bonita, inteligente e quando somos apresentados a ela levamos um choque? É comum não possuir absolutamente nenhuma das características atribuídas pelo outro.
O amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela, trazendo a ilusão de amor verdadeiro. Deseja-se tanto vivê-lo que, quando alguém o critica, provoca grande desapontamento Não é para menos. Nada pode unir tanto duas pessoas como a fusão romântica. A questão é que, por mais encantamento e exaltação que cause num primeiro momento, ela se torna opressiva por se opor à nossa individualidade.
Vivemos um período de grandes transformações no mundo e, no que diz respeito ao amor, o dilema atual se situa entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade. É inegável que a fusão que o amor romântico propõe é extremamente sedutora. Que remédio melhor poderia haver para o nosso desamparo do que a sensação de nos completarmos na relação com outra pessoa?
No entanto, quando alguém alcança um estágio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, percebendo as próprias singularidades, se dá conta de uma profunda mudança interna. Preservar a própria individualidade passa a ser fundamental, e a idéia básica de fusão do amor romântico, em que os dois se tornam um só, deixa de ser atraente. Muita gente com quem converso se mostra pessimista quanto à possibilidade das pessoas alcançarem essa independência. Afirmam que o desejo de fusão com o outro está tão arraigado aos nossos ideais que ninguém vai querer sofrer a perda desse sonho. Não tenho tanta certeza assim.
Roberto Freire, por exemplo, declarou que lhe custou muita dor, solidão e desespero aprender que sentir amor era uma potencialidade vital sua, produção criativa própria, e que para amar dependia apenas dele mesmo. A expressão e comunicação do seu amor eram produtos da liberdade pessoal e social conquistada. "Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem produzi-lo em mim, eu secava de amor e — o que é pior — ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatrizaria jamais." (2)
Por enquanto, não há dúvida de que desejar viver relações de amor fora do modelo romântico pode ser frustrante. As pessoas são viciadas nesse tipo de amor e fica difícil encontrar parceiros que já tenham se libertado dele. Mas acredito ser apenas uma questão de tempo. As mudanças são lentas e graduais, mas definitivas, nesse caso. Para quem imagina que vai perder alguma coisa ao desistir do amor romântico, Bonnie Kreps, cineasta canadense, que escreveu um livro sobre o assunto, é animadora.
Ela diz que deixar o hábito de "apaixonar-se loucamente" para a novidade de entrar num tipo de amor sem projeções e idealizações também tem sua própria excitação. É a mesma sensação de utilizar novos músculos, que sempre tivemos, mas nunca usamos por causa de nosso modo de vida. Entretanto, ao começar a utilizá-los podemos fazer com nosso corpo coisas que antes nunca conseguimos. Para ela, os músculos psicológicos também existem e devemos olhar através da camuflagem do mito do amor romântico a fim de encontrá-los — e, então, ver com o que se parecerá o amor quando mais pessoas começarem a flexioná-los. (3)
Porchat, Ieda (organização), Amor, casamento e separação, Brasiliense, 1992, p.96
Freire, Roberto: Ame e dê vexame, Editora Sol e Chuva, S. Paulo, 1987, pg. 41.
Kreps, Bonnie: Paixões eternas, Ilusões passageiras, Saraiva, S. Paulo, 1992, pg 13.
O amor como meio, não como fim
- É hora de substituir o ideal romântico do amor que basta em si mesmo (por isso não dura) por uma relação que traga crescimento individual.
Há algo de errado na forma como temos vivido nossas relações amorosas. Isso é fácil de ser constatado, pois temos sofrido muito por amor. Se o que anda bem tem que nos fazer felizes, o sofrimento só pode significar que estamos numa rota equivocada. Desde crianças, aprendemos que o amor não deve ser objeto de reflexão e de entendimento racional; que deve ser apenas vivenciado, como uma mágica fascinante que nos faz sentir completos e aconchegados quando estamos ao lado daquela pessoa que se tornou única e especial. Aprendemos que a mágica do amor não pode ser perturbada pela razão, que devemos evitar esse tipo de “contaminação” para podermos usufruir integralmente as delícias dessa emoção – só que não tem dado certo. Vamos tentar, então, o caminho inverso: vamos pensar sobre o tema com sinceridade e coragem. Conclusões novas, quem sabe, nos tragam melhores resultados.
Vamos nos deter em apenas uma das idéias que governam nossa visão do amor. Imaginamos sempre que um bom vínculo afetivo significa o fim de todos os nossos problemas. Nosso ideal romântico é assim: duas pessoas se encontram, se encantam uma com a outra, compõem um forte elo, de grande dependência, sentem-se preenchidas e completas e sonham em largar tudo o que fazem para se refugiar em algum oásis e viver inteiramente uma para a outra usufruindo o aconchego de ter achado sua “metade da laranja”. Nada parece lhes faltar. Tudo o que antes valorizavam – dinheiro, aparência física, trabalho, posição social etc. – parece não ter mais a menor importância. Tudo o que não diz respeito ao amor se transforma em banalidade, algo supérfluo que agora pode ser descartado sem o menor problema.
Sabemos que quem quis levar essas fantasias para a vida prática se deu mal. Com o passar do tempo, percebe-se que uma vida reclusa, sem novos estímulos, somente voltada para a relação amorosa, muito depressa se torna tediosa e desinteressante. Podemos sonhar com o paraíso perdido ou com a volta ao útero, mas não podemos fugir ao fato de que estamos habituados a viver com certos riscos, certos desafios. Sabemos que eles nos deixam em alerta e intrigados; que nos fazem muito bem.
De certa forma, a realização do ideal romântico corresponde à negação da vida. Visto por esse ângulo, o amor é a antivida, pois em nome dele abandonamos tudo aquilo que até então era a nossa vida. No primeiro momento até podemos achar que estamos fazendo uma boa troca, mas rapidamente nos aborrecemos com o vazio deixado por essa renúncia à vida. A partir daí, começa a irritação com o ser amado, agora entendido como o causador do tédio, como uma pessoa pouco criativa e desinteressante. O resultado todos conhecemos: o casal rompe e cada um volta à sua vida anterior, levando consigo a impressão de ter falido em seus ideais de vida.
Os doentes acham que a saúde é tudo. Os pobres imaginam que o dinheiro lhes traria toda a felicidade sonhada. Os carentes – isto é, todos nós – acham que o amor é a mágica que dá significado à vida. O que nos falta aparece sempre idealizado, como o elixir da longa vida e da eterna felicidade.
Diariamente, porém, a realidade nos mostra que as coisas não são assim, e acho importante aprendermos com ela. Nossas concepções têm de se basear em fatos, nossos projetos têm que estar de acordo com aquilo que costuma dar certo no mundo real. Fantasias e sonhos, ao contrário, têm origem em processos psíquicos ligados à lembranças e frustrações do passado. É importante percebermos que o que poderia ser uma ótima solução aos seis meses de idade, como voltar ao útero materno, será ineficaz e intolerável aos 30 anos. A bicicleta que eu não tive aos 7 anos, por exemplo, não irá resolver nenhum dos meus problemas atuais. É preciso parar de sonhar com soluções que já não nos satisfazem a adaptar nossos sonhos à realidade da condição de vida adulta.
Se é verdade, então, que o amor nos enche de alegria, vitalidade e coragem – e isso ninguém contesta –, por que não direcionar essa nova energia para ativar ainda mais os projetos nos quais estamos empenhados? Quando amamos e nos sentimos amados por alguém que admiramos e valorizamos, nossa auto-estima cresce, nos sentimos dignos e fortes. Tornamo-nos ousados e capazes de tentar coisas novas, tanto em relação ao mundo exterior como na compreensão da nossa subjetividade. Em vez de ser um fim em si mesmo, o amor deveria funcionar como um meio para o aprimoramento individual, nos curando das frustrações do passado e nos impulsionando para o futuro. Casais que conseguem vivê-lo dessa maneira crescem e evoluem, e sob essa condição seu amor se renova e se revitaliza.
domingo, 25 de janeiro de 2009
reticente
que não consigo
captar um conceito
durável o suficiente
que me dê tempo
de escrevê-lo sem
contradições
adoto mil faces
e mil nomes mais
sou fugitiva
de mim mesma
minha pele é tão
pálida e fria
não sente o sol
há meses, anos
quase não como
quase não durmo
sou masoquista
transformo tudo em dor
e a cada nova camada
de olheira funda e negra
penso na energia morta
e não sei em que jazigo
ela se enterrou...
sobre as paixões
de que combinação de cores elas se formam?
virão elas das marés de vênus
ou das pregas dos vestidos de afrodite?
seriam elas pólen do sopro de eros
ou quem sabe habitam o sangue espesso
de cada um dos seres terrenos
esperando a hora certa de verter em febre?
patologia sem antídoto
alquimia sem fórmulas
química orgânica maldita
mas que dê e que passe
como gripe de verão!
mas eu sou arte
mas eu sou arte, literatura, percepção! um caos, sem embasamento teórico ou comprovação científica. contra-indicada para menores, de efeitos nocivos & irreversíveis.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Esperando o Nada*
Tu esqueceu tua alma por lá
Teu café esfriou, teu poema rasgou
Teu cigarro apagou, a garota surtou
Você chegou, cheirando de naftalina
À gasolina, você voltou, sim, voltou!
Sob um Céu de Blues, no Sol Nascente
Teu cavalo alado tinha asas de nuvem
Tua estrada era mais poeirenta que a morte!
Você partiu, outra vez partiu, partiu!
Fiquei com o barulho da TV, o travesseiro frio
A serpente à espreita, reluzindo nas garras
As unhas vermelhas, roídas, lembranças de bar
Sagrado ou profano, morada de vampiros
Sugando meu whisky, secando meu vinho
Navio de Cristal, viagem astral
Garota interrompida, perdida de dor
Me ame outra vez, me ame com ternura
Baladinhas românticas na padaria da esquina
Tudo me lembra você, mas por que?
* Antigo poema de um diário em tempo de espera.
sábado, 3 de janeiro de 2009
(?) - Parte I - Esboço
Ele todo fedia. Mas não era um fedor apenas, vindo daquele corpo gordo, flácido & peludo. Era um fedor bem maior. Vinha da alma. Reflexo pútrido de uma vida junkie, arcada pelas diversas tríades malditas do submundo, das noitadas de amor em seu formato mínimo à fermentação das cervas chocas dançando na barriga & nas veias, saindo pelos poros. Da boca, ziguezagueava um bafo de estrume, seco & pobre das ervas meiadas com coisaqualquer, mescladas às pedras derretidas que vomitavam-se todas da mente corrosiva & do nariz escorregadio, branco & repleto & ínfimo de morangos mofados para sempre.
Vivia de pequenos ou grandes furtos. Não poupava os amigos ou a família. Podre, podre, Dean Moriarty do oeste selvagem. Não tomava banho há sete dias e dormia em um sofazinho pulguento do amigo de farras. Fugira da penitenciária pela terceira vez no ano: desordem & vagabundagem, posse de entorpecentes & desacato à autoridade.
Delinqüente juvenil, aos 27 anos, na estrada desde os treze, nosso Dean pegou todas as menininhas do colégio, da Cohab & da putaqueopariu. Seu corpo imundo abrigava as mais loucas & variadas doenças de Vênus, de Marte ou Saturno. Doenças estas que emitia despreocupadamente aos quatro ventos, difusas & complexas pelos úteros, bocas & intestinos à dentro ou à fora. Duas décadas de folia nos ombros, forrados de pelo espesso, mas mal & mal sabia beijar. Se apaixonava perdidamente todo dia, o suficiente para aporrinhar os amigos a o seguirem atrás de seus rabos-de-saia. Paixões que, feliz ou infelizmente, não sobreviviam aos primeiros raios de sol do dia seguinte.
E era um poeta, mas sua poesia era impaciente e logo sucumbia a uma grosseria alcoólatra, reduzida ao intento de atrair as menininhas das quais pretendia se encostar momentaneamente – gigolô instantâneo – querendo voltar desesperado ao colo materno, sem drama, sem cuspe. Quando não conseguia, procurava as putas da zona para satisfazer seu amor de verme, de boca-do-lixo, sustentado, por vezes, pelo trabalho braçal, suado & mal pago, numa ânsia de bom moço que pairava de quando em quando, fracassada.
Era um tempo crítico. Pessoas desempregadas, vagando sem rumo, vendo o presidente discursar inflamado & otimista no horário nobre, enquanto arrumavam suas malas para lugar nenhum, seguindo para terras distantes & vidas desconhecidas, com seus níveis rebaixados escandalosamente. E isso se estendia além dos limites do oeste, do estado com nome de santa e do solo verde & amarelo. Falava-se em mundo, em grandes fábricas falidas, em potências brochas, em recessão, depressão, quebra... crise, a maior, desde 1929. O futuro era, mais do que nunca, pós-2008, uma nublada pintura, impossível de ser prevista pelas mãos das cartomantes, em tarôs, runas ou i-ching, cálculos numerológicos ou astrais.
O encontrei bem naqueles dias rotos, na porta de casa, pedindo cerveja. Ofereci café com bolachas, mas Leonardo Menegatti não era homem de se prestar a tal papel, apesar de eu ser o seu amor divino & eterno daquela noite. Saímos então para conversar & tomar umas cervejas, enquanto caminhávamos pelas ruas circundantes à rodovia que cortava a cidade ao meio. Era uma daquelas madrugadas de novembro, quentes & gostosas madrugadas de quase verão. Sentamos em uma enferrujada passarela e eu tentei mantê-lo ocupado com discussões profundas a respeito da literatura que eu e ele apreciávamos na época, cinema & música também, entre o trepidar do concreto estremecido pelos caminhões de carga que ronronavam pela estrada que corria impaciente debaixo dos nossos pés suspensos.
Mas a verdade é que o diabo era machista e achava que esse tipo de conversa se limitava às suas amizades masculinas e não me deu as menores chances. E ele era só mãos & dedos intermitentes que eu impelia no fervor de minhas intenções meramente literárias em relação àquela criatura, fumando cigarros e tagarelando pouco à vontade. Eu andava escrevendo em um daqueles ritmos frenéticos, contos, crônicas, poemas & protótipos de romances inacabados, grandes reportagens, roteiros de filmes B & todo o tipo de produção textual que me batia estridente nas têmporas, e Léo era, de longe, o personagem ideal para alguma de minhas histórias.
É claro que eu andava muito sozinha naqueles tempos, mas, apesar de parecer desculpa esfarrapada, esta havia sido uma escolha feita anos antes, após algumas seqüências desiludidas nos campos fumacentos dos amores & amigos, síndrome do pânico & desistências repetidas da vontade de viver, estudar, trabalhar ou sair. Para mim, a dor era a matéria densa de que precisava para criar e não raro me metia em meio a olhos de furacões pelo simples prazer da arte. Mas ninguém sabia. Porém, além disso, havia sim a necessidade de acreditar em algo sublime, em grandes transformações, em amores não breves, que durassem bem mais do que um dia. Só que eu sempre errava o alvo. E como errava.
Uma de minhas poucas escolhas acertadas talvez fora a faculdade de jornalismo, que tentava concluir com um esforço desumano a contar pelos conflitos demoníacos que carregava no peito dilacerado. Vinte e cinco anos e um histórico de fugas novelescas, épicas e também patéticas. O fato era que, só de pensar em dar satisfações a quem quer que fosse ou de me comprometer a ponto de barrar qualquer um dos meus planos de viagens imprevistas, feitas de carona, ônibus, calhambeques ou a pé, um calafrio me percorria a espinha de tal forma que o único impulso era o de escapar, como uma bala em um revólver.
Fugira até mesmo e principalmente daqueles que chamava antigamente de “drugues”, em uma alusão ao filme baseado na obra de Burgess. Um bando de malucos metidos a artistas, drogados e traficantes que me cercavam atrás de um canto para se afundarem em seus vícios, egoísmos & ambições. O papo era só um e não colava. Seus olhos injetados, vermelhos & de um brilho falso me diziam tudo o que precisava saber e nada ou ninguém me convencia do contrário: aquela gente não prestava, era de uma estranha raça sanguessuga, vampiros salafrários, vigaristas & aproveitadores.
Mas Léo vinha de longe, era a novidade que estava procurando num raio plurilateral de mais ou menos 600 quilômetros e não encontrava. Uma alegoria da mesma raça, mas que tinha algo de puro que me atraía. Ele não era dissimulado o suficiente para me repelir, mas nem tragável o necessário para me prender. Jamais dei qualquer mísera chance ao vagabundo em anos de convivência moderada, mas o admirava por ser um beat anacrônico, ignorando os muros a perder de vista da sociedade da época. Para ele, eu ainda não sei o que eu era ou se chegava a ser alguma coisa maior do que um naco de carne.
E, em 2008, não havia mais tempo para as pessoas se conhecerem. Além da crise, havia outros problemas de mesma ordem e proporção. O nosso estado tinha sido assolado por uma enchente vasta, descomunal, incabível a qualquer adjetivo que eu tentasse encontrar no momento. Como se não bastasse, o mal do século, do anterior e daquele, a solidão, como diria Manfredini, era outra catástrofe sem precendentes, quem sabe maior do que qualquer crise ou tragédia das águas.
Toneladas de pessoas presas em saletas de computadores, monitorando suas vidas em sites de relacionamentos, tomados por ataques súbitos & prolongados de paranóia, que as obrigava a verificar constantemente em tais parafernalhas a quantas andava o seu status quo. Programas de bate-papo instantâneos eram o furor daqueles dias cinzas, assim como blogs de desarranjo vulgar. Todo mundo tinha o que dizer, pelo menos atrás dos teclados & monitores.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
pop

(jack kerouac em “on the road”)
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
musgos abissais
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Recorte de um bordel tupiniquim
De um quintal invejável, abarrotado de plantas alucinógenas, animais pitorescos & flores libidinosas, o Bordel das Capitus era a miragem em meio ao deserto dos andarilhos errantes, desde os tempos mais remotos.Aromas de verão furta-cor exalavam das molduras de clorofila, de frutas cítricas à chorinhos de forró sambados, que embalavam os cantos do bordel – um verdadeiro mardi grass de semblantes de todas as partes do mundo: saqueadores holandeses, alemães nazi-fascistas & ogros ítalos mãos-de-vaca. Cafetões, estupradores & ladrões, que chegavam & partiam com a mesma leveza dos seres do ar, malignos elfos viajantes, espécies variadas do mesmo caráter de grafia nauseabunda, de murchar as rosas mais vibrantes.
Um carnaval de máscaras & de cores, incapaz de maquiar a expressão sofrida das putas tristes, nem à doses generosas de caipirinhas ou de milhares gols do Rei Pelé, mas que até enganava bem, desviando a atenção da situação precária do casarão secular, prestes a ruir em pleno rico quintal verdejante, o mais generoso da América do Sul ou de quaisquer das américas, inventadas ou ainda não.
Mordida por um diabo, Lola, a atual dona do meretrício, assim como as anteriores, ensinava às suas doces (ou não tão doces) damas da noite as melhores maneiras de agradar tais trogloditas que ali pousavam: sempre sorridentes, resignadas, & solícitas, independente da proposta ou investida, oferecendo os cangotes perfumados, como gueixas dos trópicos calientes, mães comestíveis dos mares do sul.
Não raro as capitus recebiam propostas falsas de casamento, se apaixonavam perdidamente por um gringo, querendo seguir viagem com algum deles, ou ainda emprenhavam, dando vida à criaturas mestiças & órfãs de pais vivos. Tais fatos resultavam em acúmulos de ilusões nas negras olheiras, de sonhos de cunho fajuto, que se perdiam no tempo.
Com as caras inchadas de cachaça & desilusão, encaradas no espelho do banheiro fedendo à incenso indiano, as messalinas não viam outra saída a não ser se agarrar em crenças baratas, de imagens & de santos, idolatrados em um cômodo sagrado do casarão. Deuses & deusas importados do outro lado do oceano, que vieram de gaiato na bagagem da coroa portuguesa centenas de anos antes, agora eram os seus confidentes mais íntimos que, se tivessem bocas falantes, contariam as histórias mais cabeludas da paróquia.
De qualquer forma, vomitar os pecados aos pés dos santos parecia funcionar, ainda que todos eles se repetiriam dia após dia nos leitos de colchas de retalhos, maculadas pelos fluidos mais variados dos corpos viajantes que ali se deleitavam & saiam. Afinal, seus ídolos deveriam ter a mesma memória de peixe, a esperança de asno & a alegria de uma hiena para sobreviver no solo tupiniquim, rejeitado por Carlota Joaquina, caso contrário morreriam na praia, multicor pelo óleo do petróleo roubado.
E com os pecados nos ombros de deus, as despensas & os guarda-roupas obesos de futilidades que não preenchem sequer um dos vazios violentos, de sorrisos largos & fáceis, as cortesãs seguem embriagadas & rastejantes: usadas, abusadas, porém confiantes, de que um dia chegue ao bordel um jovem com alma de poeta, algo entre Pessoa & Cruz & Souza, que as tire para bailar & as leve finalmente para o altar.
(Alegoria sobre o Brasil, elaborada para a disciplina de Comunicação Comparada II)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
pois é...
gabriel garcia marquez
“No fio da navalha”
Trabalhando na velocidade do cão, a equipe – composta pelo comandante do Corpo de Bombeiros, Walter Parizotto, ao lado do soldado Moisés Kluska e dos bombeiros comunitários profissionais Ivaldir Busaquera e João Duarte de Borba – ficou alojada em um quartel em Blumenau, do dia 23 de novembro ao dia 2 de dezembro, em uma operação que não aconteceu somente naquela cidade, mas também em Gaspar, Ilhota, Timbó e Pomerode. Em Blumenau, as ocorrências se deram em sua maioria na zona urbana, diferente de Ilhota, onde o interior foi atingido com maior intensidade.
No início, esperavam encontrar pessoas com vida. Esperança que foi esvaecendo com o passar dos dias. Homens e cães direcionaram todas as suas forças na busca por cadáveres, em avançados estados de decomposição. Cadáveres que há pouco eram pais ou mães de família, filhos ou netos, que podem nunca mais ser encontrados. “No passado, as pessoas fugiram dos lugares planos, pois tiveram suas casas alagadas pelo rio. Foram morar na montanha, e a montanha agora veio a baixo, em um desastre democrático, pois desceram de barracos a mansões e indústrias”, diz Parizotto, que, ao lado dos colegas, realizou verdadeiros feitos heróicos.
O trabalho, diário e severo, podia perdurar de 12 a 18 horas em áreas de risco, nas chamadas áreas vermelhas. No alojamento, os bombeiros foram, ocasionalmente, as próprias vítimas, tendo que sair às pressas por conta da água que invadiu o local. Uma experiência que pôs um fim no sonho desses profissionais, que um dia desejaram participar de uma grande missão. “Hoje, esse sonho já não existe. Nós trabalhávamos no fio da navalha. As nossas ocorrências foram as mais pesadas, diferente do lado doce da solidariedade.”
Durante esses dias, 21 ocorrências foram atendidas. Nessas, dez cadáveres foram encontrados. Cada corpo demandava horas e horas de trabalho, do momento em que o cão apontava a direção em meio aos escombros até a chegada próximo ao cadáver, seguida de sua retirada. “É um trabalho estressante, pesado, com riscos a todo o instante. Tivemos que abandonar algumas ocorrências, tamanha era a periculosidade dos locais”, lembra o comandante, que andou por solos instáveis, presenciando inúmeras avalanches.
No entanto, nada se compara à dificuldade de contar a um familiar que uma busca teve de ser suspendida, e que a pessoa que esperavam resgatar não poderá ser encontrada, com ou sem vida. “Não tinha o que fazer, o risco em alguns pontos era muito grande. Isso fez com que crescêssemos muito profissionalmente, como se estivéssemos ido para uma faculdade. Percebemos que estamos no caminho certo, que o nosso trabalho com os cães é realmente fundamental, é importante, é vital.”
Para Walter, que acredita muito mais em Deus do que acreditava antes, a tragédia é um reflexo da natureza. “Aquelas regiões não foram feitas para abrigar pessoas. O homem desafiou demais a natureza, mas ela é muito mais forte e não adianta lutar. Por mais fortes que fossem as construções, as barragens ou os sistemas de informação, eles foram inúteis: em dois dias, tudo veio a baixo. Agora, as pessoas não têm para onde ir, perdendo até mesmo a escritura que tinham, uma vez que nem mesmo o terreno existe mais. Algo assim, acontecendo no nosso tempo, é quase inacreditável”, salienta.
Foi a experiência mais marcante da vida do comandante: “Dez dias que valeram por dez anos de existência”, declara Parizotto, que possui na bagagem 16 anos de profissão. “Vimos a morte de perto, o sofrimento das pessoas, a alegria de poder ajudar, mesmo que pondo as nossas vidas em perigo, correndo o risco de contrair leptospirose ou de ser engolido pela terra.”
E por que se arriscar em uma profissão como essa, entrando em conflito entre ser humano e ser bombeiro, passível de ter a vida tirada pela continuação de outra? “A dor das pessoas era a nossa motivação. Anoitecíamos e amanhecíamos nessa missão, tantas vezes sem comer. O que nos moveu, e nos move, a cavar vidas em um cenário disputado por urubus, como é aquele, não é o nosso salário de cada mês, bem mais altos em outras esferas, mas é essa vocação, que nos faz não desanimar e continuar sempre.”
Continuar. É isso que esses heróis farão. No próximo domingo, a equipe retornará à sua missão. Até agora, segundo os números oficiais, são 31 pessoas desaparecidas e 118 mortas. Porém, Walter diz que a estimativa é muito maior. “Vamos entrar no Vale e lá veremos os números aumentarem sensivelmente. Mas é por isso que nós somos nós, seja em situações de risco suportáveis, seja em situações absurdas. Temos medo, como qualquer humano; temos só duas mãos, mas estamos prontos e iremos”, conclui.