aprendi grandes lições de amor hoje. amor complacente, amor paciente, que nada espera e tudo dá. aprendi, mas não sei se um dia conseguirei praticar. meu orgulho e minha ira são tão grandes, às vezes tão maiores do que o meu amor... minha precipitação, meu corte inesperado, minha desistência, meu cansaço, meu tédio, meu ódio e indiferença. queria ter e dar paz, queria amenizar, plantar e ver florescer, poder conviver sem vaidades, sem acessos de fúria, sem picos de humor estranho, excessos. tenho tendência à repulsa, ao enjôo, ao entojo, à solidão. minha experiência é tão solitária e desalmada, desarmada de condescendência. nessa noite, sinto saudade e amor menos possesso e vontade de dizer que perdôo todas as bizarrices do mundo, mas não volto atrás. sou humana e admito minhas fraquezas. nem sempre sou capaz de voltar. as pessoas mais simples me têm, as menos orgulhosas e incansáveis. as outras, se afastam, deixam de tentar. sou uma ilha, mas diz um amigo meu que humano nenhum pode ser uma ilha. sustento mágoas aterradoras, traumas, feridas, talhadas fundas e incicatrizáveis. e deixo mágoas e deixo feridas, mas também deixo amor. hoje, desconfio, vi o grande amor da minha vida passar. tão mudado, tão outro, tão dela... não o reconheci. nós, ligados por outras vidas, eu, tua mãe de ferro em outra encarnação – te amo ainda e vou amar para sempre, de um jeito ou de outro. e sei que vai me amar, como jamais amará outra pessoa. fato que não explica nossa distância e nosso desvio de olhares. poderia ser tão simples, poderíamos completar 50 anos juntos e morrermos em paz, só que tu sabes que não é assim. eu escolhi o mundo em detrimento do amor de um homem; eu escolhi a estrada, escolhi a aventura, a novidade, a outra estação. mas nunca amei homem algum como te amei e descobri isso há pouco tempo. o amor não é apenas homem-e-mulher, amor é mais que isso. reservo o outro amor por ti. reservo o amor universal, palavra casta e compreensível em qualquer lugar do globo, te guardo sim, amor. assim.Pesquisar este blog
sábado, 12 de junho de 2010
te guardo sim, amor
aprendi grandes lições de amor hoje. amor complacente, amor paciente, que nada espera e tudo dá. aprendi, mas não sei se um dia conseguirei praticar. meu orgulho e minha ira são tão grandes, às vezes tão maiores do que o meu amor... minha precipitação, meu corte inesperado, minha desistência, meu cansaço, meu tédio, meu ódio e indiferença. queria ter e dar paz, queria amenizar, plantar e ver florescer, poder conviver sem vaidades, sem acessos de fúria, sem picos de humor estranho, excessos. tenho tendência à repulsa, ao enjôo, ao entojo, à solidão. minha experiência é tão solitária e desalmada, desarmada de condescendência. nessa noite, sinto saudade e amor menos possesso e vontade de dizer que perdôo todas as bizarrices do mundo, mas não volto atrás. sou humana e admito minhas fraquezas. nem sempre sou capaz de voltar. as pessoas mais simples me têm, as menos orgulhosas e incansáveis. as outras, se afastam, deixam de tentar. sou uma ilha, mas diz um amigo meu que humano nenhum pode ser uma ilha. sustento mágoas aterradoras, traumas, feridas, talhadas fundas e incicatrizáveis. e deixo mágoas e deixo feridas, mas também deixo amor. hoje, desconfio, vi o grande amor da minha vida passar. tão mudado, tão outro, tão dela... não o reconheci. nós, ligados por outras vidas, eu, tua mãe de ferro em outra encarnação – te amo ainda e vou amar para sempre, de um jeito ou de outro. e sei que vai me amar, como jamais amará outra pessoa. fato que não explica nossa distância e nosso desvio de olhares. poderia ser tão simples, poderíamos completar 50 anos juntos e morrermos em paz, só que tu sabes que não é assim. eu escolhi o mundo em detrimento do amor de um homem; eu escolhi a estrada, escolhi a aventura, a novidade, a outra estação. mas nunca amei homem algum como te amei e descobri isso há pouco tempo. o amor não é apenas homem-e-mulher, amor é mais que isso. reservo o outro amor por ti. reservo o amor universal, palavra casta e compreensível em qualquer lugar do globo, te guardo sim, amor. assim.quarta-feira, 9 de junho de 2010
Aqui vai um título de efeito
São vulgarmente conhecidos por vadios, vagabundos, bugres, na forma bem pejorativa da palavra. Já os anteriores, recebem nomes pomposos como colonizadores, desbravadores, empreendedores, cuja bugrada era o alvo fácil para conseguirem fisgar seus sonhos mais... digamos... ambiciosos.
Quem sabe não se possa julgá-los já que foram criados sob uma lógica que enaltece o sofrimento, pois através dele é que a alma se purifica e purificando-se é que se chega mais perto do Reino prometido, o Reino de Deus, o Deus que devemos temor porque castiga ao menor sinal de pecado. Pecado... pecado é não trabalhar, relaxar, ser feliz e descansar. Matar, apossar, roubar, enganar... isso não é pecado. Esse Deus não condena violência, estupro, genocídio... isso são só pequenas coisas, percalços do caminho... caminho torto.
Como iniciei dizendo, nos nossos mais insossos dias podemos encontrar pequenas pistas do que foi essa estranha interação. Ouve-se dizer que os índios e caboclos não merecem terras porque eles não sabem cuidar, ao contrário dos italianos e alemães. Que negrada, que rima com cagada, com bugrada e com caboclada, se não faz na entrada faz na saída, tirando-lhe o mérito até nas mais braçais das tarefas. Bugrada, negrada, caboclada, cagada... adágio mais que vagaroso... ladainha interminável que alguém tem que por um fim. Então declaro: Esse é o fim, meu amigo, o fim... pelo menos para esse inacabado texto.
nem nuvem, bem brisa
o nojo tornou-se físico,
nem nuvem
pairou no estômago,
nem brisa, nem nada.
nojo fundo, veio a furo,
foi expulso das entranhas
com força, em vôos rasantes.
e, pouco a pouco,
a serenidade
foi encontrando espaço,
e eu fui encontrando
o meu espaço
e agradecendo a partida...
segunda-feira, 7 de junho de 2010
"please don't take my sunshine away"
ao som de “you are my sunshine”, com johnny cash e bob dylan
talvez eu esteja insistindo em algo que acabou, que morreu, algo que não significa nada para nenhum de nós. estou confusa. realmente não entendo teus sinais e acho que sei o que isso significa. é o não, vindo lento e incisivo. me sinto debilitada, com as forças chegando ao fim. espero respostas que não chegam; espero o amor que não existe. se é não, diga não, pura e simplesmente. essa negativa mascarada se esconde atrás de um medo que eu não compreendo. é um não parecendo sim, é um sim querendo dizer não. nessas noites frias, lembro de ti e dos teus abraços, teus beijos de fúria e das trilhas sonoras, que parecem ter sido feitas para cada uma das nossas horas. eu, sob teus cuidados, quando você retribuía os carinhos e tudo ainda parecia tão fácil, quando bastava apertar a campainha do 1105 e ver teu sorriso e tua voz dizendo o meu nome. acabaram-se aqueles velhos dias. perderam-se com a minha mudança que não encontrou endereço. se não fosse por ti, eles, os dias, teriam sido apenas de penumbra. agradeço e sigo em frente, até que você me chame ou me ache outra vez.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Não me chame de Querosene
Ler “Uma Reportagem Maldita (Querô)”, dá impressão ao leitor de estar lendo as linhas escritas pelo próprio protagonista, Querosene, ou simplesmente Querô. Plínio Marcos, o escritor-andarilho-vendedor-de-livros, jornalista, diretor e ator, insere Querô em primeira pessoa e de tal forma que parece ser o marginal o autor da trama.Querosene recebeu o apelido odioso – rejeitado veementemente – de Violeta, dona do meretrício que serviu de casa durante boa parte de sua vida. Isso porque sua mãe, ao pari-lo, tomou querosene, tamanha foi a pressão social que sentiu com a criança nos braços e sem ter onde morar.
“Não tem por onde. Assim é que é. Uns têm tudo logo de saída. Os outros só se estrepam”, sintetiza o personagem já no início da estória. Cansado dos maus tratos, Querô cai no mundo e começa a cometer delitos. E é aí que se desenrola ainda mais todo o trágico destino do garoto.
Romance realista ou denúncia social, “Uma Reportagem Maldita (Querô)” faz com que acessemos o universo íntimo da marginalidade, de forma que é impossível não compreender o que faz um marginal ser de fato um marginal.
Ao aproximar-se do fim, podemos encontrar o jornalista, que gravou fitas e mais fitas de conversa com Querô, pouco antes da morte. Seria Plínio Marcos o jornalista, se inserindo no livro? Teria a estória existido? Não se sabe. Mas vidas como as de Querô não são difíceis de encontrar. Porém, escritas com a riqueza de detalhes, proximidade de linguagem e intensidade de Plínio Marcos, são raras.
Um belo recorte ainda atual de uma realidade torta, desigual, poucas vezes registrada como deveria pelo jornalismo tradicional. Sim, pode-se dizer que a obra de Marcos é jornalística, documental, muito mais do que os textos convencionais que vemos nos jornais, caracterizados como, de fato, jornalísticos. Longe dos boletins policiais, os casos têm mais complexidade do que se imagina. Os porquês, esquecidos dos leads das matérias informativas, possuem mais conteúdo do que se julga.
A obra “Uma Reportagem Maldita (Querô)” foi escrita em 1976, época da censura, como muitos escritos de Plínio, e recentemente ganhou adaptação no cinema, em 2007. Além dessa obra, ele escreveu peças de teatro memoráveis, como “Navalha na Carne” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, conhecida internacionalmente, que também ganhou versão no cinema, em 1970 e 2003.
Título: Uma Reportagem Maldita (Querô)
Autor: Plínio Marcos
Categoria: Romance
Ano: 1976
(Publicado no Caderno Blitz, em 28 de maio de 2010)
quarta-feira, 26 de maio de 2010
As injustiças do mundo
Raquete de tênis arrancada das mãos por dois inimigos maiores e mais fortes que eu, senti, pela primeira vez, que não existia justiça divina, muito menos humana Por Milly Lacombe | Ilustração Helena Pessoa
Aos 8 anos, meu mundo se dividia entre dois pólos: futebol e tênis. Meu radar não captava nada que não navegasse por uma dessas freqüências. Foi numa manhã qualquer da fase mais binária da minha vida que peguei a Dunlop de madeira que alguém tinha me trazido da Europa no dia anterior e me mandei para o clube para jogar paredão. Era um dia que tinha tudo para ser perfeito.
Estava ali, totalmente concentrada em fazer a bolinha ir e vir, ainda meio sem jeito porque a raquete era bem maior do que a minha mão, quando entraram na quadra um menino e uma menina, adolescentes e de mãos dadas. Ficaram ali me olhando por alguns segundos, eu certa de que eles estavam apenas apreciando meu equipamento novinho, até que a menina, sob o olhar risonho do menino, veio em minha direção: “Sai que a gente quer jogar”. “Mas eu tô jogando”, argumentei. “Dane-se! A gente agora é que vai jogar.” Num golpe bastante rápido, sacou de minhas mãos a raquete novinha e a atirou longe. Eu estava completamente embasbacada. Onde já se viu tamanho absurdo? Ninguém ia fazer nada por mim? E a tal justiça divina? Não intercederia? Tudo parecia extremamente novo. As sensações de raiva, impotência, frustração, indignação – foi a primeira vez na vida que deparei com sentimentos tão agudos.
Olhei para os lados na esperança de que alguém tivesse visto e viesse em minha defesa. Nada. Olhei para os dois adolescentes parados à minha frente, muito maiores do que eu, e entendi que, naquela situação, não havia nada que eu pudesse fazer.
Na boca, gostos novos e ruins
Fui andando com a cabeça baixa em direção ao local onde a raquete havia sido atirada. Na boca, gostos novos e ruins. Encontrei a raquete, abaixei para apanhá-la e segui a passos de cágado em direção à lanchonete. Enquanto me arrastava pelo clube, repassava o filme em minha cabeça. Comecei a imaginar todo tipo de vingança. Ah, se eu fosse maior, mais forte, mais ágil. Só que eu não era nenhuma dessas coisas.
Cresci e, várias outra vezes na vida, ruminei esse gosto na boca. O mundo está longe de ser justo. O sistema a que nos submetemos diariamente é cruel e privilegia descaradamente os mais fortes e poderosos. A honestidade, atualmente, vale muito pouco. E, exatamente como aconteceu naquela manhã em que tudo o que eu queria era jogar paredão e experimentar minha Dunlop nova, não há nada que possamos fazer. Apenas abaixar a cabeça e sair andando. Comecei a entender o que dizia meu pai, que, aos 48 anos, abandonou a profissão de advogado por não acreditar mais na justiça. Nem na divina, muito menos na do homem.
A cada dia que passa, a cada manhã que abro os jornais, me convenço de que não há justiça à nossa volta. E de que nunca haverá. Mas aí olho para o lado e vejo minha mulher com uma xícara de café quente para mim, que ela não me entrega sem antes roubar um beijo e dizer que me ama, e tudo entra em perspectiva novamente.
Quanto àquela manhã dos meus 8 anos, a primeira vez que me senti moralmente aniquilada na vida, nem tudo foi frustração. Ao chegar na lanchonete, encontrei minha mãe, que me viu chorando. Ela perguntou o que tinha acontecido. Contei. Foi quando ela me arrastou pelo braço, meus pezinhos praticamente fora do chão, em direção ao paredão. Chegando lá, entrou comigo na quadra e vociferou em voz muito alta, esticando o queixo na direção de meus dois inimigos: “Foram eles?”. Eu confirmei com a cabeça. A próxima coisa que vi foram duas raquetes sendo arremessadas bastante longe, e minha mãe recomendando, com aquele olhar siciliano que afugentaria um lobisomem, que os dois saíssem dali e não voltassem mais.
Assistida e protegida pela orgulhosíssima matriarca, fiquei jogando por horas. Porque, ao contrário das demais, a justiça materna, assim como o amor, raramente falha. O duro é que, pelo resto da vida, buscaremos alguém que nos proteja das “injustezas” do mundo da mesma forma que essas mulheres, um dia, nos protegeram.
(Publicado na Revista TPM, Coluna do Meio, em julho de 2007)
sábado, 22 de maio de 2010
ácido
estou bem no meio
de tudo o que eu deixei
e do que restou daquilo
que um dia foi.
e tu,
que tanto me atrai como,
na mesma medida,
me repele,
me faz pensar
se pelo menos sou
o suficiente
do que deveria ser pra ti.
sou o suficiente pra mim.
da cara de sono,
cabelos armados ao amanhecer,
olhos fundos de dores profundas
até as idéias complexas
acumuladas durante os anos,
que agora se precipitam
na simplicidade dos fatos.
não, tu não és quem eu procuro.
e como são improváveis
os encontros da vida.
pessoas não aceitam as falhas,
suas e alheias.
como são tolas
ao negar o erro,
ao querer o impossível.
e como é bom desejar o impossível,
até que as ilusões
abracem toda a roda viva
e parem o movimento.
mova-se,
mova-se como jamais se moveu.
beije a flor exótica
e espere o perfume
perfurar ácido ou belo,
mas inspire.
só não bata na minha porta
se eu não for a flor (es)colhida.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Atípico e indecifrável
Uma figura atípica. Quem conhece Astronauta Pingüim, sabe que esta é uma verdade. No Start Bowling Bar, em Carazinho, na última sexta, o músico deu uma entrevista exclusiva para o Blitz e mostrou um pouco de sua personalidade mítica e por vezes indecifrável. Astronauta Pingüim – O nome que eu considero é Astronauta Pingüim, mas meu nome de batismo é Fabrício Carvalho, só que nem a minha família me chama assim. Pingüim é muito de infância, acho que eu tinha um jeito de andar diferente das outras crianças, aí me apelidaram de Pingüim. Eu não tenho como saber onde isso começou. Astronauta surgiu na época de adolescência. Assumi os dois nomes. Sabe aquela coisa de colégio, quando te chamam de um apelido e tu não gosta, mas é pior negar, porque aí é que vão te chamar?
AP – Não, não é um personagem. Sou eu mesmo. Gosto de toda essa indumentária. Não uso sempre porque às vezes não estou no clima. Não tenho uma cueca ou um par de meias, que não tenha sido minha mãe ou alguma namorada que me deu.
Blitz – Você tem várias namoradas?
AP – Quem me dera.
AP – Eu adoro o Ratinho. E acho que o mundo inteiro adora o Ratinho, só falta o povo admitir.
Blitz – Quando você começou a trabalhar com música?
AP – Vou fazer 35 anos dia 11 de outubro e a música entrou na minha vida quando eu tinha uns oito ou nove anos de idade. Eu tenho um pai, muito querido. Nunca foi presente, mas sempre bancou o que eu queria. Lembro que em 1987, quando eu devia ter uns 12 anos, comecei a fazer música.
Blitz – Onde você nasceu?
AP – Nasci em São Leopoldo, mas meu pai é mineiro. Sou de uma família ridícula. Se meu pai é mineiro, o que veio fazer aqui? Mas enfim... Moro agora em São Paulo, graças ao meu bom Deus e ao meu bom discernimento. Sou muito grato àquela cidade. Também sou muito grato à cidade de Carazinho. Adoro. Tenho um grande amigo aqui, (Ilario Junior Amaral da Silva) que me trouxe à Carazinho da primeira, da segunda e da terceira vez. Passo Fundo, Porto Alegre, São Leopoldo, adoro todas essas cidades. Mas no Brasil, São Paulo é a cidade que eu mais amo. Dou graças a Deus de morar na melhor cidade da América do Sul. Não tenho palavras para exemplificar minha gratidão por São Paulo.
Blitz – Recentemente, você toca com o baterista Ramiro Pissetti (ex Os Pistoleiros, Incríveis Animais que Tocam e atual Animales), não é?
AP – Eu amo o Ramiro. Se tu soubesse o quanto eu amo o Ramiro Pissetti, o Glauco Caruso, outro baterista que toca comigo. Cleiton Martins, Cristiano Krause. Amo essas pessoas. Elas me dão suporte – palavra mais próxima do que quero dizer – para eu fazer a minha debilmentalzisse. Minha música, o que eu faço, a minha vida, sempre foi calcada no débilmentalzismo. Eu amo a débilmentalidade. Essas pessoas se privam, às vezes, por mim. O Ramiro então, um professor de uma faculdade, se priva de dar aulas para ir tocar comigo. Mas às vezes eu toco sozinho também, quando ninguém me dá bola. Eu toco baixo, toco bateria, toco guitarra...
Blitz – E essa proposta de ter você no teclado e voz, ao lado do baterista, tocando músicas próprias, mas também clássicas da Madonna, Cyndi Lauper e até Lulu Santos? Muita música das décadas de 1980 e 1990...
AP – Não é uma coisa que eu tenha inventado, uma grande invenção.
Blitz – Quanto ao seu álbum Supersexxxysounds (2008)? Se encaixa no estilo Eletro Rock?
AP – Esse é o meu segundo álbum. Legal você chamar de Eletro Rock, porque ninguém chama. Eu acho que é, porque tem situações eletrônicas. Bem aquela dos anos 80 e 90. Ele é muito bom, mas o próximo vai ser ainda melhor.
Blitz – Ainda toca com o Júpiter Maçã?
AP – Toquei com o Júpiter Maçã de 2000 a 2003, aí o Flávio Basso teve uns envolvimentos na vida dele e eu tive os meus e nos separamos. Voltei a tocar com ele em fevereiro de 2009 e estou até agora. Toco piano e órgão. Viajo bastante por causa do Júpiter, principalmente para o sul.
Blitz – Você participou do clipe recente do Júpiter Maçã, Modern Kid. Uma proposta bem diferente do que a banda já havia apresentado, mais moderna.
AP – É uma proposta diferente, mas que eu não entendi. Te juro. Não sei quão mais moderna é essa proposta. Sei que me pediram para fazer um personagem naquele clipe que eu acho que não iria servir e eu não fiz, sou quase um manequim naquele clipe. E isso eu quis ser.
Blitz – O que a música representa na tua vida, na vida das pessoas?
AP – Dependo da música, vivo dela; dependo das pessoas gostarem do que faço. É uma estratégia que vai se desenvolvendo de forma gradual. Não se trata da pessoa gostar da minha música e ponto. Não é só isso. Tu gosta da minha música e no próximo show eu vou te enxergar. No outro tu vai vir falar comigo. Essa é a grande coisa. Eu faço amigos nos shows. Tenho amigos que vieram me ver aqui. Eles estavam num show em Passo Fundo. Uma das coisas mais legais, uma das únicas coisas que valem a pena, é conhecer pessoas. O que vale é a parceria. Como todas essas pessoas não vão morar no meu coração? Eu quero mais é fazer amizade nesse mundo – uma das poucas coisas que são verdadeiras.
Conheça Astronauta Pingüim: www.myspace.com/astronautapinguim
terça-feira, 18 de maio de 2010
E nós relaxamos e gostamos
Era o início, pelo menos para mim, da peça “Relaxe e Goste”, escrita numa parceria de gigantes: Luis Fernando Veríssimo e Millôr Fernandes, trazida à Carazinho pelo Sesc no último sábado. A resposta do público não podia ser melhor. Risadas e acenos de cabeça em sinal de identificação denunciavam o sucesso da peça, que tratou da reação homem-mulher desde os primórdios.
Uma possível sátira da história mal contada de Adão & Eva no paraíso; da maneira equivocada que os adultos falam sobre sexo com as crianças e de como o ser humano é patético quando tenta usar demais a razão ao se tratar de relacionamentos ou quando acha que é muito experiente em termos de sexo. Nuca se é.
“Relaxe e Goste” mostra o nosso despreparo e impaciência secular ao lidar com o sexo oposto, com idades opostas, com humanos opostos. Não se chega a grandes conclusões filosóficas através da peça, não se distingue mensagens sérias e grandes morais, mas se garante uma boa dose de entretenimento, com personagens impagáveis, como o bom e velho Deus, Eva e seus palpites e desalinho, sem contar com os professores de sexo, totalmente desconexos ao tentar novas posições de nomes impronunciáveis, interagindo com o público.
Foi uma noite de humor inteligente, bem estruturado, digno de seus autores. Nós relaxamos e gostamos, e esperamos por novas noites assim, regadas a boa cultura, risos e relações de espelhismo divertidamente constrangedoras.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Hotel dos Corbellinis
Com nome inspirado na placa cadente de um dos hotéis mais antigos de Espumoso (o Hotel Corbellini, que pertence ao avô do baterista), a banda Corbellinis cresce mais a cada show. A explicação é simples: felicidade em fazer o que gostam, conhecendo novas pessoas (que no início eram poucas) e lugares (por tantas ezes impróprios).E depois? Nada demais, só um desejozinho à toa, expressado pela banda através do trecho de When the Music’s Over, do The Doors: We want the world and we want it now (nós queremos o mundo e nós o queremos agora).
Os Corbellinis são:
Everton “Cotonote” Kottwitz (Guitarra)
Gustavo “Barba”Avila (Vocal e Contrabaixo)
Tiano Corbellini Masutti (Bateria)
(Publicado no Caderno Blitz em 14 de maio de 2010)
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Eu sou Bandini, Arturo Bandini!
Já tinha ouvido falar de John Fante e do peculiar personagem de “Pergunte ao Pó”, Arturo Bandini, mas nunca tinha tido a chance de ler as tais linhas e de estar frente a frente ao anti-herói Bandini, escritor de contos como “O cachorrinho riu”, de apenas vinte anos, que se lançou de uma cidadezinha do Colorado para Los Angeles, Califórnia, para tentar ser um dos grandes.
E estar diante dele e de personagens como Camilla Lopez , garçonete de uma cervejaria, vítima de preconceito e discriminação até mesmo por Bandini (às vezes nacionalista) por conta de seu sangue latino e de seus huaraches; Hellfrick, o maníaco por carne, alcoólatra e devedor; e o barman Sammy, doente e recluso no deserto, só me fez constatar que eu era um deles.
Apesar de ser uma obra de ficção, o livro demonstra uma proximidade intrigante em relação à marginalidade do personagem principal. O autor de “Espere a Primavera, Bandini” e “Sonhos de Bunker Hill”, John Fante, mostra ter vivido uma história semelhante ou ter convivido intimamente com pessoas que, como o seu Bandini, corriam atrás do famoso Sonho Americano.
O leitor pode sentir na pele as oscilações bruscas de humor de Bandini – refém de seu quarto de hotel, de café, cigarros e de sua máquina de escrever, o abatimento, a rejeição e a desordem sofrida por Camilla, ambos ícones do clima tenso e de pobreza do auge da depressão americana e, acima de tudo, feliz ou infelizmente, constatar que os tempos são os mesmos, seja na década de 1930, seja na de 2000.
Nossos vícios e sonhos imediatistas são os mesmos, a miséria experimentada se assemelha e os acessos íntimos à natureza humana não são novos. Somos Bandinis, Arturos Bandinis, jogando histórias no deserto do mundo, sem perspectivas de futuro, inconstantes e contraditórios, criando roteiros de filmes mentais do que queríamos ser.
Título: Pergunte ao Pó
Autor: John Fante
Categoria: Ficção americana
Ano: 1937
sábado, 17 de abril de 2010
assimétrico

sexta-feira, 2 de abril de 2010
quinta-feira, 1 de abril de 2010
"Então, que seja doce"
101 anos
- A senhora está aqui desde quando?
- Doze de junho...
- Doze de junho...?
- De 95.
Aos 81 anos (“só 81”, diz, provocando risadas nas colegas), Maria Lorena conta que passa o tempo dormindo e comendo. “Mais nada”, lança, apertando os olhos afetados pela miopia.
- O que significa a Páscoa para a senhora?
- Olha, nem sei explicar nada pra ti hoje. Porque, eu não sei, fiquei tão atrasada depois que eu tive uma crise de nervos... Eu fiquei “esquecida das coisas”, eu estou por estar. Mas eu rezo muito, principalmente de noite, de dia não. Mas eu não acredito em certas coisas. Só acredito em Deus.
- E na Páscoa?
- Tanto faz. Quando a gente é nova, as páscoas são bem diferentes. Depois dos 60, aí terminou. Quando os anos pesam nas costas, na cabeça, a gente muda, se sente diferente.
Há quase dois anos sem receber visitas, Maria Lorena não tem filhos. Perdeu dois no nascimento. O marido faleceu, a casa e a família não existem mais.
- Só estou eu aqui na Terra.
“Só 81”
- Tinha ninho antigamente na Páscoa?
- Tinha, tinha ninho.
O marido ainda vive, mas não ela acha que ele não sabe que ela está no asilo. Não vai visitá-la. “Eu estou escondida”, afirma.
Não sabe quantos anos tem
- Está chegando a Páscoa...
- Ah, é...
- O que a senhora acha da Páscoa?
- Bonito!
92 anos
62 anos
domingo, 28 de março de 2010
cão de rua
ah, relacionamentos modernos.
tu ficas com teu ovo apunhalado
e eu com meus morangos mofados,
o mistério de um intruso num edifício
e a liberdade de um cão de rua.
sexta-feira, 19 de março de 2010
anões de jardim
quarta-feira, 17 de março de 2010
Formigas lidando com elefantes
Mãe de Pedro Luiz Migott Maciel ainda espera pelo filho que desapareceu em 27 de maio de 2008.
“Somos formigas lidando com elefantes. Ninguém sai da cadeira para ajudar”, desabafa Marines Migott Maciel, mãe de Pedro Luiz Migott Maciel, atleta, ciclista, desaparecido aos 21 anos, em 27 de maio de 2008 em Bento Gonçalves, cidade onde morava.
Trabalhador, sem vícios, Pedro se dedicava exclusivamente ao esporte e ao emprego, em uma empresa de móveis. Além de filho, era amigo e grande companheiro da mãe Marines. “Ele ligava todos os dias do trabalho, ao meio-dia. Só que naquela terça-feira ele não ligou e o telefone dele estava desligado”.
A mãe desconfia que uma pancada na cabeça dias antes teria feito o filho perder a memória. Naquela terça-feira, Pedro saiu para ir para o trabalho, como sempre, e não voltou mais. Marines encontrou os documentos do filho em casa – coisa que ele jamais fizera – e a pia do banheiro ainda seca. “‘Ele saiu de casa tão apressado que não teve tempo de lavar o rosto’, pensei.” Um amigo, que estava no ponto de ônibus, viu o rapaz indo para o lado contrário da empresa em que trabalhava, gritou, chamou, mas Pedro demorou a atinar.
E desde então a mãe se sente indefesa diante dessa situação, conta que o apoio da polícia é quase nulo, já que não há suspeita de crime.
Com ajuda de amigos e parentes, a mãe procura o filho por todo o estado do Rio Grande do Sul, espalhando cartazes com a foto de Pedro, hoje com 23 anos, e um retrato-falado que representa a suposta imagem atual do garoto. “Meu filho está vivo; não sinto o meu filho morto”, afirma Marines, que diz suportar um fardo penoso demais para qualquer mãe.
Em Carazinho, no último sábado, novos cartazes podiam ser vistos em pontos movimentados da cidade, como na praça e arredores. No entanto, a chuva, a má intenção de alguma pessoa ou a preocupação com a limpeza nos locais, resultou na retirada dos cartazes. Já na segunda-feira, os cartazes de Pedro não estavam mais nesses locais.
O que a família espera é apoio para encontrar o rapaz, que nessa altura pode ter se tornado um andarilho e estar sofrendo toda a discriminação que uma pessoa nessas condições sofre no meio social.
Foto e informações sobre Pedro, e de centenas de outras pessoas desaparecidas, podem ser encontrados no site: http://www.desaparecidos.rs.gov.br
FONES PARA CONTATO:
(54) 3454-6259 - 9186-5130 - 9204-0410 ou 9648-3928
terça-feira, 16 de março de 2010
conto do além-mar
enquanto a velha esposa macumbeira rezava fervorosa, chamando todas as virgenzinhas & santos do corpo celeste no seu transe particular tão bem bolado, influenciado por toda a literatura de ladainhas de uma vida inteira, o velho, de corpo fechado, chegando quase aos cem, caminhava ereto & branco para o “chaleira preta” – uma zona vaporosa de uma rua paralela à flores da cunha, num cais de porto de um passado distante. crê-se que o sexo dele por lá grunhia nos embalos das batidas da umbanda, tamanha a força da bruxa, leitora do baralho cigano de madame lenormand da paris antiga. e ele, que pouco ouvia, pois seus ouvidos foram comidos por negros pelos quentes, deixava a carne impessoal tomar a sua, nojenta, afundando na lingerie, até que decidisse, depois de alguns goles de pinga forte, seguir para casa indiferente. a velha, já cansada de crenças & profecias & esperas, eis que um dia partiu. conta a lenda que nesse dia, na volta do “chaleira preta”, depois de ter levado a comadre e melhor amiga da cartomante para ter com ele no puteiro, o machão chorou. desde aquele dia, dizem as más línguas, que dona macumbeira virou mesmo dona puta e que o velho ereto botou a fazer via-sacra em cada meretrício da cidade, mas agora a procura da reza única da esposa maldita, fugitiva dos pesados cornos. acontece que a dor foi tanta para o pobre velho, que findou lhe trazendo o beijo da morte, talvez sua grande alegria, já que a boca do povo diz ainda vê-lo abrir as pernas da velha mulher nas noites quentes de verão, quando nenhum cliente toma coragem de com ela se deitar, graças às pragas que o marido joga das lonjuras do além-mar...
domingo, 14 de março de 2010
fotografias em preto & branco
quarta-feira, 10 de março de 2010
O NÃO-TEXTO
sexta-feira, 5 de março de 2010
Dois minutos eternos
Tânia Rösing esteve no Chile durante os tremores e fala sobre a experiência
Nem ela, nem o esposo se feriram. Mas, para Tânia, a Santiago que conheceu, de arquitetura vitoriana, de igrejas e prédios marcados pelos traços espanhóis, franceses e ingleses, não será mais a mesma. “Santiago estava vivendo um momento atraente. Peças de teatro com personagens da literatura, como Don Quixote de La Macha, e grandes shows folclóricos. Agora não sei o que será”, finaliza.
(Publicado no Diário da Manhã em 5 de março de 2010)
Tremores numéricos
Números. Como acontece em todas as situações de catástrofe e morte, a imprensa divulga números. Número de cidades atingidas, número de graus de magnitude, número de dinheiro investido, número de mortos. Número de vidas perdidas. É o que está sendo divulgado recentemente com os terremotos ocorridos no Chile, Peru e parte da Argentina.
A vida, essa presença misteriosa que habita todos nós. Nós, que somos muito mais do que números, que somos seres subjetivos, contraditórios, ricos em detalhes genéticos, habituais, filosóficos... nesta hora de abalo somos mesmo números. Portadores de RG, CPF e o escambau. Somos nome, sobrenome e idade. Somos um a mais ou um a menos.
E os números aumentam, as vidas perdidas, encaixadas rapidamente em gavetas numéricas. Mas é lógico que a imprensa precisa divulgar os números; é claro que a imprensa é subsidiada por dados. Mas a imprensa também pode olhar nos olhos fundos de quem perdeu família, casa e identidade, desolado no meio dos escombros, e desvendar o sentimento, e sem sensacionalismo.
É só regular o macro das pupilas, desfocar os fundos numéricos e direcionar para a imagem do desolado, daquele que já não sabe mais para onde ir, o que fazer, o que sentir. Deixar a mente gravar o essencial e a lente ler aquelas perguntas direcionadas ao Deus da Fúria, os porquês sem resposta, desencontrados por entre a tralha toda, de roupas em trapos, dos móveis em frangalhos, dos sonhos idos e das lembranças impregnadas.
Como pessoas que somos, como cidadãos do mundo, podemos reconhecer irmãos em qualquer nação, em qualquer idioma, em qualquer território ou fronteira, mesmo que de longe. Filhos do mesmo Deus, da Fúria e do Alento, temos o poder de nos despedir da matemática da dor e abrir espaço para o lado humano, o centro nervoso da vida, que se aproxima, que sente, que compadece e que transmite isso com verdade, acima de tudo.

